TRUMP, A AMÉRICA E A UNESCO

TRUMP,  A AMÉRICA E A UNESCO

Ao anunciar a decisão de abandonar a UNESCO, no passado dia 12, o presidente norte-americano  limitou-se a consumar uma ruptura há muito anunciada.

Donald Trump, prontamente seguido pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justificou a decisão de bater com a porta  acusando a organização de manter uma atitude sistematicamente anti-israelita.

A má vontade América em relação à UNESCO não é criação de Trump. Entronca numa longa guerra contra esta agência das Nações Unidas.

Nem é sequer a primeira vez que os Estados Unidos viram as costas à UNESCO. Já nos anos 1980, em plena Administração Reagan, a América, seguida pela fiel Britânia, rompeu com a organização.

O argumento oficial era na altura a gestão incompetente e esbanjadora e do então secretário- geral Amadou Mahtar M’ Bow. A longa polémica que antecedeu a retirada americana revelou claramente que Washington tinha razões mais fundas. A UNESCO era acusada de se ter transformado em agência do terceiro mundismo e da diplomacia cultural da URSS.

A América de Reagan ajustava assim contas com uma agência que não conseguia controlar. Os anos seguintes mostraram de resto que essa atitude traduzia um profundo mal-estar dos Estados Unidos perante todas as instâncias multilaterais que escapam à sua batuta. Bastará recordar a enorme campanha destinada desacreditar as Nações Unidas durante os conflitos balcânicos dos anos 1990 e obrigar a organização a render à NATO a gestão política e militar do conflito.

Dezoito anos depois, em Setembro de 2002, George W. Bush anunciou o regresso dos Estados Unidos à UNESCO. Mas o mal-estar nunca desapareceu.

Ao que tudo indica, Trump baseia a acusação de preconceito  “anti-israelita” em desenvolvimentos recentes como  a decisão da UNESCO de admitir a Palestina como membro de pleno direito, em 2011 – ao que Washington respondeu na ocasião cortando os fundos à agência – ou a declaração de Hebron, em plena Margem ocidental ocupada por Israel, como Património da Humanidade, em Julho último.

Em rigor, qualquer pretexto serviria para o caso.

A decisão valeu ao presidente americano um coro de críticas. Os dedos apontados ao “trumpismo” não terão reparado que Trump se limitou uma vez mais a dar expressão a tendências com raízes sólidas no establishment político norte-americano.

Carlos Santos Pereira