Coerências

Coerências

As embrulhadas da situação na Catalunha, abundantemente divulgadas em direto nas Televisões de todo o Mundo, revelaram algo de insólito nesta Europa que se pensava estável, sensata e instituída.

Decerto que está na memória de todos o que se passou nos Balcãs após a implosão da Jugoslávia: guerra civil, genocídio, crimes de guerra e, a culminar, a consagração do direito de ingerência de terceiros países ou de organizações internacionais, em nome dos Direitos Humanos.

Como de costume, remeteu-se tudo isso, muito vitorianamente, para áreas remotas, habitadas por gente sem vivência democrática. Esquecendo que se tratava da Europa Central, e não de franjas do Continente Europeu, e muito menos do Terceiro Mundo.

Surgem agora os tumultos da Catalunha, em que houve já quem invocasse o tal direito de ingerência, embora amenizado sob a forma de uma mediação, felizmente rejeitada por ambas as partes.

Que descalabro! Só faltou pedir capacetes azuis para patrulhar as Ramblas!

Mas afinal, onde estamos nós? Vladimir Putin, o lobo em pele de raposa, foi dizendo que na Federação Russa, há muitas Catalunhas – e deve ter razão. A CE agarrou-se à legalidade constitucional – e não podia fazer outra coisa. Donald Trump apoiou “uma Espanha forte”, sem se lembrar (ou porque nunca soube, ou se sabia ainda é pior) que soa algo como a Espanha “Una, Grande y Libre” do franquismo.

A Catalunha teve a sua origem nas Marcas de Carlos Magno, que instituiu, na dependência dos “marqueses” (daí o título) vários condados aquém Pirinéus: Paillards, Ribagorce, Urgel, Cerdanha, Gerona, Ausona, Besalú, Empúrias… e Barcelona. O tempo e a virtú (no conceito de Maquiavel) encarregaram-se de estabelecer o primado de Barcelona sobre os outros condados. Posteriormente o domínio do condado estendeu-se até Carcassonne e Béziers, bem dentro da França atual, o que ainda hoje tem alguma importância, como veremos.

A Reconquista levou à criação do reino de Aragão, do qual a Catalunha fazia parte: o rei de Aragão era também Conde de Barcelona, em pé de igualdade. Este reino, com o qual Portugal teve relações privilegiadas até à união com o reino de Castela, sob os Reis Católicos, chegou a dominar Valência, as Baleares, a Córsega, a Sardenha e o reino de Nápoles, incluindo a Sicília.

A junção dos reinos de Aragão e Castela foi nefasta para os Catalães, que perderam proeminência face ao endémico centralismo de Castela. As coisas complicaram-se com a estranha herança de Carlos V (I de Espanha), deixando ao seu filho Filipe II os Países Baixos, o que levou à chamada Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), até ao abandono dessas províncias pelos (agora) espanhóis, o que ocorreu ao mesmo ano que o fim da Guerra dos Trinta Anos.

Para essa guerra, foram pedidos contingentes portugueses e catalães, o que resultou, em 1640, nas revoltas dos respetivos povos. A da Catalunha fracassou, mas a de Portugal resultou.

A Guerra de Sucessão de Espanha (1701-1714) tornou a trazer a Catalunha à baila, já que Barcelona resistiu às tropas de Filipe V até ao fim, com represálias cuja recordação ainda perdura.

A liberalização da Espanha após as Invasões Francesas levou a um surto de progresso na Catalunha, de que o urbanismo de Barcelona é a melhor mostra.

Mas o fim da Guerra Civil (1936-1939), com a vitória dos nacionalistas de Franco, veio repor o centralismo castelhano, oposto ao liberalismo regionalista catalão. Já no último quartel do século XX, a democratização da Espanha atenuou as queixas, mas alguma coisa ficou na memória coletiva.

Em paralelo, o País basco, baseado em razões algo semelhantes, quase mergulhou numa guerra civil, com centenas de mortos, a tiro ou à bomba, incluindo o imposto revolucionário, a repressão e ações pouco legais do governo central.

Só que houve o bom senso de atribuir ao País Basco aquele quantum de autonomia que, num mundo globalizado, era e é o melhor antídoto para as independências pouco viáveis.

Não se fez o mesmo na Catalunha, com o resultado que se vê.

E aqui entra o conceito de coerência. Se o País Basco obteve autonomia q.b., a ponto de ser hoje uma terra pacata e ordeira, porque não a Catalunha?

Ambos têm uma língua, uma cultura, uma história que os habilita à afirmação nacional. Só não o farão se, serenamente e refletidamente, acordarem a integração num conjunto político mais vasto. Como as colónias americanas, os cantões suíços ou as províncias holandesas aceitaram constituir-se num estado único.

Se a diferença está na metodologia utilizada, a conclusão é terrificante: isto só vai à bomba. Logo, os irredutíveis catalães estariam justificados, se passarem à fase do terrorismo.

Não chegaremos lá, mas haverá decerto muitas cabeças partidas, em ambos os lados. E porquê?

A Catalunha contava em 2012 com 7.570.908 habitantes, dos quais 1.443.480 vindos de outras regiões de Espanha e 1.342.271 de outros países, nomeadamente da Europa e América Latina. Ou seja, 36,8% não são catalães. Se juntarmos a estes os não-independentistas, decerto teríamos uma maioria que preferia continuar espanhola.

Afinal, quem tem medo do Lobo Mau, ou seja, das urnas?

Portanto, o que parece estar em causa não é o resultado, é o princípio. O Governo de Madrid não tem medo do resultado (ou não devia ter): tem medo da participação popular, dando assim trunfos aos minoritários independentistas.

Faz lembrar o “Portugal e o Futuro”, de António de Spínola, onde se dizia que “não se delimitam países como se delimitam coutadas”…

Entretanto, assiste-se a uma fuga maciça de empresas e capitais para fora da Catalunha, com as naturais consequências para a região. É que se pode ter o coração de um lado, mas a carteira está do outro… Para os independentistas, é um rude golpe, como que uma antecipação das dificuldades que a separação acarretaria.

Tudo porque o debate não se fez pelos prós e contras, mas pelos sentimentos. Tal como aconteceu com o BREXIT, que deveria ter servido de exemplo.

E agora, dentro da invocada coerência, o que farão a CE, os EUA e outros quando a Escócia fizer um referendo sobre a independência, como parece provável?

Seria ocioso falar do Curdistão, que é metido e tirado da cartola ao sabor das circunstâncias, ou das Catalunhas de Vladimir Putin. Ou do problema das regiões da Cerdanha e do Rossilhão, onde se fala catalão, mas estão situadas em França…

Ou seja, coerências há muitas. Cada um escolha a sua.

Quanto a Portugal, não resisto a parafrasear um, político brasileiro, sobre a Guerra das Malvinas: se a Argentina ganhar, é uma vitória da América Latina, e é bom para o Brasil; se perder, é uma derrota da Argentina, e é ótimo para o Brasil.

Deste modo, se a Catalunha se mantiver integrada na Espanha, é uma vitória da Comunidade Europeia, e é bom para Portugal; se a Catalunha se tornar independente, enfraquece a Espanha, e é bom para Portugal…

Nuno Santa Clara

Análise política e conversa de comadres

Análise política e conversa de comadres

A análise política devia ser uma ferramenta de análise de conteúdos e usada com a metodologia das ciências exatas. As análises políticas deveriam ser formuladas de forma metódica, evitando dados não-verificáveis, como intenções e palpites, o oposto de uma “Conversa de comadres à espera da morte”, um conto que li há uns tempos, em que um grupo de vizinhas murmura em ziguezague à volta da cama de uma outra que está a morrer.

As comadres falam sobre o passado da pobre mulher, rezam-lhe pela alma e pelos pecados reais e inventados, julgam-lhe as virtudes e as maldades, incluindo a recusa de morrer mais rápido, sugerem modos de dividir os bens, as ambições dos parentes, criticam as futuras cerimónias do enterro, descrevem o além, onde a sua alma se instalará, coçam-se, sussurram entre as falhas dos dentes… à espera da morte.

Os analistas políticos inventam intenções para as julgar, convocam a história, a psicologia e até os astros para obter resultados preestabelecidos, confundem economia doméstica com especulação bolsista, moral com racionalidade, força com repressão, perversidade com fina inteligência, teimosia com respeito pelos usos e costumes, meteorologia com punições dos deuses, analisam com o mesmo à vontade eleições, incêndios e inundações, relações internacionais e ensino pré-escolar, desporto e armamento. A frase mais reveladora da ausência de rigor na análise é a de que um dado actor político “apostou” numa determinada ação. O descaramento dos painéis de analistas reduz-se à aposta num dado cavalo, como nas corridas. Os analistas, em vez de, como as comadres do conto, esperarem a morte na má-língua, esperam que a audiência lhes preste atenção. Nos tempos iniciais da revolução existia um só educador do povo, Arnaldo de Matos, agora multiplicaram-se e surgem em rebanho ou em matilha.

A análise política devia descodificar o discurso político, em vez disso confunde-se com ele. Na mixórdia que nos é vendida como análise política, ou as conclusões não dependem dos dados do problema, ou os dados do problema são escolhidos para produzirem o resultado desejado. O cliente manda, neste caso o patrão que avençou os analistas. Toda esta mistificação, porque é de mistificação que se trata, surge embrulhada numa linguagem pretensamente científica, um “politiquês” que pretende fazer dos ouvintes crentes de abanar a cabeça e murmurar amens, como os fiéis das antigas missas em latim.

A análise política é uma actividade intelectualmente muito complexa? Não. Bastava que fosse, em primeiro lugar, um honesto exercício de lógica: Determinadas causas produzem determinados efeitos; e que fosse, em segundo lugar, um estudo objectivo de relações de força, aquilo que os estados-maiores militares designam por “análise do potencial relativo de combate”. De que forças dispõem os contendores? Em que condições (situação) vão travar os confrontos? Quem se encontra no terreno mais favorável? O que pretende cada uma das partes? O que propõe atingir? Quem é o seu inimigo principal? Quem são os seus aliados?

O resultado da análise política devia apresentar uma comparação de vantagens e inconvenientes, terminando com uma previsão objectiva de resultados. O analista político não é um juiz, nem um apostador, nem uma comadre, nem um Marques Mendes ou um Gomes Ferreira, os paradigmas da venda de banha de cobra como análise e comentário político, diria um cínico local. Devia ser alguém dotado de pensamento lógico, capaz de colocar um problema em equação e de ter, não só um saber estruturado, mas uma ética.

Experimentem aplicar estes fundamentos da análise política ao processo de decisão que levou Puigdemont a lançar-se no salto sem rede da aventura da proposta de independência da Catalunha, ou das twitadelas inconsequentes de Trump na Casa Branca sobre a Coreia do Norte, ou o Irão. Apliquem-na também às charlas de tantos “analistas políticos” que se apresentam nos jornais, rádio e TV aqui em Portugal como pirólogos quando há incêndios, comissários de polícia em época de manifestações, teólogos nos dias santos, engenheiros perante um desabamento, médicos, curandeiros, astrólogos, justiceiros de mata e esfola quando a vítima está indefesa. Às vezes tudo ao mesmo tempo.

Cito a frase de um autor certamente tão cético quanto eu e com muito maior sentido de humor: “a análise política é a arte e a ciência de administrar um circo a partir da jaula dos macacos”.

Carlos Matos Gomes, in “Medium” 16 de Outubro de 2017

Polícia Nacional, para quê?

Polícia Nacional, para quê?

Recentemente voltou a agitar-se o fantasma da extinção da GNR e da sua integração na PSP. A Sra Ministra afirmou que ainda não estão reunidas as condições para equacionar a possibilidade da Polícia Única. Que condições? E para quê a criação dessa Polícia? Para satisfazer a sede de poder de alguns? Para destruir uma Instituição que é paradigma da disciplina, disponibilidade, eficiência e fiabilidade?
Diz-se, por vezes, que Portugal é o único país que tem um sistema dual. Para que fique claro, há 15 países na Europa, 21 em África, 6 na Ásia e 3 na América do Sul que têm forças de segurança de natureza militar. Acresce que o único estudo credível e isento feito sobre esta matéria em Portugal, aponta para 3 cenários. Em todos se mantem a GNR independente, com estatuto militar e na dependência do MAI.

Deixemos, de vez, este assunto, porque há outros mais importantes para resolver. Nas Comemorações dos 150 anos do Comando Metropolitano do Porto da PSP o seu Comandante afirmou que se não receber pelo menos 200 elementos, muitas coisas terão que deixar de ser feitas e a Sra Ministra respondeu que está a trabalhar para reforçar a capacidade da PSP. No mesmo dia, soube-se que a GNR tinha restrições nas verbas para combustível e manutenção das viaturas. Reacção imediata e espontânea: reforcem-se as patrulhas a pé. Formas diferentes de encarar o cumprimento da missão!

Senhora Ministra, como explica que a PSP tenha um horário semanal de 36 horas e a GNR de 40, se ambas dependem de si. Porquê esta desigualdade?

A GNR não só trabalha mais, como recebe menos. Apenas três exemplos: os oficiais ingressam no quadro, na PSP no nível 21 do Sistema Retributivo, na GNR no nível 18. O mesmo sucede na categoria de sargento/chefe em que o ingresso na PSP se faz no nível 17 e na GNR no 16. Mas a situação mais gravosa acontece na carreira de guarda/agente, aquela que tem mais efectivos. Um agente da PSP demora 6 anos a atingir o nível 15 e 20 anos para ascender ao 29. Um guarda da GNR necessita de 16 anos para alcançar o nível 14 e de 28 anos para chegar ao 29.

E sobre efectivos, convém relembrar que a PSP desde 1999 se tem mantido estável, rondando os 21.000 elementos. Já a GNR viu-os decrescer de 25.904 para 20.054 e serem-lhe atribuídas novas responsabilidades, o que conduz a que cada vez mais sejam menos a fazer mais trabalho.

Em nome da justiça e da transparência, há que corrigir estas situações.

Reitero a minha confiança e orgulho na PSP e reconheço o profissionalismo e a coragem dos seus elementos. Mas há factos que, pela sua evidência, são difíceis de contestar.

Portugal foi classificado como o 3º país mais pacífico do mundo e o 10º mais seguro. É a prova de que o actual modelo de forças de segurança é eficaz. Há apenas que melhorá-lo. Como? Gerando um sistema retributivo que compense os sacrifícios e perigos com que polícias e militares são confrontados e criando um suplemento de risco; investindo nos recursos materiais essenciais a um bom desempenho operacional; e, finalmente, dotando-os de instalações adequadas para receber todos os que necessitam do seu apoio e que permitam, também, o descanso indispensável, para que, passadas umas horas, voltem ao serviço na posse de todas as faculdades.

Eles merecem! Portugal e os portugueses também! ”

MÁRIO CABRITA, TEN-GEN REF in “Expresso” 07-10-2017

E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

Falando sobre FACTOS…

Os militares têm sobejas razões de queixa pela forma como têm sido abusados e maltratados pelos agentes políticos.
É sabido que a missão maior e última de qualquer Oficial é o exercício do comando e das responsabilidades que lhe são inerentes, o que obriga a uma cultura de integridade moral e pessoal que se apoia na sua maturidade, autonomia e capacidade crítica.
É normal encontrar por isso, no seio da organização militar e como parte do processo de decisão, documentos, traduzindo as posições mais díspares, de acordo com o pensamento e a opinião de quem os produziu. Analisados, ponderados e integrados em escalões hierárquicos sucessivos, suportam a decisão a cada nível de responsabilidade.

Toda a gente conhece a situação do Expresso. Há muito que deixou de ser um jornal de referência e de leitura obrigatória. Por um lado, devido à sua transformação progressiva num órgão de propaganda política e por outro, relacionado com o primeiro, com a perda de qualidade da sua linha editorial no que aliás não se diferencia de boa parte da comunicação social portuguesa
Não é incomum ver o Expresso adoptar práticas que outrora recusava, de pouca aderência à verdade, retirando frases do contexto, utilizando títulos que não traduzem os conteúdos, preferindo o sensacionalismo ao rigor da notícia para melhor se encaixar na matriz de intervenção política que entendeu promover.
Julgará o Expresso que esta é a melhor forma de evitar a falência a que estes mesmos métodos e processos o conduziram, sacrificando o prestígio e o rigor que já foi a sua imagem de marca. O Expresso é que sabe. Adiante…

Podia ter acontecido que tivesse sido cedida ao Expresso alguma informação interna, opinião escrita, análise pessoal ou qualquer outro documento dessa natureza que, tratado sem rigor e de forma tendenciosa, permitisse identificá-lo como aquilo que não é e utilizar o Exército como arma de arremesso partidário.
Se isso tivesse acontecido, significaria que algum Oficial se tinha esquecido do respeito que devia a si próprio, abusado da confiança da Instituição Militar e de quem tivesse produzido o documento, vendendo gato por lebre, sem que o discernimento crítico dos editores do Expresso conseguisse identificar a diferença na ansiedade de bem servir outros interesses.
Mas não aconteceu, porque não é possível, porque nenhum Oficial responsável, mesmo com motivos de agravo graves, seria tão miserável e sem carácter para o fazer e porque nada bate certo no que se conhece deste documento nem sequer do ponto de vista técnico da produção de “Informações Militares”.

Todos os documentos militares com validade interna e externa são assinados, datados, classificados, registados com as referências do assunto e do serviço envolvido e ostentam os carimbos e despachos próprios de quem os analisou e validou. Bastaria a indicação de alguns destes elementos para acreditar o alegado “relatório” a que o Expresso diz ter tido “acesso” sem comprometer nenhuma “fonte”.
Compete ao Expresso provar o que diz, no entanto assistimos a um progressivo recuo da argumentação que não anuncia nada de bom:

  1. Afirma agora que nunca disse que era “Oficial”. Mas se não disse insinuou e todos perceberam perfeitamente o que pretendia;
  2. Diz agora que o alegado “relatório” tem origem numa “Rede de Serviços de Informações Portugueses” onde teria sido partilhado. Que serviços? Que rede? Só pode ser clandestina já que a Lei não a prevê?
  3. Finalmente conclui, uma vez mais contrariando as declarações iniciais, que o alegado “relatório”, não tinha sido enviado à PJ nem ao SIED.

Perante esta trapalhada, deixo as seguintes interrogações aos jornalistas e ao senso comum:

  • Se este documento, não é oficial, se não é das “secretas”, se não é “final” e se em consequência, se trata apenas de um “relatório” apócrifo que alguém decidiu parir numa noite de insónias, qual é o seu interesse jornalístico?
  • Diz o Expresso que não divulga o alegado “relatório” porque contem “informação de segurança nacional, cuja divulgação causaria alarme social e informação policial que identifica suspeitos que não saberão que o são”. Quantas notícias fabricadas, ignorantes, sensacionalistas, conspirativas e sem rigor jornalístico é que têm sido publicadas pelo Expresso e outros jornais sobre o assalto de Tancos? o Expresso foi de repente acometido de uma crise de consciência? ou descobriu uma desculpa esfarrapada para não prestar contas da porcaria que fez?

Tecnicamente, os relatórios militares são despidos de subjectividade e quando incluem análises conclusivas elas dirigem-se ao futuro, para sugerir ou antecipar acções concretas a desenvolver. Não são processos de intenções. Nenhum militar elaboraria um documento de “informações” destes a não ser por ignorância, má fé ou incompetência notória. Não basta fazer colagens de meia dúzia de sites da Internet e registar umas “bocas” ouvidas aqui e ali, para que notícias avulsas tenham qualidade militar.

Fabricação, ou frete político, onde se mistura indevidamente o nome do Exército na busca de uma credibilidade inexistente, só o Expresso poderá dizer.

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

As peripécias a propósito das chamas do incêndio de fervor nacionalista que percorre a Catalunha (mais Barcelona e menos Catalunha), é um espectáculo de fogo de artifício.

Acender a fogueira nacionalista e atirar-lhe petróleo como estão a fazer os líderes da rebelião de Barcelona constituem técnicas clássicas de golpe de estado, técnicas de conquista do poder por parte de um grupo organizado para o tomar. Curzio Malaparte demostrou que o assalto ao poder, que é do que se trata em Barcelona, não tem que ser necessariamente violento, muitas vezes basta um grupo de tipos determinados e sem escrúpulos apoderar-se de certas instituições para as confrontar com o aparelho do Estado, uns demagogos excitarem as massas com os temas que sempre as mobilizam: a liberdade em primeiro lugar. Palavra estandarte de todos os chefes populistas, condimentada com uns excitantes também eficazes de história: Patriotismo e Traição qb! Demagogia e populismo com todas as letras, a que podem juntar-se doses maiores ou menores de provocação e agitação.

O nacionalismo catalão e a atual urticária independentista é muito fácil de explicar: Após o fim da ditadura franquista e do desmantelamento do seu aparelho repressivo, um grupo de senhoritos locais, depois de bem seguro e certo da ausência de perigos materiais e físicos (são de pouca coragem e muito desplante), aproveitou a cómoda situação para se chegar ao poder içando a bandeira do nacionalismo catalão, o que incluiu até a tomada do poder no Barcelona clube de futebol, as manobras que levaram os jogos olímpicos a Barcelona, a imposição de um esquecido dialeto local como língua nacional, entre outras.

Para esse grupo, nacionalismo catalão e independência da Catalunha significa apenas o assalto ao poder e através dele a conquista da maior parcela possível da riqueza da região. Esse grupo entende que, sem perigo nem incómodos, pode acumular riqueza de forma parasitária e na completa impunidade que as imunidades políticas conferem.

É evidente que nenhum grupo de predadores económicos apresenta em público e às claras as suas intenções. Há que conquistar e arrastar as massas. Os argumentos do grupo que quer tomar o poder em Barcelona é um manual clássico de demagogia.

O manual clássico da demagogia é grego, como quase tudo o que é essencial na nossa civilização. Constitui a colecção “Arengas antes da batalha”, que o filósofo grego Onansander, autor de “Estratégia”, reuniu e que inclui discursos Tucídides, de Péricles, de Demóstenes, de Brásidas. O historiador inglês Anthony Burgess estudou-os e concluiu que essas arengas seguem um esquema padrão que inclui uma recordação dos antepassados (recurso à História como justificador da ação presente, com um apelo a que os contemporâneos não desonrem a sua memória); uma comparação de forças em presença e uma chamada vibrante ao patriotismo; a promessa da grande recompensa que espera os vencedores; a garantia de que os presságios são favoráveis; que a morte é gloriosa para os vencedores; que a derrota é uma desgraça; a afirmação de que já venceram estes inimigos antes; que a guerra é justa porque o inimigo é iníquo; que os nossos chefes e os nossos deuses são superiores aos do inimigo.

Esta é a arenga típica de qualquer demagogo, onde se incluem os grandes dirigentes que ao longo da história da humanidade mandaram os seus jovens morrer nas guerras para sua glória e riqueza. Dos dirigentes nacionalistas de Barcelona aos treinadores de futebol de qualquer campeonato todos fazem os mesmos apelos. Este discurso é ainda o que está na base dos grandes sermões de excitação da fé contra a razão, de que o pregador cristão Paulo de Tarso (São Paulo) é um dos melhores exemplos de demagogia e fanatismo. Na carta aos Coríntios fala da ida à guerra com a certeza da vitória, em ir à guerra ao serviço do senhor, na graça de não só acreditar na vitória, mas de sofrer por ela.

A prova de que a demagogia é eficaz pode ser encontrada na quantidade de crentes nas virtudes da independência da Catalunha, na dos que peregrinam a Fátima, dos que andam pelas ruas com camisolas numeradas nas costas, acompanhadas do nome de um tipo que não conhecem, mas que recebe direitos de imagem por alguém andar com o seu nome estampado no lombo!

As arengas antes da batalha, as cartas de São Paulo, os discursos dos senhoritos da generalitat pertencem ao mundo da demagogia e da manipulação das massas para as colocar ao serviço de um pequeno grupo, de um gangue, ou de um governo. Já deram origem a grandes desgraças…não são nem inocentes, nem desprovidas de riscos.

Num texto escrito noutro local comparei as atitudes dos dirigentes nacionalistas de Barcelona a birras de crianças, que batem o pé e gritam quero, sem cuidarem de prever os efeitos das suas acções, a não ser nas suas contas bancárias.

Alguns apoiantes nacionais do grupo que se prepara para, sem queimar os dedos, tirar as boas castanhas do lume catalão ficaram ofendidos por os ter comparado a infantes sem tino. Entupiram-me o texto com lições de história da Catalunha e descrições de direitos inalienáveis dos povos à autodeterminação; assuntos que nunca pensei confundir com uma golpada. Sim, na Catalunha trata-se apenas de uma golpada de um grupo que quer tomar o poder e locupletar-se com um tesouro. Trata-se da história de um assalto. De mais um.

 

Carlos Matos Gomes, 21 de Setembro de 2017 in Medium

1.ª Conferência novo ciclo – Áreas e Sectores da Vida Nacional – Exploração e integração dos “Saberes de Experiência Feita”

O Núcleo Impulsionador das Conferências da Cooperativa Militar (NICCM), em colaboração com a Associação 25 de Abril, a SEDES, a Frente Cívica irá realizar nos próximos dias 18 e 19 de Setembro na Fundação Gulbenkian, uma 2ª Conferência, de um novo ciclo de conferências. Este Ciclo dará continuidade ao novo ciclo do Projeto de Investigação e Acção “ Portugal no 1º Quartel do Século XXI – Estratégias Rumo ao Futuro”.

Estará em análise a situação da sociedade portuguesa nos últimos meses, com relevância para os últimos acontecimentos relacionados com as Forças Armadas, o problema dos incêndios com a preservação das florestas e a gestão autárquica.

O NICCM pretende que o debate de ideias contribua para uma compreensão e análise sólida do passado recente. Ao mesmo tempo, lança o desafio no sentido de serem dadas respostas a algumas questões que serão abordadas nesta conferência e nos futuros encontros sectoriais.

Estarão presentes figuras bem conhecidas da esfera política, económica e social que contribuirão, com toda a certeza, para o alargamento do conhecimento da sociedade portuguesa nas diversas áreas em debate.

Foram convidados representantes de países estrangeiros para darem o seu contributo no que diz respeito ao serviço militar.Folheto_Int_Ext - CONF.18-19SET2017_Page_1Folheto_Int_Ext - CONF.18-19SET2017_Page_2.jpg