Verdades alternativas

Verdades alternativas

Quarenta e oito horas e uns quantos Tomahawk disparados de um navio americano no Mediterrâneo, foi quanto bastou.

Calaram-se todas as dúvidas. Recolheram-se quaisquer reticências. Apagaram-se de vez os últimos “alegados”. Sub-repticiamente, a narrativa dos media passara a assumir o ataque sírio com armas químicas contra Idlib como um facto comprovado e inquestionável.

De mera suspeita, de hipótese entre outras, o “crime de guerra” passou a verdade assente e definitiva. Os Tomahawk tinham a bênção do concerto das nações. Trump pôde enfim dar uma de “duro” e sacudir a pressão doméstica. Os “falcões” do Pentágono e do Senado marcavam mais uns pontos na sanha de confrontar Putin a qualquer preço

A técnica está mais do que rodada. 

Lembram-se do célebre massacre de Sarajevo de 28 de Agosto de 1995?

No mesmo momento em que elementos da Forpronu e observadores militare sapelavam à prudência, chamando a atenção para factos que desmentiam a hipótese de um morteiro sérvio, o general Rupert Smith, comandante da força de paz na Bósnia, concluía sem pestanejar: foram os sérvios, “beyond any reasonable doubt”. Foram os sérvios, foram os sérvios e pronto! – repetiram prontamente os media.

Os caças da NATO tinham enfim via livre para bombardear os sérvios intervir de forma ainda mais aberta no conflito – e alterar definitivamente o curso da guerra na Bósnia.Dizia Hiran Jameson em 1919 que a verdade é sempre a “primeira vítima” da guerra. 

A manipulação fez sempre parte da arte da guerra. A propaganda sempre procurou porém disfarçar-se minimamente de verdade.

Tudo isso se alteraria neste nosso “glamoroso” mundo novo. A mentira passou a dispensar qualquer disfarce para se transformar em verdade. E nem precisa de ser repetida mil  vezes. Basta vir no telejornal.

A manobra resultou uma vez mais em cheio na Síria. Os apelos a uma investigação rigorosa dos acontecimentos de Idlib calaram-se. Os media – repórteres, pivots, editores, comentadores, analistas, opinion makers, patrões e quejandos – cumpriram plenamente o seu papel.

Carlos Santos Pereira

 

Síria: a guerra dos media

Síria: a guerra dos media

Carlos Santos Pereira,

Ensinava o professor Philip Taylor que em situação de conflito há que distinguir rigorosamente a “guerra real” da “guerra dos media”. A cobertura da batalha de Aleppo nos media ocidentais ilustra exemplarmente a ideia.
Os media, e em particular as televisões, têm-nos dado generoso e dramático testemunho do calvário vivido pela população da parte oriental de Aleppo. Vale ainda assim a pena um olhar mais atento sobre o que nos dizem e o que nos não dizem as televisões sobre a realidade do conflito.

Os efeitos dos bombardeamentos sírios e russos sobre os sectores da cidade controlados pelos rebeldes mereceram ampla denúncia nos media. Mas quando o enviado especial da ONU Staffan de Mistura denunciou há semanas o horror dos bombardeamentos rebeldes contra a parte ocidental da cidade as grandes agências internacionais e as editorias dos telejornais pareceram bem menos sensíveis.

E os mesmos telejornais que tanto denunciam a crueldade dos bombardeamentos sobre Aleppo oriental não se deram ao trabalho de questionar as razões dos rebeldes e dos seus apoiantes ao insistirem em arrastar a rendição e prolongar o sofrimento da população mesmo quando a batalha estava definitivamente perdida.

Os media escondem assim de facto uma das faces mais vincadas da batalha: é que a população de Aleppo é tão vítima da brutalidade do assalto das forças de Assad como da aparente aposta dos rebeldes em prolongar tanto quanto possível o calvário da população e fazer render os respectivos impactos mediáticos.

Os mesmos media esqueceram-se igualmente de questionar os Estados Unidos, a Turquia e outros patronos dos rebeldes como se conjuga a promiscuidade entre os chamados “moderados” e  a Jabhat Fateh al-Sham, a antiga Frente al-Nusra, antena da al Qaeda na Síria, com o alegado objectivo do combate ao terrorismo jihaddista.

A recente reocupação de Palmira pelas forças do ISIS, um sério embaraço para a imagem do exército sírio e dos seus apoiantes russos em pleno assalto a Aleppo, levanta, também ela, perplexidades que parecem ter escapado por completo à curiosidade dos media. É com efeito surpreendente que o ISIS tenha conseguido disponibilizar uma força de 4000 homens para lançar o assalto à cidade no preciso momento em que as suas posições estavam à beira do colapso em Aleppo e sob intensa pressão em Raqqa.

Numa entrevista à RT, Assad garantiu que a força que lançou o assalto a Palmira veio directamente de Mossul, escapando miraculosamente à pressão militar sobre a cidade e ao sofisticadíssimo dispositivo de vigilância americano. O presidente sírio não será decerto a mais credível das fontes. Mas a questão mereceria sem dúvida um pequeno esforço, tanto mais que há outras fontes a insistir na mesma versão.

Numa perspectiva de gestão comunicacional, as opções dos editores limitam-se a dar continuidade a técnicas já muito rodadas na cobertura de conflitos armados. A insistência em imagens-choque, nos testemunhos dramáticos, na exploração de histórias, em particular quando protagonizados por crianças e mulheres, garantem o impacto emocional que, como diria Ignacio Ramonet, é cada vez critério da informação televisiva. Uma técnica que secundariza o rigor dos factos e da análise e dispensa uma abordagem mais global e integrada do conflito.

Sublinhe-se enfim a forma como as opções editoriais se ajustam na perfeição à batalha propagandística que se trava em torno de Aleppo, colocando uma vez mais a questão crucial da agenda dos media. Nesse sentido, os famosos media effects parecem garantidos mas, uma vez mais, à custa de uma abordagem claramente selectiva da realidade.

Lisboa, 22 de Dezembro de 2016

Kiev, três anos depois…

Kiev, três anos depois…
Carlos Santos Pereira,

Assim! Preto no branco. O acordo entre Kiev e Bruxelas  ”não confere à Ucrânia o estatuto de candidato a membro da União, nem constitui um compromisso que garanta à Ucrânia esse estatuto no futuro”. E deixem-se de ideias, esses ucranianos! Nem sonhem com o direito a residir ou trabalhar dentro das fronteiras da União.

Armas, isso, sim! – mas cabe a cada país europeu tratar do negócio à sua maneira.
Se ilusões restavam ainda no reino de Porochenko, os lideres europeus reunidos esta semana em Bruxelas puseram os pontos nos ii.
Só para que não sobrem equívocos. Porque o acordo e as ilusões ucranianas, essas, estavam há muito mortas e enterradas. E nem vale a pena invocar o referendo em que holandeses chumbaram, em Abril, o “EU-Ukraine Association Agreement”. O acordo entre Kiev e Bruxelas seria solenemente ratificado a 16 de Setembro de 2014 pelo Parlamento de Kiev, mas a eficácia do documento foi desde logo adiado para as calendas gregas. É que a missão do famoso arranjo já estava cumprida. O convite para uma “associação” oferecido por Bruxelas inscrevia-se numa iniciativa lançada pela UE depois da crise russo-georgiana de 2008 e do congelamento dos projectos de integração da Geórgia e da Ucrânia na NATO. A oferta europeia, que prendava vários países da defunta URSS mas excluía a Rússia, tinha porém uma condição: ficava fora de causa qualquer namoro com a “Parceria Oriental”, um projecto de integração económica lançado por Moscovo.

 
A decisão do então presidente Ianukovitch de adiar a assinatura do acordo com Bruxelas desencadeou a rebelião da Praça da Independência em Fevereiro de 2014. Ianukovitch caiu, o Leste da Ucrânia pegou em armas, Moscovo deitou mão à Crimeia suspeitando que a NATO se preparava para se instalar de armas e bagagens em Sebastopol.
Três anos depois, a Ucrânia é um país dividido, a braços com uma larvar guerra civil, entregue à instabilidade e à violência política, um tecido económico gangrenado pela corrupção e forças armadas minadas pelas negociatas das cúpulas.

Certo que nem tudo se perdeu. Os planos de “Parceria” de Putin ficaram estragados, Kiev faz da integração na NATO um objectivo prioritário e a Ucrânia anuncia-se ao Mundo como uma “barreira contra a expansão russa na Europa”. Estava enfim cumprido um sonho há muito alimentado nas capitais do Ocidente, ao que testemunham antigos responsáveis
europeus: atear a discórdia entre Moscovo e Kiev.

À luz da militância directa de responsáveis europeus (e americanos) nos dias gloriosos do Euromaidan e pelo apoio empenhado aos novos mandantes de Kiev seria ainda de esperar que Bruxelas tivesse um palavrinha, uma satisfação a dar aos ucranianos.Mas não. Apenas que…tenham mas é juízo!
Lá para as bandas de Donetsk, continuam a ouvir-se tiros. O regime de Kiev continua a arrastar os pés no que toca à plena implementação dos acordos Minsk II que o presidente Petro Porochenko assinou em Fevereiro de 2015 sob pressão da Europa, e que garantiria uma regionalização de facto da Ucrânia e uma forte autonomia para as regiões separatistas. Berlim e Paris mostram-se incapazes de alterar a posição de Porochenko, e Washington recusa-se a exercer sobre pressão sobre o presidente ucraniano.

Já que para mais não sobra nem substância nem imaginação, os líderes europeus remataram enfim o dossier Ucrânia da única forma a jeito: a renovação das sanções à Rússia. Sob os aplausos e renovados apelos “às armas!” contra os russos de polacos, lituanos, estónios e letões.

A Europa quis ainda fazer ouvir a sua voz na Síria. Mr. Hollande lá fez um esforço para se pôr em bicos de pés – já que ninguém lhe dá fiado em casa, pode ser que ainda o ouçam lá fora – e voltou a apontar o dedo a Putin. Dona Mogherini fez voz grossa e ditou as condições para uma “transição” política na Síria.

Que se saiba de novas certas, Putin não tremeu, Assad não se comoveu, os rebeldes não se arrependeram, Erdogan não se converteu, a Casa Branca não fez penitência. Não, parece que ninguém ouviu, em resumo.

E não se cansem os líderes de Bruxelas a anunciar mais “European Defence Action Plan”. Já há muitos, mais vírgula-menos vírgula, todos igualmente inócuos.

É que o problema da insignificância da Europa (a demarcada, a autêntica, a europeia – a União) como actor internacional não está na míngua de canhões. Está na falta de credibilidade. De uma ponta de vergonha. De sentido do ridículo.