A instrução militar e o Exército

A instrução militar e o Exército
Jorge Ferreira

A instrução militar é a principal actividade dos exércitos em tempo de paz, a ela lhe devotam a sua inteligência, o seus recursos e as suas prioridades. Sem uma boa instrução, sem um bom treino, individual e colectivo, um exército nunca passará de um bando armado e dificilmente conseguirá estar preparado para cumprir as exigentes missões que lhe são confiadas em tempo de guerra ou na actual situação de paz doce e de conflitos generalizados.

Os exércitos dedicam por isso, à instrução, o melhor dos seus esforços e inteligência. No seu planeamento, na definição dos objectivos a atingir, na progressividade das exigências, no pragmatismo com que é conduzida e orientada, na obtenção de resultados concretos e mensuráveis. Nenhuma força militar está definitivamente pronta, existe apenas uma perspectiva de garantia de níveis de proficiência que carecem, para serem mantidos, de treino permanente, persistente e exigente.

A instrução do Exército ou de outras forças militares não é, nunca foi, um amontoado de brutalidades como alguns jornais parecem querer inferir de cada vez que têm essa oportunidade ou alguém lhes pede o serviço. Um militar incapacitado, aleijado ou morto não serve a sua pátria.

Toda a instrução militar deve ser exigente, dura, difícil, desafiante, orientada para os resultados, objectivada, planeada, medida, tendo sempre em vista a entrega pessoal a uma causa maior, o sentido de solidariedade e de esforço, a disponibilidade para o sacrifício, o sentido de devoção à missão e ao seu cumprimento a todo o custo o que conhece uma expressão ainda mais elevada no que respeita à instrução de tropas especiais.

De entre os factores chave de uma boa instrução sobressai, como sempre, o factor humano. Só uma adequada e atenta selecção e formação técnica e humana dos instrutores e o acompanhamento atento das actividades por parte dos comandos responsáveis permitem obter os melhores resultados.

A segurança é outro dos factores a que os exércitos dedicam a maior das atenções. Desde logo pela importância que conferem à vida. Que não se caia na estultícia de pretender dar lições aos militares sobre a importância e o valor da vida humana porque é isso que está na raiz e no coração das suas intervenções no mundo moderno. A única diferença reside na disponibilidade, voluntariamente assumida pelos militares, para prescindir do seu bem-estar e da sua vida em prol de um bem mais elevado, em ambientes de especial dificuldade e risco acrescido, o que não conhece paralelo em nenhum dos restantes servidores públicos e devia sugerir um respeito ainda maior pela sua dádiva, quer durante a instrução quer em operações.

A segurança na instrução permite a cada instante controlar, avaliar, medir os níveis de esforço e de risco de cada actividade e antecipá-los, corrigi-los, reduzi-los ou na eventualidade de uma situação inesperada dispor dos meios de controlo e socorro indispensáveis para minorar ou limitar as consequências.

Mesmo que cumpridos todos os requisitos básicos, humanos e de segurança, os riscos subsistem se o treino decorrer, como se espera, com exigências e condições tão próximas quanto possível às do combate real.

Não existe, no treino militar eficiente e responsável, um risco zero. Só a ignorância, a hipocrisia e os critérios de oportunismo político de gente sem sentido de estado e sem escrúpulos, que não despende uma pinga de suor para exigir aos militares aquilo que lhes custa sangue, suor e lágrimas é que permitem que se comente com ligeireza o que lhes devia merecer mais respeito e contenção em nome do país que dizem servir e que justifica alguns dos comentários que ouvimos da parte de alguns políticos que nunca souberam para que servia a tropa, nunca puseram os pés num quartel e têm horror a tudo o que lhes cheire a esforço, amor à pátria e responsabilidade.

As tropas especiais têm, por exigência das suas missões potenciais, requisitos acrescidos do ponto de vista individual, físico, técnico, cultural e colectivo, para salvaguarda da própria vida e garantia de eficiência. Esses requisitos só podem ser obtidos através de uma instrução devidamente planeada e preparada para que, de forma gradual, progressiva, pragmática e controlada se adquiram as competências e a preparação necessárias. Compete sempre aos comandantes a determinação das condições e dos graus de exigência em cada fase, sabendo de antemão que, de uma boa preparação dependerão a própria vida do combatente, a vida daqueles que o acompanham e o cumprimento de missões das quais poderá depender a sorte de muitos milhares de pessoas, homens mulheres e crianças.

A instrução de tropas especiais assenta em dinâmicas de exigência e compromisso pessoal dos instruendos em relação a si próprios. É bem conhecida a força anímica que resulta de uma vontade forte por parte dos instruendos de “ganhar o crachat”. A mesma que, ao mesmo tempo que permite que o instruendo atinja mais rapidamente níveis de proficiência elevados, com elevados níveis de dedicação, sacrifício e resiliência o expõe também aos riscos da inexperiência e do excesso de voluntarismo que exigem e justificam um acompanhamento atento, individualizado e activo e de onde resulta uma maior responsabilidade de qualquer bom instrutor e comandante.

O respeito devido pela vida humana e pela qualidade da instrução ministrada no Exército exigiu que o chefe do Exército determinasse uma investigação para apurar as causas dos acidentes que lamentavelmente causaram já a morte de dois militares durante a instrução. Era esse o seu dever e a sua responsabilidade no contexto de uma cultura militar saudável, responsável e verificável a todo o momento. Aguardemos os resultados.

Paz à alma de Hugo Abreu e de Dylan Araújo da Silva,

Respeito, solidariedade e responsabilidade.