As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

Após o 25 de abril de 74, a direita portuguesa reunida no CDS tentou maquilhar-se à europeia, assumir o liberalismo e o anti-socialismo, designando-se como “personalista cristã”. Atirou para debaixo do tapete a velha tradição miguelista, integralista, salazarista, trauliteira e anti-liberal. Há uns anos, Paulo Portas, vindo do saco de gatos do Independente, iniciou o movimento na direcção do populismo e da abjuração da via democrata-cristã.

Com Portas, a direita portuguesa mandou a ideologia democrata-cristã às malvas e adotou na política o comportamento das tainhas, como se sabe peixes de águas salobras, lodosas que se alimentam dos dejetos sem origem recomendável ou reconhecível nas saídos dos esgotos.

O comportamento do CDS e da sua líder Assunção Cristas no caso dos incêndios, atribuindo ao Estado o exclusivo da responsabilidade pelas mortes que ocorreram é a demonstração de que um único princípio rege agora a ideologia da direita portuguesa: o da oportunidade! O CDS, como as tainhas, atira-se a tudo o que surja a flutuar na corrente. Um incêndio ou uma inundação servem para culpar o Estado por ausência e responsabilizá-lo perante a coletividade. O aborto ou o casamento homossexual servem para acusar o Estado de ingerência na vida dos indivíduos!

Os liberais acreditam na responsabilidade individual, que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, tendo o dever de arcar com as consequências das suas decisões. A direita ideologicamente herdeira do pensamento liberal é contra a regulação da vida e das atitudes das pessoas pelo Estado. Por isso, e coerentemente, é contra um serviço nacional e estatal de saúde e a favor de seguros individuais; a direita é contra a segurança social assegurado pelo Estado e a favor de planos de poupança individuais; a direita é contra um serviço de educação público e estatal e a favor do ensino privado, como ainda recente se viu.

São opções ideológicas coerentes, até para o CDS, mas que entendeu abrir uma excepção no caso dos incêndios, considerando que neste caso o responsável é o Estado. Que o Estado é o único responsável por um serviço que previna incêndios, mesmo resultantes de acções individuais, ou da meteorologia. Que o Estado se responsabilize por um serviço contra incêndios, mesmo que este seja constituído por organizações privadas — as associações humanitárias de bombeiros voluntários — mesmo que esse serviço esteja em boa medida descentralizado e sob responsabilidade das autarquias. Mesmo que, desde a adopção da política agrícola da CEE, os liberais nos governos de Cavaco Silva tenham desmantelado nos anos 80 do século passado as estruturas do Estado de gestão e controlo das terras e florestas!

A ideologia da direita clássica assenta nos deveres e responsabilidades do indivíduo, considera que lhe devem ser imputadas a ele mesmo as consequências das suas supostas más escolhas. Excepto este CDS, para quem o Estado é sempre o culpado e o responsável por todas as más escolhas, mesmo as dos indivíduos em decisões do seu interesse, ou resultantes da sua incúria (queimadas, p.ex) ou ação deliberada, mesmo que de outros órgãos de eleição e responsabilização local, como as autarquias!

A direita portuguesa é actualmente, pela voz da sua líder, a favor da intervenção do Estado na regulação da floresta, mas Assunção Cristas foi até há dois anos, enquanto ministra, promotora de legislação a favor da iniciativa privada e da liberalização do plantio das espécies mais rentáveis em termos económicos e mais perigosas em termos ambientais e de incêndios, o eucalipto. Entende agora que o Estado é responsável pelas mortes que resultam da sua política liberal! É uma direita capaz de morder a própria cauda!

A direita convencional habitualmente acusa a esquerda de ignorar a responsabilidade individual e de andar sempre a pedir desculpa por atos colectivos do Estado. Muitas vezes tem razão, quando afirma que daqui a pouco estaremos a responder a processos de indemnização por danos morais coletivos ou sociais em benefício de minorias historicamente oprimidas, da escravatura ao colonialismo, por exemplo. Mas a direita portuguesa entende que, no caso destes incêndios, toda a culpa é do Estado e, mais do que o Estado, do governo em funções! Exige um pedido de desculpas!

A direita usa habitualmente o argumento contra os progressistas de que os pedidos de desculpa propostas por eles assentam num fundamento inaceitável: a ausência de responsabilidade individual e a sua transferência para as culpas da sociedade, do Estado. Agora, ao responsabilizar — e censurar com moção na Assembleia — o Estado e o governo em funções, a direita portuguesa assume, para além do comportamento da tainha em águas com dejectos em suspensão, aquilo que é o produto mais romântico do socialismo: o de que o Estado substitui cada individuo e que a sociedade, o Estado e o governo, paga a parte, a cota, da responsabilidade individual. A direita de Cristas socializa as culpas individuais, que também existem.

Para a atual direita portuguesa, o Estado, este governo, passou a ser não só responsável pelas mortes e prejuízos, mas transformou-se e transformou cada cidadão num devedor e num culpado a quem o CDS censura com uma moção na Assembleia e discursos inflamados.

A moção de censura do CDS, responsabilizando o Estado pelas mortes resultantes dos incêndios, expôs a novidade de um partido de direita estatizante e anti-liberal! Um aborto ideológico, resultante da desfaçatez da sua líder e da sua atitude de corvo que se atira a tudo o que brilha. Conceição Cristas não se prende com coerências e incoerências. Se vê uma panela, bate nela, se vê uma pedra atira-a à primeira janela, se for a do governo.

Aquilo que esta ideologia do oportunismo revela é a desconfiança do CDS nas pessoas, em cada uma delas. O argumento da responsabilidade do Estado assenta em última instância na tese de que os indivíduos não são dotados de autonomia, de capacidade reflexiva. São animais domésticos que necessitam de seres iluminados como os dirigentes do CDS, capazes de entender a complexidade humana, para lhes dizer como viver. Curiosamente são os mesmos argumentos que justificam o planeamento centralizado nas sociedades socialistas!

Para a direita convencional, a norma é a do respeito pelas decisões da esfera privada individual e as acções do Estado são em princípio questionáveis. Neste caso, porque as mortes e as acusações ao Estado/governo podiam dar algum lucro eleitoral, o CDS de Cristas faz-se estatista e socializante! Assunção Cristas deve estar a preparar o ingresso do CDS na Internacional Socialista!

Para Assunção Cristas os princípios ideológicos podem ser tocados num acordeão, esticam e encolhem à vontade do tocador e a pedido do público presente na romaria.

Carlos Matos Gomes, 25 de Outubro de 2017, in Medium