Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, “os dez dias que mudaram o mundo”. E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 – da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista – e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100 .º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal onlineorganizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram “mais mal do que bem” aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A “história milenar” da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da “história milenar” da Rússia. Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 – o que gerou polémica com a Ucrânia. Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada “agente estrangeiro” pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

“A elite russa nacionalizou a memória histórica” – diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. “E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país.”

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. Mas a própria ideia de “revolução” joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. “Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX”, disse Putin.

“Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos” – afirmou. “Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo.” Numa palavra, a Rússia “não necessitava de uma revolução global”.

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 “será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia”, mas lembrando sempre ao mesmo tempo que “somos um só povo e temos apenas uma Rússia”.

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de “respeito” e a “uma análise objetiva e honesta” da “história comum do pais”, mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917

De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras “heroicas” na revolução – nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro – apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade – uma “herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo” – nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. Como diria ainda Figes, “os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono”.

Carlos Santos Pereira, 7 de Novembro de 2017, in DN

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

Concluída a fase de apuramento inicia-se uma fase de contagem descendente para o Mundial 2018 na Rússia que se anuncia plena de incógnitas e de riscos.

A realização da prova máxima do futebol mundial assume particular importância para a Rússia de Putin num momento de tensão e de confronto com o Ocidente. Se o desporto tem desde sempre uma vincada dimensão política, o Mundial 2018 assume uma evidente relevância estratégica.

Há 38 anos, em plena guerra-fria, a invasão soviética do Afeganistão  gerou uma fase de grande tensão nas relações leste-oeste. O bloco ocidental retaliou boicotando em bloco os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo – e roubando assim grande parte do brilho a uma ocasião desportiva e política em que a URSS tanto jogava.

Os tempos são outros, dir-se-á. No actual quadro das relações entre a Rússia e o Ocidente, o Mundial de Moscovo não deixa ainda assim de representar um momento de alta tensão.

A confirmar-se a intenção americana de fornecer armas à Ucrânia, convidando assim Porochenko a resolver o problema do separatismo de Donetsk e Luhank por via das armas, é óbvio o risco de uma nova escalada de tensão, ou mesmo de um confronto directo entre os dispositivos bélicos concentrado pela NATO e pela Rússia no centro-leste da Europa.

Incidentes ou protestos graves da oposição nas eleições russas do próximo ano não deixariam de valer ao regime de Putin novas acusações de atropelos à democracia ou de violação das liberdades fundamentais e dos direitos humanos.

Seria decerto o bastante para envenenar ainda mais o clima de tensão entre o Ocidente e a Rússia e criar um clima de algum modo equivalente ao que precedeu em 1980 o boicote aos Jogos de Moscovo.

Um Mundial bem sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia  no plano internacional. Um atentado terrorista em plena competição ou mesmo desacatos mais graves entre adeptos bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante.

Queira-se ou não, o Mundial da Rússia será uma grande ocasião política. E, nessa dimensão, um momento de alto risco.

Carlos Santos Pereira

TRUMP, A AMÉRICA E A UNESCO

TRUMP,  A AMÉRICA E A UNESCO

Ao anunciar a decisão de abandonar a UNESCO, no passado dia 12, o presidente norte-americano  limitou-se a consumar uma ruptura há muito anunciada.

Donald Trump, prontamente seguido pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justificou a decisão de bater com a porta  acusando a organização de manter uma atitude sistematicamente anti-israelita.

A má vontade América em relação à UNESCO não é criação de Trump. Entronca numa longa guerra contra esta agência das Nações Unidas.

Nem é sequer a primeira vez que os Estados Unidos viram as costas à UNESCO. Já nos anos 1980, em plena Administração Reagan, a América, seguida pela fiel Britânia, rompeu com a organização.

O argumento oficial era na altura a gestão incompetente e esbanjadora e do então secretário- geral Amadou Mahtar M’ Bow. A longa polémica que antecedeu a retirada americana revelou claramente que Washington tinha razões mais fundas. A UNESCO era acusada de se ter transformado em agência do terceiro mundismo e da diplomacia cultural da URSS.

A América de Reagan ajustava assim contas com uma agência que não conseguia controlar. Os anos seguintes mostraram de resto que essa atitude traduzia um profundo mal-estar dos Estados Unidos perante todas as instâncias multilaterais que escapam à sua batuta. Bastará recordar a enorme campanha destinada desacreditar as Nações Unidas durante os conflitos balcânicos dos anos 1990 e obrigar a organização a render à NATO a gestão política e militar do conflito.

Dezoito anos depois, em Setembro de 2002, George W. Bush anunciou o regresso dos Estados Unidos à UNESCO. Mas o mal-estar nunca desapareceu.

Ao que tudo indica, Trump baseia a acusação de preconceito  “anti-israelita” em desenvolvimentos recentes como  a decisão da UNESCO de admitir a Palestina como membro de pleno direito, em 2011 – ao que Washington respondeu na ocasião cortando os fundos à agência – ou a declaração de Hebron, em plena Margem ocidental ocupada por Israel, como Património da Humanidade, em Julho último.

Em rigor, qualquer pretexto serviria para o caso.

A decisão valeu ao presidente americano um coro de críticas. Os dedos apontados ao “trumpismo” não terão reparado que Trump se limitou uma vez mais a dar expressão a tendências com raízes sólidas no establishment político norte-americano.

Carlos Santos Pereira

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

Por partes. Condições climáticas, ausência de ordenamento florestal, sobrepovoamento de eucaliptos, desertificação interior… Ninguém duvidará de que esses e muitos outros factores terão contribuído para as proporções assumidas pelos incêndios deste Verão.

Mas os incêndios dos últimos meses vieram antes de mais provar, pela enésima das enésimas vezes, uma verdade há muito consabida, e que por insondáveis razões se continua a querer escamotear: se a floresta arde, é porque alguém lhe deita fogo. Ponto final. Tudo o resto vem a seguir. Os fogos por acidente ou causas naturais são eventos muito excepcionais. Não nos atirem areia para os olhos…

O problema tem muitos anos, mesmo se este Verão assumiu proporções sem precedentes.

Bastava percorrer as aldeias deste país na incontornável época dos fogos. Dois dedos de conversa e qualquer um apontava sem hesitar quem botava o fogo e os mandantes que o encomendavam. E não eram precisas muito mais perguntas para perceber a enorme rede de cumplicidades em torno de cada incêndio.

Se as autoridades deste país não quiseram ver e ouvir, lá terão as suas razões. E o país continuou a arder, ano após ano.

Nos últimos anos a coisa atingiu tais proporções que as autoridades se viram obrigadas a mostrar algum serviço. Apanhados em flagrante os incendiários são levados ao juiz e… mandados para casa.

Na madrugada seguinte estão, é óbvio, a atear mais fogos.

Chamemos os bois pelos nomes. Enquanto não se atacar a questão da economia dos incêndios, enquanto não se enfrentarem os interesses que ateiam os fogos, enquanto não se desmontar o fabuloso negócio do combate ao fogo e os balúrdios pagos a empresas privadas, não há reformas florestais nem remodelações da Protecção Civil que lhe cheguem.

Segundo. A geografia anual dos fogos vem assumindo uma regularidade que a torna perfeitamente previsível. Teria sido por isso possível mobilizar recursos para patrulhar as áreas de risco.

Lembraram-se agora, depois da casa ardida…

Resta a questão do assumir de responsabilidades políticas.

No essencial, a intervenção do presidente da República dois dias depois da catástrofe teve o resultado real de precipitar a demissão de uma ministra já em plena queda. Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou de caminho a vulnerabilidade do Executivo para multiplicar sinais públicos de que tinha o Gabinete de António Costa debaixo de olho – e esquecendo talvez pelo meio que é ao Parlamento que o Governo responde.

Quanto à adopção de uma série de medidas de combate ao flagelo dos incêndios entretanto anunciada pelo governo, é de duvidar que tenha alguma coisa a ver com o “murro na mesa” de Marcelo Rebelo de Sousa.

E, ainda que assim fosse, que pena o senhor presidente não se ter lembrado de engrossar a voz uns meses mais cedo…

É que, se o Estado falhou em toda a linha na tragédia dos incêndios, o Primeiro Magistrado da Nação não será decerto o último dos responsáveis.

Carlos Santos Pereira

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

Ninguém poderá acusar os jornais, as rádios e as televisões deste país de não terem dado a devida atenção aos incêndios que assolaram o centro e o Norte de Portugal no penúltimo fim-de-semana. A tragédia fez as primeiras páginas dos jornais, inspirou destaques e edições especiais e monopolizou virtualmente telejornais  e “especiais” das televisões.

Os media deram voz às populações atingidas, trouxeram a lume realidades chocantes e muitas vezes esquecidas do país e chamaram à antena políticos, académicos, bombeiros e responsáveis das forças de segurança num esforço de debater os mais diversos ângulos da questão dos fogos florestais.

Os critérios editoriais na cobertura da tragédia levantam ainda assim algumas questões, em particular no caso dos audiovisuais.

Durante o trágico fim-de-semana e ao longo dos dias que se seguiram, as televisões ocuparam horas a fio com a questão dos incêndios. Foram as imagens das labaredas dantescas passadas e repassadas em ciclo contínuo. Os testemunhos atrás de testemunhos. As lágrimas, os queixumes, o desespero incessantemente repetidos. Os intermináveis directos em que repórteres no terreno eram mantidos em antena a repetir vezes sem contra e as mesmas escassas informações. O rodopio de políticos, técnicos e peritos, mais analistas e comentadores a repetirem as mesmas sentenças.

A fixação das câmaras nos incêndios acabou por engolir os serviços noticiosos normais e levou algumas televisões a ignorar por completo tudo o que demais aconteceu pelo Mundo. Nem o indefectível futebol escapou, remetido a apressadas breves, mesmo em dia de Liga dos Campeões.

Os canais de informação contínua revelaram-se afinal uma vez mais cadeias de 24 – quando não de 48 e mais horas – de notícias recicladas em série.

De tão marelada e redundante, a cobertura dos incêndios pisou obstinadamente, com largo destaque para os canais privados, a linha que separa a informação da pura exploração mediática (e comercial) da tragédia e da dor.

Um padrão que se repete sistematicamente com a cobertura de outros eventos dramáticos como os atentados terroristas –a  mesma insistência nas imagens chocantes, nos testemunhos cruciantes, nos longos directos sem qualquer conteúdo. Uma cobertura claramente destinada a produzir impactos emocionais e agarrar audiências, a editar a realidade mais do que a informar.

Coincidência ou não, o tom da cobertura registou uma notória evolução a partir de terça-feira. Desde que, sobretudo depois do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, a tragédia ameaçou gerar uma crise governamental, a cobertura dos incêndios passou a centrar-se na insistência dos custos dos para as populações e o país, apoiada pelos números e mais números da tragédia e pelo refrão, repetido a cada passo, das palavras do presidente.

E o detalhe com que a SIC Notícias anunciou a organização das manifestações convocadas para o passado domingo mais parecia uma acção de mobilização.

Carlos Santos Pereira

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

Tem boas razões para celebrar, Mariano Rajoy.

Escudado numa Constituição aprovada num contexto político há muito ultrapassado e valendo-se da razão da força, o primeiro ministro espanhol impôs a administração directa de Madrid, prendeu os líderes independentistas, defenestrou os dirigentes eleitos da Catalunha e propõe-se assumir o controlo da televisão catalã.

Mais do que vergar o desafio independentista, Rajoy levou até ao fim a sanha de humilhar Puigdemont e com ele a própria Catalunha.

Estão agora por contabilizar os custos da vitória de Rajoy. Mesmo sem ter qualquer tradução política viável, o referendo do primeiro de Outubro constitui um triunfo simbólico para os defensores de uma Catalunha soberana. O independentismo catalão conta agora novas razões na memória da presença de 4000 agentes de segurança enviados por Madrid, das cargas policiais sobre votantes e manifestantes, dos presos políticos e do clima de repressão que se abateu sobre a Catalunha.

A questão catalã tem uma história longa e marcada por memórias mal saradas. No auge da crise, já sob a ameaça directa do “artigo 155”, Carles Puigdemont e outros lideres catalães prestaram tributo público Lluis Companys, um líder catalão executado por Franco no decorrer da guerra civil de 1936-39. Os fantasmas da guerra civil e dos 36 anos de franquismo ressurgiram muitas vezes no calor do confronto entre Madrid e Barcelona.

Rajoy propõe-se refazer o quadro político catalão decretando eleições antecipadas para Janeiro. Conta com uma presumida maioria de catalães que aplaudirão a intervenção de Madrid. Resta a incógnita dos efeitos deste episódio nos humores do eleitorado catalão.

A Europa, a Europa europeia, cumpriu um papel assinalável na crise catalã. Por mais que Bruxelas repetisse que se tratava de uma questão interna de Espanha, a Comissão Europeia encorajou Rajoy a arrumar prontamente a questão, dando mão livre ao chefe do Governo de Madrid e declarou desde logo que uma Catalunha independente não tinha lugar na Europa.

E enquanto Donald Tusk repetia que estava fora de causa qualquer mediação de Bruxelas, Jean-Claude Juncker dizia aos catalães que a Europa não estava disposta a aceitar mais um país independente no seu seio.

A mesma Europa que não hesitou em acolher a Croácia, com o genocídio da Krajina ainda bem fresco nas memórias. A mesma Europa que aplaudiu o bombardeamento da Sérvia por Milosevic ter enviado forças de segurança para reprimir os terroristas do UCK em nome de  argumentos “humanitários” descaradamente manipulados.

A mesma Europa que quando, em 2008, os irlandeses votaram “Não” ao tratado de Lisboa, não descansou enquanto não os obrigou a irem de novo às urnas e, sob pressões e ameaças diversas, a trocarem o “Não” pelo “Sim”

Para já, a ordem reina de novo na Catalunha.

Mas a questão terá que ser encarada de frente, mais tarde ou mais cedo. Uma revisão substancial da Constituição espanhola está já no horizonte. E a questão do estatuto da Catalunha, e provavelmente de outras regiões de Espanha com forte identidade política e cultural, e com velhos contenciosos com Grã-Castela, colocar-se-á doravante noutros termos.

Rajoy bem pode celebrar. Mas o chefe do Governo de Madrid pode arriscar-se a ficar na História como o homem que precipitou o fim da Espanha tal como a conhecemos hoje…

Carlos Santos Pereira

OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

OS MEDIA NA CRISE DA VENEZUELA

Meses a fio a Venezuela tem sido tema obrigatório nos jornais televisivos. Diariamente os telejornais repetem imagens do caos social e económico em que o país mergulhou, e entrevistas de venezuelanos indignados com a falta de bens essenciais, revoltados com a repressão policial e exigindo a queda do regime. Todos os dias, sem falta, mesmo quando os eventos cobertos dificilmente mereceriam tamanho destaque.

De tão sistemático, o martelar das mesmas imagens e das mesmas vozes assumiu acentos de uma campanha. Antes de se apoderar das ruas de Caracas, o caos venezuelano ganhara já corpo nos ecrãs televisivos.

Imagens a cores, notícias a preto e branco.

As câmaras só muito excepcionalmente se voltaram para os que apoiam o regime ou que se mostram simplesmente perdidos e impotentes perante a situação. A Venezuela do pequeno ecrã é, não uma sociedade dividida, mas um povo unido em luta contra um poder opressor. Apenas por ocasião das eleições para a Constituinte os telejornais admitiram por uma vez a existência de divisões na sociedade venezuelana.

Maduro não arranjou forma de lidar com os efeitos da derrocada dos preços do petróleo ou da vitória da oposição na legislativas de 2015, apostando numa fuga em frente que a Constituinte veio precipitar, tornando cada vez mais longínqua qualquer solução negociada.

A imagem simples e liminar da crise venezuelana dada pelos telejornais esconde porém uma situação complexa.

A sólida orquestração dos protestos, a acção de grupos claramente adestrados para a violência pressupõe uma organização sofisticada e uma abundância de recursos que joga pouco com a imagem televisiva de um povo em cólera e desespero. Ao longo da crise multiplicaram-se denúncias de que a escassez é em grande parte orquestrada por empresários da oposição apostados no derrube do regime.

Nada disso mereceu uma investigação ou qualquer atenção particular aos media

Os telejornais fizeram sistematicamente tábua rasa do contexto geopolítico em que se enquadram as pressões internacionais sobre Caracas. Ignoraram sobretudo as denúncias de “mão” dos Estados Unidos na crise, apesar dos antecedentes bem estabelecidos, dentro e fora da Venezuela.

O evoluir da crise venezuelana tem muito em comum com processos semelhantes noutras paragens – da Sérvia ao Egipto, da Líbia à Ucrânia. Do dia para a noite, protestos populares espontâneos transformam-se em campanhas bem oleadas, em acções de guerrilha urbana ou mesmo em milícias armadas. Juntam-se então um coro de pressões internacionais e uma forte campanha mediática. Trata-se de produzir uma situação insustentável e o almejado regime change, seguindo padrões bem rodados – e já amplamente teorizados.

E quando a manobra tarda em surtir efeito, entra em cena a ameaça de uma intervenção militar – como a que Trump acaba de proferir em relação à Venezuela.

O extremar de posições, tanto do regime como, da oposição inviabiliza virtualmente qualquer hipótese de diálogo na Venezuela. Boa parte do trabalho está feita. Os telejornais terão uma vez mais cumprido zelosamente a sua parte.

Carlos Santos Pereira, 16 de Agosto de 2017