Rainha por um dia

Rainha por um dia

Conta-se que, quando da Restauração de 1640, ter-se ia levantado um problema aos conjurados: o rei escolhido, D. João, 8.º Duque de Bragança, era casado com uma espanhola, D. Luísa de Gusmão.

Nada mais natural. O casamento de um duque, para mais do ducado mais importante das Espanhas, era um assunto de Estado. D. Teodósio II, 7.º Duque de Bragança, pai de D. João, havia casado com D. Ana de Velasco e Girón, filha do duque de Frias; e Filipe IV (III de Portugal) tratou de casar o novo Duque de Bragança com Luisa Maria Francisca de Guzmán, filha do Duque de Medina Sidónia, um dos Grandes de Espanha.

Para onde iriam as inclinações da duquesa? Presumivelmente, para Espanha; mas não foi assim que aconteceu. D. Luísa optou pela sua Pátria de adoção e lançou uma daquelas frases que ficam para a História: mais vale rainha por um dia que duquesa toda a vida.

Semelhante tirada só a de Teodora, antiga atriz tornada esposa do Imperador Justiniano de Constantinopla. Quando foi proposto que a corte fugisse do palácio, em riscos de ser invadido pela turba em fúria, a imperatriz Teodora teria dito algo como “de púrpura se faz uma fina mortalha”. E ficaram todos – até por vergonha.

Pois na nossa Península, parecemos ter voltado a 1640, com a Revolta dos Segadores dum lado e a Restauração Portuguesa do outro.

Carles Puigemont foi presidente da Catalunha por um dia. Pode ter-se inspirado em Luísa de Gusmão, mas não em Teodora, uma vez que seguiu de imediato para a Bélgica (talvez ainda a considere como uma ex-colónia da Espanha), acompanhado apenas por alguns colaboradores próximos.

Ora a Bélgica tem duas facetas: é o centro da União Europeia, e capital de um país.

Acontece que Jean-Claude Juncker, entre outras coisas, disse que a Espanha não oprimia a Catalunha, pelo que não se aplicava o direito de ingerência; pelo que Puigemont nada deve esperar das instâncias europeias sobre um assunto interno de Espanha.

Quanto à Bélgica, já tem com que se preocupar com as questões linguísticas e culturais que a tornam um país no limite da secessão. Acolher um secessionista não deve ser uma prioridade para os belgas.

Puigemont viajou legalmente, como cidadão comunitário. Não se vê razão para ter acesso ao estatuto de refugiado político, como se chegou a dizer. Se ao menos tivesse chegado à praia de Ostende numa patera desconjuntada, seria caso para reconsiderar…

Não mostrou vocação para mártir, nem mesmo tendo a certeza de não ser martirizado. Decerto que foi presidente por um dia, mas como será o resto da vida?

Sabemos todos que Mariano Rajoy é adversário das autonomias; se pudesse, reverteria o estatuto da País Basco. A sua intransigência está na origem da presente crise, de que ele estará talvez convencido que é o grande vencedor.

Acontece que a Democracia é uma arma de dois gumes. Ao anunciar – e bem! – a realização de eleições (embora num prazo muito curto), Rajoy declarou sujeitar-se ao veredito popular.

Qual será o resultado? Ninguém irá esquecer a quota de responsabilidade do atual Primeiro Ministro – os catalães e os outros. Como escrevi há poucos dias, é provável que os independentistas percam, mas isso não quer dizer que os autonomistas não ganhem. E autonomistas há-os por toda a Espanha.

Assim, a vitória de Rajoy pode ter sido um sucesso tático, mas uma derrota estratégica. O que acontece frequentemente aos aprendizes de Napoleão…

Finalizando, os portugueses continuam arredados de nuestros hermanos num aspeto essencial: a cultura. Decerto vamos às tiendas, a Torremolinos ou a Madrid. Mas não conhecemos a sua escala de valores.

E, neste século XX, as duas mais célebres figuras da Literatura espanhola voltam a defrontar-se. De um lado D. Quixote, o idealista, desinserido das realidades, apaixonado por Dulcineia, quer ela exista ou não; por outro, Sancho Pança, sempre à coca de uma boa comezaina, resumindo a sua sabedoria à citação de provérbios, pragmático por natureza.

Rajoy & Companhia apostaram em Sancho Pança. Saíram da Catalunha 1.800m empresas, muitas delas com sonantes nomes catalães, símbolos do sucesso do Condado de Barcelona. Ficaram os Dons Quijotes, abraçados às bandeiras.

Fim da festa? Nem pensar! Como escreveu Descartes, “o Coração tem razões que a Razão desconhece” (com um pedido de desculpa ao Prof. António Damásio). A Sancho Pança pode faltar o grão de loucura, mas não falta aquele mínimo de discernimento que o leva a desconfiar dos DDT (Donos Disto Tudo). Como o Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, para fazer o paralelismo rural.

As eleições aí vêm, mesmo com muito pouco tempo de preparação. E se, em Madrid, há um grande monumento dedicado a Cervantes, na sua base estão D. Quixote e Sancho Pança – amigos para a vida.

Nuno Santa Clara