Um ano depois das Presidenciais

Um ano depois das Presidenciais

António Sampaio da Nóvoa Lisboa, 23 de Janeiro de 2017

Para haver democracia tem de haver democratas, pessoas livres. É preciso respeito pelos novos eleitos. É preciso que as transições de poder decorram com normalidade.

Cumpri rigorosamente o que prometi.

Sei que tive a maior percentagem de votos desde sempre conseguida por um candidato independente, o que muito me honra (23%). Sei que tenho uma responsabilidade ainda maior. Mas sou o que sempre fui. Luto, diariamente, por uma melhor educação, pela defesa do conhecimento, por uma universidade aberta ao mundo e ao futuro, por uma intervenção cívica comprometida com as causas da liberdade e da igualdade.

■ Um ano depois – É dia de balanço, é dia de prestar contas.

Quero hoje, aqui, recordar o que moveu a minha candidatura: a ideia de proximidade, de um Presidente presente, de um Presidente cidadão, de um Presidente independente.

Portugal mudou muito, e mudou para muito melhor, mas é preciso que a proximidade se traduza em participação, em capacidade de decisão sobre as nossas vidas.

É isso que caracteriza as democracias modernas do nosso tempo. Multiplicar as possibilidades de decisão, construir processos informados de decisão. É este o melhor antídoto para os populismos e para os extremismos. A participação contra a demagogia. A razão contra o terror.

Passou um ano sobre as presidenciais. Mas agora há novas eleições. Podemos, e devemos, renovar o nosso compromisso com a democracia, mobilizando-nos nas próximas eleições autárquicas. É no poder local, no governo das cidades, na proximidade da decisão, que se joga grande parte do nosso futuro.

Cada um, cada uma, escolherá a melhor maneira de estar presente. Seja em candidaturas independentes, seja em listas de partidos ou de coligações. Mas que ninguém falte à chamada da democracia. Não podemos perder a democracia por falta de comparência.

Esperemos que, passado este ciclo, se revejam as leis eleitorais, que dificultam as candidaturas independentes, para a Presidência da República e para as autarquias, quando precisamos justamente do contrário, de aproximar as pessoas da política, de chamar mais pessoas à política.

■ Um ano depois – Ainda bem que os portugueses se revêem de novo no seu Presidente.

Portugal vive hoje um “tempo novo”. Enganaram-se os profetas da desgraça. Afinal, havia mesmo alternativa.

Para a qualidade deste tempo, muito tem contribuído a acção do Presidente da República e do Governo, repito do Presidente da República e do Governo, num ambiente de distensão e de cooperação institucional.

Devemos estar agradecidos ao actual Presidente da República que, em pouco tempo, conseguiu revitalizar a função presidencial, devolvendo-lhe a sua importância, sobretudo na relação com os cidadãos.

Não é uma questão de popularidade, pois, para servir, é preciso, por vezes, ser impopular. A importância da agenda de proximidade reside no reforço da confiança dos cidadãos no Presidente e nas instituições da República.

É positivo um Presidente presente, próximo, desde que nunca confunda a sua intervenção com funções governativas, mantendo o perfil do Presidente do “semipresidencialismo português”, tal como se formou ao longo de 40 anos.

O Presidente deve reservar para si a última palavra, sem se imiscuir em todos os casos e situações do dia-a-dia. O comentário permanente constitui um entendimento discutível da magistratura presidencial, uma magistratura que se deve pautar por uma equidistância irrepreensível: “Um Presidente não pode aliar-se à oposição contra um governo, nem a um governo contra a oposição”.

Em democracia tem de haver sempre alternativas. É esta a sua essência. Um líder da oposição tem de ser tratado com a mesma dignidade que um primeiro-ministro. Nem mais, nem menos.

O que dá poder ao magistério presidencial é este sentido de independência, de imparcialidade, de equidistância. Se aceitarmos que o pêndulo se incline numa direcção, é certo e sabido que, mais dia, menos dia, o movimento oscilatório o levará ao extremo oposto.

■ Um ano depois – É preciso dar futuro ao presente.

Nos últimos quinze meses, recuperámos muito do que havíamos perdido em quatro anos. Desde logo, o direito ao presente. Mas só isso não chega para resolver os nossos problemas de fundo.

Os acordos de governo abriram novas possibilidades, alargando o campo da política e da liberdade. Só posso desejar que se tornem mais sólidos, e que venham a ser capazes de construir um horizonte de estabilidade e de futuro para Portugal.

A política é sobre o futuro, nunca é apenas, nem só, sobre o presente.

A nossa geração tem a obrigação de deixar aos jovens uma organização do país que fortaleça, de uma vez por todas, os dois pilares do nosso desenvolvimento: o conhecimento e a economia.

Fez-se muito na educação, na ciência, nas universidades. Mas o nosso problema maior continua a ser a incapacidade de ligar o conhecimento à economia, de dar um lugar aos jovens qualificados, de lhes dar uma vida, de transformar o conhecimento em tecnologia, de participar nas novas dinâmicas da economia.

Não estamos a ser capazes, porque as instituições científicas e universitárias têm espartilhos imensos e não conseguem virar-se para a sociedade, porque o nosso tecido empresarial é frágil e pouco aberto à inovação, porque vivemos asfixiados por uma burocracia administrativa, e jurídica, que desgasta as nossas energias e a nossa capacidade de iniciativa.

Os diagnósticos estão feitos, e bem feitos. Agora, é preciso agir. E agir quer dizer libertar o conhecimento e libertar a economia, dar liberdade às instituições e às empresas, criar um ambiente favorável às iniciativas económicas, ao investimento estrangeiro, aos empregos do futuro. É a partir desta orientação que se devem organizar todas as políticas.

■ Um ano depois – É preciso preparar Portugal.

Vivemos um tempo decisivo para o nosso futuro colectivo. Não podemos aceitar, resignados, que tudo se decide “lá fora”, e não “cá dentro”. É o erro maior que temos repetido ao longo da nossa História.

Como se os nossos problemas pudessem ser resolvidos pelos outros. Não serão. Como se os problemas fossem tão grandes que o melhor é nem sequer pensarmos neles, e ficarmos apenas pelo tempo imediato.

Claro que o nosso futuro depende, e muito, do que se passar na Europa e no mundo. Numa Europa enfraquecida e encurralada. Num mundo em decomposição, talvez mesmo à beira do inominável.

E não podemos fazer nada? Podemos, sim. Podemos preparar-nos melhor, aumentar a nossa autonomia de decisão, o que implica uma melhor organização da sociedade e da economia, uma maior coesão social e territorial, um desenvolvimento economicamente sustentável.

É isso que nos permitirá uma participação mais capaz nas dinâmicas globais. Com uma visão clara da nossa posição no mundo. Sem medo de existirmos.

Temos pouca terra para nascer, mas tanta para viver. A Europa é a nossa casa, mas a partir dela temos outros mundos, nos quais está a nossa história e muito do nosso futuro.

Não se deve pedir a um Presidente que intervenha diariamente em todos os assuntos, mas a sua palavra é insubstituível na construção do longo prazo.

Precisamos de nos preparar melhor, para a incerteza e para a imprevisibilidade, para os novos modos de vida e de trabalho, para as mudanças na economia e na tecnologia, na mobilidade e na comunicação.

De pouco nos servem as fórmulas do passado, mas se olharmos com atenção para as novas gerações – na relação com a vida, com o trabalho, com o ambiente, com o consumo, com a mobilidade … – veremos os sinais que nos permitem preparar melhor o país e tirar partido de tantas vantagens que Portugal tem no mundo globalizado dos nossos dias.

* * *

Foi em nome da liberdade e do futuro que nos juntámos, que fizemos esta candidatura. Não podemos baixar as defesas cívicas. Porque a cidadania é o ofício mais importante da democracia. Porque o Estado de direito é o Estado dos cidadãos.

Um ano depois, quisemos prestar contas publicamente, apoiando instituições e iniciativas que simbolizam dinâmicas importantes para o nosso país.

Devemos prestar contas ao passado, pelo que fizemos, mas devemos sobretudo prestar contas ao futuro, à nossa responsabilidade perante o futuro. A candidatura SNAP encerra, definitivamente, com este gesto. Mas as causas que nos uniram permanecem. É nelas que continuaremos a viver.

Pela liberdade. Pela democracia. Pela participação. No presente. Mas sempre com os olhos no futuro. Haja o que houver, nós estamos aqui. Obrigado, Portugal.

União: lembraram-se agora?

União: lembraram-se agora?
Vamos provavelmente enfrentar novas propostas de avanços em larga escala do centralismo e de aumento de poder do directório criado pelo Tratado de Lisboa.

Bastaram mais umas afirmações descabeladas de Trump sobre o Brexit e a Europa para os ministros dos negócios estrangeiros de Alemanha e da França se porem em bicos de pés e apelarem dramaticamente à união entre os estados europeus para responderem a Trump.

Tudo isto soa a falso.

Por um lado, toda a gente percebe que nunca haverá qualquer possibilidade de criar um ”inimigo americano” da União Europeia. A debilidade da capacidade de defesa da Europa, aumentada, ainda pelo Brexit, impede qualquer tomada de posição real contra os EUA. Mais: a existir essa tentação (totalmente absurda) por parte de países como a Alemanha ou a França seguir-se-ia imediatamente o fim da União quanto mais não fosse por saída dos países do leste do continente.

Por outro lado, todos sabemos também o que significam os apelos à união dos estados europeus. Significam nada mais do que a tentativa de anular o impacte das justíssimas críticas que se fazem ao modo de funcionamento da União em particular à sua centralização de poder em benefício da Alemanha.

Manter o status quo com o pretexto Trump e, se possível, aproveitar o Brexit para aprofundar o poder da Alemanha e do seu acólito menor, a França, sobre a União é a real intenção destes pouco convincentes apelos. Como aliás se tornará muto claro quando, dentro de pouco tempo, se conhecerem as propostas de mudanças da União que serão apresentadas a propósito da comemoração dos 60 anos do Tratado de Roma. Vamos provavelmente enfrentar novas propostas de avanços em larga escala do centralismo e de aumento de poder do directório (a um ou a um e meio, como se queira) criado pelo Tratado de Lisboa.

Porque se os apelos à união fossem sinceros então teríamos já hoje uma mudança drástica das políticas comunitárias entre outros nos domínios económicos e financeiros. O que – não tenhamos ilusões – não sucederá.

João Ferreira do Amaral, em Rádio Renascença, a 20 de Janeiro de 2017

A condição militar: o vitupério da classe política

A condição militar: o vitupério da classe política
Data de 1989 a Lei n.º 11, bases gerais do estatuto da condição militar. Enuncia os deveres dos militares e, como contrapartida, concede-lhes, e às famílias, “especiais direitos, compensações e regalias, designadamente nos campos da Segurança Social, assistência, remunerações, cobertura de riscos, carreiras e formação”. Palavras dos senhores deputados.

A condição militar é um sistema simples: uma balança onde num prato estão os deveres e no outro os direitos, devendo ambos manter-se equilibrados.

Legislação recente extinguiu o complemento de pensão e o fundo de pensões, criados com o propósito de, a partir dos 65 ou dos 70 anos, atribuir um suplemento à pensão dos militares, sempre que esta se degradasse. No ativo estes descontam para o SNS, como qualquer outro cidadão. Cumulativamente, deduziam 1,5% para a ADM/ /IASFA. Hoje esse valor é 3,5%. Apesar deste agravo é notória a decadência do apoio prestado pelo HFAR e pelo IASFA, com impacto negativo nos direitos da família militar.

Algumas alterações à carreira militar:

– Aumento do tempo mínimo de permanência em cada posto. Em 1990 eram necessários 21 anos de serviço até se poder ascender a oficial general e atualmente são 26.

– Criação de novos postos no início da carreira e redução de vagas nos postos superiores.

Consequências: progressão mais lenta na carreira, limitação do número de elementos a atingir o topo, mais militares com vencimentos mais baixos desde o ingresso e menos com vencimentos mais elevados no seu final.

Será que a carreira é atrativa? A Academia Militar tem uma média anual de 120 vagas, e 1200 candidatos. Parece que a profissão é apelativa. O que sucede depois? Entre 2010 e 2015 solicitaram ser desligados do serviço cerca de 3700 oficiais e sargentos das FA. Razões mais referidas: “Degradação da condição militar” e “falta de confiança nos responsáveis políticos”.

O EMFAR institui mais um dever: o da isenção política, o qual converte os militares em seres acéfalos e abúlicos e a quem são cerceados dois dos mais elementares direitos do homem: pensar e escolher. É o aviltamento da cidadania dos militares.

O Estatuto da PSP apresenta uma inovação: a condição policial, cópia quase integral da Condição Militar, substituindo o termo “militar” por “policial”. De notar que omite as expressões “sacrifício da própria vida” e “ainda que com sacrifício dos interesses pessoais”. A PSP merece o máximo respeito, mas este plágio não dignifica quem o escreveu e é um achincalhar da condição militar.

A remuneração também tem sido um esbulho. Exemplo: um coronel recebia de vencimento-base, em 1980, o mesmo que alguns profissionais da função pública. Hoje, estes funcionários têm um vencimento-base 40% a 60 % superior ao de um coronel. Será que têm carreiras mais duras e mais arriscadas?

A balança dos deveres e direitos está totalmente desequilibrada. O prato dos deveres toca no chão, enquanto o dos direitos está bem alto, leve como uma pena. A classe política tem degradado a condição militar a níveis intoleráveis, estranhamente com a aprovação do comandante supremo das Forças Armadas.

Senhores políticos,

Não é necessário lembrar os militares que devem obediência ao poder político. Eles sabem-no e honram os seus compromissos. E os senhores, honram os vossos? Honram!

Então comecem por repor o equilíbrio dos pratos da balança. Regulamentem o Art. 10.º do decreto-lei que aprova o EMFAR, esclarecendo de vez que os militares não são funcionários públicos e corrijam o método de cálculo da pensão de reforma. Criem um suplemento de risco, que existe noutros serviços, que cubra os perigos próprios da profissão. Deixem a condição militar para compensar as restrições de cidadania que impendem sobre os militares.

Senhor Presidente,

Como comandante supremo das Forças Armadas tem o dever de tutela. Os militares anseiam por ver o seu comandante supremo exercê-lo para honrar os profissionais das Forças Armadas e dignificar a sua condição militar. Estas mulheres e estes homens, que dão tudo o que têm e pouco recebem em troca, aguardam animados e confiantes.

Mário Cabrita, Tenente-General na reforma in Diário de Notícias de 23 de Janeiro de 2017

Partilha de sentimentos

Partilha de sentimentos

Nuno Santa Clara,

A campanha eleitoral que levou Donald Trump à Presidência dos EUA ficou marcada pela exploração dos sentimentos, e não pela lógica do confronto das propostas, dos números e das realidades.

Isso mesmo explica a sua vitória – e mal andou a direção de campanha de Hillary Clinton, quando se deixou enredar nessa teia.

Daí que mais de meia América, e grande parte do resto do Mundo, tivesse acordado com um sentimento de surpresa, do tipo “como foi possível?”, seguindo de “e agora?”.

E agora multiplicam-se os sinais de que algumas das promessas eleitorais vão ser levadas à prática (nem todas, obviamente), e vai aumentando, a nível global, o sentimento de insegurança.

Cabe aqui lembrar o que sucedeu na Alemanha entre as duas guerras mundiais. O partido Nacional-Socialista de Adolf Hitler tinha ficado em segundo lugar nas eleições de 1932, atrás da coligação do Marechal Paul von Hindenburg, mas a pressão feita pelo partido nazi e por alguns importantes membros do tecido empresarial alemão impôs ao Marechal a nomeação de Hitler para Chanceler, em 1933; a morte de von Hindenburg em 1934 facilitou a completa tomada do poder. O que ele fez depois de chegar ao topo é bem conhecido…

Mas não restam dúvidas de que Hitler chegou ao poder por via legal e democrática, ou seja, utilizando e beneficiando de duas coisas que ele abominava. E acabando por “domesticar” a classe empresarial, seduzida pelo aumento exponencial dos encargos militares e pela contenção (repressão) das classes trabalhadoras.

A reação naturalmente mais mediática ao “fenómeno Trump” foi a que se vai registando entre os artistas americanos, e é bem sintomática do mal-estar que aflige a sociedade americana. Desde a corajosa intervenção de Meryl Streep durante a entrega dos Golden Globes, à jocosa imitação de Trump feita por Alec Baldwin (que corre o mundo da Net), ou ainda à recusa de grandes figuras do meio artístico americano em abrilhantar a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente (o que até agora era considerado uma honra), tudo se conjuga para um divórcio entre o Poder eleito e os mais conhecidos e respeitados representantes da América que idealizamos.

Não admira que se venha a assistir, com projeção a nível mundial, a uma parada de música pimba, com intervenções a condizer…

(as reticências são intencionais: a reação de Trump à intervenção de Meryl Streep foi pôr no Twitter que ele era uma…)

Este sentimento é bem conhecido de nós, os portugueses com memória do antes do 25 de Abril (que já vão diminuindo…). Era o que tínhamos quando olhávamos para nós próprios, desprovidos de direitos, garantias, de respeito, em suma, da nossa completa humanidade.

Era o que sentíamos quendo cruzávamos a fronteira, e nos faziam perguntas embaraçosas sobre o que se passava cá dentro.

Era o que sentíamos quando se lia algo publicado, abençoado pelo controlo da Censura, e sobre o qual não podíamos pedir ou publicar uma explicação, uma justificação, ou apenas uma resposta.

Era o que sentíamos por sermos apoucados, confundidos com a clique que nos governava, com o que era impingido como o melhor da cultura portuguesa.

Era sobretudo quando alguém de fora nos perguntava se “os portugueses eram todos assim”, ou se “aquele era o melhor dos portugueses”.

Daí que compreenda e partilhe dos sentimentos daqueles valentes que desafiam o Poder arrogante que se desenha do horizonte, arriscando carreiras ou até direitos de cidadania, como sucedeu nos pouco saudosos tempos do senador Joseph McCarthy e do diretor do FBI Edgar Hoover, com a famosa caça às bruxas dos anos 50. Da “Lista Negra de Hollywood”, feita por indicação do tristemente célebre Comité de Atividades Antiamericanas, constavam nomes como Leonard Bernstein, Aaron Copland, Richard Attenboroug e até Charles Chaplin…

16 de Janeiro de 2017

Europa federalista, ou Europa soberanista?

Europa federalista, ou Europa soberanista?
João Ferreira do Amaral,
A Europa federalista, a União Europeia, seguiu-se à Europa soberanista (as das Comunidades) em 1993, com a entrada em vigor do tratado de Maastricht. E desde então tem sido um desastre.

Como muitos outros, abomino o populismo como ideologia ou pseudo-ideologia política. É irracional, porque inventa inimigos inexistentes para melhor desviar as atenções dos cidadãos dos seus reais problemas e porque faz apelo aos piores sentimentos humanos, em particular a xenofobia. É justamente a xenofobia que torna especialmente repulsivo o actual populismo europeu. Nenhum democrata e em particular nenhum português pode pactuar com a xenofobia.

Mas ser adversário do populismo não implica esconder a verdade em relação ao que tem sido a integração nas últimas duas décadas e meia.

E a verdade é que, para a Europa, o federalismo tem sido até agora muito mais nocivo que o populismo.

A Europa federalista, a União Europeia, seguiu-se à Europa soberanista (as das Comunidades) em 1993, com a entrada em vigor do tratado de Maastricht. E desde então tem sido um desastre.

Empenhou boa parte das energias dos estados membros na criação de um gigantesco fiasco (pré-anunciado, note-se) que é a união económica e monetária. Centralizou absurdamente o poder nas instituições comunitárias, esquecendo a longa história da Europa e das democracias que a constituem. Perdeu grande parte do apoio popular de que a CEE dispunha e criou tensões políticas, económicas e financeiras graves a nível dos estados europeus, contribuindo decisivamente para a perigosa clivagem norte-sul com que hoje somos confrontados. Permitiu uma hegemonia indevida da Alemanha, fez sair o Reino Unido (e não, não considero que o voto pela saída tenha sido populista) e desarmou a capacidade da maior parte dos estados membros lidarem com a globalização.

Por último, é afinal o federalismo dogmático, surdo às vontades expressas dos eleitorados (haja em vista a fraudulenta substituição do rejeitado tratado constitucional pelo actual tratado de Lisboa) que tem sido, embora involuntariamente, o grande alimento do populismo.

Impõe-se por isso substituir a Europa federalista e retomar o caminho, que nunca deveria ter sido abandonado, da Europa soberanista.

in Rádio Renascença, 06 de Janeiro de 2017

O choque petrolífero

O choque petrolífero

Nuno Santa Clara,

Por este nome ficou conhecida uma das quatro fases tidas como marcantes do processo conhecido como “crise petrolífera”. Todas essas fases decorreram de surtos de instabilidade no Próximo e Médio Oriente. Recapitulando: 1956 – crise do Suez; 1973 – Guerra de Yom Kippur; 1979 – deposição do Xá da Pérsia; 1991 – Primeira Guerra do Golfo.

Houve decerto outros altos e baixos na produção, distribuição e venda de petróleo, mas os picos acima referidos foram os mais marcantes. E, entre eles, particularmente o de 1973, que muitos entendem ver como o grande “choque petrolífero”.

Para o comum dos portugueses, o choque de 1973 teve duas consequências importantes.

Uma, a crise global, que se refletiu entre nós, e que acabou por colocar os nossos agentes económicos (belo eufemismo!) contra os poderes políticos da época, considerando que estes, pelo seu imobilismo, não respondiam aos novos desafios, sobretudo à globalização que já então se desenhava. Daí que o 25 de Abril, na sua origem, tivesse sido encarado por essa gente, se não com bonomia, pelo menos com alguma consideração e expectativa.

Outra consequência foi a promoção do petróleo ao estatuto de bem escasso, e como tal sujeito a regras de oferta e procura que ultrapassaram em muito o valor real do produto. Não me vou referir à especulação sobre os preços, mas a uma coisa bem mais comezinha.

Antes de 1973, quem fosse a uma bomba de gasolina era recebido por um funcionário atencioso, que atestava o depósito, perguntava se queria que verificasse a água e o óleo, bem como a pressão dos pneus, limpava o para-brisas e se despedia com um sorriso.

Com a crise, os consumidores foram todos para a fila, pediam com humildade que enchesse o depósito com os litros autorizados, e iam embora felizes, com o para-brisas sujo e sem saber como estavam o óleo, a água e os pneus.

Fenómeno irreversível: mesmo depois de voltar a abundância (?) nunca mais voltámos a ter os serviços personalizados. Pelo contrário, evoluiu-se para o self-service, obrigando executivos e “tias” a manusear as mangueiras, ficando com as mãos a cheirar a gasolina ou gasóleo, e a ter que verificar os variados níveis; em suma, perderam estatuto.

Dirão alguns que, por caminhos ínvios, se procedeu a uma democratização da sociedade e se racionalizaram custos, cortando em serviços considerados quase como sumptuários.

Diria eu que este caso é um belo exemplo da promoção de um bem corrente ao estatuto de coisa rara – logo, cara – a ponto de perturbar as relações institucionais. O ouro é raro, logo caro, e quando se fala do “vil metal” é pelo seu valor venal e não pelas suas qualidades. No entanto elas existem, e as aplicações do ouro na alta tecnologia (para não falar nos dentes, já fora de moda) raramente são referidas.

Em sentido contrário, o alumínio passou de bem precioso para o fundo da tabela (baixela dos pobres) quando a tecnologia permitiu a sua produção a baixo preço – sem que as suas qualidades fossem alteradas.

Assim, a alta do preço da gasolina levou à valorização do funcionário da bomba; deixou de ser um serventuário para ser empregado, depois trabalhador, e agora colaborador; e o consumidor viu-se obrigado, se não a amassar o seu pão com o suor do rosto, pelo menos a meter a mão na massa e a ficar com um incomodativo cheiro nas ditas mãos.

Donde se conclui que o choque petrolífero de 1973 teve o efeito de contribuir para a democratização do País e das relações de trabalho – pelo menos nas bombas de gasolina…

Mário Soares

Mário Soares

João Ferreira do Amaral,

Mário Soares foi a todos os títulos uma personagem excepcional no nosso tacanho e tradicionalmente medíocre meio político.

Excepcional em primeiro lugar porque liderou acções políticas ou movimentos de opinião que foram fundamentais na abertura dos caminhos que o país seguiu nos últimos cinquenta anos: a resistência não comunista à ditadura fascista, a difícil negociação da descolonização, a abertura ao mundo, a orientação do nosso regime democrático, a adesão à CEE. E tudo isto sem que afinal tivesse estado muito tempo no governo (uns cinco anos apenas). Mas foram anos cruciais a que se somaram dez anos de Presidente da República, em que, no âmbito das suas competências não deixou de aprofundar o caminho de solidificação do regime até aí prosseguido por Ramalho Eanes.

Mas excepcional também – talvez mesmo único em todo o panorama histórico da política portuguesa – pelo valor que atribuía à tolerância enquanto valor básico da democracia. Mário Soares odiava a perseguição política, quer a que as ditaduras exercem sobre os dissidentes quer a perseguição mais subtil dos ostracismos partidários ou dos julgamentos populares mediáticos. Lutou corajosamente, como era seu hábito, contra a intolerância. Esse combate valeu-lhe diatribes violentas num país que conviveu bem com as perseguições inquisitoriais e ditatoriais. Como sempre, não vergou e tornou-se, também aí um exemplo de defesa dos valores democráticos.

Lutou pelos seus ideais até ao fim. Ultimamente, quando o País se viu sujeito às políticas arrasadoras da Troika e enquanto o PS se atascava num colaboracionismo mole, Mário Soares liderou verdadeiramente a oposição a essas políticas. E sem dúvida que os historiadores futuros não deixarão de encontrar um forte nexo de causalidade entre a sua acção nesse período e a emergência da actual solução política.

Nem sempre concordei com ele, em particular no que respeita ao processo de integração europeia, sobre o qual tínhamos opiniões muito diferentes. Mas isso não me impediu de por ele criar uma admiração profunda e de reconhecer com gratidão o muito que com ele aprendi.

Por tudo isto e muito mais, obrigado Dr. Mário Soares!