Voltar à POLÍTICA

Voltar à POLÍTICA

Luís Sequeira,

“Ter bons olhos não é ver a montanha…Ter bons olhos é ver o que está por detrás da montanha!” (Provérbio chinês)

1 – Celebrar a República, honrar Abril e aprender com o passado são acções que hoje, 5 de Outubro de 2016, feriado nacional, preservam a memória, dignificam a política e reforçam os valores de um país onde os portugueses devem ter a primeira palavra na escolha do seu futuro e no das gerações seguintes.

Efectivamente, no que nos é mais próximo, terminada a guerra colonial, aprovada a Constituição da República e estabilizadas as Instituições Democráticas, os portugueses escolheram, em eleições livres, o espaço europeu como modelo político e económico.

Portugal passou a fazer parte da União Europeia, na expectativa de que o novo percurso a realizar permitisse alcançar os níveis de desenvolvimento anunciados, cabendo à governação estabelecer uma estratégia, definir as prioridades e tomar as decisões necessárias.

O paradigma passou a ser o desenvolvimento, que se desejou sustentável e criador de riqueza para o nosso país.

Foi o período das grandes transformações, dos fundos estruturais e do progresso tecnológico.

Os aspectos mais relevantes verificaram-se na educação e na saúde, áreas onde Portugal teve progressos notáveis, passando a ser referência internacional em alguns sectores.

Antes da entrada no Euro, Portugal era já um país moderno e os indicadores de desenvolvimento humano registaram progressos acentuados em pouco mais de duas décadas.

2 – Na viragem do século, Portugal, embalado pela União Europeia, submete-se à sua política económica e monetária, não avalia os efeitos do deslocamento do centro de gravidade das decisões para os países da Europa Central e resigna-se a uma posição de completa dependência externa.

Como país economicamente enfraquecido, com a agricultura, as pescas, a indústria e a tecnologia desmanteladas, é financeiramente dominado e fica à mercê dos novos credores. Sem estratégia, sem economia sustentável, sem audácia e, sobretudo, sem estadistas, passa a ser dirigido pelas instituições europeias, em condições politicamente inaceitáveis.

Chegou-se a um ponto em que toda a banca privada passou para mãos estrangeiras e o banco público (CGD), que alienou os activos mais rentáveis (seguros e hospitais), está numa situação de grande fragilidade. Isto significa que as prioridades de financiamento à economia nacional passaram para centros de decisão externos e a prestação de contas do sector bancário será opaca para as entidades nacionais de regulação/fiscalização. Deixou assim de haver capacidade preventiva de intervenção em situações de crise e/ou contaminação.

Hoje, como resultado dessas políticas erráticas e submissas, Portugal é humilhado, perde soberania e é desonrado nos seus valores tradicionais.

Os dirigentes nacionais perdem autonomia, ignoram a realidade do país, esquecem os compromissos assumidos com os eleitores e passam a obedecer aos normativos emanados através de funcionários europeus.

Os resultados são evidentes:

Mais de metade dos portugueses vive abaixo do limiar da pobreza (salário mínimo), o desemprego atinge valores insuportáveis, os mais velhos são marginalizados e esbulhados dos seus rendimentos, o trabalho é desvalorizado, aumentam as desigualdades e a injustiça social, os sistemas de saúde e de educação começam a ser abalados, o endividamento cresce exponencialmente, o património público é delapidado, a corrupção alastra, a impunidade campeia, o medo regressa àqueles que sentem o seu emprego em risco, a dignidade humana é desrespeitada e as pessoas começam a perder a esperança no futuro.

O Estado, assente em pilares fundamentais como a Administração Pública e as Forças Armadas, é capturado por uma burocracia paralisante e vê-se atingido na sua credibilidade por situações graves de incompetência, de nepotismo e de corrupção.

O paradigma do Estado Soberano, do Estado de Direito e do Estado Social é posto em causa e os cidadãos não se revêm nos seus dirigentes.

3 – A luta entre o bem e o mal é uma constante na história da humanidade, assim como na economia é permanente o confronto entre a boa e a má moeda, dualidade que separa os comportamentos agregadores ou desagregadores e, por consequência, as opções tomadas em favor ou contra o interesse dos cidadãos, sujeito único de coesão nacional.

Em democracia tem especial relevância o conceito de serviço público, devendo cada dirigente colocar, acima do interesse próprio, a obrigação de respeitar a Constituição da República, cumprir e fazer cumprir as leis e ter uma conduta regida pelos princípios éticos e morais inerentes ao seu cargo.

Só através de uma liderança pelo exemplo é possível garantir a confiança dos cidadãos na integridade de quem governa e, particularmente, na sua Administração Pública, pilar fundamental do Estado e garante do regular funcionamento das Instituições.

Porém, a construção do nosso futuro colectivo passa, fundamentalmente, por conhecer a realidade e ouvir os portugueses em permanência, por  analisar as propostas da Sociedade Civil  e colocar em primeiro lugar os interesses de Portugal.

É este dever cívico que nos deve fazer repensar a política e criar as condições para que seja reposta a hierarquia das precedências : a política dirigir a economia e a economia defenir a utilização adequada das finanças.

A valorização da política é pois essencial à democracia e à participação dos cidadãos. Só desse modo  se pode evitar o silêncio dos indiferentes, conseguir que os melhores participem nas soluções democráticas e estas passem a ser orientadas para o bem-estar dos cidadãos.

Lembrando Edmund Burke: “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”