A descolonização é um absurdo

A descolonização é um absurdo

Este é um texto do romancista Carlos Vale Ferraz, porque foi através de um romance do Carlos Vale Ferraz, a “Última Viúva de África” que desenvolvi a ideia do absurdo da descolonização, ou da descolonização como um conceito absurdo. Um absurdo não no sentido de “desagradável ao ouvido”, o seu primeiro significado, mas no sentido de contrário à razão.

O romance desenvolve a reflexão do absurdo como atributo inerente do fenómeno que é habitualmente designado por “movimento descolonizador” de África feita por várias personagens. No início do romance, o narrador, um jovem português, estudante de filosofia na universidade de Lovaina, na Bélgica, fotógrafo por desejo de aventura, confrontado com as notícias e as reportagens dos tumultos que se seguiram à independência do Congo Belga, em 1960, considera como primeira impressão que os europeus andavam por África a extrair o que necessitavam para viverem melhor nas suas terras de origem, aonde regressariam após a campanha, como os pescadores de bacalhau que cumpriam temporadas na Terra Nova. Ou cumpriam penas de degredo longe das suas pátrias. O narrador apoiava as independências porque considerava um anacronismo a exploração direta de África pelos europeus:

Para mim, descolonizar constituía uma prova de inteligência. Não apoiava as independências das colónias por ser um direito dos povos colonizados. Não me converti ao anticolonialismo por ideologia, nem por moral, mas por pragmatismo. Quis conhecer os mercenários do Congo e Jean Scrame, em particular, para perceber porque lutava depois de administrar uma propriedade da qual já havia tirado o proveito que lhe permitia estabelecer-se noutro país, ou regressar à Bélgica.”

O narrador comete aqui a mais vulgar das confusões: refere-se, não à colonização, mas ao colonialismo. É de colonialismo que fala. O Congo Belga, como toda a África a sul do Sara, nunca foi colonizado, com excepção da Colónia do Cabo, onde os ingleses ensaiaram o que viria a ser o seu modelo de administração colonial (indirect rule). O Congo Belga (que começou por ser propriedade pessoal do rei dos belgas) foi sujeito ao fenómeno do colonialismo e o colonialismo foi um sistema de exercício violento de direitos de exploração de matérias-primas instituído e acordado na Conferência de Berlim, em 1885, entre potências europeias, para satisfazer as necessidades dos complexos industriais desenvolvidos com a energia da máquina a vapor. O colonialismo é um fruto da máquina a vapor e da revolução industrial.

Até à II Guerra Mundial foi indispensável as potências europeias assegurarem a exploração direta das matérias-primas, depois, passou a ser mais rentável delegar essa tarefa em agentes locais, as elites indígenas entretanto assimiladas e integradas na cultura e nos processos europeus.

Mas houve, entre os europeus que foram para África executar tarefas de exploração directa, um grupo que, por razões diversas, assumiu aquelas terras como o seu destino final — que afirmaram ser a África, fosse o Congo, Angola, a Rodésia, Moçambique ou o Quénia, a sua pátria! Em Portugal utiliza-se o termo de “cafrealização” para designar esse processo, na Bélgica ele foi designado por “zairização”. O comandante de mercenários designado no romance como Jean Scrame e a portuguesa Alice Vieira, a última viúva de áfrica, pertencem a esse grupo. O narrador descobrirá, contudo, que nem eles — mesmo assumindo a sua nova identidade de africanos brancos — se opõem ao processo de independência das colónias, a um governo de negros, porque percebem que o sistema de administração e exploração delas se mantem, apenas mudaram os executores diretos, que passaram a ser títeres locais nomeados pelos brancos, europeus e americanos. O colonialismo manteve-se enquanto sistema de exploração de riquezas. O “Movimento Descolonizador” foi apenas uma mudança de tripulação num navio que continuou a realizar as mesmas viagens, transportando os mesmos produtos entre os mesmos portos.

Não existiu qualquer movimento descolonizador, que foi e é apenas uma designação utilizada para referir o movimento de transição da administração das colónias dos funcionários das potências europeias para uma elite de funcionários e políticos negros aculturados — ditos “assimilados” ou evolués, que, no essencial, replicam os métodos dos europeus e servem os seus interesses. Em termos políticos não existe qualquer descolonização. Não existe também qualquer libertação.

Mas não existe também descolonização em termos civilizacionais. Colonizar é a instalação de um grupo de uma dada sociedade no território de outra e implica troca de experiências, saberes, valores, relações comerciais e humanas, de forma mais ou menos pacífica ou mais ou menos violenta. Colonizar é sempre uma exportação de bens civilizacionais, da língua à religião. Entre o colonizador e o colonizado estabelece-se uma relação como a de uma gota de tinta que cai num copo de água. A gota de água dissolve-se e não é possível reconstituí-la, retirá-la da água onde se dissolveu. É por isso impossível reverter a colonização, retirar dos povos colonizados o essencial do que os colonizadores levaram e lhes inculcaram.

Nós, os portugueses devíamos conhecer bem a impossibilidade de descolonizar. Fomos colonizados pelos romanos e pelos árabes, mantemos fortes marcas dessa colonização — não fomos descolonizados até hoje. Colonizámos alguns pontos do mundo, e deixámos lá as nossas marcas, como os romanos e os árabes nos tinham deixado. O Brasil, Angola, Moçambique, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé, não foram descolonizados, tornaram-se entidades políticas independentes, estados-nação com bandeira, hino, gravatas de seda ao pescoço dos hierarcas, número de ordem nas Nações Unidas e embaixadores que falam inglês. Tanto o discurso comum da “malvada descolonização”, como da “descolonização possível” são absurdos. O discurso da “entrega” é patológico, com origem na exacerbação de sentimentos que bloqueiam o raciocínio.

As antigas colónias europeias de África não se descolonizaram, não reverteram as instituições de governo introduzidas pelas potências coloniais, retomando as suas tradições do tempo antes da chegada dos colonizadores europeus. Pelo contrário, os dirigentes dos movimentos independentistas, do movimento descolonizador do pós II Guerra, foram particularmente violentos na aniquilação das autoridades tradicionais e dos costumes ancestrais — quase sempre com o aplauso dos antigos colonizadores e das suas instituições, com relevo para a ONU e as suas agências, que os elogiaram pela luta anti-tribalista, tomada como uma acção de modernidade.

O movimento descolonizador dos pós-II guerra é um gigantesco embuste. A descolonização de África foi, de facto, a adopção pelos africanos da “ordem” do colonialismo — constituição de estados-nação com os mesmos princípios dos estados-nação que instituíram o colonialismo, imposição dos seus sistemas políticos e jurídicos, das suas línguas, até dos seus deuses e, principalmente, das suas armas, do canhangulo à AK, do jipe ao Mirage. Não existiu qualquer libertação de África, a África política e a África dos povos está sujeita às mesmas regras e normas dos países que enviaram os seus exploradores ao continente africano no século XIX e que o dividiram em Berlim.

O facto de não ter existido nem descolonização, nem libertação de África não é nem bom nem mau — não existiu Mal, nem Bem, nem desastrosa descolonização, nem criminosa entrega, nem falsa libertação, houve sim uma realidade: a imposição por parte das antigas e novas potências coloniais de uma nova grelha de domínio de África, de uma grelha que facilita a relação e a exploração, pois quer uma quer outra se realizam segundo a regra dominante. O resto, o que subsiste da antiga África antes do colonialismo, das danças às mezinhas dos feiticeiros é folclore que serve de atração turística.

Resta uma pergunta que Alice, A Última Viúva de África e Scrame, o último dos grandes comandantes de mercenários, colocam: Porque não podem e não puderam eles e os europeus manter-se em África como africanos brancos? Porque não pode ser a África uma pátria de brancos, como foram e são as Américas?

O romance ensaia uma resposta. A ficção é mais adequada a abordar questões difíceis que a análise política e histórica…

Carlos Vale Ferraz in Medium

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O título do texto é deliberadamente confuso, para corresponder ao assunto: Um senhor de nome Pedro Schacht Pereira (PSP), apresentado como “Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa, nos EUA”, perplexo, segundo ele, com as declarações do Presidente da República numa visita a Gorée, o antigo entreposto de escravos no Senegal, escreveu um postindignado no FB. As reações levaram-no a publicar uma carta aberta “Regresso a Gorée — Não em nosso nome”, que o DN publicou a 19 de Abril de 2017, com entrevista ao autor por Fernanda Câncio.

Comentando que “a história que se dá na escola sobre o esclavagismo português ainda é a mesma que se dava no Estado Novo; fiz o liceu depois do 25 de Abril e não me lembro de se ter sequer falado do assunto, para além da declaração de que ‘Portugal aboliu a escravatura em 1761’”, Schacht ficou ainda assim “boquiaberto” com as afirmações do PR: “Pus-me a pensar na quantidade de trabalho que temos pela frente.” E, ofendido, como se percebe no longo post que escreveu no FB, no qual comenta: “Não é desmentir o Presidente, por lamentável que seja essa necessidade, aquilo que está ou deveria estar em causa. O que está em causa é que a obstinação em não reconhecer a responsabilidade nacional na história nacional implica uma admissão involuntária de culpa não resolvida, como uma desonra familiar que se esconde dos hóspedes. E, concomitantemente, a infantilização dos cidadãos, como se elas/eles não tivessem capacidade de receber em herança a sua história, e de, como dizia Sophia, “livres habitarmos a substância do tempo”. Palavras de PSP.

As respostas ao post, com várias pessoas a pedir que o tornasse público para ser partilhado, levaram-no a formular a hipótese de escrever uma carta e a decisão de avançar com a dita.

O que me levou (Carlos Matos Gomes) a escrever este texto foi a interrogação: Como é que um cidadão tão impreparado para abordar o processo histórico e, por isso, os fenómenos históricos, incluindo neste particular a escravatura (ele abordará também e do mesmo modo confuso e empírico o colonialismo e a colonização) consegue o feito notável de ser entrevistado duas vezes por uma jornalista vedeta do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, uma a 19 de Abril sobre escravatura e pedido de perdão de Portugal e outra a 27 de Agosto centrada no racismo. (Sobre o tema do racismo Fernanda Câncio entrevistaria as autoras de um trabalho sobre o racismo na escola no DN de 13 de Junho com o título: É preciso descolonizar Portugal.) Consegue ainda Pedro Schacht Pereira portas abertas para publicar um artigo no Público em 25 de Agosto, sobre a questão da “Lusofonia”, levantada numa entrevista do ministro da Cultura a João Céu e Silva, do DN. Neste último artigo escreve PSP naquilo que é, para mim (CMG), um patuá vazio de sentido, a fazer de conta que se trata de uma sofisticada linguagem científica: “no decurso da entrevista (o ministro) produz afirmações que, se evidenciam uma frontalidade inusual no discurso oficial sobre a vexata quaestio do legado do colonialismo português, também rapidamente se enredam numa ambivalência desconcertante, e que a economia discursiva imposta pelo formato de uma entrevista jornalística destinada a um público amplo e heterogéneo não permite infelizmente dissolver. Assim sendo, e dada a surpreendente carência de perguntas complementares que permitissem ao entrevistado elaborar raciocínios meramente sugeridos, a ambivalência das declarações de Castro Mendes acaba por não se distinguir da ambivalência que caracteriza os discursos excepcionalistas inspiradores de muitas formulações da Lusofonia, e que ele pretende rejeitar.”

Os links para as entrevistas e o artigo de PSP seguem no final. O que me interessou nesta intervenção pública de Pedro Schacht Pereira foi então, repito, a facilidade com que um autor de vulgaridades históricas, que não chegam sequer à categoria de vulgata editio ou vulgata versio da Bíblia, pois esta foi a tradução de São Jerónimo para ser simultaneamente mais exata e mais fácil de compreender, enquanto os textos de Schacth Pereira são adulterações que promovem a confusão sobre os temas e os factos da História a que estão associados. Isto com aplauso boquiberto de alguma comunicação social lisboeta.

Pedro Schacht Pereira escreve e fala transmitindo a visão e a moral do homem comum, o que não é nada de indigno, mas para ler aquilo que em linguagem erudita se designa por “sentido universal” e em linguagem popular “filosofia de táxi” ou “de barbeiro” não se percebe tanta publicidade. Ele salta sobre o tempo, o que é a negação do mais elementar do trabalho do historiador, ou reduz o tempo a uma folha, o que pode resultar em boa massa folhada, mas não em boa História. Mas PSP também introduz no seu discurso, como faz o homem comum, o conceito da moral na história e, para agravar a subjectividade e a vulgaridade do seu pensamento, decide o que é Bem e o Mal na história à luz dos conceitos do seu tempo (o presente), da sua cultura de adopção (a americana), das suas normas (ainda em processo de fermentação e falhas de sentido crítico). É o historiador do tipo Deus ex machina, com a energia da inconsciência da sua ignorânciao que tem o valor que cada um lhe quiser atribuir.

É elementar: não existe um Bem em si, mas a interpretação do Bem (cit Nietzsche, A genealogia do mal). Mais: Ninguém define e tem responsabilidade sobre o processo histórico (a não ser os pastores evangélicos, os nacionalistas, incluindo a versão jiadista e os políticos em campanha eleitoral). Pedro Schacht Pereira entende que sim, em vez de historiador arma-se em juiz e exige que os portugueses se declarem culpados de fenómenos que ele nunca consegue delimitar e que confunde, como sejam colonização e colonialismo, escravatura e tráfico negreiro, racismo, diferenças, choques culturais e destinos sociais. A análise dos processos históricos em Pedro Schacht Pereira é um tudo ao molho e fé na ignorância dos interlocutores.

Quando, como faz o tão publicitado autor deste Verão em Portugal, anulamos o tempo na análise de processos históricos, caímos de cabeça no reino do empirismo e da demagogia. O comportamento e o pensamento dos anglosaxões e, em particular, dos seus emigrantes na América, assenta em boa parte no conceito da culpa, da sua denúncia e do pedido de perdão, típicos da ética protestante e da Reforma. A denúncia, tal como a confissão dos católicos romanos, não explica causas, exacerba sentimentos, sejam de piedade, sejam de ódio. É esta conhecida e velha grelha de análise da História (do passado) à luz da moral protestante atual que Pedro Schacht Pereira trouxe aos portugueses leitores do DN e do Público e que, pelos vistos extasiou parte da comunicação social portuguesa.

Já agora, ao contrário do que parece fazer crer o discurso de PSP, nos Estados Unidos não existe consenso sobre as relações de domínio dos vários grupos de invasores da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) poderem ser designadas como colonialismo. Não lhes interessa à construção da sua história! Ele não reparou, porque como cristão novo (adquiriu a nacionalidade americana recentemente) interiorizou acriticamente a verdade oficial dos grupos dominantes no pensamento dos EUA, que a ocupação violenta da costa Leste por colonos ingleses e holandeses, a ocupação violenta do centro da América e do Oeste, com o aniquilamento (genocídio) dos povos indígenas nunca é incluída na categoria de colonialismo, nem nunca é designada por colonialismo? Mas porque se designa por colonialismo a relação dos portugueses com os seus escravos trazidos de África no Brasil? Nos Estados Unidos nunca existiu colonialismo, já no Brasil sim, existiu. Porquê? Para PSP, tal como para o pensamento dominante nos EUA, racismo é a relação conflituosa que existe entre a comunidade de origem africana (o que designa pela fórmula destituída de razoabilidade de afroamericanos) e a comunidade wasp (brancos, anglosaxões e protestantes), nada mais, as relações com as comunidades hispânicas, latinas, asiáticas, nativas, eslavas são apagadas da discussão sobre o racismo. Pura manipulação ideológica por parte dos historiadores e evangelistas americanos de origem inglesa e holandesa. Manipulação que Pedro Schacht Pereira, professor associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na The Ohio State University, difunde através das suas entrevistas e artigos sem contraditório.

Como escreveu Mário de Carvalho, convinha falar destas coisas… (com seriedade)

Nota: não conheço nem Pedro Schacht Pereira, nem Fernanda Câncio. Não tenho qualquer animosidade contra qualquer deles. Respeito o seu trabalho. Entendo que estes temas são importantes para os portugueses estabelecerem consensos sobre o seu passado, ou, pelo menos, para disporem de elementos de reflexão.

Critico e sujeito-me à crítica. Nada mais

Carlos Matos Gomes, 4 de Setembro de 2017 em Medium

Links:

http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

https://www.publico.pt/2017/08/25/mundo/noticia/a-lusofonia-a-ambivalencia-e-as-grelhas-do-ministro-1782621

http://www.dn.pt/portugal/interior/marcelo-lancou-finalmente-o-debate-publico-sobre-a-escravatura-6228783.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/tudo-o-que-remeta-para-a-questao-da-raca-e-tabu-em-portugal-8688869.html

[1] Patuá, com o sentido de conversa fiada, fala-barato

As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!

A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.

Mas, além destes factores da ordem da estratégia, os generais americanos sabem que Afeganistão é historicamente um território dividido por senhoritos da guerra, venais, que servem quem pagar melhor e se aliam a quem lhe parece ter mais possibilidades de vitória. Senhoritos sem fidelidades, nem piedades. É um território de mercenários e, por isso, um excelente viveiro de ratazanas de desestabilização regional. As três grandes potências imperiais têm de estar ali para desestabilizar os seus rivais. Nenhuma delas pode estar fora do Afeganistão.

O idiota do Trump não sabe história, nem geografia, nem viu filmes de cobóis e comprou a ideia do neo-isolacionismo para fazer a América grande! Os generais e a máquina de guerra já lhe colocaram a coleira, a trela e o açaimo através do golpe palaciano que teve a sua cerimónia pública com o discurso de 21 de agosto. A estratégia dos golpistas do pentágono é clara e é a de Hilary Clinton. A vencida, vencedora deste golpe.

Em resumo, diga Trump o que disser, os Estados Unidos terão sempre uma presença militar entre o Médio Oriente e as fronteiras sul da Rússia e ocidental da China. Estarão no Afeganistão, não para matar terroristas, mas para contratar e manipular terroristas. Também se manterão na Síria, embora em menor escala que no Afeganistão, porque aí Israel se encarrega do trabalho de desestabilização em outsourcing. O Iraque é para cortar às fatias e os militares americanos disporão sempre de um dos cutelos. Resta o Irão e a Turquia. Os generais americanos evitarão a guerra com o Irão — demasiado cara e de resultados duvidosos — e tentarão manter o turco sob controlo, na NATO, ou pelo menos sem o deixar passar para a órbita dos russos.

Parece, por outro lado, evidente que os russos vão atirar sal para todas as fogueiras que os americanos atearam e que o Trump passará a ser apenas o boneco do ventríloquo, de umas vezes do Departamento de Estado, quase sempre do Pentágono. Será um refém com tempo de antena e saídas precárias para golfe. Até já o acusam de ele e a numerosa parentela gastarem demais em segurança privada. Os chineses têm sempre à mão o fogareiro da Coreia do Norte, para condicionarem todas as opções americanas para a Coreia do Sul e o Japão. Os navios da esquadra do Pacífico entretanto chocam com navios mercantes.

Por cá, os comentadores avençados — as caixas de ressonância do alt right e do Tea Party — por limitações senis, continuam a acreditar que o Trump dirige a política dos Estados Unidos. O governo, dirigido por pessoas circunspectas e sensatas, está ciente da irrelevância do país na Europa e da Europa no mundo. Sem fanfarronadas, perfilou-se como um ordenança dos generais que tomaram o poder em Washington e vai disponibilizar uma mão cheia de briosos militares para integrar uma coligação que dê direito a visita de ministro e presidente da República em datas festivas.

Com o golpe de 21 de Agosto o mundo retomou a normalidade.

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Lemos, vemos, ouvimos, mas não pensamos. Que vale termos acesso à informação se a engolimos sem a mastigar? No Le Monde de 22 de Agosto saíram duas notícias a par. Numa, mais um pontapé de Donald Trump nas promessas da campanha eleitoral. Trump candidato tinha prometido retirar as tropas americanas do Afeganistão. Trump eleito, num discurso de 21 de Agosto engole as afirmações e lê o discurso preparado pelos generais e pelo o complexo militar-industrial. Um discurso articulado em dois blocos, um perceptível por um auditório médio: “Não se trata de um cheque em branco, nem de exportar a democracia” e outro para satisfazer os pistoleiros broncos do nível de Trump: “Trata-se de matar os terroristas!” A eles, sus!

Haverá quem acredite que os americanos andam a matar os terroristas no Afeganistão? O Le Monde parece que sim e os seus leitores também. Não existe nenhuma crítica à afirmação. No entanto, confiante que os consumidores comem tudo, o Le Monde coloca ao lado da banha de cobra de Trump a notícia de que os atentados da Catalunha foram realizados por cidadãos marroquinos, conduzidos ao crime por um também marroquino estabelecido com banca de atentados numa mesquita em Ripoll, uma localidade espanhola e que tinha passado várias temporadas na Bélgica a traficar droga. Um delinquente como tantos outros que cresceram entre nós e que foram por nós educados, como recordaram os avós de dois dos assassinos. Não há notícia destes terroristas de Barcelona terem passado pelo Afeganistão, por onde também não passaram os assassinos de Londres, da Alemanha, de Paris, de Nice, de Bruxelas…

Le Monde é um jornal de referência, seria suposto que perguntasse que raio de terroristas vão os americanos matar agora para o Afeganistão, se não são estes que cometem atentados aqui pela Europa e, que se saiba, também não cometeram nenhum nos Estados Unidos?

Aqui chegados, se os terroristas que os americanos vão matar às ordens dos generais de Trump para o Afeganistão não são os que matam e espalham o terror aqui na Europa, que raio vão fazer os militares europeus para o Afeganistão, se os seus inimigos estão aqui na Europa e não lá?

Podemos pensar nisto?

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017

A moral das séries históricas da televisão

A moral das séries históricas da televisão

Moral, razão e ficção. Não sou um consumidor regular de televisão, mas consumo séries, de preferência históricas. O mundo desses espectáculos é o de heróis e mártires, de santos e vilões. Pretendem colocar o cidadão comum fora do palco da vida. Eu gosto de heróis e vilões em conflito com mártires e santos, aceito a alienação e admito-a (que remédio!). Era aqui que pretendia chegar depois de ter visto alguns episódios de uma série internacional : Os Médicis ; e de uma série portuguesa: Madre Paula. Ambas as séries nos levam às antecâmaras do poder. Do poder absoluto, que é o único.

As peripécias são emocionantes, os cenários e os guarda-roupas magníficos. Somos fascinados e encadeados. Somos alienados. O mal é deliberadamente apresentado como um banquete sumptuoso. Se repararmos, os mais abjectos e criminosos actos são-nos servidos (impingidos) como factos aceitáveis. Um assassínio, um incesto, uma violação, uma traição, uma tortura, um roubo, uma guerra particular, um tráfico, um envenenamento, um massacre são meras e normais acções de exercício do poder, ou da sua conquista, realizadas por quem está a jogar um jogo dentro das suas regras, fora do mundo dos cidadãos comuns.

A série diz-nos subliminarmente que «eles» que «aqueles eles» podem fazer aquilo. As séries históricas inculcam nas massas de hoje a ideia de que sempre foi assim — só mudam as roupas e faltam os computadores e os telemóveis — e que os eleitos (eleitos por qualquer processo e por quem quer que seja — de um Deus a um comité central a um colégio eleitoral) têm direito à amoralidade. Dizem que a família de Trump, ou do seu equivalente coreano Kim Jong-un, ou da família Saud, por exemplo, ou Putin, se tiver família, seguem a moral dos Médicis. Estamos num processo histórico. Nada a fazer.

Pelo seu lado, a série da Madre Paula diz-nos o mesmo quanto à amoralidade dos poderosos e mais alguma coisa que remete para o sagrado. Para os poderosos, além de não existirem limites morais, também não existe o sacrilégio. Um poderoso é um Deus! Apreciada sem as lentes da fantasia e da alienação, a série da Madre Paula apresenta-nos um convento como um bordel, com as esposas de Deus a servir de amantes dos reis e nobres; reis e nobres que o são por graça desse mesmo Deus! O caso dos reis e nobres freiráticos, como o D. João que ia às meninas ao convento de Odivelas, expõe o caso de um soberano pela graça de Deus que, em linguagem brejeira, encorna o Deus que o fez rei. Apesar disso, o Magnânimo teve direito a funeral com missa cantada e alma encomendada para os paraísos dos céus, assim como o terão tido o papa Alexandre VI da família dos Borgias e o Leão X, nascido João Lourenço Médicis!

Mas nunca pensamos nestas aberrações amorais quando vemos as séries. Acreditamos que vivemos num regime baseado na razão e na moral. Que a razão e a moral, isto é a distinção entre o Bem e o Mal, constituem os fundamentos da nossa vida em sociedade.

As séries históricas alimentam a ficção de os humanos de linhagem comum, e no nosso caso de homens e mulheres embebidos da cultura ocidental, de sermos racionais e morais. Na realidade somos um rebanho que come de tudo e vai para onde o levam. Falo por mim, claro.

Carlos Matos Gomes, 10 de Agosto de 2017, in  Medium

Um fogo totalitário

Um fogo totalitário

Um fogo totalitário. Ardo numa onda de defesa de um Estado onde os fazedores de opinião, pagos para serem escutados, exigem a demissão da ministra com a tutela da protecção civil ainda antes de apagadas as últimas labaredas de um grande incêndio, porque não impediu nem sequer limitou o fogo que devastou milhares de hectares de floresta e matou seis dezenas de pessoas, que não foi bombeira e acorreu aos cercados, que não pôs a funcionar um sistema de comunicações de emergência, que plantou eucaliptos durante o século XX e pinheiros desde o século XIII, que arrancou carvalhos para construir naus nos séculos XV e XVI, que, por fim, não ordenou o território e não elaborou um cadastro da propriedade que nunca foi feito nos oito séculos de nacionalidade.

O mesmo conceito de Estado sem hierarquia, sem degraus, sem escalões intermédios, responsável por tudo o que acontece e não acontece leva os seus defensores a exigir a cabeça agora do Ministro da Defesa por causa roubo de armas num quartel, ainda antes de realizado o inventário, porque não estava de sentinela, porque não inspeccionou a rede de protecção, porque as leis de programação militar desde os anos oitenta do século passado não contemplam estas atividades, porque, provavelmente, nem sabia da existência dos paióis.

Presumo que os promotores deste tipo de reacção do dispare primeiro e pergunte depois e da chicana partidária de tiro ao alvo e de olhos fechados a cada ministro em cuja área de responsabilidade política ocorra um incidente, proporiam a demissão do ministro da Marinha (Lorde do Almirantado) em Inglaterra após o naufrágio do Titanic!

Na sociedade assim definida por estes pregadores da moral política e da organização das sociedades nada mais há que o Estado e, no Estado, que o governo. Não existem estruturas sociais, nem cidadãos, não há instituições nem organizações. Resta a demagogia e o correspondente populismo que advogam, uma caldeirada que eles mexeriam a seu bel-prazer.

Estou contra esta caldeirada porque ela é uma receita de cariz totalitário. Porque por detrás da aparente defesa da transparência política e responsabilização ministerial está uma ideologia defensora do Estado totalitário. Pois que, se aceito que cada ministro seja responsável por tudo, o reverso da medalha é que também tenho de aceitar que pode tudo! Ora eu não desejo viver num regime em que alguém possa tudo. Logo não posso responsabilizar ninguém por tudo!

Carlos Matos Gomes,  1 Julho 2017