Trumpização ou o marketing do disparate

Trumpização ou o marketing do disparate

Francisco Carvalho

Os tempos que vivemos sofrem de um mal difícil de definir: “A Trumpização”.

Em 1974 Salgueiro Maia, perante a dificuldade em qualificar o regime, referia “O estado a que isto chegou”, para explicar o absurdo que muitos já percebiam.

Nos últimos tempos, poucas pessoas terão chamado a nossa atenção como este candidato à presidência dos EUA. Gentes de senso comum fomos sorrindo perante a óbvia impossibilidade de que um partido político com credibilidade fosse votar e escolher uma personalidade tão excêntrica para ser o candidato à presidência dos EUA.

No início era a ironia, íamos brincando “Os Americanos não são parvos, Trump nunca será o candidato do partido Republicano”. Até estávamos dispostos a apostar no óbvio que se tem vindo a transformar numa preocupação séria.

Apenas consigo perceber dois votos neste candidato, o seu próprio voto e o da esposa. Todos os outros me são estranhos e difíceis de compreender. Qual é a matriz de leitura para a compreensão desta nova normalidade?

O comportamento deste candidato faz lembrar o de um pato que tentamos salpicar com desafios de raciocínio do tipo “Já pensou noutra possibilidade?”, “Já pensou que?” e estas questões escorrem pelas penas impermeáveis da sua incompreensão.

Podemos despejar baldes de argumentação, podemos até submergi-lo que ele vai emergir de novo, possuidor de uma resiliência passível de um diagnóstico caraterizado pela necessidade exuberante de “controlo, triunfo e desprezo sobre o outro”.

O direito à alarvidade faz certamente parte dos direitos de uma sociedade democrática, mas tem como pressuposto a superioridade ética e a capacidade de discernimento dos povos.

O comportamento ocidental tem sido errático em cenários, como por exemplo, o Iraque (é recomendável uma visita ao relatório Chilcot), a Líbia e a Síria, contribuindo para a criação de um espírito de “vale tudo”, ajudando a explicar estes fenómenos de degenerescência dos valores. Nos EUA grita-se “prendam-na” na Turquia grita-se “matem-nos” e muitos outros gritos espalham a irracionalidade por esse mundo que deriva num oceano de medos, ficando cada dia mais perigoso.

Sempre existiram personalidades com falta de conhecimentos e com este tipo de comportamento, mas raramente representaram o perigo que agora se afigura. São simplesmente ignorados e esquecidos, ficando a sua capacidade de fazer maldades confinada aos que com ele convivem de mais perto.

Mas na nova normalidade que vivemos, e este é o ponto mais difícil de admitir, existe recetividade para este tipo de abordagem. Quando os povos chegam ao ponto de acreditar nestes populismos primários, é legítima a questão de “Como chegámos aqui?”, “Que educação, que valores têm sido transmitidos?”, “Onde teremos falhado?”

Uma visita à história do século XX poderia ajudar a encontrar semelhanças do que acontece quando oradores populistas chegam ao poder eleitos democraticamente. Enfim, recorrendo a alguma trafulhice.

A ditadura do imediatismo também padece de um Marketing perigoso suportado em mensagens curtas e fáceis de perceber. Se dissermos “Todos os X são qualquer coisa”, provavelmente toda a gente percebe todas as palavras e o tempo de assimilação da mensagem não requer muito tempo de atenção. Mas se tentarmos introduzir alguma racionalidade na discussão “Não é bem assim, repara que existem vários “Xizes”, uns assumem este comportamento e outros aquele, ” a perca de audiência é notável.

Se esta perspetiva de análise for válida, temos a prevalência da superficialidade e do imediatismo e perdemos a noção de que está certo e do que está errado.

Se assim for, é justo que designemos os tempos em que vivemos como “Trumpismo” porque esta designação vai perdurar muito para além da personagem sinistra que lhe dá o nome.