O Macron da música

O Macron da música

Imaginemos um cenário, algo surrealista, em que alguém que nem solfejo sabe se põe a dar opiniões sobre Música.

Nada de novo, dirão quase todos: desde o futebol à política, não faltam comentadores que nem sequer sabem o que é um fora-de-jogo, ou que não distinguem o presidencialismo do parlamentarismo.

Há que estabelecer ressalvas. Não é de todo incorreto meter a foice em seara alheia; basta, por vezes, distinguir o trigo do centeio. Foi por isso que Marcelo Rebelo de Sousa reagiu à tirada de Maria luís Albuquerque sobre a chasse gardée da Economia. A resposta, se estão lembrados, fez escola.

Grave seria se o acima referido ignorante das regras mais primárias da Arte da Música se pusesse a discorrer sobre harmonia, contraponto, dodecafonia e coisas afins.

Mas, se ele abordasse a Música como fenómeno social?

O País teve um fim-de-semana histórico. Houve a visita do Papa, afirmou-se o Tetra do Benfica, e aconteceu a vitória no Festival da Eurovisão. O Papa foi por vezes incómodo (falar dos pobres, dos refugiados ou do clericalismo não agradou a todos); o Benfica é um clube entre outros (até se contestou que o Primeiro-Ministro tivesse ido ver o jogo, esquecendo que, por exemplo, Jorge Sampaio ia regularmente ver o Sporting); mas o Festival fez a unanimidade.

Para além do natural fervilhar do orgulho nacional, para mais numa área cinzenta da nossa imagem externa, houve alguns aspetos muito interessantes nesta vitória.

Salvador Sobral fez em direto umas considerações de peso. Referiu o primado da essência da musica sobre o espetáculo – isto quando, desde o top internacional às festas de aldeia, a qualidade dos artistas avalia-se mais pela imagem mediática do que pela forma e conteúdo das canções. Ou seja, a coisa mede-se mais pelo gasto com as roupas (contrabalançado pela poupança em metros de tecido das raparigas lá-lá-lá), pela iluminação, pelo cenário, ou mesmo pelo fogo-de-artifício (referido por Salvador Sobral).

Ele também se exprimiu fluentemente em inglês (uma machadada no chamado nacional-cançonetismo), e cantou em português (uma das línguas mais faladas do Mundo). Sem comentários.

E, pelas reações dentro e fora do Festival, ficámos com a ideia que houve um movimento e uma votação no sentido da contestação do “sistema” – o tal do espetáculo com precedência sobre o conteúdo.

Independentemente dos méritos da canção vencedora, e dos seu(s) intérpretes(s), algo poderá mudar nos próximos festivais. E esse mérito ninguém tirará aos nossos representantes.

Passando ao sociológico, estamos como Emmanuel Macron na política francesa (e, através dela, na política europeia). Foi uma vitória do inconformismo, se não mesmo do contra o sistema. E, tal como no Festival, algo pode mudar, deixando de parte gastos artistas e estereotipados cantores (as prima-donas da política, que se esqueceram de que o público mal as suporta).

Se assim for, tivemos um Macron na música.

Bem haja!

Nuno Santa Clara