Os falsos moderados – ou as lágrimas de crocodilo

Os falsos moderados – ou as lágrimas de crocodilo

João Ferreira do Amaral,

Parece ser o desporto favorito dos europeístas actuais lançar diatribes contra o populismo e denunciar dramaticamente o radicalismo dos partidos xenófobos que aproveitam as dificuldades da União Europeia para arregimentar eleitores que de outra forma nunca conseguiriam alcançar. Marcando bem o contraste, os europeístas apresentam-se como modelos de virtudes, entre as quais sublinham a moderação.

Que o populismo e a xenofobia são doenças graves, não tenho a menor dúvida. Mas também me restam poucas interrogações sobre quem em última análise é o responsável pelo desenvolvimento desta doença.

Quando o doente é atacado pelo vírus, não culpamos o vírus. Culpamos sim – e bem – o médico que debilitou o doente e o tornou vulnerável ao vírus.

Porque os moderados europeístas actuais são os federalistas radicais que em Maastricht fizeram entrar a União num caminho de debilidade cujo resultado estamos agora a testemunhar.

Não houve projecto mais radical que o da criação da moeda única. Fruto dum federalismo fanático, foi realizado contra todas as prevenções de muitos economistas e políticos que preveniram sobre o que iria acontecer – e que de facto aconteceu. Preveniram baldadamente, porque nada impediu o federalismo radical de criar a desgraçada União que agora se desagrega aos nossos olhos.

O mesmo radicalismo federalista que tentou fazer passar uma constituição europeia felizmente chumbada em referendos e que, violando gravemente as regras da democracia, reinstalou o projecto chumbado no infame Tratado de Lisboa.

Quem apoiou este caminho de desastre não tem nenhuma autoridade moral para verberar o radicalismo populista ou para atribuir a outros a responsabilidade pelo caminho para o abismo em que, afinal, a União entrou por sua culpa.

De lágrimas de crocodilo está o inferno cheio