Feitiço contra o feiticeiro

Feitiço contra o feiticeiro
O orgulho de pertencer a um dado estado é considerado depreciativamente. O termo “identitário”, por exemplo é quase equiparado a “fascista” pelo federalismo europeu.
As autoridades europeias, em particular a Comissão, mas também o Parlamento Europeu mantêm uma sistemática acção de descrédito dos Estados-membros.

Percebe-se, em particular para a Comissão, que isso suceda. É uma forma de valorizar os seus poderes, tentando demonstrar aos cidadãos dos estados que estes não actuam suficientemente em seu benefício e que são as instituições comunitárias que, impolutas e generosas, espalham a sua bondade pela Europa. Usando, claro, o dinheiro dos Estados. E quando necessário, qual mãe extremosa, a Comissão põe na ordem os estouvados estados – principalmente os de menor dimensão.

Nada de mais. São comportamentos próprios das burocracias quando, pouco avisados, lhes cedemos poderes excessivos, como é o caso da União Europeia. O rol de actuações que pretendem reduzir a lealdade dos cidadãos aos respectivos estados é grande e diverso: “a Europa das regiões”, os programas transfronteiriços, as sanções aos estados em dificuldade financeira, etc., na sua diversidade têm uma coisa em comum: é a mensagem que os estados, verdadeiramente, não se sabem governar e que portanto é necessário reforçar os poderes dos níveis regionais abaixo do nível estatal e dos poderes europeus acima desse nível, enfraquecendo os estados. A velha e obtusa ideia da Europa forte formada por Estados fracos.

O orgulho de pertencer a um dado estado é considerado depreciativamente. O termo “identitário”, por exemplo é quase equiparado a “fascista” pelo federalismo europeu, como se fosse um crime alguém comungar da identidade do estado a que pertence.

O problema é que o caso da Catalunha está a demonstrar que este tipo de propaganda de depreciação dos estados está a dar resultado, mas está a virar o feitiço contra o feiticeiro. E agora, aqui d’el rei, teme-se que desfazer estados historicamente sedimentados possa levar ao fim da União e talvez ao fim da paz na Europa.

O que é verdade, mas quem semeou os ventos?

João Ferreira do Amaral, 10 de Novembro de 2017, in RR

A cooperação estruturada permanente

A cooperação estruturada permanente
Jura-se a pés juntos que não irá existir um exército europeu. Mas, através da subordinação dos interesses nacionais aos colectivos e da especialização, torna-se inevitável a criação a prazo desse exército.
A maioria dos estados da União Europeia decidiu avançar para a criação de uma cooperação estruturada permanente na área da defesa. Portugal não assinou o respectivo documento de notificação ao Conselho (da União), mas o governo já referiu que irá assinar em 11 de Dezembro a decisão de criação desta cooperação.
A questão que se pode pôr é se o que está previsto para a cooperação e consta da notificação preserva o que é essencial, ou seja, a soberania de Portugal no que respeita à sua defesa. Soberania não significa isolamento, mas sim que a participação numa aliança militar, qualquer que ela seja, não impeça de pôr em primeiro lugar os interesses nacionais neste domínio e que, por outro lado, permita que o País possa por si mesmo assegurar o nível mais básico da sua defesa.
Não basta por isso que o documento garanta que as decisões são tomadas por unanimidade para assegurar que deixa intocável a soberania nacional. É naturalmente importante que as decisões sejam tomadas por unanimidade e que a participação na cooperação seja voluntária, mas não chega. Efectivamente, o próprio documento, no seu ponto 16 no Anexo II, faz subordinar os interesses nacionais aos colectivos no colmatar das deficiências a nível de capacidades. Por outro lado, adopta a ideia, que já vem do Tratado de Lisboa, da especialização das capacidades de defesa. Ambas estas ideias são evidentemente inaceitáveis porque apontam para no futuro se criarem forças armadas europeias, ficando as nossas necessidades de defesa (nomeadamente do território marítimo) completamente esmagadas face aos interesses dos estados dominantes.
A táctica é simples. Como o ambiente político e social da Europa não está para avanços federalistas (ou seja, os que impõem a superioridade dos interesses europeus sobre – o que serão? – os interesses nacionais), jura-se a pés juntos que não irá existir um exército europeu. Mas, através da subordinação dos interesses nacionais aos colectivos e da especialização, torna-se inevitável a criação a prazo desse exército porque se retira aos estados, principalmente aos de menor dimensão, as condições para prosseguirem objectivos nacionais de defesa.

Por isso, do meu ponto de vista, Portugal não deveria aderir. E acenar, tal como se fez com a moeda única, com os milhões de que supostamente a nossa economia irá beneficiar com a participação, francamente, já não pega.

João Ferreira do Amaral, 24 Novembro 2017, in RR

Lo dia de los muertos

Lo dia de los muertos

No México, e em outros países da América Central, existe uma comemoração sui generis. Trata-se do Dia de los Muertos, que pouco ou nada tem a ver com o nosso Dia de Finados. Essas comemorações dos mortos, com origem nos ritos pagãos dos aztecas, maias e outros povos, inicialmente feitas nos meses de Julho e Agosto, têm para nós uma estranha miscelânea de defuntos e vivos.

A cristianização da América Central (nem sempre pacífica) acabou por assimilar esse culto dos mortos ao Dia dos Fiéis Defuntos, celebrado a 2 de Novembro no calendário litúrgico. Tirando a data (três a quatro meses de diferença) este fenómeno não é muito diferente de outros em que a Igreja Cristã, na impossibilidade de apagar por completo as tradições pagãs, recuperou-as e integrou-as no seu próprio calendário. Assim foi com os Santos Populares, associados ao solstício de verão, ou mesmo o Natal, que ocorre por alturas do solstício de inverno.

Algo semelhante com a continuidade dos locais de culto: há em Portugal pelo menos duas antas transformadas em capelas, e muitas ermidas estão situadas em sítios de cultos ancestrais. Não confundir com as mesquitas adaptadas a igrejas, que são espaços criados por duas religiões monoteístas, oriundas do mesmo espaço geográfico e comungando de culturas próximas.

As comemorações do Dia de los Muertos decorrem de 31 de Outubro a 2 de Novembro, e representam um ponto alto na sociedade mexicana. Come-se, bebe-se, dança-se nas ruas e nos cemitérios; os esqueletos são as figuras mais vistas, e tudo decorre dentro do espírito ancestral da convivência entre vivos e mortos. Não com assombrações e almas do outro mundo, mas em festejos e comezainas. Os mortos vêm visitar os vivos, e estes prestam-lhes as suas homenagens.

Talvez nos pareça muito estranho, mas é naturalíssimo para aquelas gentes. A abordagem que têm da Morte é diferente da nossa. Basta lembrar a frase célebre de alguém com peso mediático no nosso País: estar vivo é o contrário de estar morto. Para os mesoamericanos, as fronteiras são mais ténues.

Nesta época de globalização, não seria de estranhar que este hábito aparentemente macabro se espalhasse para fora da América Central. Foi assim que o Halloween (o Dia das Bruxas) entrou nas nossas casas e ruas, destronando o Pão Por Deus, esse sim, com fundas tradições culturais e religiosas neste reino tradicionalmente dedicado a outros valores.

Parece a tal influência já vai aparecendo. A ideia de fazer um banquete no Panteão Nacional parece ir nesse sentido. Numa saudável convivência, as ossadas de alguns dos nossos mais ilustres antepassados assistiram ao ágape, embora sem tomar parte nele, como fariam os seus equivalentes mesoamericanos.

Julgo ociosa a discussão sobre quem tem a culpa da patuscada em tal local, o que para quem tem um mínimo de bom senso é no mínimo irreverente. A ideia mestra desta iniciativa é rentabilizar o Panteão, como os Jerónimos ou o Convento de Cristo, e que alguém achou ter algum mérito. Dentro desta linha, não sei porque não se fizeram já concertos de rock dentro da Grande Pirâmide, rave parties em cemitérios, ou esfrega-esfrega em igrejas.

A lógica é simples: se as verbas para a Cultura são escassas, há que encontrar soluções; e o neoliberalismo tem razões que a sensibilidade desconhece.

De modo que podemos esperar que, num futuro não muito longínquo, as câmaras municipais venham a promover atividades recreativas nos seus cemitérios, invocando o precedente do Panteão e a inspiração mexicana, e que os crematórios, nas horas mortas (não é trocadilho) possam vir a rentabilizar os seus espaços; na mesma onda, o Monumento aos Combatentes poderá servir de pista de skate, e a Basílica de Fátima para desportos radicais.

Quanto aos nossos mais ilustres antepassados, não serão mais do que uma atração marginal na rentabilização dos espaços públicos, decorando-se urnas, estátuas e memoriais de acordo com o tipo de festa.

Nuno Santa Clara, 13 de Novembro de 2017

A Participação das Forças Armadas no Combate aos Incêndios. Um Debate por Fazer

A Participação das Forças Armadas no Combate aos Incêndios. Um Debate por Fazer

Nas últimas duas décadas, sempre que o país tem ardido, tem sido recorrente discutir-se a participação das Forças Armadas no combate aos incêndios, infelizmente sem consequências. Pouco ou nada se concretizou. No rescaldo dos acontecimentos de 17 de julho e de 15 de outubro, o Governo anunciou que a Força Aérea passará a efetuar a gestão dos meios aéreos a serem empregues no combate aos incêndios.

Por outro lado, a Comissão Independente criada pela Assembleia da República para apurar os factos relativamente aos incêndios sublinhou a necessidade de se reforçar do papel das Forças Armadas no sistema de proteção civil. Salienta ainda o relatório da Comissão que as Forças Armadas, como agentes de proteção civil, não estão devidamente enquadradas nos dispositivos e estão subaproveitadas nas operações de defesa da floresta e de combate aos incêndios rurais.

Não podíamos estar mais de acordo. Contudo, está por definir o modo como se fará esse reforço, qual o modelo a adotar. Estando o tema na ordem do dia há alguns meses, estranha-se que as Forças Armadas não tenham tido a iniciativa de promover essa reflexão.

O modo como o assunto tem sido abordado na Comunicação Social, nomeadamente através das declarações de alguns articulistas, transmite a ideia que com o reforço do papel das Forças Armadas os problemas irão ser todos resolvidos. As forças armadas tornaram-se na formula milagrosa que vai salvar tudo, criando assim na opinião pública uma perceção errada das suas possibilidades. Gostaria de alertar para este perigo.

Em primeiro lugar, há que definir exatamente o que se pretende das Forças Armadas, que missões no âmbito da Proteção Civil lhe irão ser atribuídas. Será um emprego especializado, participando com valências no domínio logístico, médico-sanitário (entre outras), ou uma utilização do tipo de mão-de-obra intensa e não especializada? Esta definição conceptual a montante é crucial. Isso determinará o tipo de treino, o equipamento a adquirir e o orçamento necessário, de modo a evitar alguns embaraços (solas das botas derretidas, etc.), assim como a criação de legislação própria que permita clarificar a sua intervenção em determinados domínios, o que não será consensual entre as diversas forças políticas com assento na Assembleia da República. É preciso inventariar as necessidades e prever um orçamento em função daquilo que se espera que as Forças Armadas venham a fazer.

O reforço do papel e da participação das Forças Armadas na Proteção Civil faz todo o sentido, mas não é uma panaceia. Não solucionará seguramente a falta de aviões anfíbios pesados. Recorda-se que Portugal é dos únicos países europeus que não dispõem desses meios, tendo que recorrer sistematicamente ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Parece que o Governo continua sem planos para colmatar esta grave falha. O que o país precisa é de aviões pesados de combate aos incêndios e não de helicópteros, evitando o inconveniente de pedir às forças aéreas estrangeiras os mesmos meios com que os sucessivos governos recusaram equipar a Força Aérea portuguesa, e assim ter uma capacidade operacional própria.

O debate é urgente e tem de ser informado. A ausência de esclarecimento sobre as reais capacidades das Forças Armadas e o modo correto de as empregar pode, numa situação extrema, transformar as Forças Armadas em meros agentes da proteção civil, pau para toda a obra, em vez de promover uma intervenção especializada, pondo em causa o treino operacional e incapacitando-as de cumprirem as suas missões primárias. E isso não pode acontecer

Carlos Martins Branco, 4 de Novembro de 2017 in semanário Expresso

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, “os dez dias que mudaram o mundo”. E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 – da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista – e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100 .º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal onlineorganizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram “mais mal do que bem” aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A “história milenar” da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da “história milenar” da Rússia. Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 – o que gerou polémica com a Ucrânia. Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada “agente estrangeiro” pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

“A elite russa nacionalizou a memória histórica” – diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. “E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país.”

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. Mas a própria ideia de “revolução” joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. “Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX”, disse Putin.

“Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos” – afirmou. “Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo.” Numa palavra, a Rússia “não necessitava de uma revolução global”.

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 “será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia”, mas lembrando sempre ao mesmo tempo que “somos um só povo e temos apenas uma Rússia”.

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de “respeito” e a “uma análise objetiva e honesta” da “história comum do pais”, mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917

De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras “heroicas” na revolução – nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro – apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade – uma “herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo” – nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. Como diria ainda Figes, “os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono”.

Carlos Santos Pereira, 7 de Novembro de 2017, in DN

O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis perante os dirigentes que declararam a independência da Catalunha é o de os levarem a sério, ou os considerarem uns excêntricos mais ou menos irresponsáveis.

Ou consideravam que Puigdemont e os seus comparsas tinham organizado um carnaval em 1 de outubro, sob a forma de referendo que, além de ilegal, não cumpria regras de seriedade e transparência, nem os resultados eram verificáveis, que haviam realizado um baile de máscaras no parlamento para uma declaração de independência que se assemelhava a uma quarta-feira de cinzas, isto é, ou consideravam Puigdemont e os seus apóstolos uns foliões de uma trupe carnavalesca, ou os consideravam políticos independentistas responsáveis pelos seus atos, credíveis, a sério, que haviam gasto uns milhões de euros dos contribuintes em acções políticas passíveis de serem julgadas.

Ou os enviavam para casa com uma admoestação e o conselho para terem juízo e portarem-se como homenzinhos e mulherzinhas, ou os levavam a julgamento.

Os juízes espanhóis optaram por os levarem sério e por levaram a sério a sua função de juízes, em vez de entraram no corso e se transformarem em jurados de uma farsa em que o farsante mor até foi passear a Bruxelas como se fosse um turco perseguido, ou um paladino da liberdade fugido de camisas negras!

De muitas orações e textos publicados, da recusa dos juízes espanhóis em colaborar no carnaval da escola de samba de Puigdemont, resultou que os sambistas catalães sejam considerados mártires da liberdade, presos e refugiados políticos e que os severos juízes, por não se terem mascarado de compères para a récita, nem lançado confétis, sejam acusados do rol completo de insultos em uso: fascistas, franquistas, espanholistas, filipistas, incendiários ao serviço de Castela! Tipos sem humor, certamente, por, em vez de haverem gozado com a sua função no Carnaval, tocando cornetas e apitos, terem afivelado a máscara séria de uma Paixão. Os seus detratores e os apoiantes do chefe libertador da Catalunha são pessoas divertidas!

Os juízes espanhóis deviam ter umas aulas de pândega e de farsa para julgar o circo da família Pujol, os patrões de Puigdemont, em vez deitarem mão a essas tretas de leis e constituições!

Anseio pelo dia em que o “nosso” Arnaldo de Matos se mascarar de Puigdemont e se apresentar em Bruxelas a reclamar a independência dos proletários portugueses! Até lá, siga a dança.

Carlos Matos Gomes, 3 de Novembro de 2017 in Medium

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

“É preciso descolonizar Portugal”. A frase, apresentada a seco, não passa de uma tirada (estirada) bombástica de alguém, político, académico, jornalista ou espontâneo a fazer pela vida. Equivale a dizer é preciso regar Portugal, ou desratizar Portugal. Lembra os slogans de alguns cartazes para a campanha das autarquias, mas não saiu estampada num muro a animar um lusitano rosto de homem ou mulher decidido ou decidida a fazer progredir o seu concelho, ou freguesia.

No entanto, estava impressa como título no Diário de Notícias de 13 de junho (Dia de Santo António), um jornal nacional, foi escolhida por uma grande repórter da publicação, Fernanda Câncio, para resumir uma entrevista a alguém que se presume (presumia) ter arcaboiço político e académico para atirar Portugal ao chão da vergonha da descolonização. Esta tarefa, que apesar de o país não ser muito grande, ainda assim era de tomo, coube a Cristina Roldão, apresentada como investigadora do ISCTE, designada por afrodescendente, que discorreu sobre o que denominou de “racismo institucional” e cujas consequências no percurso dos alunos negros estudou com um colega num trabalho pioneiro e no qual se conclui que a escola portuguesa discrimina os estudantes negros, mais vezes chumbados e encaminhados para cursos profissionais do que os colegas brancos. Conclusão da investigadora e da jornalista: Portugal está colonizado e necessita de ser descolonizado!

Não se percebe porque o estudo é pioneiro, trata-se de uma conclusão empírica, do mais rasteiro lugar comum nas conversas de salas de espera e nos táxis. Para afirmar estas ideias não é necessário investigar, basta viajar nos comboios suburbanos. Pelos vistos há sempre um limite além do que julgamos ser o vazio. O zero do pensamento, neste caso sociológico, pode ser mais profundo que zero absoluto da física!

A entrevistadora e a entrevistada andam no mundo de cabeça para baixo e só não andarão de olhos fechados porque lá se vão safando vendendo pechisbeque por ouro de lei! Investigar é outra coisa. Começa por ser questionar os fundamentos do que julgamos serem certezas. As situações que apresentam, mesmo considerando provados os limitados destinos académicos e profissionais dos alunos designados por “afrodescendentes” com grande ligeireza e muito pouco rigor (o que é um afrodescendente?), não se devem ao facto de Portugal ser um país colonizado e a necessitar de ser descolonizado, mas sim ao fenómeno que ocorreu com as independências das colónias em 1974/75. Foi delas que vieram os antepassados destes alunos, fugidos da guerra, da incerteza e, em última instância, optando para se acolherem no país colonizador, à sua cultura e soberania, em vez dos riscos de e integrar a aventura de construir um novo estado. Esta é a situação de facto. O colonizador recebeu alguns dos que integrara e que se quiseram integrar, designados por assimilados e em francês por evoluées. Mas o título é revelador da pasta gelatinosa a que assuntos complexos são reduzidos nas universidades e na comunicação social, reduzindo-os a slogans e a frases feitas. O título é, como tantos, um revelador do esplendor do lugar-comum jornalístico e académico e da recusa dos seus agentes de pensar e de ajudar os leitores a entender o que se passou e o que se passa. E que se passa não se deve nem à colonização, nem se resolve com qualquer coisa desconhecida e a que a autora da entrevista titulou como descolonização por motivos que guardou para si, que são do seu alvedrio.

Portugal precisa de ser descolonizado. Afirmam as autoras. Porquê, já agora? Portugal, como todos os estados do planeta, é fruto de colonização, de sucessivas colonizações, como sabe alguém que tenha lido a sua história. Por isso, ser descolonizado era não só ser despido, mas desestruturado. É isso que as autoras pretendem? A nossa história é a de fruto de colonizações e de agente colonizador, como a da maioria dos países. Se as autoras, a jornalista e a investigadora, tivessem reparado (pensado), o caso que relatam de percursos académicos, de desajustamentos culturais e até de choques culturais, é um caso típico e vulgar de colonização: duas culturas confrontam as grelhas de interpretação do mundo. Os ditos “afrodescendentes” transportam consigo memórias das culturas de origem que conflituam com as práticas dos indígenas há mais tempo estabelecidos no território português, os que chamaríamos de “euroresidentes”. Este tipo de relacionamento não ocorreu nem à investigadora, nem à jornalista. A questão quente, o pãozinho que vende, é feita de racismo! Esse é o tema que aguça o apetite.

Enfim, a lógica do artigo é mais a de apelar ao instinto do que à reflexão. A estratégia dominante na comunicação social, com os bons resultados que se conhecem. Também não lhes ocorreu que nenhum país, Portugal incluído, necessita de ser descolonizado, mais, que nem sequer o pode ser! A colonização é a matéria-prima das identidades dos povos, das suas sociedades, das suas organizações políticas, económicas, sociais.

A entrevista trata de uma questão de destinos académicos e profissionais de grupos sociais minoritários. Neste caso de grupos com origem em famílias oriundas das antigas colónias portugueses de África.

Na realidade, não existe nenhum fenómeno social e histórico de descolonização. Não se pode desfazer o que não existiu. Hei-de voltar ao tema da descolonização impossível e da ligeireza como se abordam temas para satisfazer preconceitos. Os fenómenos da colonização e do colonialismo, do racismo e do confronto de culturas merecem mais do que uns artigos preconceituosos e umas ideias agitadas com um espanador de pó.

Carlos Matos Gomes, 28 de Aosto de 2017

Link da entrevista:  http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html