Negócios

Negócios

Os portugueses têm uma certa tendência para a auto depreciação. Embora em certas épocas tivesse havido quem puxasse pela nossa fibra patriótica, a verdade é que o tom dominante ao longo da nossa História tem sido negativista.

Grandes nomes da nossa cultura ilustraram essa tendência. Camões referiu-se à nossa “apagada e vil tristeza”; Eça de Queirós escreveu que este país não era uma Monarquia ou uma República, era um chinfrim; Fialho classificou-nos como o País das Uvas. E no século XX, as coisas ficaram piores.

De onde vem esta maldição?

Vem de que, entre nós, todas as ideias, por mais generosas que sejam, acabam mal. Fomos para os Descobrimentos, mas deles não tirámos os proveitos dos que nos seguiram. Colonizámos o Brasil, mas foram outros que lucraram com isso. Instituímos a República, mas para dar cabo dela em dezasseis anos. Fizemos a Revolução dos Cravos, mas para ficarmos encravados ao fim de um período semelhante.

Porquê?

A resposta está no título. Negócios, affaires, business, e afins. Sempre que alguém tem uma ideia capaz de mudar o Mundo, logo alguém se apropria dela, e monta um negociozinho.

A título de exemplo, foi assim com o computador Magalhães, que até tinha condições para andar; com os submarinos, que deram origem a prisões em toda a Europa, mas não em Portugal; com os escândalos financeiros, de que não há fim à vista; e com muitos mais, os quais impossível referir, quer por falta de espaço, quer porque há sempre quem queira morrer de velho (ao contrário da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, a quem presto sincera homenagem).

Vem agora a questão dos incêndios. Este asno, por duas vezes, o País foi flagelado por tragédias que se julgava arredadas para sempre do nosso quotidiano. Por duas vezes, mãos criminosas atearam fogos, com efeitos que, por pudor (e só por isso!), julgamos não ter estado na mente de quem os ateou.

Por duas vezes, sistemas de comando e controlo caríssimos não funcionaram; chefias providas por equivalências não corresponderam; descentralizações apregoadas não existiram; alertas oportunos não foram considerados; as populações acudiram aos fogos com púcaros; e assim regressámos à Idade Média, ao sabor das fatalidades, como no tempo em que Fome, Peste e Guerra eram fenómenos naturais e inevitáveis.

No entanto, não é assim noutros lados, pelo menos na Europa, a que nos orgulhamos de pertencer.

Para não ir muito longe, centremo-nos da vizinha Espanha, com um inúmeras semelhanças climáticas e ambientais connosco.

O Ejército del Aire tem na sua orgânica o Grupo 43, que dispõe de 14 aviões Bombardier CL 413, e 3 Canadair CL-215T, para combate aos fogos. Não passou pela cabeça de “nuestros hermanos” acudir aos fogos através de negociatas, nem mesmo sob a capa de concursos públicos: encarregou disso a sua Força Aérea, dentro das missões clássicas de quaisquer Forças Armadas de um país decente: acudir à necessidades das suas populações, e contribuir para a segurança e soberania nacional (que passa pela salvaguarda dos recursos do país, dos quais a floresta não é o parente pobre).

De modo que ficamos à espera (provavelmente em vão) de um inquérito independente (?) no qual se explique para onde foram os milhões destinados aos meios de comando e aos meios aéreos de combate aos fogos, e se, contas feitas, não teria sido mais barato e eficaz ter comprado os aviões e treinado os pilotos da Força Aérea para essa missão.

E assim teriam evitado muitas questões ligadas aos negócios, affaires e business, rompendo o ancestral ciclo vicioso.

Em jeito de remate, os militares podem ser mobilizados por telefone, a confirmar posteriormente por documento escrito; carecem de meios financeiros para voar e manter as suas qualificações; não precisam de concurso público para atuar; e estão, por natureza, vocacionados para colaborar para os fins superiores do Estado.

Têm, no entanto, um grave contra, com fundas razões históricas: a tendência de manter com a classe política uma relação institucional desprovida de subserviência, o que se complica quando se entra na espiral da asneira.

Assim Deus os conserve!

Nuno Santa Clara