1.ª Conferência novo ciclo – Áreas e Sectores da Vida Nacional – Exploração e integração dos “Saberes de Experiência Feita”

O Núcleo Impulsionador das Conferências da Cooperativa Militar (NICCM), em colaboração com a Associação 25 de Abril, a SEDES, a Frente Cívica irá realizar nos próximos dias 18 e 19 de Setembro na Fundação Gulbenkian, uma 2ª Conferência, de um novo ciclo de conferências. Este Ciclo dará continuidade ao novo ciclo do Projeto de Investigação e Acção “ Portugal no 1º Quartel do Século XXI – Estratégias Rumo ao Futuro”.

Estará em análise a situação da sociedade portuguesa nos últimos meses, com relevância para os últimos acontecimentos relacionados com as Forças Armadas, o problema dos incêndios com a preservação das florestas e a gestão autárquica.

O NICCM pretende que o debate de ideias contribua para uma compreensão e análise sólida do passado recente. Ao mesmo tempo, lança o desafio no sentido de serem dadas respostas a algumas questões que serão abordadas nesta conferência e nos futuros encontros sectoriais.

Estarão presentes figuras bem conhecidas da esfera política, económica e social que contribuirão, com toda a certeza, para o alargamento do conhecimento da sociedade portuguesa nas diversas áreas em debate.

Foram convidados representantes de países estrangeiros para darem o seu contributo no que diz respeito ao serviço militar.Folheto_Int_Ext - CONF.18-19SET2017_Page_1Folheto_Int_Ext - CONF.18-19SET2017_Page_2.jpg

A descolonização é um absurdo

A descolonização é um absurdo

Este é um texto do romancista Carlos Vale Ferraz, porque foi através de um romance do Carlos Vale Ferraz, a “Última Viúva de África” que desenvolvi a ideia do absurdo da descolonização, ou da descolonização como um conceito absurdo. Um absurdo não no sentido de “desagradável ao ouvido”, o seu primeiro significado, mas no sentido de contrário à razão.

O romance desenvolve a reflexão do absurdo como atributo inerente do fenómeno que é habitualmente designado por “movimento descolonizador” de África feita por várias personagens. No início do romance, o narrador, um jovem português, estudante de filosofia na universidade de Lovaina, na Bélgica, fotógrafo por desejo de aventura, confrontado com as notícias e as reportagens dos tumultos que se seguiram à independência do Congo Belga, em 1960, considera como primeira impressão que os europeus andavam por África a extrair o que necessitavam para viverem melhor nas suas terras de origem, aonde regressariam após a campanha, como os pescadores de bacalhau que cumpriam temporadas na Terra Nova. Ou cumpriam penas de degredo longe das suas pátrias. O narrador apoiava as independências porque considerava um anacronismo a exploração direta de África pelos europeus:

Para mim, descolonizar constituía uma prova de inteligência. Não apoiava as independências das colónias por ser um direito dos povos colonizados. Não me converti ao anticolonialismo por ideologia, nem por moral, mas por pragmatismo. Quis conhecer os mercenários do Congo e Jean Scrame, em particular, para perceber porque lutava depois de administrar uma propriedade da qual já havia tirado o proveito que lhe permitia estabelecer-se noutro país, ou regressar à Bélgica.”

O narrador comete aqui a mais vulgar das confusões: refere-se, não à colonização, mas ao colonialismo. É de colonialismo que fala. O Congo Belga, como toda a África a sul do Sara, nunca foi colonizado, com excepção da Colónia do Cabo, onde os ingleses ensaiaram o que viria a ser o seu modelo de administração colonial (indirect rule). O Congo Belga (que começou por ser propriedade pessoal do rei dos belgas) foi sujeito ao fenómeno do colonialismo e o colonialismo foi um sistema de exercício violento de direitos de exploração de matérias-primas instituído e acordado na Conferência de Berlim, em 1885, entre potências europeias, para satisfazer as necessidades dos complexos industriais desenvolvidos com a energia da máquina a vapor. O colonialismo é um fruto da máquina a vapor e da revolução industrial.

Até à II Guerra Mundial foi indispensável as potências europeias assegurarem a exploração direta das matérias-primas, depois, passou a ser mais rentável delegar essa tarefa em agentes locais, as elites indígenas entretanto assimiladas e integradas na cultura e nos processos europeus.

Mas houve, entre os europeus que foram para África executar tarefas de exploração directa, um grupo que, por razões diversas, assumiu aquelas terras como o seu destino final — que afirmaram ser a África, fosse o Congo, Angola, a Rodésia, Moçambique ou o Quénia, a sua pátria! Em Portugal utiliza-se o termo de “cafrealização” para designar esse processo, na Bélgica ele foi designado por “zairização”. O comandante de mercenários designado no romance como Jean Scrame e a portuguesa Alice Vieira, a última viúva de áfrica, pertencem a esse grupo. O narrador descobrirá, contudo, que nem eles — mesmo assumindo a sua nova identidade de africanos brancos — se opõem ao processo de independência das colónias, a um governo de negros, porque percebem que o sistema de administração e exploração delas se mantem, apenas mudaram os executores diretos, que passaram a ser títeres locais nomeados pelos brancos, europeus e americanos. O colonialismo manteve-se enquanto sistema de exploração de riquezas. O “Movimento Descolonizador” foi apenas uma mudança de tripulação num navio que continuou a realizar as mesmas viagens, transportando os mesmos produtos entre os mesmos portos.

Não existiu qualquer movimento descolonizador, que foi e é apenas uma designação utilizada para referir o movimento de transição da administração das colónias dos funcionários das potências europeias para uma elite de funcionários e políticos negros aculturados — ditos “assimilados” ou evolués, que, no essencial, replicam os métodos dos europeus e servem os seus interesses. Em termos políticos não existe qualquer descolonização. Não existe também qualquer libertação.

Mas não existe também descolonização em termos civilizacionais. Colonizar é a instalação de um grupo de uma dada sociedade no território de outra e implica troca de experiências, saberes, valores, relações comerciais e humanas, de forma mais ou menos pacífica ou mais ou menos violenta. Colonizar é sempre uma exportação de bens civilizacionais, da língua à religião. Entre o colonizador e o colonizado estabelece-se uma relação como a de uma gota de tinta que cai num copo de água. A gota de água dissolve-se e não é possível reconstituí-la, retirá-la da água onde se dissolveu. É por isso impossível reverter a colonização, retirar dos povos colonizados o essencial do que os colonizadores levaram e lhes inculcaram.

Nós, os portugueses devíamos conhecer bem a impossibilidade de descolonizar. Fomos colonizados pelos romanos e pelos árabes, mantemos fortes marcas dessa colonização — não fomos descolonizados até hoje. Colonizámos alguns pontos do mundo, e deixámos lá as nossas marcas, como os romanos e os árabes nos tinham deixado. O Brasil, Angola, Moçambique, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé, não foram descolonizados, tornaram-se entidades políticas independentes, estados-nação com bandeira, hino, gravatas de seda ao pescoço dos hierarcas, número de ordem nas Nações Unidas e embaixadores que falam inglês. Tanto o discurso comum da “malvada descolonização”, como da “descolonização possível” são absurdos. O discurso da “entrega” é patológico, com origem na exacerbação de sentimentos que bloqueiam o raciocínio.

As antigas colónias europeias de África não se descolonizaram, não reverteram as instituições de governo introduzidas pelas potências coloniais, retomando as suas tradições do tempo antes da chegada dos colonizadores europeus. Pelo contrário, os dirigentes dos movimentos independentistas, do movimento descolonizador do pós II Guerra, foram particularmente violentos na aniquilação das autoridades tradicionais e dos costumes ancestrais — quase sempre com o aplauso dos antigos colonizadores e das suas instituições, com relevo para a ONU e as suas agências, que os elogiaram pela luta anti-tribalista, tomada como uma acção de modernidade.

O movimento descolonizador dos pós-II guerra é um gigantesco embuste. A descolonização de África foi, de facto, a adopção pelos africanos da “ordem” do colonialismo — constituição de estados-nação com os mesmos princípios dos estados-nação que instituíram o colonialismo, imposição dos seus sistemas políticos e jurídicos, das suas línguas, até dos seus deuses e, principalmente, das suas armas, do canhangulo à AK, do jipe ao Mirage. Não existiu qualquer libertação de África, a África política e a África dos povos está sujeita às mesmas regras e normas dos países que enviaram os seus exploradores ao continente africano no século XIX e que o dividiram em Berlim.

O facto de não ter existido nem descolonização, nem libertação de África não é nem bom nem mau — não existiu Mal, nem Bem, nem desastrosa descolonização, nem criminosa entrega, nem falsa libertação, houve sim uma realidade: a imposição por parte das antigas e novas potências coloniais de uma nova grelha de domínio de África, de uma grelha que facilita a relação e a exploração, pois quer uma quer outra se realizam segundo a regra dominante. O resto, o que subsiste da antiga África antes do colonialismo, das danças às mezinhas dos feiticeiros é folclore que serve de atração turística.

Resta uma pergunta que Alice, A Última Viúva de África e Scrame, o último dos grandes comandantes de mercenários, colocam: Porque não podem e não puderam eles e os europeus manter-se em África como africanos brancos? Porque não pode ser a África uma pátria de brancos, como foram e são as Américas?

O romance ensaia uma resposta. A ficção é mais adequada a abordar questões difíceis que a análise política e histórica…

Carlos Vale Ferraz in Medium

DE NOVO A EXPANSÃO DO METRO EM LISBOA

DE NOVO A EXPANSÃO DO METRO EM LISBOA

Ingenuamente ainda pensei que uma melhor avaliação técnica da anunciada expansão da rede do Metropolitano de Lisboa (ML) para Santos e o Cais do Sodré a partir do Rato e a ligação das duas linhas (Amarela e Verde) no Campo Grande, de modo a criar uma linha circular, pudesse ser revertida face aos inúmeros problemas de operação que lhe estão associados, à inversão de prioridades que tal opção representa para o bom desempenho da rede do ML na cidade e à ausência de novos estudos globais que justificassem o abandono das prioridades definidas aquando da realização da chamada “desconexão” da Rotunda – que criou as actuais linhas Amarela e Azul – nos idos anos 90’ do século passado. Pura ilusão! Continuamos a nossa triste sina de “decidir primeiro e estudar depois”, certos que haverá sempre um “técnico mercenário” para justificar o injustificável.

A decisão que a CM de Lisboa patrocinou, tem vários inconvenientes à luz dos bons princípios do planeamento dos transportes e do papel estruturante que o ML deve desempenhar, tanto para o sistema de transportes e a gestão da mobilidade em Lisboa e na sua área metropolitana, como no apoio a um desenvolvimento urbano mais equilibrado e solidário.

As objecções que esta opção levanta são de três tipos: serviço de transportes que a rede de ML deve assegurar, numa perspectiva de contribuir para uma mobilidade menos dependente do automóvel; homogeneização (tanto quanto possível) da acessibilidade em TCSP[1] na cidade; questões operacionais, tanto as resultantes da exploração de uma linha circular, como as que advêm de se “fecharem” no Campo Grande as possibilidades de expansão da rede nesta zona da cidade, além das que ficarão irremediavelmente associadas à existência de um “ramal” para Odivelas. Vejamos cada um deste tipo de objecções.

O mais recente estudo de que se dispõe quanto à expansão da rede do ML foi publicado pela CML em 2005, sob o título “Lisboa: o desafio da mobilidade”. De então para cá foram surgindo ideias e esboços de expansão da rede, mas nenhum deles fundamentado em estudos de procura, articulação com o desenvolvimento urbano da cidade e da sua região envolvente ou em estudos de exploração da rede. Nesse estudo, apontava-se como uma das principais disfuncionalidades da rede de TC de Lisboa o facto do “programa de expansão do ML (ter privilegiado) o serviço a zonas ainda não consolidadas ou aos bairros periféricos dos concelhos limítrofes, deixando por atender as necessidades de mobilidade de alguns dos principais bairros da cidade” (pg. 269), dando-se como exemplos Benfica, Campo de Ourique/Estrela e Olivais. Referia-se ainda que a rede do ML apresentava “poucas ligações transversais, penalizando fortemente os movimentos transversais”, que estavam, já na altura, a assumir uma importância crescente e, face à não resposta do sistema de TC, a serem cada vez mais assegurados com o recurso ao automóvel. Concluía-se ainda que “a extensão da Linha Vermelha a São Sebastião vem melhorar substancialmente as conexões entre as diferentes linhas, ao permitir a transferência entre todas as linhas num ponto mais central da cidade”.

Tendo em conta o diagnóstico realizado (e abundantemente fundamentado em dados objectivos), os valores da procura disponíveis à época (matriz origem/destino) e a procura previsível, nomeadamente a decorrente da concretização do PDM de Lisboa, foram então definidas as seguintes prioridades (pg. 174):

  • O prolongamento da Linha Azul entre Baixa/Chiado e Santa Apolónia (entretanto concretizado).
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre a Alameda e São Sebastião (também já realizado).
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre São Sebastião e Campo de Ourique.
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre Oriente e o Lumiar (concretizado apenas até ao aeroporto).
  • O prolongamento da Linha Amarela do Rato até Alcântara.
  • O prolongamento da Linha Verde de Telheiras até à Pontinha.

Como se referiu anteriormente, não é do conhecimento público qualquer outro estudo, digno desse nome, quanto à expansão da rede do ML. Cabe por isso perguntar o que se alterou de então para cá, em termos de ocupação urbana da cidade e das tendências do seu  crescimento ou ao nível do seu sistema de transportes, que justifique esta súbita e inexplicável alteração de prioridades, quando muitos dos prolongamentos propostos ainda estão por concretizar. Se analisarmos a actual densidade de população e de empregos que as áreas não servidas pela rede do ML (e que constavam das prioridades da extensão das suas linhas) só podemos concluir que, se em 2005 se justificavam plenamente as prioridades apontadas, então elas ainda mais se justificam  hoje. Que nova procura, ou que outros interesses, serve então a extensão agora proposta?

Mas ao nível do serviço de transportes que a rede do ML deve assegurar, as objecções têm ainda a ver com o facto da extensão a Santos (zona já servida pelo comboio da linha de Cascais e pela rede de eléctricos modernos da CARRIS) não só protelar a necessária e urgente intermodalidade com o automóvel – nomeadamente nas Amoreiras, Pontinha e Alcântara, onde existe, ou é possível criar, uma boa oferta de estacionamento – como introduzir uma penalização acrescida para os actuais utentes da Linha Amarela, ao transformá-la num ramal a partir do Campo Grande/Telheiras, obrigando assim os seus utilizadores a mais um transbordo nas deslocações entre o corredor de Odivelas e as áreas centrais da cidade. Ora isso é fatal para a atractividade do TC e ainda mais para os que, actualmente, enchem os parques de estacionamento junto às estações do Senhor Roubado e Odivelas, deixando aí o seu automóvel e prosseguindo viagem no ML.

Como se tudo isto não bastasse – e já não é pouco! – a fusão das linhas Azul e Verde no Campo Grande (CG) vai impedir qualquer extensão destas linhas ou a sua articulação eficiente com a linha Vermelha. De facto, ao contrário do que hoje acontece, o corredor de Telheiras e a sua possível e desejável extensão até à Pontinha (com correspondência na estação da Luz com a linha Azul) deixa de ter ligação directa ao centro da cidade, obrigando a mais um transbordo nestas deslocações, ficando antes ligado a … Odivelas! Imagina-se a enorme quantidade de pessoas a quem esta “nova” ligação vai interessar. Por sua vez, a ligação do CG ao aeroporto –  obra de reduzido custo e complexidade – fica definitivamente hipotecada, impedindo um melhor serviço ao aeroporto a partir de três linhas do ML e evitando o “passeio” de mais de 20 minutos pelos Olivais e as Olaias para quem entra ou saia do aeroporto e provenha ou se dirija para as áreas centrais da cidade.

Vejamos agora o que se passa relativamente a uma cobertura mais equilibrada da cidade pela rede do ML. Com os prolongamentos definidos como prioritários em 2005, toda a cidade mais densa e onde se concentram a esmagadora maior dos seus empregos, comércio e serviços, ficava com uma cobertura bastante mais homogénea, podendo mesmo dizer-se que nenhum dos bairros mais populosos de Lisboa ficava sem serviço de metropolitano. Mesmo a zona da Estrela seria servida pelo prolongamento do Rato a Alcântara, além de poder ter nessa estação uma ligação ao prolongamento da linha Vermelha a partir de Campolide e Amoreiras. Com a extensão proposta, apenas a zona da Estrela será servida, já que a localização da futura estação de Santos em nada acrescenta à acessibilidade hoje proporcionada pela rede de eléctricos. Isto é, com esta proposta de extensão e linha circular, não só se penalizam os actuais utentes da rede do ML – pois introduz-se um transbordo adicional no CG e impede-se a ligação deste ao aeroporto – como não se acrescenta nada à actual cobertura da rede, deixando por servir os bairros mais densos e grandes pólos de emprego que hoje estão à margem da rede do ML, como sejam Campolide, Amoreiras, Campo de Ourique e Telheiras.

O mais estranho em todo este processo é que as extensões das linhas a partir de São Sebastião (onde o túnel já está junto ao Palácio da Justiça) e de Telheiras (que passaria por terrenos ainda não ou pouco edificados) não oferecem os mesmos custos e problemas construtivos que a ligação Santos/Cais do Sodré implica (em terreno de aterro e com níveis freáticos muito elevados), não têm os enormes impactes durante o processo de construção (imaginem o que será a Av. 24 de Julho durante as obras!) e exigiriam muito menor investimento para servir uma população incomensuravelmente maior.

Por ultimo analisemos a questão da operação da nova linha circular. Comecemos por constatar que este tipo de linhas já não se constroem actualmente e que as existentes não só são poucas e muito antigas (dos tempos da construção dos primeiros metros) como nenhuma tem uma distância entre os seus tramos tão reduzida como a proposta para Lisboa. Porque será? Primeiro porque uma linha circular tem problemas complicados de exploração, a começar pelo facto de ser difícil encontrar ou realizar no seu percurso espaço para o parqueamento das composições nas horas mortas de serviço, ou para a injecção de novas composições para o reforço do serviço nas horas de ponta, o que obriga a percorrer km adicionais para efectuar esta operação, com os correspondentes custos operacionais. Por outro lado, sempre que se verifique um acidente ou perturbação no serviço, é toda a linha que fica parada, já que não é possível assegurar serviços parciais sem se introduzirem sistemas de mudança de via entre estações, em vez de nos seus términus, o que é mais caro e mais difícil de construir. Quando uma linha circular é construída de novo, ainda é possível prever o necessário espaço para esse tipo de manobras, mas o que fazer quando a linha circular resulta da junção de linhas existentes? Alguém perguntou aos técnicos de exploração do ML como será possível fazer isso no caso presente e quanto custará realizar as necessárias adaptações? Parece que ninguém se lembrou deste pormenor …

As únicas linhas circulares existentes foram desenhadas para resolver um problema que as grandes áreas centrais de grandes metrópoles apresentavam: era necessário assegurar uma boa acessibilidade a esse espaço central (onde se concentrava a maior procura) sem ter de levar até ele todas as linhas radiais que aí teriam de convergir se quiséssemos ligar o centro e a periferia da área metropolitana. Deste modo, a linha circular funcionaria como o anel onde as linhas radiais se poderiam conectar, sem no entanto terem aí de terminar. A linha circular funcionaria assim de linha distribuidora ao longo da área central, evitando os inconvenientes (de espaço e construtivos) que esse serviço implicaria se fosse assegurado por cada uma das linhas radiais, ainda que, neste caso, isso implicasse a introdução de mais um transbordo. Daí a maior distância entre os seus tramos, o que não só atenuaria o efeito penalizador do transbordo como ainda permitiria que o espaço central pudesse ser atravessado por outras linhas de maior procura, em relação às quais o transbordo seria sempre difícil de acomodar. Ora nada disto se passa na cidade de Lisboa, onde as suas centralidades são do tipo linear ou se desenvolvem em espaços mais contidos e já hoje servidos pelas actuais linhas do ML. O que falta ao sistema não é por isso uma linha circular mas sim aumentar as interconexões entre as linhas existentes e aumentar a cobertura espacial da rede, algo que não é assegurado pela linha proposta.

Por fim refira-se a situação de lançar no Cais do Sodré mais passageiros naquilo que é actualmente a maior interface de todo o sistema de transportes da Área Metropolitana de Lisboa e onde a falta de espaço para os acomodar em boas condições de conforto e segurança já se faz sentir. Em vez de distribuir os passageiros da linha de Cascais por duas linhas do ML que servem o Eixo Central da cidade (a partir do Cais do Sodré e da proposta de prolongamento para Alcântara) está-se a concentrar ainda mais passageiros no Cais Sodré, pois aos actuais terão ainda de se somar os que por aí terão de passar devido à linha circular. Tentar entrar ou sair do ML no Cais do Sodré será digno de se ver …

Neste cenário ficam por isso algumas questões por responder. Se esta não é uma opção que serve melhor a cidade, não responde à procura actual e previsível, não permite um melhor serviço de transporte nem segue as prioridades há muito estudadas e definidas, tem problemas e maiores custos de construção e exploração, o que a justifica? Ou será que,  tal como num passado que todos desejaríamos ter ultrapassado, o ML vai funcionar, uma vez mais, através de um modelo de expansão pouco fundamentado? É que a dita linha circular o que faz é ligar directamente a zona do aterro da Boavista à centralidade das Avenidas Novas e alargá-la ao eixo da Av. Almirante Reis. Seria interessante avaliar o benefício concreto para a cidade que resulta  desta opção.

 

 

Fernando Nunes da Silva, Maio de 2017.

[1] TCSP – Transporte Colectivo em Sítio Próprio, isto é, TC que dispõe de uma infraestrutura dedicada, segregada do restante tráfego e por isso não sujeita aos problemas de congestionamento, assegurando assim um transporte de massas.

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O título do texto é deliberadamente confuso, para corresponder ao assunto: Um senhor de nome Pedro Schacht Pereira (PSP), apresentado como “Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa, nos EUA”, perplexo, segundo ele, com as declarações do Presidente da República numa visita a Gorée, o antigo entreposto de escravos no Senegal, escreveu um postindignado no FB. As reações levaram-no a publicar uma carta aberta “Regresso a Gorée — Não em nosso nome”, que o DN publicou a 19 de Abril de 2017, com entrevista ao autor por Fernanda Câncio.

Comentando que “a história que se dá na escola sobre o esclavagismo português ainda é a mesma que se dava no Estado Novo; fiz o liceu depois do 25 de Abril e não me lembro de se ter sequer falado do assunto, para além da declaração de que ‘Portugal aboliu a escravatura em 1761’”, Schacht ficou ainda assim “boquiaberto” com as afirmações do PR: “Pus-me a pensar na quantidade de trabalho que temos pela frente.” E, ofendido, como se percebe no longo post que escreveu no FB, no qual comenta: “Não é desmentir o Presidente, por lamentável que seja essa necessidade, aquilo que está ou deveria estar em causa. O que está em causa é que a obstinação em não reconhecer a responsabilidade nacional na história nacional implica uma admissão involuntária de culpa não resolvida, como uma desonra familiar que se esconde dos hóspedes. E, concomitantemente, a infantilização dos cidadãos, como se elas/eles não tivessem capacidade de receber em herança a sua história, e de, como dizia Sophia, “livres habitarmos a substância do tempo”. Palavras de PSP.

As respostas ao post, com várias pessoas a pedir que o tornasse público para ser partilhado, levaram-no a formular a hipótese de escrever uma carta e a decisão de avançar com a dita.

O que me levou (Carlos Matos Gomes) a escrever este texto foi a interrogação: Como é que um cidadão tão impreparado para abordar o processo histórico e, por isso, os fenómenos históricos, incluindo neste particular a escravatura (ele abordará também e do mesmo modo confuso e empírico o colonialismo e a colonização) consegue o feito notável de ser entrevistado duas vezes por uma jornalista vedeta do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, uma a 19 de Abril sobre escravatura e pedido de perdão de Portugal e outra a 27 de Agosto centrada no racismo. (Sobre o tema do racismo Fernanda Câncio entrevistaria as autoras de um trabalho sobre o racismo na escola no DN de 13 de Junho com o título: É preciso descolonizar Portugal.) Consegue ainda Pedro Schacht Pereira portas abertas para publicar um artigo no Público em 25 de Agosto, sobre a questão da “Lusofonia”, levantada numa entrevista do ministro da Cultura a João Céu e Silva, do DN. Neste último artigo escreve PSP naquilo que é, para mim (CMG), um patuá vazio de sentido, a fazer de conta que se trata de uma sofisticada linguagem científica: “no decurso da entrevista (o ministro) produz afirmações que, se evidenciam uma frontalidade inusual no discurso oficial sobre a vexata quaestio do legado do colonialismo português, também rapidamente se enredam numa ambivalência desconcertante, e que a economia discursiva imposta pelo formato de uma entrevista jornalística destinada a um público amplo e heterogéneo não permite infelizmente dissolver. Assim sendo, e dada a surpreendente carência de perguntas complementares que permitissem ao entrevistado elaborar raciocínios meramente sugeridos, a ambivalência das declarações de Castro Mendes acaba por não se distinguir da ambivalência que caracteriza os discursos excepcionalistas inspiradores de muitas formulações da Lusofonia, e que ele pretende rejeitar.”

Os links para as entrevistas e o artigo de PSP seguem no final. O que me interessou nesta intervenção pública de Pedro Schacht Pereira foi então, repito, a facilidade com que um autor de vulgaridades históricas, que não chegam sequer à categoria de vulgata editio ou vulgata versio da Bíblia, pois esta foi a tradução de São Jerónimo para ser simultaneamente mais exata e mais fácil de compreender, enquanto os textos de Schacth Pereira são adulterações que promovem a confusão sobre os temas e os factos da História a que estão associados. Isto com aplauso boquiberto de alguma comunicação social lisboeta.

Pedro Schacht Pereira escreve e fala transmitindo a visão e a moral do homem comum, o que não é nada de indigno, mas para ler aquilo que em linguagem erudita se designa por “sentido universal” e em linguagem popular “filosofia de táxi” ou “de barbeiro” não se percebe tanta publicidade. Ele salta sobre o tempo, o que é a negação do mais elementar do trabalho do historiador, ou reduz o tempo a uma folha, o que pode resultar em boa massa folhada, mas não em boa História. Mas PSP também introduz no seu discurso, como faz o homem comum, o conceito da moral na história e, para agravar a subjectividade e a vulgaridade do seu pensamento, decide o que é Bem e o Mal na história à luz dos conceitos do seu tempo (o presente), da sua cultura de adopção (a americana), das suas normas (ainda em processo de fermentação e falhas de sentido crítico). É o historiador do tipo Deus ex machina, com a energia da inconsciência da sua ignorânciao que tem o valor que cada um lhe quiser atribuir.

É elementar: não existe um Bem em si, mas a interpretação do Bem (cit Nietzsche, A genealogia do mal). Mais: Ninguém define e tem responsabilidade sobre o processo histórico (a não ser os pastores evangélicos, os nacionalistas, incluindo a versão jiadista e os políticos em campanha eleitoral). Pedro Schacht Pereira entende que sim, em vez de historiador arma-se em juiz e exige que os portugueses se declarem culpados de fenómenos que ele nunca consegue delimitar e que confunde, como sejam colonização e colonialismo, escravatura e tráfico negreiro, racismo, diferenças, choques culturais e destinos sociais. A análise dos processos históricos em Pedro Schacht Pereira é um tudo ao molho e fé na ignorância dos interlocutores.

Quando, como faz o tão publicitado autor deste Verão em Portugal, anulamos o tempo na análise de processos históricos, caímos de cabeça no reino do empirismo e da demagogia. O comportamento e o pensamento dos anglosaxões e, em particular, dos seus emigrantes na América, assenta em boa parte no conceito da culpa, da sua denúncia e do pedido de perdão, típicos da ética protestante e da Reforma. A denúncia, tal como a confissão dos católicos romanos, não explica causas, exacerba sentimentos, sejam de piedade, sejam de ódio. É esta conhecida e velha grelha de análise da História (do passado) à luz da moral protestante atual que Pedro Schacht Pereira trouxe aos portugueses leitores do DN e do Público e que, pelos vistos extasiou parte da comunicação social portuguesa.

Já agora, ao contrário do que parece fazer crer o discurso de PSP, nos Estados Unidos não existe consenso sobre as relações de domínio dos vários grupos de invasores da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) poderem ser designadas como colonialismo. Não lhes interessa à construção da sua história! Ele não reparou, porque como cristão novo (adquiriu a nacionalidade americana recentemente) interiorizou acriticamente a verdade oficial dos grupos dominantes no pensamento dos EUA, que a ocupação violenta da costa Leste por colonos ingleses e holandeses, a ocupação violenta do centro da América e do Oeste, com o aniquilamento (genocídio) dos povos indígenas nunca é incluída na categoria de colonialismo, nem nunca é designada por colonialismo? Mas porque se designa por colonialismo a relação dos portugueses com os seus escravos trazidos de África no Brasil? Nos Estados Unidos nunca existiu colonialismo, já no Brasil sim, existiu. Porquê? Para PSP, tal como para o pensamento dominante nos EUA, racismo é a relação conflituosa que existe entre a comunidade de origem africana (o que designa pela fórmula destituída de razoabilidade de afroamericanos) e a comunidade wasp (brancos, anglosaxões e protestantes), nada mais, as relações com as comunidades hispânicas, latinas, asiáticas, nativas, eslavas são apagadas da discussão sobre o racismo. Pura manipulação ideológica por parte dos historiadores e evangelistas americanos de origem inglesa e holandesa. Manipulação que Pedro Schacht Pereira, professor associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na The Ohio State University, difunde através das suas entrevistas e artigos sem contraditório.

Como escreveu Mário de Carvalho, convinha falar destas coisas… (com seriedade)

Nota: não conheço nem Pedro Schacht Pereira, nem Fernanda Câncio. Não tenho qualquer animosidade contra qualquer deles. Respeito o seu trabalho. Entendo que estes temas são importantes para os portugueses estabelecerem consensos sobre o seu passado, ou, pelo menos, para disporem de elementos de reflexão.

Critico e sujeito-me à crítica. Nada mais

Carlos Matos Gomes, 4 de Setembro de 2017 em Medium

Links:

http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

https://www.publico.pt/2017/08/25/mundo/noticia/a-lusofonia-a-ambivalencia-e-as-grelhas-do-ministro-1782621

http://www.dn.pt/portugal/interior/marcelo-lancou-finalmente-o-debate-publico-sobre-a-escravatura-6228783.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/tudo-o-que-remeta-para-a-questao-da-raca-e-tabu-em-portugal-8688869.html

[1] Patuá, com o sentido de conversa fiada, fala-barato

As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium

Azeitonas e tâmaras

Azeitonas e tâmaras

Nem toda a gente tem a perceção da influência do árabe na língua portuguesa. Se a base desta é o latim (dizem que o português a língua mais próxima do original latino), se o grego deu origem aos vocábulos mais eruditos, o árabe deixou-nos não só um conjunto de palavras, algumas facilmente reconhecíveis, mas também um outro legado: as vogais fechadas, tão típicas do português da Europa.

A título de exemplo, usamos a palavra azeitona, do árabe az-zaituna, e não olivo, como os espanhóis ou olive, os franceses, e por extensão os ingleses. Tal como tâmara, do árabe tamar, em contraste com o espanhol dátil, o francês datte, ou o inglês date.

Usei estas duas palavras por serem do universo mediterrânico; tudo levaria a esperar uma semelhança de termos dos povos da mesma área; mas, neste confronto latim-árabe, quem levou a melhor foram os mais recentes ocupantes do nosso território.

Não vamos referir outros legados, como a nora, a micro hidráulica e os legumes, ou, no caso da Madeira, o bolo do caco e o couscous.

Na vizinha Espanha, a queda do reino de Granada, em 1492, levou à expulsão das elites mouras para o Norte de África, mas o grosso da população permaneceu na Península. Não foi uma convivência pacífica: no século que se seguiu à conquista deste reino, houve vários levantamentos e novas expulsões, e muito trabalho para a Santa Inquisição. Mas foi possível registar, pelas piores razões, o percurso dos então chamados “mouriscos”.

E em Portugal? Com a conquista definitiva do Algarve em1249, sabemos que, como era a tradição, as elites partiram e as populações ficaram. Para estas últimas, a grande mudança era o regime fiscal: se a terra pertencesse a um senhor cristão, oneravam-se os muçulmanos; se pertencesse a um senhor mouro, havia uma sobretaxa para os cristãos. Quanto aos judeus, pagavam de qualquer maneira…

Certo é que a comunidade muçulmana foi sendo absorvida, sem ser necessário recorrer a leis contra do chador. Referindo-se a um período mais tardio, Alexandre Herculano, salvo erro em “O Monge de Cister”, refere um Ale, ou Ali, que deambulava por Lisboa misturado com fidalgos, frades de mercadores, aparentemente sem problemas de maior.

Na busca de mais elementos sobre esta singular integração, encontrei um livro de um autor marroquino sobre a perseguição dos mouros em Portugal. Ora aqui está, pensei eu. Mas o livro tratava apenas dos mouros oriundos das praças do Norte de África, convertidos por crença ou por cálculo, e que se vieram a estabelecer em Lisboa ou noutras terras. Cedo descobriram que, para os cristãos velhos, eram suspeitos, e que a prometida cidadania plena era um logro. Quando quiseram regressar ao seio dos muçulmanos, foram tratados (e com razão) como apóstatas.

Mas com uma agravante: tendo sido cristãos, caíram nas garras da Inquisição, e essa foi a origem das perseguições referidas nesse livro. Quanto aos fiéis muçulmanos, seguiram a sua vidinha, e a Inquisição nem sequer tinha jurisdição sobre eles…

Dos recentes atentados na Catalunha descobriu-se que os terroristas eram todos de origem marroquina, e deveriam estar integrados na sociedade ibérica. Será que o fenómeno dos mouriscos é resiliente? Só que os atuais terroristas vieram de livre vontade, e alguns até na sequência de um pedido de asilo…

Marrocos é o segundo país mais próximo de Portugal, com quem sempre tivemos boas relações (depois do abandono de Mazagão, claro) e há todo o interesse em que tudo assim continue. Tâmaras e azeitonas unem-nos. Mas é também, pelas suas atuais condições políticas e sociais, um alfobre de fundamentalistas.

Deste lado do Mediterrâneo, a Mouraria de Lisboa parece ter retomado a sua vocação dos tempos medievais: o eixo Anjos-Martim Moniz tem ares de ser um bairro de maioria muçulmana. Sem restrições ou imposições, mas por natural agregação, como os bairros chineses, italianos ou portugueses das cidades de imigração.

Ou, seja, nada de novo, em termos históricos.

A maior parte dos jovens portugueses desconhece a forte componente de militares muçulmanos, na maioria guineenses ou moçambicanos, que integraram as Forças Armadas Portuguesas. Muitos por aqui ficaram, e aí estão, perfeitamente integrados.

A irrupção de minorias radicais também não é novidade (lembre-se o recente caso de Charlottesville), mas não impede a viabilidade do conjunto da sociedade, como sucede na maioria dos casos. Cabe aos cidadãos de todos as etnias e religiões zelar pela sã convivência, isolar e neutralizar os extremistas, e cooperar com as autoridades nos casos extremos. Como sucedeu na Catalunha, em que a colaboração dos habitantes foi essencial para a detenção dos culpados.

Igrejas e mesquitas são locais de oração. Cumpre-nos evitar que sejam coios de neo-nazis ou ninhos de talibãs. E a única forma de evitar essas derivas está na integração plena, e no respeito pela diferença.

Será possível? Oxalá, que é a forma portuguesa de dizer Inch´Allah (Queira Deus).

E despeço-me com um salamaleque, que é a nossa versão de Salaam Aleikum (a Paz seja contigo).

Nuno Santa Clara

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!

A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.

Mas, além destes factores da ordem da estratégia, os generais americanos sabem que Afeganistão é historicamente um território dividido por senhoritos da guerra, venais, que servem quem pagar melhor e se aliam a quem lhe parece ter mais possibilidades de vitória. Senhoritos sem fidelidades, nem piedades. É um território de mercenários e, por isso, um excelente viveiro de ratazanas de desestabilização regional. As três grandes potências imperiais têm de estar ali para desestabilizar os seus rivais. Nenhuma delas pode estar fora do Afeganistão.

O idiota do Trump não sabe história, nem geografia, nem viu filmes de cobóis e comprou a ideia do neo-isolacionismo para fazer a América grande! Os generais e a máquina de guerra já lhe colocaram a coleira, a trela e o açaimo através do golpe palaciano que teve a sua cerimónia pública com o discurso de 21 de agosto. A estratégia dos golpistas do pentágono é clara e é a de Hilary Clinton. A vencida, vencedora deste golpe.

Em resumo, diga Trump o que disser, os Estados Unidos terão sempre uma presença militar entre o Médio Oriente e as fronteiras sul da Rússia e ocidental da China. Estarão no Afeganistão, não para matar terroristas, mas para contratar e manipular terroristas. Também se manterão na Síria, embora em menor escala que no Afeganistão, porque aí Israel se encarrega do trabalho de desestabilização em outsourcing. O Iraque é para cortar às fatias e os militares americanos disporão sempre de um dos cutelos. Resta o Irão e a Turquia. Os generais americanos evitarão a guerra com o Irão — demasiado cara e de resultados duvidosos — e tentarão manter o turco sob controlo, na NATO, ou pelo menos sem o deixar passar para a órbita dos russos.

Parece, por outro lado, evidente que os russos vão atirar sal para todas as fogueiras que os americanos atearam e que o Trump passará a ser apenas o boneco do ventríloquo, de umas vezes do Departamento de Estado, quase sempre do Pentágono. Será um refém com tempo de antena e saídas precárias para golfe. Até já o acusam de ele e a numerosa parentela gastarem demais em segurança privada. Os chineses têm sempre à mão o fogareiro da Coreia do Norte, para condicionarem todas as opções americanas para a Coreia do Sul e o Japão. Os navios da esquadra do Pacífico entretanto chocam com navios mercantes.

Por cá, os comentadores avençados — as caixas de ressonância do alt right e do Tea Party — por limitações senis, continuam a acreditar que o Trump dirige a política dos Estados Unidos. O governo, dirigido por pessoas circunspectas e sensatas, está ciente da irrelevância do país na Europa e da Europa no mundo. Sem fanfarronadas, perfilou-se como um ordenança dos generais que tomaram o poder em Washington e vai disponibilizar uma mão cheia de briosos militares para integrar uma coligação que dê direito a visita de ministro e presidente da República em datas festivas.

Com o golpe de 21 de Agosto o mundo retomou a normalidade.

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017