OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

Meses a fio a Venezuela tem sido tema obrigatório nos jornais televisivos. Diariamente os telejornais repetem imagens do caos social e económico em que o país mergulhou, e entrevistas de venezuelanos indignados com a falta de bens essenciais, revoltados com a repressão policial e exigindo a queda do regime. Todos os dias, sem falta, mesmo quando os eventos cobertos dificilmente mereceriam tamanho destaque.

De tão sistemático, o martelar das mesmas imagens e das mesmas vozes assumiu acentos de uma campanha. Antes de se apoderar das ruas de Caracas, o caos venezuelano ganhara já corpo nos ecrãs televisivos.

Imagens a cores, notícias a preto e branco.

As câmaras só muito excepcionalmente se voltaram para os que apoiam o regime ou que se mostram simplesmente perdidos e impotentes perante a situação. A Venezuela do pequeno ecrã é, não uma sociedade dividida, mas um povo unido em luta contra um poder opressor. Apenas por ocasião das eleições para a Constituinte os telejornais admitiram por uma vez a existência de divisões na sociedade venezuelana.

Maduro não arranjou forma de lidar com os efeitos da derrocada dos preços do petróleo ou da vitória da oposição na legislativas de 2015, apostando numa fuga em frente que a Constituinte veio precipitar, tornando cada vez mais longínqua qualquer solução negociada.

A imagem simples e liminar da crise venezuelana dada pelos telejornais esconde porém uma situação complexa.

A sólida orquestração dos protestos, a acção de grupos claramente adestrados para a violência pressupõe uma organização sofisticada e uma abundância de recursos que joga pouco com a imagem televisiva de um povo em cólera e desespero. Ao longo da crise multiplicaram-se denúncias de que a escassez é em grande parte orquestrada por empresários da oposição apostados no derrube do regime.

Nada disso mereceu uma investigação ou qualquer atenção particular aos media

Os telejornais fizeram sistematicamente tábua rasa do contexto geopolítico em que se enquadram as pressões internacionais sobre Caracas. Ignoraram sobretudo as denúncias de “mão” dos Estados Unidos na crise, apesar dos antecedentes bem estabelecidos, dentro e fora da Venezuela.

O evoluir da crise venezuelana tem muito em comum com processos semelhantes noutras paragens – da Sérvia ao Egipto, da Líbia à Ucrânia. Do dia para a noite, protestos populares espontâneos transformam-se em campanhas bem oleadas, em acções de guerrilha urbana ou mesmo em milícias armadas. Juntam-se então um coro de pressões internacionais e uma forte campanha mediática. Trata-se de produzir uma situação insustentável e o almejado regime change, seguindo padrões bem rodados – e já amplamente teorizados.

E quando a manobra tarda em surtir efeito, entra em cena a ameaça de uma intervenção militar – como a que Trump acaba de proferir em relação à Venezuela.

O extremar de posições, tanto do regime como, da oposição inviabiliza virtualmente qualquer hipótese de diálogo na Venezuela. Boa parte do trabalho está feita. Os telejornais terão uma vez mais cumprido zelosamente a sua parte.

Carlos Santos Pereira, 16 de Agosto de 2017