Kiev, três anos depois…

Kiev, três anos depois…
Carlos Santos Pereira,

Assim! Preto no branco. O acordo entre Kiev e Bruxelas  ”não confere à Ucrânia o estatuto de candidato a membro da União, nem constitui um compromisso que garanta à Ucrânia esse estatuto no futuro”. E deixem-se de ideias, esses ucranianos! Nem sonhem com o direito a residir ou trabalhar dentro das fronteiras da União.

Armas, isso, sim! – mas cabe a cada país europeu tratar do negócio à sua maneira.
Se ilusões restavam ainda no reino de Porochenko, os lideres europeus reunidos esta semana em Bruxelas puseram os pontos nos ii.
Só para que não sobrem equívocos. Porque o acordo e as ilusões ucranianas, essas, estavam há muito mortas e enterradas. E nem vale a pena invocar o referendo em que holandeses chumbaram, em Abril, o “EU-Ukraine Association Agreement”. O acordo entre Kiev e Bruxelas seria solenemente ratificado a 16 de Setembro de 2014 pelo Parlamento de Kiev, mas a eficácia do documento foi desde logo adiado para as calendas gregas. É que a missão do famoso arranjo já estava cumprida. O convite para uma “associação” oferecido por Bruxelas inscrevia-se numa iniciativa lançada pela UE depois da crise russo-georgiana de 2008 e do congelamento dos projectos de integração da Geórgia e da Ucrânia na NATO. A oferta europeia, que prendava vários países da defunta URSS mas excluía a Rússia, tinha porém uma condição: ficava fora de causa qualquer namoro com a “Parceria Oriental”, um projecto de integração económica lançado por Moscovo.

 
A decisão do então presidente Ianukovitch de adiar a assinatura do acordo com Bruxelas desencadeou a rebelião da Praça da Independência em Fevereiro de 2014. Ianukovitch caiu, o Leste da Ucrânia pegou em armas, Moscovo deitou mão à Crimeia suspeitando que a NATO se preparava para se instalar de armas e bagagens em Sebastopol.
Três anos depois, a Ucrânia é um país dividido, a braços com uma larvar guerra civil, entregue à instabilidade e à violência política, um tecido económico gangrenado pela corrupção e forças armadas minadas pelas negociatas das cúpulas.

Certo que nem tudo se perdeu. Os planos de “Parceria” de Putin ficaram estragados, Kiev faz da integração na NATO um objectivo prioritário e a Ucrânia anuncia-se ao Mundo como uma “barreira contra a expansão russa na Europa”. Estava enfim cumprido um sonho há muito alimentado nas capitais do Ocidente, ao que testemunham antigos responsáveis
europeus: atear a discórdia entre Moscovo e Kiev.

À luz da militância directa de responsáveis europeus (e americanos) nos dias gloriosos do Euromaidan e pelo apoio empenhado aos novos mandantes de Kiev seria ainda de esperar que Bruxelas tivesse um palavrinha, uma satisfação a dar aos ucranianos.Mas não. Apenas que…tenham mas é juízo!
Lá para as bandas de Donetsk, continuam a ouvir-se tiros. O regime de Kiev continua a arrastar os pés no que toca à plena implementação dos acordos Minsk II que o presidente Petro Porochenko assinou em Fevereiro de 2015 sob pressão da Europa, e que garantiria uma regionalização de facto da Ucrânia e uma forte autonomia para as regiões separatistas. Berlim e Paris mostram-se incapazes de alterar a posição de Porochenko, e Washington recusa-se a exercer sobre pressão sobre o presidente ucraniano.

Já que para mais não sobra nem substância nem imaginação, os líderes europeus remataram enfim o dossier Ucrânia da única forma a jeito: a renovação das sanções à Rússia. Sob os aplausos e renovados apelos “às armas!” contra os russos de polacos, lituanos, estónios e letões.

A Europa quis ainda fazer ouvir a sua voz na Síria. Mr. Hollande lá fez um esforço para se pôr em bicos de pés – já que ninguém lhe dá fiado em casa, pode ser que ainda o ouçam lá fora – e voltou a apontar o dedo a Putin. Dona Mogherini fez voz grossa e ditou as condições para uma “transição” política na Síria.

Que se saiba de novas certas, Putin não tremeu, Assad não se comoveu, os rebeldes não se arrependeram, Erdogan não se converteu, a Casa Branca não fez penitência. Não, parece que ninguém ouviu, em resumo.

E não se cansem os líderes de Bruxelas a anunciar mais “European Defence Action Plan”. Já há muitos, mais vírgula-menos vírgula, todos igualmente inócuos.

É que o problema da insignificância da Europa (a demarcada, a autêntica, a europeia – a União) como actor internacional não está na míngua de canhões. Está na falta de credibilidade. De uma ponta de vergonha. De sentido do ridículo.