As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium

Azeitonas e tâmaras

Azeitonas e tâmaras

Nem toda a gente tem a perceção da influência do árabe na língua portuguesa. Se a base desta é o latim (dizem que o português a língua mais próxima do original latino), se o grego deu origem aos vocábulos mais eruditos, o árabe deixou-nos não só um conjunto de palavras, algumas facilmente reconhecíveis, mas também um outro legado: as vogais fechadas, tão típicas do português da Europa.

A título de exemplo, usamos a palavra azeitona, do árabe az-zaituna, e não olivo, como os espanhóis ou olive, os franceses, e por extensão os ingleses. Tal como tâmara, do árabe tamar, em contraste com o espanhol dátil, o francês datte, ou o inglês date.

Usei estas duas palavras por serem do universo mediterrânico; tudo levaria a esperar uma semelhança de termos dos povos da mesma área; mas, neste confronto latim-árabe, quem levou a melhor foram os mais recentes ocupantes do nosso território.

Não vamos referir outros legados, como a nora, a micro hidráulica e os legumes, ou, no caso da Madeira, o bolo do caco e o couscous.

Na vizinha Espanha, a queda do reino de Granada, em 1492, levou à expulsão das elites mouras para o Norte de África, mas o grosso da população permaneceu na Península. Não foi uma convivência pacífica: no século que se seguiu à conquista deste reino, houve vários levantamentos e novas expulsões, e muito trabalho para a Santa Inquisição. Mas foi possível registar, pelas piores razões, o percurso dos então chamados “mouriscos”.

E em Portugal? Com a conquista definitiva do Algarve em1249, sabemos que, como era a tradição, as elites partiram e as populações ficaram. Para estas últimas, a grande mudança era o regime fiscal: se a terra pertencesse a um senhor cristão, oneravam-se os muçulmanos; se pertencesse a um senhor mouro, havia uma sobretaxa para os cristãos. Quanto aos judeus, pagavam de qualquer maneira…

Certo é que a comunidade muçulmana foi sendo absorvida, sem ser necessário recorrer a leis contra do chador. Referindo-se a um período mais tardio, Alexandre Herculano, salvo erro em “O Monge de Cister”, refere um Ale, ou Ali, que deambulava por Lisboa misturado com fidalgos, frades de mercadores, aparentemente sem problemas de maior.

Na busca de mais elementos sobre esta singular integração, encontrei um livro de um autor marroquino sobre a perseguição dos mouros em Portugal. Ora aqui está, pensei eu. Mas o livro tratava apenas dos mouros oriundos das praças do Norte de África, convertidos por crença ou por cálculo, e que se vieram a estabelecer em Lisboa ou noutras terras. Cedo descobriram que, para os cristãos velhos, eram suspeitos, e que a prometida cidadania plena era um logro. Quando quiseram regressar ao seio dos muçulmanos, foram tratados (e com razão) como apóstatas.

Mas com uma agravante: tendo sido cristãos, caíram nas garras da Inquisição, e essa foi a origem das perseguições referidas nesse livro. Quanto aos fiéis muçulmanos, seguiram a sua vidinha, e a Inquisição nem sequer tinha jurisdição sobre eles…

Dos recentes atentados na Catalunha descobriu-se que os terroristas eram todos de origem marroquina, e deveriam estar integrados na sociedade ibérica. Será que o fenómeno dos mouriscos é resiliente? Só que os atuais terroristas vieram de livre vontade, e alguns até na sequência de um pedido de asilo…

Marrocos é o segundo país mais próximo de Portugal, com quem sempre tivemos boas relações (depois do abandono de Mazagão, claro) e há todo o interesse em que tudo assim continue. Tâmaras e azeitonas unem-nos. Mas é também, pelas suas atuais condições políticas e sociais, um alfobre de fundamentalistas.

Deste lado do Mediterrâneo, a Mouraria de Lisboa parece ter retomado a sua vocação dos tempos medievais: o eixo Anjos-Martim Moniz tem ares de ser um bairro de maioria muçulmana. Sem restrições ou imposições, mas por natural agregação, como os bairros chineses, italianos ou portugueses das cidades de imigração.

Ou, seja, nada de novo, em termos históricos.

A maior parte dos jovens portugueses desconhece a forte componente de militares muçulmanos, na maioria guineenses ou moçambicanos, que integraram as Forças Armadas Portuguesas. Muitos por aqui ficaram, e aí estão, perfeitamente integrados.

A irrupção de minorias radicais também não é novidade (lembre-se o recente caso de Charlottesville), mas não impede a viabilidade do conjunto da sociedade, como sucede na maioria dos casos. Cabe aos cidadãos de todos as etnias e religiões zelar pela sã convivência, isolar e neutralizar os extremistas, e cooperar com as autoridades nos casos extremos. Como sucedeu na Catalunha, em que a colaboração dos habitantes foi essencial para a detenção dos culpados.

Igrejas e mesquitas são locais de oração. Cumpre-nos evitar que sejam coios de neo-nazis ou ninhos de talibãs. E a única forma de evitar essas derivas está na integração plena, e no respeito pela diferença.

Será possível? Oxalá, que é a forma portuguesa de dizer Inch´Allah (Queira Deus).

E despeço-me com um salamaleque, que é a nossa versão de Salaam Aleikum (a Paz seja contigo).

Nuno Santa Clara

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!

A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.

Mas, além destes factores da ordem da estratégia, os generais americanos sabem que Afeganistão é historicamente um território dividido por senhoritos da guerra, venais, que servem quem pagar melhor e se aliam a quem lhe parece ter mais possibilidades de vitória. Senhoritos sem fidelidades, nem piedades. É um território de mercenários e, por isso, um excelente viveiro de ratazanas de desestabilização regional. As três grandes potências imperiais têm de estar ali para desestabilizar os seus rivais. Nenhuma delas pode estar fora do Afeganistão.

O idiota do Trump não sabe história, nem geografia, nem viu filmes de cobóis e comprou a ideia do neo-isolacionismo para fazer a América grande! Os generais e a máquina de guerra já lhe colocaram a coleira, a trela e o açaimo através do golpe palaciano que teve a sua cerimónia pública com o discurso de 21 de agosto. A estratégia dos golpistas do pentágono é clara e é a de Hilary Clinton. A vencida, vencedora deste golpe.

Em resumo, diga Trump o que disser, os Estados Unidos terão sempre uma presença militar entre o Médio Oriente e as fronteiras sul da Rússia e ocidental da China. Estarão no Afeganistão, não para matar terroristas, mas para contratar e manipular terroristas. Também se manterão na Síria, embora em menor escala que no Afeganistão, porque aí Israel se encarrega do trabalho de desestabilização em outsourcing. O Iraque é para cortar às fatias e os militares americanos disporão sempre de um dos cutelos. Resta o Irão e a Turquia. Os generais americanos evitarão a guerra com o Irão — demasiado cara e de resultados duvidosos — e tentarão manter o turco sob controlo, na NATO, ou pelo menos sem o deixar passar para a órbita dos russos.

Parece, por outro lado, evidente que os russos vão atirar sal para todas as fogueiras que os americanos atearam e que o Trump passará a ser apenas o boneco do ventríloquo, de umas vezes do Departamento de Estado, quase sempre do Pentágono. Será um refém com tempo de antena e saídas precárias para golfe. Até já o acusam de ele e a numerosa parentela gastarem demais em segurança privada. Os chineses têm sempre à mão o fogareiro da Coreia do Norte, para condicionarem todas as opções americanas para a Coreia do Sul e o Japão. Os navios da esquadra do Pacífico entretanto chocam com navios mercantes.

Por cá, os comentadores avençados — as caixas de ressonância do alt right e do Tea Party — por limitações senis, continuam a acreditar que o Trump dirige a política dos Estados Unidos. O governo, dirigido por pessoas circunspectas e sensatas, está ciente da irrelevância do país na Europa e da Europa no mundo. Sem fanfarronadas, perfilou-se como um ordenança dos generais que tomaram o poder em Washington e vai disponibilizar uma mão cheia de briosos militares para integrar uma coligação que dê direito a visita de ministro e presidente da República em datas festivas.

Com o golpe de 21 de Agosto o mundo retomou a normalidade.

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Lemos, vemos, ouvimos, mas não pensamos. Que vale termos acesso à informação se a engolimos sem a mastigar? No Le Monde de 22 de Agosto saíram duas notícias a par. Numa, mais um pontapé de Donald Trump nas promessas da campanha eleitoral. Trump candidato tinha prometido retirar as tropas americanas do Afeganistão. Trump eleito, num discurso de 21 de Agosto engole as afirmações e lê o discurso preparado pelos generais e pelo o complexo militar-industrial. Um discurso articulado em dois blocos, um perceptível por um auditório médio: “Não se trata de um cheque em branco, nem de exportar a democracia” e outro para satisfazer os pistoleiros broncos do nível de Trump: “Trata-se de matar os terroristas!” A eles, sus!

Haverá quem acredite que os americanos andam a matar os terroristas no Afeganistão? O Le Monde parece que sim e os seus leitores também. Não existe nenhuma crítica à afirmação. No entanto, confiante que os consumidores comem tudo, o Le Monde coloca ao lado da banha de cobra de Trump a notícia de que os atentados da Catalunha foram realizados por cidadãos marroquinos, conduzidos ao crime por um também marroquino estabelecido com banca de atentados numa mesquita em Ripoll, uma localidade espanhola e que tinha passado várias temporadas na Bélgica a traficar droga. Um delinquente como tantos outros que cresceram entre nós e que foram por nós educados, como recordaram os avós de dois dos assassinos. Não há notícia destes terroristas de Barcelona terem passado pelo Afeganistão, por onde também não passaram os assassinos de Londres, da Alemanha, de Paris, de Nice, de Bruxelas…

Le Monde é um jornal de referência, seria suposto que perguntasse que raio de terroristas vão os americanos matar agora para o Afeganistão, se não são estes que cometem atentados aqui pela Europa e, que se saiba, também não cometeram nenhum nos Estados Unidos?

Aqui chegados, se os terroristas que os americanos vão matar às ordens dos generais de Trump para o Afeganistão não são os que matam e espalham o terror aqui na Europa, que raio vão fazer os militares europeus para o Afeganistão, se os seus inimigos estão aqui na Europa e não lá?

Podemos pensar nisto?

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017

OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

Meses a fio a Venezuela tem sido tema obrigatório nos jornais televisivos. Diariamente os telejornais repetem imagens do caos social e económico em que o país mergulhou, e entrevistas de venezuelanos indignados com a falta de bens essenciais, revoltados com a repressão policial e exigindo a queda do regime. Todos os dias, sem falta, mesmo quando os eventos cobertos dificilmente mereceriam tamanho destaque.

De tão sistemático, o martelar das mesmas imagens e das mesmas vozes assumiu acentos de uma campanha. Antes de se apoderar das ruas de Caracas, o caos venezuelano ganhara já corpo nos ecrãs televisivos.

Imagens a cores, notícias a preto e branco.

As câmaras só muito excepcionalmente se voltaram para os que apoiam o regime ou que se mostram simplesmente perdidos e impotentes perante a situação. A Venezuela do pequeno ecrã é, não uma sociedade dividida, mas um povo unido em luta contra um poder opressor. Apenas por ocasião das eleições para a Constituinte os telejornais admitiram por uma vez a existência de divisões na sociedade venezuelana.

Maduro não arranjou forma de lidar com os efeitos da derrocada dos preços do petróleo ou da vitória da oposição na legislativas de 2015, apostando numa fuga em frente que a Constituinte veio precipitar, tornando cada vez mais longínqua qualquer solução negociada.

A imagem simples e liminar da crise venezuelana dada pelos telejornais esconde porém uma situação complexa.

A sólida orquestração dos protestos, a acção de grupos claramente adestrados para a violência pressupõe uma organização sofisticada e uma abundância de recursos que joga pouco com a imagem televisiva de um povo em cólera e desespero. Ao longo da crise multiplicaram-se denúncias de que a escassez é em grande parte orquestrada por empresários da oposição apostados no derrube do regime.

Nada disso mereceu uma investigação ou qualquer atenção particular aos media

Os telejornais fizeram sistematicamente tábua rasa do contexto geopolítico em que se enquadram as pressões internacionais sobre Caracas. Ignoraram sobretudo as denúncias de “mão” dos Estados Unidos na crise, apesar dos antecedentes bem estabelecidos, dentro e fora da Venezuela.

O evoluir da crise venezuelana tem muito em comum com processos semelhantes noutras paragens – da Sérvia ao Egipto, da Líbia à Ucrânia. Do dia para a noite, protestos populares espontâneos transformam-se em campanhas bem oleadas, em acções de guerrilha urbana ou mesmo em milícias armadas. Juntam-se então um coro de pressões internacionais e uma forte campanha mediática. Trata-se de produzir uma situação insustentável e o almejado regime change, seguindo padrões bem rodados – e já amplamente teorizados.

E quando a manobra tarda em surtir efeito, entra em cena a ameaça de uma intervenção militar – como a que Trump acaba de proferir em relação à Venezuela.

O extremar de posições, tanto do regime como, da oposição inviabiliza virtualmente qualquer hipótese de diálogo na Venezuela. Boa parte do trabalho está feita. Os telejornais terão uma vez mais cumprido zelosamente a sua parte.

Carlos Santos Pereira, 16 de Agosto de 2017

A moral das séries históricas da televisão

A moral das séries históricas da televisão

Moral, razão e ficção. Não sou um consumidor regular de televisão, mas consumo séries, de preferência históricas. O mundo desses espectáculos é o de heróis e mártires, de santos e vilões. Pretendem colocar o cidadão comum fora do palco da vida. Eu gosto de heróis e vilões em conflito com mártires e santos, aceito a alienação e admito-a (que remédio!). Era aqui que pretendia chegar depois de ter visto alguns episódios de uma série internacional : Os Médicis ; e de uma série portuguesa: Madre Paula. Ambas as séries nos levam às antecâmaras do poder. Do poder absoluto, que é o único.

As peripécias são emocionantes, os cenários e os guarda-roupas magníficos. Somos fascinados e encadeados. Somos alienados. O mal é deliberadamente apresentado como um banquete sumptuoso. Se repararmos, os mais abjectos e criminosos actos são-nos servidos (impingidos) como factos aceitáveis. Um assassínio, um incesto, uma violação, uma traição, uma tortura, um roubo, uma guerra particular, um tráfico, um envenenamento, um massacre são meras e normais acções de exercício do poder, ou da sua conquista, realizadas por quem está a jogar um jogo dentro das suas regras, fora do mundo dos cidadãos comuns.

A série diz-nos subliminarmente que «eles» que «aqueles eles» podem fazer aquilo. As séries históricas inculcam nas massas de hoje a ideia de que sempre foi assim — só mudam as roupas e faltam os computadores e os telemóveis — e que os eleitos (eleitos por qualquer processo e por quem quer que seja — de um Deus a um comité central a um colégio eleitoral) têm direito à amoralidade. Dizem que a família de Trump, ou do seu equivalente coreano Kim Jong-un, ou da família Saud, por exemplo, ou Putin, se tiver família, seguem a moral dos Médicis. Estamos num processo histórico. Nada a fazer.

Pelo seu lado, a série da Madre Paula diz-nos o mesmo quanto à amoralidade dos poderosos e mais alguma coisa que remete para o sagrado. Para os poderosos, além de não existirem limites morais, também não existe o sacrilégio. Um poderoso é um Deus! Apreciada sem as lentes da fantasia e da alienação, a série da Madre Paula apresenta-nos um convento como um bordel, com as esposas de Deus a servir de amantes dos reis e nobres; reis e nobres que o são por graça desse mesmo Deus! O caso dos reis e nobres freiráticos, como o D. João que ia às meninas ao convento de Odivelas, expõe o caso de um soberano pela graça de Deus que, em linguagem brejeira, encorna o Deus que o fez rei. Apesar disso, o Magnânimo teve direito a funeral com missa cantada e alma encomendada para os paraísos dos céus, assim como o terão tido o papa Alexandre VI da família dos Borgias e o Leão X, nascido João Lourenço Médicis!

Mas nunca pensamos nestas aberrações amorais quando vemos as séries. Acreditamos que vivemos num regime baseado na razão e na moral. Que a razão e a moral, isto é a distinção entre o Bem e o Mal, constituem os fundamentos da nossa vida em sociedade.

As séries históricas alimentam a ficção de os humanos de linhagem comum, e no nosso caso de homens e mulheres embebidos da cultura ocidental, de sermos racionais e morais. Na realidade somos um rebanho que come de tudo e vai para onde o levam. Falo por mim, claro.

Carlos Matos Gomes, 10 de Agosto de 2017, in  Medium