DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

Ninguém poderá acusar os jornais, as rádios e as televisões deste país de não terem dado a devida atenção aos incêndios que assolaram o centro e o Norte de Portugal no penúltimo fim-de-semana. A tragédia fez as primeiras páginas dos jornais, inspirou destaques e edições especiais e monopolizou virtualmente telejornais  e “especiais” das televisões.

Os media deram voz às populações atingidas, trouxeram a lume realidades chocantes e muitas vezes esquecidas do país e chamaram à antena políticos, académicos, bombeiros e responsáveis das forças de segurança num esforço de debater os mais diversos ângulos da questão dos fogos florestais.

Os critérios editoriais na cobertura da tragédia levantam ainda assim algumas questões, em particular no caso dos audiovisuais.

Durante o trágico fim-de-semana e ao longo dos dias que se seguiram, as televisões ocuparam horas a fio com a questão dos incêndios. Foram as imagens das labaredas dantescas passadas e repassadas em ciclo contínuo. Os testemunhos atrás de testemunhos. As lágrimas, os queixumes, o desespero incessantemente repetidos. Os intermináveis directos em que repórteres no terreno eram mantidos em antena a repetir vezes sem contra e as mesmas escassas informações. O rodopio de políticos, técnicos e peritos, mais analistas e comentadores a repetirem as mesmas sentenças.

A fixação das câmaras nos incêndios acabou por engolir os serviços noticiosos normais e levou algumas televisões a ignorar por completo tudo o que demais aconteceu pelo Mundo. Nem o indefectível futebol escapou, remetido a apressadas breves, mesmo em dia de Liga dos Campeões.

Os canais de informação contínua revelaram-se afinal uma vez mais cadeias de 24 – quando não de 48 e mais horas – de notícias recicladas em série.

De tão marelada e redundante, a cobertura dos incêndios pisou obstinadamente, com largo destaque para os canais privados, a linha que separa a informação da pura exploração mediática (e comercial) da tragédia e da dor.

Um padrão que se repete sistematicamente com a cobertura de outros eventos dramáticos como os atentados terroristas –a  mesma insistência nas imagens chocantes, nos testemunhos cruciantes, nos longos directos sem qualquer conteúdo. Uma cobertura claramente destinada a produzir impactos emocionais e agarrar audiências, a editar a realidade mais do que a informar.

Coincidência ou não, o tom da cobertura registou uma notória evolução a partir de terça-feira. Desde que, sobretudo depois do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, a tragédia ameaçou gerar uma crise governamental, a cobertura dos incêndios passou a centrar-se na insistência dos custos dos para as populações e o país, apoiada pelos números e mais números da tragédia e pelo refrão, repetido a cada passo, das palavras do presidente.

E o detalhe com que a SIC Notícias anunciou a organização das manifestações convocadas para o passado domingo mais parecia uma acção de mobilização.

Carlos Santos Pereira