LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

Por partes. Condições climáticas, ausência de ordenamento florestal, sobrepovoamento de eucaliptos, desertificação interior… Ninguém duvidará de que esses e muitos outros factores terão contribuído para as proporções assumidas pelos incêndios deste Verão.

Mas os incêndios dos últimos meses vieram antes de mais provar, pela enésima das enésimas vezes, uma verdade há muito consabida, e que por insondáveis razões se continua a querer escamotear: se a floresta arde, é porque alguém lhe deita fogo. Ponto final. Tudo o resto vem a seguir. Os fogos por acidente ou causas naturais são eventos muito excepcionais. Não nos atirem areia para os olhos…

O problema tem muitos anos, mesmo se este Verão assumiu proporções sem precedentes.

Bastava percorrer as aldeias deste país na incontornável época dos fogos. Dois dedos de conversa e qualquer um apontava sem hesitar quem botava o fogo e os mandantes que o encomendavam. E não eram precisas muito mais perguntas para perceber a enorme rede de cumplicidades em torno de cada incêndio.

Se as autoridades deste país não quiseram ver e ouvir, lá terão as suas razões. E o país continuou a arder, ano após ano.

Nos últimos anos a coisa atingiu tais proporções que as autoridades se viram obrigadas a mostrar algum serviço. Apanhados em flagrante os incendiários são levados ao juiz e… mandados para casa.

Na madrugada seguinte estão, é óbvio, a atear mais fogos.

Chamemos os bois pelos nomes. Enquanto não se atacar a questão da economia dos incêndios, enquanto não se enfrentarem os interesses que ateiam os fogos, enquanto não se desmontar o fabuloso negócio do combate ao fogo e os balúrdios pagos a empresas privadas, não há reformas florestais nem remodelações da Protecção Civil que lhe cheguem.

Segundo. A geografia anual dos fogos vem assumindo uma regularidade que a torna perfeitamente previsível. Teria sido por isso possível mobilizar recursos para patrulhar as áreas de risco.

Lembraram-se agora, depois da casa ardida…

Resta a questão do assumir de responsabilidades políticas.

No essencial, a intervenção do presidente da República dois dias depois da catástrofe teve o resultado real de precipitar a demissão de uma ministra já em plena queda. Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou de caminho a vulnerabilidade do Executivo para multiplicar sinais públicos de que tinha o Gabinete de António Costa debaixo de olho – e esquecendo talvez pelo meio que é ao Parlamento que o Governo responde.

Quanto à adopção de uma série de medidas de combate ao flagelo dos incêndios entretanto anunciada pelo governo, é de duvidar que tenha alguma coisa a ver com o “murro na mesa” de Marcelo Rebelo de Sousa.

E, ainda que assim fosse, que pena o senhor presidente não se ter lembrado de engrossar a voz uns meses mais cedo…

É que, se o Estado falhou em toda a linha na tragédia dos incêndios, o Primeiro Magistrado da Nação não será decerto o último dos responsáveis.

Carlos Santos Pereira