Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

“É preciso descolonizar Portugal”. A frase, apresentada a seco, não passa de uma tirada (estirada) bombástica de alguém, político, académico, jornalista ou espontâneo a fazer pela vida. Equivale a dizer é preciso regar Portugal, ou desratizar Portugal. Lembra os slogans de alguns cartazes para a campanha das autarquias, mas não saiu estampada num muro a animar um lusitano rosto de homem ou mulher decidido ou decidida a fazer progredir o seu concelho, ou freguesia.

No entanto, estava impressa como título no Diário de Notícias de 13 de junho (Dia de Santo António), um jornal nacional, foi escolhida por uma grande repórter da publicação, Fernanda Câncio, para resumir uma entrevista a alguém que se presume (presumia) ter arcaboiço político e académico para atirar Portugal ao chão da vergonha da descolonização. Esta tarefa, que apesar de o país não ser muito grande, ainda assim era de tomo, coube a Cristina Roldão, apresentada como investigadora do ISCTE, designada por afrodescendente, que discorreu sobre o que denominou de “racismo institucional” e cujas consequências no percurso dos alunos negros estudou com um colega num trabalho pioneiro e no qual se conclui que a escola portuguesa discrimina os estudantes negros, mais vezes chumbados e encaminhados para cursos profissionais do que os colegas brancos. Conclusão da investigadora e da jornalista: Portugal está colonizado e necessita de ser descolonizado!

Não se percebe porque o estudo é pioneiro, trata-se de uma conclusão empírica, do mais rasteiro lugar comum nas conversas de salas de espera e nos táxis. Para afirmar estas ideias não é necessário investigar, basta viajar nos comboios suburbanos. Pelos vistos há sempre um limite além do que julgamos ser o vazio. O zero do pensamento, neste caso sociológico, pode ser mais profundo que zero absoluto da física!

A entrevistadora e a entrevistada andam no mundo de cabeça para baixo e só não andarão de olhos fechados porque lá se vão safando vendendo pechisbeque por ouro de lei! Investigar é outra coisa. Começa por ser questionar os fundamentos do que julgamos serem certezas. As situações que apresentam, mesmo considerando provados os limitados destinos académicos e profissionais dos alunos designados por “afrodescendentes” com grande ligeireza e muito pouco rigor (o que é um afrodescendente?), não se devem ao facto de Portugal ser um país colonizado e a necessitar de ser descolonizado, mas sim ao fenómeno que ocorreu com as independências das colónias em 1974/75. Foi delas que vieram os antepassados destes alunos, fugidos da guerra, da incerteza e, em última instância, optando para se acolherem no país colonizador, à sua cultura e soberania, em vez dos riscos de e integrar a aventura de construir um novo estado. Esta é a situação de facto. O colonizador recebeu alguns dos que integrara e que se quiseram integrar, designados por assimilados e em francês por evoluées. Mas o título é revelador da pasta gelatinosa a que assuntos complexos são reduzidos nas universidades e na comunicação social, reduzindo-os a slogans e a frases feitas. O título é, como tantos, um revelador do esplendor do lugar-comum jornalístico e académico e da recusa dos seus agentes de pensar e de ajudar os leitores a entender o que se passou e o que se passa. E que se passa não se deve nem à colonização, nem se resolve com qualquer coisa desconhecida e a que a autora da entrevista titulou como descolonização por motivos que guardou para si, que são do seu alvedrio.

Portugal precisa de ser descolonizado. Afirmam as autoras. Porquê, já agora? Portugal, como todos os estados do planeta, é fruto de colonização, de sucessivas colonizações, como sabe alguém que tenha lido a sua história. Por isso, ser descolonizado era não só ser despido, mas desestruturado. É isso que as autoras pretendem? A nossa história é a de fruto de colonizações e de agente colonizador, como a da maioria dos países. Se as autoras, a jornalista e a investigadora, tivessem reparado (pensado), o caso que relatam de percursos académicos, de desajustamentos culturais e até de choques culturais, é um caso típico e vulgar de colonização: duas culturas confrontam as grelhas de interpretação do mundo. Os ditos “afrodescendentes” transportam consigo memórias das culturas de origem que conflituam com as práticas dos indígenas há mais tempo estabelecidos no território português, os que chamaríamos de “euroresidentes”. Este tipo de relacionamento não ocorreu nem à investigadora, nem à jornalista. A questão quente, o pãozinho que vende, é feita de racismo! Esse é o tema que aguça o apetite.

Enfim, a lógica do artigo é mais a de apelar ao instinto do que à reflexão. A estratégia dominante na comunicação social, com os bons resultados que se conhecem. Também não lhes ocorreu que nenhum país, Portugal incluído, necessita de ser descolonizado, mais, que nem sequer o pode ser! A colonização é a matéria-prima das identidades dos povos, das suas sociedades, das suas organizações políticas, económicas, sociais.

A entrevista trata de uma questão de destinos académicos e profissionais de grupos sociais minoritários. Neste caso de grupos com origem em famílias oriundas das antigas colónias portugueses de África.

Na realidade, não existe nenhum fenómeno social e histórico de descolonização. Não se pode desfazer o que não existiu. Hei-de voltar ao tema da descolonização impossível e da ligeireza como se abordam temas para satisfazer preconceitos. Os fenómenos da colonização e do colonialismo, do racismo e do confronto de culturas merecem mais do que uns artigos preconceituosos e umas ideias agitadas com um espanador de pó.

Carlos Matos Gomes, 28 de Aosto de 2017

Link da entrevista:  http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html