EANES – A Estrada da Vida

EANES – A Estrada da Vida

Luís Sequeira

  1. IDEAIS DE ABRIL

O 25 de Abril de 1974 e os descobrimentos marítimos dos séculos XV e XVI são os acontecimentos históricos de que os portugueses mais se orgulham (estudo “ Percepção sobre a União dos Portugueses, publicado em 2014).

O Movimento das Forças Armadas Portuguesas (MFA), autor moral e material do 25 de Abril, maioritariamente constituído por jovens oficiais oriundos das Academias Militares, soube interpretar as “aspirações e interesses da esmagadora maioria do Povo Português” e assumiu um compromisso escrito perante o País explicitando a finalidade dessa intervenção armada e as medidas necessárias até “serem eleitos pela Nação a Assembleia Legislativa e o novo Presidente da República” (Programa do MFA).

As prioridades então estabelecidas ficaram conhecidas como os 3 D´s: descolonização, democratização e desenvolvimento.

As circunstâncias e os factos ocorridos nos dois anos de transição, coincidentes com uma descolonização de territórios ainda em conflitos armados (Guiné, Angola e Moçambique), foram intensamente vividos pelas Forças Armadas e pelos partidos políticos que, entretanto, emergiam numa sociedade em início de prática democrática e defesa dos direitos cívicos.

É assim que, em 27 de Junho de 1976, têm lugar as primeiras eleições presidenciais e os portugueses dão maioria absoluta ao General António Ramalho Eanes, confiando-lhe um mandato cujos desafios eram da maior responsabilidade, uma vez que Portugal, liberto do “império colonial”, precisava de uma definição política, de um modelo económico e social moderno e, principalmente, da estabilidade que lhe permitisse consolidar o novo regime democrático e encontrar um projecto de desenvolvimento para o País.

  1. LIDERAR PELO EXEMPLO

António Ramalho Eanes, 41 anos de idade, sem passado político, militar austero na palavra e na forma de estar, era agora o primeiro magistrado da Nação.

Eleito na base de um julgamento “à priori “da sua nobreza de espírito, honradez e solidariedade, atributos inerentes a um “bom português” no dizer de Teixeira de Pascoaes (“A Arte de ser Português”), estava prisioneiro dos princípios e valores que incorporava e da esperança de um povo que, livre de um passado opressor, aspirava a um futuro melhor.

Iniciava-se assim uma década decisiva para a reconstrução de um país em todas as suas vertentes, a política, a económica e a social.

Do seu exercício empenhado, altruísta, independente e coerente com os compromissos assumidos, resultou a pacificação do País, a consolidação democrática e a escolha, em eleições livres, das opções políticas futuras, com especial relevância para a integração de Portugal na União Europeia.

Defensor da liberdade, da justiça social e da dignidade humana, o General foi o comandante que “marchou na frente do pelotão ouvindo sempre os passos dos seus soldados”, o político que liderou pelo exemplo e, fundamentalmente, o cidadão exemplar que não se resigna perante as desigualdades sociais, não aceita a submissão da sua pátria, nem quer um futuro sem esperança para as novas gerações.

  1. VALORES DA CULTURA

A cultura, “forma mais doce do conhecimento” é, no dizer de André Malraux, “o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido”. E o que fica é sempre o essencial, são os princípios, os valores humanos, o conhecimento, a sabedoria. É este essencial, “invisível aos olhos”, que é o fio condutor do caminho percorrido e caracteriza a qualidade da pessoa.

A “estrada da vida” do General Eanes é um exemplo de coerência entre os “princípios e valores alicerçados nas raízes profundas da terra portuguesa e das suas gentes”e a aprendizagem permanente resultante da visão clara da realidade. São esses os factores que enformam a justeza das opções tomadas e a sua utilidade para a sociedade.

Pode dizer-se que Eanes tem assim lugar nos ”Poetas Lusitanos” de Pascoaes e “os períodos mais belos foram aqueles em que não houve discordância entre o sonho e a acção”.

A gratidão dos portugueses ao General Eanes traduz a melhor resposta à questão de Malraux: “O que fizestes por Portugal?”

Igualmente, a amizade dos que lhe são mais próximos significa o reconhecimento do que realizou e do sentido humano que coloca em todas as suas acções.

Em data de aniversário de Miguel Torga, seu Amigo, será oportuno recordar a

“Viagem”:

É o vento que me leva.

O vento lusitano.

É este sopro humano

Universal

Que enfuna a inquietação de Portugal.

 

Lisboa, 12 de Agosto de 2016