Lo dia de los muertos

Lo dia de los muertos

No México, e em outros países da América Central, existe uma comemoração sui generis. Trata-se do Dia de los Muertos, que pouco ou nada tem a ver com o nosso Dia de Finados. Essas comemorações dos mortos, com origem nos ritos pagãos dos aztecas, maias e outros povos, inicialmente feitas nos meses de Julho e Agosto, têm para nós uma estranha miscelânea de defuntos e vivos.

A cristianização da América Central (nem sempre pacífica) acabou por assimilar esse culto dos mortos ao Dia dos Fiéis Defuntos, celebrado a 2 de Novembro no calendário litúrgico. Tirando a data (três a quatro meses de diferença) este fenómeno não é muito diferente de outros em que a Igreja Cristã, na impossibilidade de apagar por completo as tradições pagãs, recuperou-as e integrou-as no seu próprio calendário. Assim foi com os Santos Populares, associados ao solstício de verão, ou mesmo o Natal, que ocorre por alturas do solstício de inverno.

Algo semelhante com a continuidade dos locais de culto: há em Portugal pelo menos duas antas transformadas em capelas, e muitas ermidas estão situadas em sítios de cultos ancestrais. Não confundir com as mesquitas adaptadas a igrejas, que são espaços criados por duas religiões monoteístas, oriundas do mesmo espaço geográfico e comungando de culturas próximas.

As comemorações do Dia de los Muertos decorrem de 31 de Outubro a 2 de Novembro, e representam um ponto alto na sociedade mexicana. Come-se, bebe-se, dança-se nas ruas e nos cemitérios; os esqueletos são as figuras mais vistas, e tudo decorre dentro do espírito ancestral da convivência entre vivos e mortos. Não com assombrações e almas do outro mundo, mas em festejos e comezainas. Os mortos vêm visitar os vivos, e estes prestam-lhes as suas homenagens.

Talvez nos pareça muito estranho, mas é naturalíssimo para aquelas gentes. A abordagem que têm da Morte é diferente da nossa. Basta lembrar a frase célebre de alguém com peso mediático no nosso País: estar vivo é o contrário de estar morto. Para os mesoamericanos, as fronteiras são mais ténues.

Nesta época de globalização, não seria de estranhar que este hábito aparentemente macabro se espalhasse para fora da América Central. Foi assim que o Halloween (o Dia das Bruxas) entrou nas nossas casas e ruas, destronando o Pão Por Deus, esse sim, com fundas tradições culturais e religiosas neste reino tradicionalmente dedicado a outros valores.

Parece a tal influência já vai aparecendo. A ideia de fazer um banquete no Panteão Nacional parece ir nesse sentido. Numa saudável convivência, as ossadas de alguns dos nossos mais ilustres antepassados assistiram ao ágape, embora sem tomar parte nele, como fariam os seus equivalentes mesoamericanos.

Julgo ociosa a discussão sobre quem tem a culpa da patuscada em tal local, o que para quem tem um mínimo de bom senso é no mínimo irreverente. A ideia mestra desta iniciativa é rentabilizar o Panteão, como os Jerónimos ou o Convento de Cristo, e que alguém achou ter algum mérito. Dentro desta linha, não sei porque não se fizeram já concertos de rock dentro da Grande Pirâmide, rave parties em cemitérios, ou esfrega-esfrega em igrejas.

A lógica é simples: se as verbas para a Cultura são escassas, há que encontrar soluções; e o neoliberalismo tem razões que a sensibilidade desconhece.

De modo que podemos esperar que, num futuro não muito longínquo, as câmaras municipais venham a promover atividades recreativas nos seus cemitérios, invocando o precedente do Panteão e a inspiração mexicana, e que os crematórios, nas horas mortas (não é trocadilho) possam vir a rentabilizar os seus espaços; na mesma onda, o Monumento aos Combatentes poderá servir de pista de skate, e a Basílica de Fátima para desportos radicais.

Quanto aos nossos mais ilustres antepassados, não serão mais do que uma atração marginal na rentabilização dos espaços públicos, decorando-se urnas, estátuas e memoriais de acordo com o tipo de festa.

Nuno Santa Clara, 13 de Novembro de 2017