O modelo do senhor governador

O modelo do senhor governador

Jorge Landeiro Vaz

O senhor governador do Banco de Portugal, num encontro de Bancos em 3/10/2016, declarou, entre outras coisas, o seguinte:

“ Não é por ter havido uma crise financeira e uma crise económica, que o modelo (bancário), em si, de transferência de poupança dos aforradores para os agentes financiados, está em causa.

O que temos que ver é o que é que correu mal no funcionamento deste modelo e porque é que este modelo(bancário) em determinado momento entrou em colapso e porque é que temos que rever o funcionamento e a supervisão deste modelo.

Não se pode criar a ideia de que se aplica uma regra do tipo “No Bail Out”, de que não há resgates públicos para bancos.”

Esta é uma declaração eminentemente política, de extrema gravidade:

O senhor governador começa por declarar uma fé inabalável no modelo (bancário) de transferência da poupança para os agentes financiados, seja lá isso o que fôr.

Mas reconhece que o modelo (bancário), em determinado momento, entrou em COLAPSO.

Ou seja, diz que não se pode pôr em causa, um modelo (bancário) que colapsou, não obstante ter havido uma crise financeira e uma crise económica.

 

É de antologia.

Oito anos depois da crise monetária, bancária e financeira ter estourado declara que temos que ver o que correu mal no funcionamento deste modelo (bancário) que COLAPSOU, propondo-se rever o funcionamento e a supervisão do modelo.

 

É extraordinário.

Declara, em conclusão, que o Estado vai ter que continuar a resgatar bancos, sempre que necessário transferindo a dívida privada dos bancos para dívida pública.

O senhor governador é o 1º responsável do colapso do sistema financeiro Português e não pode referir-se a este colapso de forma tão académica. As contas de milhares de milhões vêm sendo apresentadas sucessivamente aos Portugueses, BPN, BPP, BES, BANIF CGD e o que mais se verá, pressionando o défice e aumentando a dívida pública

Ao longo dos sucessivos desastres da banca portuguesa, o senhor foi fazendo sucessivas declarações  rapidamente desmentidas pela realidade. Foi o “ring fencing” do BES, a recapitalização do BANIF,  a venda sem custos para o contribuinte do Novo Banco, etcª etcª.

O senhor é o 1º responsável de a CGD ter ficado sem a Caixa Seguros e sem a Caixa Saúde, diminuindo dramaticamente a sua competitividade como grupo financeiro. O senhor é (foi) funcionário da Caixa e colaborou activamente, na destruição do grupo financeiro do Estado.

 

Senhor governador,

O modelo (bancário) que o senhor defende é o modelo da ganância e da especulação, causa de dominação do povo e fonte de toda a miséria e opressão.

O modelo (bancário) que o senhor defende foi causa da crise financeira e económica, da bolha imobiliária, das PPP, do desperdício de recursos financeiros que conduziu ao resgate, em 6/4/2011.

O modelo (bancário) que o senhor defende é causa da destruição da economia portuguesa, dos centenas de milhares de jovens que foram forçados a emigrar, do desemprego e da pobreza endémica e da infelicidade de tantos portugueses.

O modelo (bancário) que o senhor defende é o da entrega ao estrangeiro dos centros de decisão da economia nacional, dos bancos às telecomunicações ao sector da energia e das infraestruturas. O senhor faz parte duma pseudo-elite que entregou o País.

O senhor condena o Estado e os portugueses à miséria, para salvar bancos. O senhor reafirma a ditadura dos Bancos sobre os cidadãos e o Estado.

O seu modelo (bancário) é um modelo de aparência virtuosa de intermediação bancária, mas que é na verdade um modelo totalmente especulativo e ruinoso. Pergunto: Quantos bancos mais terão os portugueses que salvar, endividando o Estado por gerações, para que termine a opressão. Os agentes políticos têm aqui uma enorme responsabilidade.

O senhor representa a BANCA-CASINO,  desde a emissão privada de Moeda até aos mercados de títulos e de derivados.

Este modelo (bancário) está esgotado e deve ser profundamente reformado na sua essência, em nome do humanismo, da igualdade e da liberdade.

05/10/2016