O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis perante os dirigentes que declararam a independência da Catalunha é o de os levarem a sério, ou os considerarem uns excêntricos mais ou menos irresponsáveis.

Ou consideravam que Puigdemont e os seus comparsas tinham organizado um carnaval em 1 de outubro, sob a forma de referendo que, além de ilegal, não cumpria regras de seriedade e transparência, nem os resultados eram verificáveis, que haviam realizado um baile de máscaras no parlamento para uma declaração de independência que se assemelhava a uma quarta-feira de cinzas, isto é, ou consideravam Puigdemont e os seus apóstolos uns foliões de uma trupe carnavalesca, ou os consideravam políticos independentistas responsáveis pelos seus atos, credíveis, a sério, que haviam gasto uns milhões de euros dos contribuintes em acções políticas passíveis de serem julgadas.

Ou os enviavam para casa com uma admoestação e o conselho para terem juízo e portarem-se como homenzinhos e mulherzinhas, ou os levavam a julgamento.

Os juízes espanhóis optaram por os levarem sério e por levaram a sério a sua função de juízes, em vez de entraram no corso e se transformarem em jurados de uma farsa em que o farsante mor até foi passear a Bruxelas como se fosse um turco perseguido, ou um paladino da liberdade fugido de camisas negras!

De muitas orações e textos publicados, da recusa dos juízes espanhóis em colaborar no carnaval da escola de samba de Puigdemont, resultou que os sambistas catalães sejam considerados mártires da liberdade, presos e refugiados políticos e que os severos juízes, por não se terem mascarado de compères para a récita, nem lançado confétis, sejam acusados do rol completo de insultos em uso: fascistas, franquistas, espanholistas, filipistas, incendiários ao serviço de Castela! Tipos sem humor, certamente, por, em vez de haverem gozado com a sua função no Carnaval, tocando cornetas e apitos, terem afivelado a máscara séria de uma Paixão. Os seus detratores e os apoiantes do chefe libertador da Catalunha são pessoas divertidas!

Os juízes espanhóis deviam ter umas aulas de pândega e de farsa para julgar o circo da família Pujol, os patrões de Puigdemont, em vez deitarem mão a essas tretas de leis e constituições!

Anseio pelo dia em que o “nosso” Arnaldo de Matos se mascarar de Puigdemont e se apresentar em Bruxelas a reclamar a independência dos proletários portugueses! Até lá, siga a dança.

Carlos Matos Gomes, 3 de Novembro de 2017 in Medium

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

“É preciso descolonizar Portugal”. A frase, apresentada a seco, não passa de uma tirada (estirada) bombástica de alguém, político, académico, jornalista ou espontâneo a fazer pela vida. Equivale a dizer é preciso regar Portugal, ou desratizar Portugal. Lembra os slogans de alguns cartazes para a campanha das autarquias, mas não saiu estampada num muro a animar um lusitano rosto de homem ou mulher decidido ou decidida a fazer progredir o seu concelho, ou freguesia.

No entanto, estava impressa como título no Diário de Notícias de 13 de junho (Dia de Santo António), um jornal nacional, foi escolhida por uma grande repórter da publicação, Fernanda Câncio, para resumir uma entrevista a alguém que se presume (presumia) ter arcaboiço político e académico para atirar Portugal ao chão da vergonha da descolonização. Esta tarefa, que apesar de o país não ser muito grande, ainda assim era de tomo, coube a Cristina Roldão, apresentada como investigadora do ISCTE, designada por afrodescendente, que discorreu sobre o que denominou de “racismo institucional” e cujas consequências no percurso dos alunos negros estudou com um colega num trabalho pioneiro e no qual se conclui que a escola portuguesa discrimina os estudantes negros, mais vezes chumbados e encaminhados para cursos profissionais do que os colegas brancos. Conclusão da investigadora e da jornalista: Portugal está colonizado e necessita de ser descolonizado!

Não se percebe porque o estudo é pioneiro, trata-se de uma conclusão empírica, do mais rasteiro lugar comum nas conversas de salas de espera e nos táxis. Para afirmar estas ideias não é necessário investigar, basta viajar nos comboios suburbanos. Pelos vistos há sempre um limite além do que julgamos ser o vazio. O zero do pensamento, neste caso sociológico, pode ser mais profundo que zero absoluto da física!

A entrevistadora e a entrevistada andam no mundo de cabeça para baixo e só não andarão de olhos fechados porque lá se vão safando vendendo pechisbeque por ouro de lei! Investigar é outra coisa. Começa por ser questionar os fundamentos do que julgamos serem certezas. As situações que apresentam, mesmo considerando provados os limitados destinos académicos e profissionais dos alunos designados por “afrodescendentes” com grande ligeireza e muito pouco rigor (o que é um afrodescendente?), não se devem ao facto de Portugal ser um país colonizado e a necessitar de ser descolonizado, mas sim ao fenómeno que ocorreu com as independências das colónias em 1974/75. Foi delas que vieram os antepassados destes alunos, fugidos da guerra, da incerteza e, em última instância, optando para se acolherem no país colonizador, à sua cultura e soberania, em vez dos riscos de e integrar a aventura de construir um novo estado. Esta é a situação de facto. O colonizador recebeu alguns dos que integrara e que se quiseram integrar, designados por assimilados e em francês por evoluées. Mas o título é revelador da pasta gelatinosa a que assuntos complexos são reduzidos nas universidades e na comunicação social, reduzindo-os a slogans e a frases feitas. O título é, como tantos, um revelador do esplendor do lugar-comum jornalístico e académico e da recusa dos seus agentes de pensar e de ajudar os leitores a entender o que se passou e o que se passa. E que se passa não se deve nem à colonização, nem se resolve com qualquer coisa desconhecida e a que a autora da entrevista titulou como descolonização por motivos que guardou para si, que são do seu alvedrio.

Portugal precisa de ser descolonizado. Afirmam as autoras. Porquê, já agora? Portugal, como todos os estados do planeta, é fruto de colonização, de sucessivas colonizações, como sabe alguém que tenha lido a sua história. Por isso, ser descolonizado era não só ser despido, mas desestruturado. É isso que as autoras pretendem? A nossa história é a de fruto de colonizações e de agente colonizador, como a da maioria dos países. Se as autoras, a jornalista e a investigadora, tivessem reparado (pensado), o caso que relatam de percursos académicos, de desajustamentos culturais e até de choques culturais, é um caso típico e vulgar de colonização: duas culturas confrontam as grelhas de interpretação do mundo. Os ditos “afrodescendentes” transportam consigo memórias das culturas de origem que conflituam com as práticas dos indígenas há mais tempo estabelecidos no território português, os que chamaríamos de “euroresidentes”. Este tipo de relacionamento não ocorreu nem à investigadora, nem à jornalista. A questão quente, o pãozinho que vende, é feita de racismo! Esse é o tema que aguça o apetite.

Enfim, a lógica do artigo é mais a de apelar ao instinto do que à reflexão. A estratégia dominante na comunicação social, com os bons resultados que se conhecem. Também não lhes ocorreu que nenhum país, Portugal incluído, necessita de ser descolonizado, mais, que nem sequer o pode ser! A colonização é a matéria-prima das identidades dos povos, das suas sociedades, das suas organizações políticas, económicas, sociais.

A entrevista trata de uma questão de destinos académicos e profissionais de grupos sociais minoritários. Neste caso de grupos com origem em famílias oriundas das antigas colónias portugueses de África.

Na realidade, não existe nenhum fenómeno social e histórico de descolonização. Não se pode desfazer o que não existiu. Hei-de voltar ao tema da descolonização impossível e da ligeireza como se abordam temas para satisfazer preconceitos. Os fenómenos da colonização e do colonialismo, do racismo e do confronto de culturas merecem mais do que uns artigos preconceituosos e umas ideias agitadas com um espanador de pó.

Carlos Matos Gomes, 28 de Aosto de 2017

Link da entrevista:  http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

Após o 25 de abril de 74, a direita portuguesa reunida no CDS tentou maquilhar-se à europeia, assumir o liberalismo e o anti-socialismo, designando-se como “personalista cristã”. Atirou para debaixo do tapete a velha tradição miguelista, integralista, salazarista, trauliteira e anti-liberal. Há uns anos, Paulo Portas, vindo do saco de gatos do Independente, iniciou o movimento na direcção do populismo e da abjuração da via democrata-cristã.

Com Portas, a direita portuguesa mandou a ideologia democrata-cristã às malvas e adotou na política o comportamento das tainhas, como se sabe peixes de águas salobras, lodosas que se alimentam dos dejetos sem origem recomendável ou reconhecível nas saídos dos esgotos.

O comportamento do CDS e da sua líder Assunção Cristas no caso dos incêndios, atribuindo ao Estado o exclusivo da responsabilidade pelas mortes que ocorreram é a demonstração de que um único princípio rege agora a ideologia da direita portuguesa: o da oportunidade! O CDS, como as tainhas, atira-se a tudo o que surja a flutuar na corrente. Um incêndio ou uma inundação servem para culpar o Estado por ausência e responsabilizá-lo perante a coletividade. O aborto ou o casamento homossexual servem para acusar o Estado de ingerência na vida dos indivíduos!

Os liberais acreditam na responsabilidade individual, que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, tendo o dever de arcar com as consequências das suas decisões. A direita ideologicamente herdeira do pensamento liberal é contra a regulação da vida e das atitudes das pessoas pelo Estado. Por isso, e coerentemente, é contra um serviço nacional e estatal de saúde e a favor de seguros individuais; a direita é contra a segurança social assegurado pelo Estado e a favor de planos de poupança individuais; a direita é contra um serviço de educação público e estatal e a favor do ensino privado, como ainda recente se viu.

São opções ideológicas coerentes, até para o CDS, mas que entendeu abrir uma excepção no caso dos incêndios, considerando que neste caso o responsável é o Estado. Que o Estado é o único responsável por um serviço que previna incêndios, mesmo resultantes de acções individuais, ou da meteorologia. Que o Estado se responsabilize por um serviço contra incêndios, mesmo que este seja constituído por organizações privadas — as associações humanitárias de bombeiros voluntários — mesmo que esse serviço esteja em boa medida descentralizado e sob responsabilidade das autarquias. Mesmo que, desde a adopção da política agrícola da CEE, os liberais nos governos de Cavaco Silva tenham desmantelado nos anos 80 do século passado as estruturas do Estado de gestão e controlo das terras e florestas!

A ideologia da direita clássica assenta nos deveres e responsabilidades do indivíduo, considera que lhe devem ser imputadas a ele mesmo as consequências das suas supostas más escolhas. Excepto este CDS, para quem o Estado é sempre o culpado e o responsável por todas as más escolhas, mesmo as dos indivíduos em decisões do seu interesse, ou resultantes da sua incúria (queimadas, p.ex) ou ação deliberada, mesmo que de outros órgãos de eleição e responsabilização local, como as autarquias!

A direita portuguesa é actualmente, pela voz da sua líder, a favor da intervenção do Estado na regulação da floresta, mas Assunção Cristas foi até há dois anos, enquanto ministra, promotora de legislação a favor da iniciativa privada e da liberalização do plantio das espécies mais rentáveis em termos económicos e mais perigosas em termos ambientais e de incêndios, o eucalipto. Entende agora que o Estado é responsável pelas mortes que resultam da sua política liberal! É uma direita capaz de morder a própria cauda!

A direita convencional habitualmente acusa a esquerda de ignorar a responsabilidade individual e de andar sempre a pedir desculpa por atos colectivos do Estado. Muitas vezes tem razão, quando afirma que daqui a pouco estaremos a responder a processos de indemnização por danos morais coletivos ou sociais em benefício de minorias historicamente oprimidas, da escravatura ao colonialismo, por exemplo. Mas a direita portuguesa entende que, no caso destes incêndios, toda a culpa é do Estado e, mais do que o Estado, do governo em funções! Exige um pedido de desculpas!

A direita usa habitualmente o argumento contra os progressistas de que os pedidos de desculpa propostas por eles assentam num fundamento inaceitável: a ausência de responsabilidade individual e a sua transferência para as culpas da sociedade, do Estado. Agora, ao responsabilizar — e censurar com moção na Assembleia — o Estado e o governo em funções, a direita portuguesa assume, para além do comportamento da tainha em águas com dejectos em suspensão, aquilo que é o produto mais romântico do socialismo: o de que o Estado substitui cada individuo e que a sociedade, o Estado e o governo, paga a parte, a cota, da responsabilidade individual. A direita de Cristas socializa as culpas individuais, que também existem.

Para a atual direita portuguesa, o Estado, este governo, passou a ser não só responsável pelas mortes e prejuízos, mas transformou-se e transformou cada cidadão num devedor e num culpado a quem o CDS censura com uma moção na Assembleia e discursos inflamados.

A moção de censura do CDS, responsabilizando o Estado pelas mortes resultantes dos incêndios, expôs a novidade de um partido de direita estatizante e anti-liberal! Um aborto ideológico, resultante da desfaçatez da sua líder e da sua atitude de corvo que se atira a tudo o que brilha. Conceição Cristas não se prende com coerências e incoerências. Se vê uma panela, bate nela, se vê uma pedra atira-a à primeira janela, se for a do governo.

Aquilo que esta ideologia do oportunismo revela é a desconfiança do CDS nas pessoas, em cada uma delas. O argumento da responsabilidade do Estado assenta em última instância na tese de que os indivíduos não são dotados de autonomia, de capacidade reflexiva. São animais domésticos que necessitam de seres iluminados como os dirigentes do CDS, capazes de entender a complexidade humana, para lhes dizer como viver. Curiosamente são os mesmos argumentos que justificam o planeamento centralizado nas sociedades socialistas!

Para a direita convencional, a norma é a do respeito pelas decisões da esfera privada individual e as acções do Estado são em princípio questionáveis. Neste caso, porque as mortes e as acusações ao Estado/governo podiam dar algum lucro eleitoral, o CDS de Cristas faz-se estatista e socializante! Assunção Cristas deve estar a preparar o ingresso do CDS na Internacional Socialista!

Para Assunção Cristas os princípios ideológicos podem ser tocados num acordeão, esticam e encolhem à vontade do tocador e a pedido do público presente na romaria.

Carlos Matos Gomes, 25 de Outubro de 2017, in Medium

Análise política e conversa de comadres

Análise política e conversa de comadres

A análise política devia ser uma ferramenta de análise de conteúdos e usada com a metodologia das ciências exatas. As análises políticas deveriam ser formuladas de forma metódica, evitando dados não-verificáveis, como intenções e palpites, o oposto de uma “Conversa de comadres à espera da morte”, um conto que li há uns tempos, em que um grupo de vizinhas murmura em ziguezague à volta da cama de uma outra que está a morrer.

As comadres falam sobre o passado da pobre mulher, rezam-lhe pela alma e pelos pecados reais e inventados, julgam-lhe as virtudes e as maldades, incluindo a recusa de morrer mais rápido, sugerem modos de dividir os bens, as ambições dos parentes, criticam as futuras cerimónias do enterro, descrevem o além, onde a sua alma se instalará, coçam-se, sussurram entre as falhas dos dentes… à espera da morte.

Os analistas políticos inventam intenções para as julgar, convocam a história, a psicologia e até os astros para obter resultados preestabelecidos, confundem economia doméstica com especulação bolsista, moral com racionalidade, força com repressão, perversidade com fina inteligência, teimosia com respeito pelos usos e costumes, meteorologia com punições dos deuses, analisam com o mesmo à vontade eleições, incêndios e inundações, relações internacionais e ensino pré-escolar, desporto e armamento. A frase mais reveladora da ausência de rigor na análise é a de que um dado actor político “apostou” numa determinada ação. O descaramento dos painéis de analistas reduz-se à aposta num dado cavalo, como nas corridas. Os analistas, em vez de, como as comadres do conto, esperarem a morte na má-língua, esperam que a audiência lhes preste atenção. Nos tempos iniciais da revolução existia um só educador do povo, Arnaldo de Matos, agora multiplicaram-se e surgem em rebanho ou em matilha.

A análise política devia descodificar o discurso político, em vez disso confunde-se com ele. Na mixórdia que nos é vendida como análise política, ou as conclusões não dependem dos dados do problema, ou os dados do problema são escolhidos para produzirem o resultado desejado. O cliente manda, neste caso o patrão que avençou os analistas. Toda esta mistificação, porque é de mistificação que se trata, surge embrulhada numa linguagem pretensamente científica, um “politiquês” que pretende fazer dos ouvintes crentes de abanar a cabeça e murmurar amens, como os fiéis das antigas missas em latim.

A análise política é uma actividade intelectualmente muito complexa? Não. Bastava que fosse, em primeiro lugar, um honesto exercício de lógica: Determinadas causas produzem determinados efeitos; e que fosse, em segundo lugar, um estudo objectivo de relações de força, aquilo que os estados-maiores militares designam por “análise do potencial relativo de combate”. De que forças dispõem os contendores? Em que condições (situação) vão travar os confrontos? Quem se encontra no terreno mais favorável? O que pretende cada uma das partes? O que propõe atingir? Quem é o seu inimigo principal? Quem são os seus aliados?

O resultado da análise política devia apresentar uma comparação de vantagens e inconvenientes, terminando com uma previsão objectiva de resultados. O analista político não é um juiz, nem um apostador, nem uma comadre, nem um Marques Mendes ou um Gomes Ferreira, os paradigmas da venda de banha de cobra como análise e comentário político, diria um cínico local. Devia ser alguém dotado de pensamento lógico, capaz de colocar um problema em equação e de ter, não só um saber estruturado, mas uma ética.

Experimentem aplicar estes fundamentos da análise política ao processo de decisão que levou Puigdemont a lançar-se no salto sem rede da aventura da proposta de independência da Catalunha, ou das twitadelas inconsequentes de Trump na Casa Branca sobre a Coreia do Norte, ou o Irão. Apliquem-na também às charlas de tantos “analistas políticos” que se apresentam nos jornais, rádio e TV aqui em Portugal como pirólogos quando há incêndios, comissários de polícia em época de manifestações, teólogos nos dias santos, engenheiros perante um desabamento, médicos, curandeiros, astrólogos, justiceiros de mata e esfola quando a vítima está indefesa. Às vezes tudo ao mesmo tempo.

Cito a frase de um autor certamente tão cético quanto eu e com muito maior sentido de humor: “a análise política é a arte e a ciência de administrar um circo a partir da jaula dos macacos”.

Carlos Matos Gomes, in “Medium” 16 de Outubro de 2017

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

As peripécias a propósito das chamas do incêndio de fervor nacionalista que percorre a Catalunha (mais Barcelona e menos Catalunha), é um espectáculo de fogo de artifício.

Acender a fogueira nacionalista e atirar-lhe petróleo como estão a fazer os líderes da rebelião de Barcelona constituem técnicas clássicas de golpe de estado, técnicas de conquista do poder por parte de um grupo organizado para o tomar. Curzio Malaparte demostrou que o assalto ao poder, que é do que se trata em Barcelona, não tem que ser necessariamente violento, muitas vezes basta um grupo de tipos determinados e sem escrúpulos apoderar-se de certas instituições para as confrontar com o aparelho do Estado, uns demagogos excitarem as massas com os temas que sempre as mobilizam: a liberdade em primeiro lugar. Palavra estandarte de todos os chefes populistas, condimentada com uns excitantes também eficazes de história: Patriotismo e Traição qb! Demagogia e populismo com todas as letras, a que podem juntar-se doses maiores ou menores de provocação e agitação.

O nacionalismo catalão e a atual urticária independentista é muito fácil de explicar: Após o fim da ditadura franquista e do desmantelamento do seu aparelho repressivo, um grupo de senhoritos locais, depois de bem seguro e certo da ausência de perigos materiais e físicos (são de pouca coragem e muito desplante), aproveitou a cómoda situação para se chegar ao poder içando a bandeira do nacionalismo catalão, o que incluiu até a tomada do poder no Barcelona clube de futebol, as manobras que levaram os jogos olímpicos a Barcelona, a imposição de um esquecido dialeto local como língua nacional, entre outras.

Para esse grupo, nacionalismo catalão e independência da Catalunha significa apenas o assalto ao poder e através dele a conquista da maior parcela possível da riqueza da região. Esse grupo entende que, sem perigo nem incómodos, pode acumular riqueza de forma parasitária e na completa impunidade que as imunidades políticas conferem.

É evidente que nenhum grupo de predadores económicos apresenta em público e às claras as suas intenções. Há que conquistar e arrastar as massas. Os argumentos do grupo que quer tomar o poder em Barcelona é um manual clássico de demagogia.

O manual clássico da demagogia é grego, como quase tudo o que é essencial na nossa civilização. Constitui a colecção “Arengas antes da batalha”, que o filósofo grego Onansander, autor de “Estratégia”, reuniu e que inclui discursos Tucídides, de Péricles, de Demóstenes, de Brásidas. O historiador inglês Anthony Burgess estudou-os e concluiu que essas arengas seguem um esquema padrão que inclui uma recordação dos antepassados (recurso à História como justificador da ação presente, com um apelo a que os contemporâneos não desonrem a sua memória); uma comparação de forças em presença e uma chamada vibrante ao patriotismo; a promessa da grande recompensa que espera os vencedores; a garantia de que os presságios são favoráveis; que a morte é gloriosa para os vencedores; que a derrota é uma desgraça; a afirmação de que já venceram estes inimigos antes; que a guerra é justa porque o inimigo é iníquo; que os nossos chefes e os nossos deuses são superiores aos do inimigo.

Esta é a arenga típica de qualquer demagogo, onde se incluem os grandes dirigentes que ao longo da história da humanidade mandaram os seus jovens morrer nas guerras para sua glória e riqueza. Dos dirigentes nacionalistas de Barcelona aos treinadores de futebol de qualquer campeonato todos fazem os mesmos apelos. Este discurso é ainda o que está na base dos grandes sermões de excitação da fé contra a razão, de que o pregador cristão Paulo de Tarso (São Paulo) é um dos melhores exemplos de demagogia e fanatismo. Na carta aos Coríntios fala da ida à guerra com a certeza da vitória, em ir à guerra ao serviço do senhor, na graça de não só acreditar na vitória, mas de sofrer por ela.

A prova de que a demagogia é eficaz pode ser encontrada na quantidade de crentes nas virtudes da independência da Catalunha, na dos que peregrinam a Fátima, dos que andam pelas ruas com camisolas numeradas nas costas, acompanhadas do nome de um tipo que não conhecem, mas que recebe direitos de imagem por alguém andar com o seu nome estampado no lombo!

As arengas antes da batalha, as cartas de São Paulo, os discursos dos senhoritos da generalitat pertencem ao mundo da demagogia e da manipulação das massas para as colocar ao serviço de um pequeno grupo, de um gangue, ou de um governo. Já deram origem a grandes desgraças…não são nem inocentes, nem desprovidas de riscos.

Num texto escrito noutro local comparei as atitudes dos dirigentes nacionalistas de Barcelona a birras de crianças, que batem o pé e gritam quero, sem cuidarem de prever os efeitos das suas acções, a não ser nas suas contas bancárias.

Alguns apoiantes nacionais do grupo que se prepara para, sem queimar os dedos, tirar as boas castanhas do lume catalão ficaram ofendidos por os ter comparado a infantes sem tino. Entupiram-me o texto com lições de história da Catalunha e descrições de direitos inalienáveis dos povos à autodeterminação; assuntos que nunca pensei confundir com uma golpada. Sim, na Catalunha trata-se apenas de uma golpada de um grupo que quer tomar o poder e locupletar-se com um tesouro. Trata-se da história de um assalto. De mais um.

 

Carlos Matos Gomes, 21 de Setembro de 2017 in Medium

A descolonização é um absurdo

A descolonização é um absurdo

Este é um texto do romancista Carlos Vale Ferraz, porque foi através de um romance do Carlos Vale Ferraz, a “Última Viúva de África” que desenvolvi a ideia do absurdo da descolonização, ou da descolonização como um conceito absurdo. Um absurdo não no sentido de “desagradável ao ouvido”, o seu primeiro significado, mas no sentido de contrário à razão.

O romance desenvolve a reflexão do absurdo como atributo inerente do fenómeno que é habitualmente designado por “movimento descolonizador” de África feita por várias personagens. No início do romance, o narrador, um jovem português, estudante de filosofia na universidade de Lovaina, na Bélgica, fotógrafo por desejo de aventura, confrontado com as notícias e as reportagens dos tumultos que se seguiram à independência do Congo Belga, em 1960, considera como primeira impressão que os europeus andavam por África a extrair o que necessitavam para viverem melhor nas suas terras de origem, aonde regressariam após a campanha, como os pescadores de bacalhau que cumpriam temporadas na Terra Nova. Ou cumpriam penas de degredo longe das suas pátrias. O narrador apoiava as independências porque considerava um anacronismo a exploração direta de África pelos europeus:

Para mim, descolonizar constituía uma prova de inteligência. Não apoiava as independências das colónias por ser um direito dos povos colonizados. Não me converti ao anticolonialismo por ideologia, nem por moral, mas por pragmatismo. Quis conhecer os mercenários do Congo e Jean Scrame, em particular, para perceber porque lutava depois de administrar uma propriedade da qual já havia tirado o proveito que lhe permitia estabelecer-se noutro país, ou regressar à Bélgica.”

O narrador comete aqui a mais vulgar das confusões: refere-se, não à colonização, mas ao colonialismo. É de colonialismo que fala. O Congo Belga, como toda a África a sul do Sara, nunca foi colonizado, com excepção da Colónia do Cabo, onde os ingleses ensaiaram o que viria a ser o seu modelo de administração colonial (indirect rule). O Congo Belga (que começou por ser propriedade pessoal do rei dos belgas) foi sujeito ao fenómeno do colonialismo e o colonialismo foi um sistema de exercício violento de direitos de exploração de matérias-primas instituído e acordado na Conferência de Berlim, em 1885, entre potências europeias, para satisfazer as necessidades dos complexos industriais desenvolvidos com a energia da máquina a vapor. O colonialismo é um fruto da máquina a vapor e da revolução industrial.

Até à II Guerra Mundial foi indispensável as potências europeias assegurarem a exploração direta das matérias-primas, depois, passou a ser mais rentável delegar essa tarefa em agentes locais, as elites indígenas entretanto assimiladas e integradas na cultura e nos processos europeus.

Mas houve, entre os europeus que foram para África executar tarefas de exploração directa, um grupo que, por razões diversas, assumiu aquelas terras como o seu destino final — que afirmaram ser a África, fosse o Congo, Angola, a Rodésia, Moçambique ou o Quénia, a sua pátria! Em Portugal utiliza-se o termo de “cafrealização” para designar esse processo, na Bélgica ele foi designado por “zairização”. O comandante de mercenários designado no romance como Jean Scrame e a portuguesa Alice Vieira, a última viúva de áfrica, pertencem a esse grupo. O narrador descobrirá, contudo, que nem eles — mesmo assumindo a sua nova identidade de africanos brancos — se opõem ao processo de independência das colónias, a um governo de negros, porque percebem que o sistema de administração e exploração delas se mantem, apenas mudaram os executores diretos, que passaram a ser títeres locais nomeados pelos brancos, europeus e americanos. O colonialismo manteve-se enquanto sistema de exploração de riquezas. O “Movimento Descolonizador” foi apenas uma mudança de tripulação num navio que continuou a realizar as mesmas viagens, transportando os mesmos produtos entre os mesmos portos.

Não existiu qualquer movimento descolonizador, que foi e é apenas uma designação utilizada para referir o movimento de transição da administração das colónias dos funcionários das potências europeias para uma elite de funcionários e políticos negros aculturados — ditos “assimilados” ou evolués, que, no essencial, replicam os métodos dos europeus e servem os seus interesses. Em termos políticos não existe qualquer descolonização. Não existe também qualquer libertação.

Mas não existe também descolonização em termos civilizacionais. Colonizar é a instalação de um grupo de uma dada sociedade no território de outra e implica troca de experiências, saberes, valores, relações comerciais e humanas, de forma mais ou menos pacífica ou mais ou menos violenta. Colonizar é sempre uma exportação de bens civilizacionais, da língua à religião. Entre o colonizador e o colonizado estabelece-se uma relação como a de uma gota de tinta que cai num copo de água. A gota de água dissolve-se e não é possível reconstituí-la, retirá-la da água onde se dissolveu. É por isso impossível reverter a colonização, retirar dos povos colonizados o essencial do que os colonizadores levaram e lhes inculcaram.

Nós, os portugueses devíamos conhecer bem a impossibilidade de descolonizar. Fomos colonizados pelos romanos e pelos árabes, mantemos fortes marcas dessa colonização — não fomos descolonizados até hoje. Colonizámos alguns pontos do mundo, e deixámos lá as nossas marcas, como os romanos e os árabes nos tinham deixado. O Brasil, Angola, Moçambique, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé, não foram descolonizados, tornaram-se entidades políticas independentes, estados-nação com bandeira, hino, gravatas de seda ao pescoço dos hierarcas, número de ordem nas Nações Unidas e embaixadores que falam inglês. Tanto o discurso comum da “malvada descolonização”, como da “descolonização possível” são absurdos. O discurso da “entrega” é patológico, com origem na exacerbação de sentimentos que bloqueiam o raciocínio.

As antigas colónias europeias de África não se descolonizaram, não reverteram as instituições de governo introduzidas pelas potências coloniais, retomando as suas tradições do tempo antes da chegada dos colonizadores europeus. Pelo contrário, os dirigentes dos movimentos independentistas, do movimento descolonizador do pós II Guerra, foram particularmente violentos na aniquilação das autoridades tradicionais e dos costumes ancestrais — quase sempre com o aplauso dos antigos colonizadores e das suas instituições, com relevo para a ONU e as suas agências, que os elogiaram pela luta anti-tribalista, tomada como uma acção de modernidade.

O movimento descolonizador dos pós-II guerra é um gigantesco embuste. A descolonização de África foi, de facto, a adopção pelos africanos da “ordem” do colonialismo — constituição de estados-nação com os mesmos princípios dos estados-nação que instituíram o colonialismo, imposição dos seus sistemas políticos e jurídicos, das suas línguas, até dos seus deuses e, principalmente, das suas armas, do canhangulo à AK, do jipe ao Mirage. Não existiu qualquer libertação de África, a África política e a África dos povos está sujeita às mesmas regras e normas dos países que enviaram os seus exploradores ao continente africano no século XIX e que o dividiram em Berlim.

O facto de não ter existido nem descolonização, nem libertação de África não é nem bom nem mau — não existiu Mal, nem Bem, nem desastrosa descolonização, nem criminosa entrega, nem falsa libertação, houve sim uma realidade: a imposição por parte das antigas e novas potências coloniais de uma nova grelha de domínio de África, de uma grelha que facilita a relação e a exploração, pois quer uma quer outra se realizam segundo a regra dominante. O resto, o que subsiste da antiga África antes do colonialismo, das danças às mezinhas dos feiticeiros é folclore que serve de atração turística.

Resta uma pergunta que Alice, A Última Viúva de África e Scrame, o último dos grandes comandantes de mercenários, colocam: Porque não podem e não puderam eles e os europeus manter-se em África como africanos brancos? Porque não pode ser a África uma pátria de brancos, como foram e são as Américas?

O romance ensaia uma resposta. A ficção é mais adequada a abordar questões difíceis que a análise política e histórica…

Carlos Vale Ferraz in Medium

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O título do texto é deliberadamente confuso, para corresponder ao assunto: Um senhor de nome Pedro Schacht Pereira (PSP), apresentado como “Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa, nos EUA”, perplexo, segundo ele, com as declarações do Presidente da República numa visita a Gorée, o antigo entreposto de escravos no Senegal, escreveu um postindignado no FB. As reações levaram-no a publicar uma carta aberta “Regresso a Gorée — Não em nosso nome”, que o DN publicou a 19 de Abril de 2017, com entrevista ao autor por Fernanda Câncio.

Comentando que “a história que se dá na escola sobre o esclavagismo português ainda é a mesma que se dava no Estado Novo; fiz o liceu depois do 25 de Abril e não me lembro de se ter sequer falado do assunto, para além da declaração de que ‘Portugal aboliu a escravatura em 1761’”, Schacht ficou ainda assim “boquiaberto” com as afirmações do PR: “Pus-me a pensar na quantidade de trabalho que temos pela frente.” E, ofendido, como se percebe no longo post que escreveu no FB, no qual comenta: “Não é desmentir o Presidente, por lamentável que seja essa necessidade, aquilo que está ou deveria estar em causa. O que está em causa é que a obstinação em não reconhecer a responsabilidade nacional na história nacional implica uma admissão involuntária de culpa não resolvida, como uma desonra familiar que se esconde dos hóspedes. E, concomitantemente, a infantilização dos cidadãos, como se elas/eles não tivessem capacidade de receber em herança a sua história, e de, como dizia Sophia, “livres habitarmos a substância do tempo”. Palavras de PSP.

As respostas ao post, com várias pessoas a pedir que o tornasse público para ser partilhado, levaram-no a formular a hipótese de escrever uma carta e a decisão de avançar com a dita.

O que me levou (Carlos Matos Gomes) a escrever este texto foi a interrogação: Como é que um cidadão tão impreparado para abordar o processo histórico e, por isso, os fenómenos históricos, incluindo neste particular a escravatura (ele abordará também e do mesmo modo confuso e empírico o colonialismo e a colonização) consegue o feito notável de ser entrevistado duas vezes por uma jornalista vedeta do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, uma a 19 de Abril sobre escravatura e pedido de perdão de Portugal e outra a 27 de Agosto centrada no racismo. (Sobre o tema do racismo Fernanda Câncio entrevistaria as autoras de um trabalho sobre o racismo na escola no DN de 13 de Junho com o título: É preciso descolonizar Portugal.) Consegue ainda Pedro Schacht Pereira portas abertas para publicar um artigo no Público em 25 de Agosto, sobre a questão da “Lusofonia”, levantada numa entrevista do ministro da Cultura a João Céu e Silva, do DN. Neste último artigo escreve PSP naquilo que é, para mim (CMG), um patuá vazio de sentido, a fazer de conta que se trata de uma sofisticada linguagem científica: “no decurso da entrevista (o ministro) produz afirmações que, se evidenciam uma frontalidade inusual no discurso oficial sobre a vexata quaestio do legado do colonialismo português, também rapidamente se enredam numa ambivalência desconcertante, e que a economia discursiva imposta pelo formato de uma entrevista jornalística destinada a um público amplo e heterogéneo não permite infelizmente dissolver. Assim sendo, e dada a surpreendente carência de perguntas complementares que permitissem ao entrevistado elaborar raciocínios meramente sugeridos, a ambivalência das declarações de Castro Mendes acaba por não se distinguir da ambivalência que caracteriza os discursos excepcionalistas inspiradores de muitas formulações da Lusofonia, e que ele pretende rejeitar.”

Os links para as entrevistas e o artigo de PSP seguem no final. O que me interessou nesta intervenção pública de Pedro Schacht Pereira foi então, repito, a facilidade com que um autor de vulgaridades históricas, que não chegam sequer à categoria de vulgata editio ou vulgata versio da Bíblia, pois esta foi a tradução de São Jerónimo para ser simultaneamente mais exata e mais fácil de compreender, enquanto os textos de Schacth Pereira são adulterações que promovem a confusão sobre os temas e os factos da História a que estão associados. Isto com aplauso boquiberto de alguma comunicação social lisboeta.

Pedro Schacht Pereira escreve e fala transmitindo a visão e a moral do homem comum, o que não é nada de indigno, mas para ler aquilo que em linguagem erudita se designa por “sentido universal” e em linguagem popular “filosofia de táxi” ou “de barbeiro” não se percebe tanta publicidade. Ele salta sobre o tempo, o que é a negação do mais elementar do trabalho do historiador, ou reduz o tempo a uma folha, o que pode resultar em boa massa folhada, mas não em boa História. Mas PSP também introduz no seu discurso, como faz o homem comum, o conceito da moral na história e, para agravar a subjectividade e a vulgaridade do seu pensamento, decide o que é Bem e o Mal na história à luz dos conceitos do seu tempo (o presente), da sua cultura de adopção (a americana), das suas normas (ainda em processo de fermentação e falhas de sentido crítico). É o historiador do tipo Deus ex machina, com a energia da inconsciência da sua ignorânciao que tem o valor que cada um lhe quiser atribuir.

É elementar: não existe um Bem em si, mas a interpretação do Bem (cit Nietzsche, A genealogia do mal). Mais: Ninguém define e tem responsabilidade sobre o processo histórico (a não ser os pastores evangélicos, os nacionalistas, incluindo a versão jiadista e os políticos em campanha eleitoral). Pedro Schacht Pereira entende que sim, em vez de historiador arma-se em juiz e exige que os portugueses se declarem culpados de fenómenos que ele nunca consegue delimitar e que confunde, como sejam colonização e colonialismo, escravatura e tráfico negreiro, racismo, diferenças, choques culturais e destinos sociais. A análise dos processos históricos em Pedro Schacht Pereira é um tudo ao molho e fé na ignorância dos interlocutores.

Quando, como faz o tão publicitado autor deste Verão em Portugal, anulamos o tempo na análise de processos históricos, caímos de cabeça no reino do empirismo e da demagogia. O comportamento e o pensamento dos anglosaxões e, em particular, dos seus emigrantes na América, assenta em boa parte no conceito da culpa, da sua denúncia e do pedido de perdão, típicos da ética protestante e da Reforma. A denúncia, tal como a confissão dos católicos romanos, não explica causas, exacerba sentimentos, sejam de piedade, sejam de ódio. É esta conhecida e velha grelha de análise da História (do passado) à luz da moral protestante atual que Pedro Schacht Pereira trouxe aos portugueses leitores do DN e do Público e que, pelos vistos extasiou parte da comunicação social portuguesa.

Já agora, ao contrário do que parece fazer crer o discurso de PSP, nos Estados Unidos não existe consenso sobre as relações de domínio dos vários grupos de invasores da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) poderem ser designadas como colonialismo. Não lhes interessa à construção da sua história! Ele não reparou, porque como cristão novo (adquiriu a nacionalidade americana recentemente) interiorizou acriticamente a verdade oficial dos grupos dominantes no pensamento dos EUA, que a ocupação violenta da costa Leste por colonos ingleses e holandeses, a ocupação violenta do centro da América e do Oeste, com o aniquilamento (genocídio) dos povos indígenas nunca é incluída na categoria de colonialismo, nem nunca é designada por colonialismo? Mas porque se designa por colonialismo a relação dos portugueses com os seus escravos trazidos de África no Brasil? Nos Estados Unidos nunca existiu colonialismo, já no Brasil sim, existiu. Porquê? Para PSP, tal como para o pensamento dominante nos EUA, racismo é a relação conflituosa que existe entre a comunidade de origem africana (o que designa pela fórmula destituída de razoabilidade de afroamericanos) e a comunidade wasp (brancos, anglosaxões e protestantes), nada mais, as relações com as comunidades hispânicas, latinas, asiáticas, nativas, eslavas são apagadas da discussão sobre o racismo. Pura manipulação ideológica por parte dos historiadores e evangelistas americanos de origem inglesa e holandesa. Manipulação que Pedro Schacht Pereira, professor associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na The Ohio State University, difunde através das suas entrevistas e artigos sem contraditório.

Como escreveu Mário de Carvalho, convinha falar destas coisas… (com seriedade)

Nota: não conheço nem Pedro Schacht Pereira, nem Fernanda Câncio. Não tenho qualquer animosidade contra qualquer deles. Respeito o seu trabalho. Entendo que estes temas são importantes para os portugueses estabelecerem consensos sobre o seu passado, ou, pelo menos, para disporem de elementos de reflexão.

Critico e sujeito-me à crítica. Nada mais

Carlos Matos Gomes, 4 de Setembro de 2017 em Medium

Links:

http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

https://www.publico.pt/2017/08/25/mundo/noticia/a-lusofonia-a-ambivalencia-e-as-grelhas-do-ministro-1782621

http://www.dn.pt/portugal/interior/marcelo-lancou-finalmente-o-debate-publico-sobre-a-escravatura-6228783.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/tudo-o-que-remeta-para-a-questao-da-raca-e-tabu-em-portugal-8688869.html

[1] Patuá, com o sentido de conversa fiada, fala-barato