Perder o Norte

Perder o Norte

Neste País de marinheiros (ao que se diz) esta expressão tem o significado de perder o rumo, ficar à toa, sem orientação. Reflexo da gesta dos Descobrimentos, a expressão ficou, mesmo para os que nunca sulcaram as águas do mar.

Mas há outro norte, ou mais propriamente um North, que merece ser recordado.

Oliver Laurence North, nascido no Texas em 1943, foi um brilhante oficial dos U. S. Marines, condecorado com a Silver Star, a Bronze Star e a Purple Heart, entre outras medalhas, todas em combate no Vietname, quando era ainda subalterno.

Depois de uma movimentada carreira, sendo já tenente-coronel, foi nomeado em 1981 sub-diretor do National Security Council (NSC) para a área dos assuntos político-militares. Teve assim acesso frequente ao Presidente dos EUA.

Foi nessa qualidade que interveio numa tentativa secreta de trocar armas pelos reféns americanos em poder do HAMAS, experiência de que mais tarde se serviu para levar a cabo a operação que o tornaria indesejavelmente conhecido a nível mundial.

O Presidente Ronald Reagan estava empenhado em intervir na Nicarágua, procurando derrubar o governo sandinista através do apoio aos “contras” anticomunistas. Porém, o Congresso americano, na ressaca da Guerra do Vietname, estava avesso a quaisquer novas aventuras militares fora de portas. Daí a Emenda Bolland, de 1882, proibindo o financiamento de tais ações.

A necessidade aguça o engenho, e Oliver North encabeçou um processo que resultaria na venda de armas americanas ao Irão (esse mesmo, o do Eixo da Mal), obtendo fundos que seriam em parte desviados para financiar os “contras”. Tudo, obviamente, através de paraísos fiscais e redes de traficantes.

Recorde-se que um país que nessa altura vendesse armas ao Irão arriscava-se a sofrer sanções por parte dos Estados Unidos…

Os problemas surgiram quando os jornais (os das Fake News, diria o atual Presidente) descobriram a negociata, dando origem ao chamado escândalo Irão-Contras. Da negação ao reconhecimento dos fatos, lá se seguiu a habitual via-sacra (que agora se repete), saindo a verdade a conta-gotas.

Oliver North assumiu publicamente a responsabilidade do caso, ilibando o Presidente que, segundo declarou, não sabia de nada. A verdade é que as comissões de inquérito não encontraram nenhuma prova da intervenção de Ronald Reagan neste assunto, e em 1986 North acabou por ser demitido, julgado e condenado a três anos de prisão, com pena suspensa, além de umas sanções acessórias, e veria truncada uma promissora carreira militar. Veio a ser ilibado em 1991, tendo posteriormente falhado uma carreira política e acabando como professor e comentarista de TV.

Mais tarde reconheceu, num inquérito não passível de ser usado como matéria de incriminação (como em alguns inquéritos de segurança), que o Presidente tinha conhecimento de tudo. Para ele, tarde demais.

De fato, é difícil imaginar que um assunto tão delicado tivesse passado ao lado do Presidente. E, quanto a ordens escritas, os habituais cínicos lembrarão que também não foi encontrada nenhuma ordem escrita de Hitler mandando matar um judeu que fosse…

Passando aos dias de hoje, temos o folhetim Donald Trump Jr. e a sua ligação ao Kremlin, por interposta e atraente pessoa.

E lá voltamos às cenas dos capítulos anteriores, em que o filho tomou iniciativas e fez coisas graves sem dizer ao pai (por acaso, o Presidente); e até se fez constar que o jovem tinha atravessado um período de más relações com o ilustre progenitor; assim, num nobre impulso, e para se redimir, teria intentado, na sua inocência, fazer um favor e uma surpresa ao pai (coisas dos verdes anos!).

Não parece que se trate de uma manifestação do complexo de Édipo (nem a mãe foi para aqui chamada); mais provavelmente, teria sido uma manifestação do complexo militar-industrial, a tentar proteger os seus interesses (sem grande subtileza).

Só não se percebe que a preparação da surpresa tivesse sido partilhada pelo diretor da campanha eleitoral e por um lobbyst (palavra que, felizmente, não tem tradução em português) de origem russa, que são pessoas adultas, experientes e sisudas, e que bem poderiam ter refreado o entusiasmo juvenil do Jr.

No meio do temporal dos twitter do atual Presidente dos EUA, mais variáveis que os ventos no Aeroporto Cristiano Ronaldo, e com efeitos igualmente catastróficos, resta-nos uma atitude sensata.

Não fazer como o North, e não perder o Norte.

Nuno Santa Clara

O Movimento das Espadas

O Movimento das Espadas

O anúncio de uma manifestação de oficiais do Exército que culminaria com a entrega das espadas ao Presidente da República, como Supremo das Força Armadas, terá deixado muita gente perplexa.

Mas não devia. Esta é apenas uma amostra de que o ensino da História de Portugal anda muito por baixo.

Por mim, deixou-me apenas uma sensação de “déjà vu”, por estranho que pareça.

Se não, vejamos: antes deste houvera já um “Movimento das Espadas” feito por oficiais generais em 5 de Dezembro de 1869, como forma de apoio ao Marechal Saldanha; e em 1915, outro “Movimento das Espadas”, que decorreu entre 20 e 25 de Janeiro, desta vez com contornos mais vincadamente políticos e não apenas corporativos. Vale a pena recordar este último.

Reinando nesta República recém-plantada à beira mar o Partido Democrático (um avatar do antigo Partido Republicano) com confortável maioria, a intromissão de critérios políticos nas promoções e colocações dos militares era frequente. De acordo com desse mau hábito, foi compulsivamente transferido de guarnição o major Craveiro Lopes (1), por se ter travado de razões com um notável do Partido Democrático. Os camaradas decidiram entregar as espadas ao Presidente da República, Manuel de Arriaga, em sinal de protesto. A este movimento se juntaram oficiais do Regimento de Lanceiros 2.

Foram detidos e encarcerados na veneranda fragata D. Fernando e Glória, surta no Tejo.

Entretanto, o próprio Machado Santos foi entregar a espada ao Presidente da República, gesto que, vindo de quem vinha, desencadeou uma crise, agravada com a posição tomada pelos partidos Unionista e Evolucionista (dissidentes do Partido Republicano), e tudo acabou com a demissão do governo e a nomeação do General Pimenta de Castro para formar novo governo, em “ditadura”, ou seja, fora do quadro parlamentar e até novas eleições. Nem foram aplicadas medidas de restrição de liberdades, pelo que o termo “ditadura” não pode ser transcrito para o contexto atual.

A situação assim instituída durou até à revolta de 14 de Maio desse ano, que terminou com a demissão de Manuel de Arriaga e do governo Pimenta de Castro, reintroduzindo o regime anterior, mas ao preço de cerca de 200 mortos e 1.000 feridos.

Claro que, por detrás da mera transferência de um major, estavam vários agravos institucionais e questões mais sérias, como a participação de Portugal na I Guerra Mundial. E que as medidas apaziguadoras de Pimenta de Castro face aos monárquicos e à Igreja Católica não agradaram aos republicanos radicais.

Mas estes dois episódios deixaram marcas profundas no País: criaram-se clivagens no Exército e na sociedade civil que levariam, a prazo, ao 28 de Maio. Em particular, dividiram as Forças Armadas em “guerristas” e “anti-gueristas”, uma divisão que marcaria por decénios a Instituição.

A título de exemplo, oporiam os veteranos de guerra ao “tenentes do 28 de Maio” – e, ainda aqui, também com uma componente corporativa (o atraso nas promoções).

Estamos pois como num “eterno regresso”, em que acontecimentos que parecem insólitos não são mais do que o resultado de tirar velhas coisas do baú.

Com um fundo comum: nos dois casos: foram as forças tradicionalistas e conservadoras que desencadearam o movimento, ainda que, no caso de 1915, com a ajuda de um progressista.

Se é verdade que quem não aprende com a História, está condenado a repeti-la, aqui fica este lembrete.

Nuno Santa Clara

Nota (1): o major, mais tarde general de divisão, João Carlos Craveiro Lopes, foi pai do general Craveiro Lopes, Presidente da República (1951-1958). Comandou uma brigada do CEP em França e foi Governador-Geral da Índia.

O fio condutor

O fio condutor

Dois acontecimentos têm quase monopolizado as atenções da comunicação social nestes últimos tempos, e pelas piores razões.

Trata-se do incêndio de Pedrógão Grande e do roubo de armamento e munições dos paióis de Tancos.

Aparentemente, não têm nada a ver um com o outro. Mas não é bem assim.

A primeira semelhança deriva da tradicional sequência de ações desencadeadas neste tipo de acontecimentos: desorientação completa; reação caótica; busca frenética dos responsáveis; punição exemplar dos inocentes; absolvição dos culpados; enaltecimento dos que não tiveram nada a ver com o caso; ausência de conclusões acertadas e, a médio prazo, o esquecimento do assunto (normalmente face a nova embrulhada).

Na parte que compete ao Exército, esperemos que não seja assim.

A esta habitual sequência, junta-se, nos países democráticos, um amplo debate público e a utilização de outras armas, estas de arremesso, pela classe política.

A segunda semelhança deriva de outra tradição nacional: comprar materiais ou serviços sem incluir a sua manutenção, ou até a sua testagem operacional. Decerto fica mais barato; mas, à primeira deficiência ou avaria, milhões de euros em material tornam-se praticamente inúteis. No mínimo, fica tudo inoperacional até que seja encontrada verba necessária, depois que seja lançado um concurso público, e depois ainda que se recupere o sistema (se puder ser recuperado, o que nem sempre acontece).

Os resultados podem ser catastróficos: não só perda de vidas humanas e/ou elevadíssimos prejuízos materiais, mas também perda de credibilidade interna e externa.

As Forças Armadas têm vindo a construir uma imagem externa muito positiva, inclusive através do esforço do seu pessoal e dos seus meios em teatros exteriores; as Forças de Segurança, além de idêntica afirmação no exterior, têm mantido uma paz interna de que todos beneficiamos, nomeadamente no crescente fluxo turístico. Mas umas e outras têm sido objecto de roubos de armamento que deixa perplexo o comum dos cidadãos. E que não contribui nem para a imagem externa, nem para as hipóteses de cooperação com instituições congéneres.

Decerto temos tendência para levar tudo “numa boa”. A título de exemplo, sete casos de violação dos corredores de aproximação a aeroportos por drones têm vindo a ser consideradas como “rapaziadas”. Até pode ser que sejam: mas se houver a queda de um avião, ou um boicote dos pilotos aos nossos aeroportos, boa parte dos hotéis ficarão vazios e o tão propalado boom turístico e consequente fatia da recuperação económica passarão à História. Não falando de vidas humanas, que não são contabilizáveis, o que faz que muitos não se preocupam com isso.

Mas agora os casos são graves. O roubo em Tancos mostra uma actuação fora do comum, não só pelo volume de material roubado, como pelas suas características. Não parece haver dúvidas de que se trata de satisfazer uma “lista de compras”, não para abastecer um mercado negro interno, mas para equipar grupos visando acções de vulto em qualquer ponto da Europa.

E o “bom aluno” da dita Europa não pode dar o flanco de modo tão flagrante, ilustrado pelas notícias que vieram a público sobre as deficiências na segurança de instalações tão sensíveis. Um Mundo tornado mais instável não se compadece com amadorismos, optimismos, laxismos e outros ismos, que rimam com terrorismo.

As reduções sucessivas nos orçamentos dos serviços públicos – e a Segurança é um deles – só podem ter como resultado lógico final o seu encerramento, seja um hospital, uma base aérea, um navio de guerra, ou uma escola. Não há meio hospital, meio avião, meio navio ou meia escola.

Portanto, se pretendemos um serviço, e for considerado essencial, como a Saúde, o Ensino ou a Segurança, é bom que seja dotado com os mínimos necessários ao seu regular funcionamento, sendo que a segurança é um dos requisitos desse funcionamento.

A menos que se pretenda continuar com o folclore das inaugurações e aquisições mediáticas, e se continue a ignorar as necessidades inerentes ao funcionamento e manutenção desses investimentos. Por norma, inaugura-se a construção de uma estrada, mas a sua reparação, relegada para a quinta página; como o lançamento à água de um navio, mas não a sua manutenção; como também a primeira pedra de um hospital, mas a aquisição do seu recheio e contratação de pessoal.

A menos que se dê razão aos cínicos, que dizem que na adjudicação das obras ou na aquisição dos materiais é que está o interesse… E poderá estar aqui o fio condutor que liga estes acontecimentos, sobretudo quando são ultrapassados os operacionais sobre a definição das prioridades, em detrimento dos decisores armados do exclusivo das aquisições.

Como nota final, um dos argumentos para a substituição dos serviço militar obrigatório pela profissionalização das Forças Armadas era o aumento do grau de confiança e responsabilidade do pessoal. Ora, a substituição do compromisso solene da defesa da Pátria, a troco de quase nada, por um contrato de trabalho, não parece ter sido suficiente para garantir essa confiança.

É que, se a lógica for só essa, business is business…

Nuno Santa Clara, 28-06-2017

Eclipses, solstícios, equinócios

Eclipses, solstícios, equinócios

Desde a mais remota antiguidade os homens têm tentado explicar os fenómenos da Natureza. Uns pareciam fáceis, como o dia e a noite, ou as estações do ano. Outros eram mais complexos, como o movimento dos astros e a ocorrência dos eclipses.

Para os povos que consideravam que os astros governavam a Natureza, adivinhar um eclipse, determinar o dia exato dos solstícios e equinócios, ou apenas prever as marés, era considerado o supra sumo da Ciência, tudo naturalmente rodeado de uma aura de misticismo.

Até tempos bem recentes, grandes decisores recorriam a esses sábios para tomar decisões. Travar uma batalha, nomear um herdeiro, casar, tudo isso implicava consultar um astrólogo.

Dizem as más-línguas que, pela calada, esse hábito ainda se mantém, mesmo a níveis que se julgaria impensável. Adiante.

Prever as atitudes e decisões dos líderes de outros países, inimigos, adversários ou até amigos, é o sonho de qualquer governante. A busca dessas informações recorre tanto a meios sofisticados como a golpes baixos sobre os pontos vulneráveis dos “alvos”. A Literatura, o Cinema e a Televisão estão cheios de histórias e estórias sobre esse assunto.

Com a decadência (aparente?) da astrologia, resta investigar no terreno das ciências humanas um modo de resolver esta carência de informação, ou melhor, de previsão do comportamento do inimigo, adversário ou amigo (amigo no sentido restrito dos interesses comuns: para além disso, torna-se, pelo menos, adversário).

O quebra-cabeças atual chama-se Donald Trump. Sobre ele acumulam-se acusações de impreparação política interna e externa, falta de cultura, ignorância sobre as regras da diplomacia, e outras mais; como, naturalmente, também não faltam admiradores e apoiantes.

Mas é o carácter de imprevisibilidade das suas declarações públicas (com especial relevo para o twitter, esse insólito meio de difundir objetivos ou orientações políticas) que tem dado dores de cabeça a muita gente, e desafiado os analistas convencionais.

Será assim tão imprevisível? Aparentemente, sim. Não estávamos habituados a ver o dirigente do país mais forte do Mundo lançar uma opinião/orientação arrasadora, que, no curto espaço de 24 horas, fosse laboriosamente desvalorizada pela equipa do seu governo, e liminarmente anulada por uma declaração contrária do próprio autor.

Convenhamos que, para os demais governos, organizações internacionais e simples cidadãos, isto constitui um desafio.

Mas vejamos essa questão mais em detalhe, por exemplo na escaldante situação no Médio Oriente. Várias guerras, ou várias frentes da mesma guerra, comportam um risco acrescido de escalada, de conflito local a regional e, quem sabe, até global.

Os vários intervenientes estão interessados no fim dos conflitos, mas com um senão. Todos querem ganhar mas, acima de tudo, não querem que o outro ganhe. Ou seja, a Turquia quer o fim do ISIL, mas sem o concurso dos curdos; a Rússia também, mas com o seu aliado no governo; os EUA também, mas em o ditador e com os curdos; os xiitas, idem, mas sem os sunitas, e estes em sentido inverso; e assim por diante.

Deste modo, a visita de Trump aos países árabes reveste especial interesse. Não pelo apregoado encontro de religiões: o de Jerusalém foi folclore, o de Riad acabou com críticas à ausência de véu da Primeira-Dama, e do de Roma é melhor nem falar. Mas pelo resultado prático das visitas.

Pois bem, a Arábia Saudita acabou por firmar negócio de armamento cifrado em zeros que ocupariam metade desta linha. Israel, com a venda de caças F-35, cujas virtudes foram apregoados em público pelo Presidente ao melhor estilo da Feira da Ladra.

Pouco depois, os países do Golfo, com a Arábia à cabeça, exigiram a submissão da Catar. Motivo: apoio ao Irão e ao terrorismo. Ver estes países, direta ou indiretamente financiadores da Al-Qaeda e similares, pregar contra o terrorismo, só lembra o Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz.

Sendo óbvia a ligação entre esta atitude e a visita presidencial, eis que a América anuncia a venda de caças F-15 ao Catar, novamente por muitos zeros! Ou seja, a armar o adversário do seu aliado!

A nudez crua da verdade apareceu quando, no ultimatum de dezasseis pontos ao Catar, surgiu o encerramento da al-Jazeera, uma das cadeias internacionais de televisão mais vistas, sobretudo no mundo árabe… Uma das várias formas de reconduzir ao redil aquela ovelha tresmalhada. No fundo, nostalgia do Império.

Mudando de continente, a pública e pomposa declaração de Trump de substituir o muro do México por uma cortina de painéis solares pode parecer insólita. Mas ele percebeu (só agora!) que o carvão não tem futuro, e que as energias renováveis eram um bom negócio (o que não tem nada a ver como ambiente). Portanto, com prejuízo para os construtores civis, mas para gáudio das indústrias de ponta, vá de emendar a mão, sem renunciar ao espírito do Muro.

Dito isto, parece que Trump, afinal, é tão previsível como os eclipses, e com a precisão dos solstícios. Basta saber onde se pode fazer um bom negócio.

Ou seja, como muito bem observou o Professor Adriano Moreira, “… a proposta metodológica que está na cabeça dele, é aplicar ao estado líder mundial – segundo o conceito em que o tínhamos – a metodologia do empresário”.

Nuno Santa Clara, 27-06-2017

 

A Muralha de Adriano

A Muralha de Adriano

O imperador romano Públio Élio Trajano Adriano (76-138 D.C.) fez construir, entre os anos de 122 e 126, uma muralha, guarnecida de pequenas fortificações, que atravessava a Grã-Bretanha de costa a costa, de forma a conter os povos bárbaros do norte da ilha – os pictos e os escotos, a quem os romanos davam o nome genérico de caledónios.

A Muralha tinha um comprimento de cerca de 80 milhas romanas, o que equivale a cerca de 118 km, uma altura de cerca de 4,5 metros e uma largura de 2,5 metros. Seguia um traçado mais ao sul do que o da atual fronteira Inglaterra-Escócia.

Nada que se compare com a Muralha da China, mas ainda assim imponente. Posteriormente, o imperador Antonino mandou construir outra muralha, mais a norte.

Com a decadência do Império Romano, ambas as muralhas foram desguarnecidas, abandonadas e caíram em ruína, com as pedras a serem aproveitadas para outras construções. O que restava da Muralha de Adriano foi considerado Património Mundial pela Unesco em 1987.

Sic transit gloria mundi, é caso para dizer.

Agora que os muros voltaram a estar na moda, seria bom meditar sobre este exemplo.

Há muros que representam uma viragem na História, tanto pela sua construção, como pela sua destruição. Assim foi com o Muro de Berlim, do qual hoje se disputam pedaços para museus e memoriais; ou com a Muralha da China, tornada atração turística, uma vez que a soberania chinesa se exerce em ambos os seus lados.

Ou seja, mais de que obstáculos perpétuos, passaram a ser símbolos de um passado a que não se quer regressar. Mais tenaz que as pedras é a vontade dos Homens, que tanto pode ser manipulada e escravizada para a construção dos muros, como libertada para a sua destruição – sobretudo quando essa demolição é norteada pela aspiração à Paz, à Democracia e ao salutar convívio entre as gentes.

Mas muros continuam a ser erguidos, sempre com o mesmo propósito: criar um obstáculo entre nós e eles. Não são uma afirmação de força, mas de receio; não são uma demonstração de poder, mas de fraqueza. Adriano considerava que o Império Romano tinha atingido o seu limite, e havia que guardá-lo, e não expandi-lo.

Quando hoje se constroem muros é porque alguém não se julga com meios de conter os outros; o que é uma forma de confessar as suas fraquezas.

Tal não significa permissividade nem desistência na afirmação da soberania; simplesmente, para estancar o fenómeno das migrações, estas têm se ser combatidas na origem. E é aí que pode ser manifestada a força que dá a superioridade moral, económica e até militar, colocada ao serviço da comunidade global.

Quem assistiu, mesmo que com interesse marginal, ao concerto “On Love Manchester”, iniciativa da cantora Ariana Grande, decerto não ficou indiferente. O evento representou regressar ao local do crime, concentrar 50.000 espetadores, mobilizar artistas, para recolher fundos destinados às vítimas; mas também para afirmar em alta voz e tom alegre: estamos aqui! E somos mais do da outra vez!

O povo britânico tem destas coisas. Quando começaram os bombardeamentos de Londres, em 1940, a palavra de ordem de Churchill foi “business as usual”. Evacuaram-se as crianças, os velhos e os doentes, e a vida continuou, apesar de milhares de bombas e milhares de vítimas.

Pois desta vez foi “music as usual”. Alterar o padrão de comportamento dos cidadãos seria dar uma vitória aos autores dos atentados. E os milhares de espetadores que compareceram no estádio mostraram uma coragem tão fria e determinada como a dos seus avós, quando lhes quiseram quebrar a vontade pelo emprego do terror.

Mas houve algo mais de especial. Ariana Grande nem é inglesa – é uma americana da Florida, de origem hispânica. Mas nem as grandes causas têm pátria definida, nem as grandes virtudes são exclusivas de alguma raça em particular.

Ariana ajudou a construir um muro imaterial, invisível, mas tão sólido como uma rocha, com o cimento que aglutina a vontade inquebrantável de defender valores essenciais, sem os quais a nossa sociedade, tal como a entendemos, deixaria de existir.

E um muro imaterial não pode ser demolido.

O Muro de Adriano foi derrubado pelo tempo e pela incúria dos homens; o Muro de Ariana, chamemos-lhe assim, tem a firmeza da Crença e a solidez da Razão.

Nuno Santa Clara

Os reis do lixo

Os reis do lixo

Manuel Martins Gomes Júnior, natural de Santo António da Charneca, viveu entre os séculos XIX e XX, e é uma das figuras mais curiosas do Concelho do Barreiro.

Dedicando-se à criação de gado, ficou famoso por ter arrematado o lixo de Lisboa, nessa altura constituído basicamente por matéria orgânica, que transportava em fragatas para o rio Coina, para com isso alimentar porcos. Não havendo ASAE nem controlos sanitários, era ouro sobre azul: alimentava os porcos quase de borla!

Tão bom foi o negócio que mandou construir, numa antiga quinta que fora de um irmão do Intendente Pina Manique, um palácio ao estilo da Renascença Italiana, que hoje é conhecido por Torre de Coina, e que é suficientemente grande para ter servido de referência aos pilotos militares da vizinha base do Montijo.

Diga-se, de passagem, que o palácio está muito degradado, e, infelizmente, não se conhece alguma iniciativa para a sua recuperação.

Portanto, isto do lixo dá dinheiro, e não só por cá. Basta lembrar a vicissitudes da recolha e tratamento ilegal do lixo na região de Nápoles, controlada pela Camorra (a Mafia local), com a teia de interesses de que pouco se conhece, além dos efeitos.

Mas há mais negócios do lixo bem mais proveitosos.

As soberanas agências de rating, essas eternas insatisfeitas, continuam o manter Portugal ao nível do “lixo”, apesar de todos os indicadores e sinais favoráveis da nossa economia, e das declarações de insuspeitos políticos e especialistas.

Ainda recentemente, o Prémio Nobel da Economia de 2002, Joseph Stiglitz (que não é propriamente um defensor do euro, assunto já por ele profusamente tratado) disse sobre as agências de rating que “são instituições profundamente politizadas que fingem ser avaliadores objetivos e independentes do risco económico”, e que as únicas razões para manter Portugal no lixo são apenas políticas.

Aqui, com o atrevimento de quem é leigo no assunto, diria que talvez se passe também no sentido inverso: são os interesses das empresas de rating que ditam as classificações, estas as cotações, e estas as políticas.

Assim como o ovo e a galinha.

Mas o peso dessas agências é esmagador, e daí lhes ter chamado soberanas, à falta de um termo que ultrapasse o conceito da soberania das nações.

Ser soberano, ou rei, tem mais sabor quando o poder é absoluto – o que parece ser o caso, já que as ações das agências escapam a qualquer supervisão, controlo ou tutela.

Uma vez que lhes cabe, não a atribuição de títulos e honrarias, ducados e condados, mas o exclusivo da classificação de “lixo”, fica-lhes bem o epíteto de “Reis do Lixo”.

Tal como o nosso Manuel Martins Gomes Júnior, com o lixo dão de comer aos porcos, aqui entendidos no mesmo sentido da célebre caricatura de Raphael Bordalo Pinheiro, intitulada “A porca da política”.

Tal como a Camorra de Nápoles, não se percebe bem como funcionam.

Quanto à maioria dos cidadãos, produz cada vez menos lixo, sobretudo orgânico, porque os tempos não estão para desperdícios.

Nuno Santa Clara, 31-05-2017

De fora para dentro

De fora para dentro

Através dos tempos, a maneira clássica de um dirigente político contornar dificuldades internas é criar, provocar ou acirrar a ameaça de um inimigo externo.

Se a manobra for bem feita, resulta em pleno. Esquecem-se as diferenças perante a ameaça exterior (real ou imaginária), e, todos irmanados pelo interesse comum, constituem-se frentes patrióticas, uniões sagradas, ou outros movimentos do mesmo estilo, para conjurar as ameaças e salvar a Pátria.

Foi assim que os generais argentinos pretenderam unir o povo em torno da Guerra das Malvinas, ou que os coronéis gregos declararam a guerra santa pela ocupação de Chipre. Ambas acabaram em fracasso, e acarretaram a queda dos respetivos regimes.

É que uma guerra, sobretudo uma destas, não pode ser perdida, e para que isso aconteça o caminho mais fácil é improvisar estratégias, atamancar táticas e basear-se na fantasia. Melhor dizendo, tomar os seus anseios por factos reais, segundo a fórmula de Eça de Queirós: cobrir com o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.

Decerto o conceito de verdade tem evoluído nos últimos tempos. Mas também é verdade que, numa guerra, a arte suprema está em iludir o adversário, e isso só se faz através da mentira deliberada.

A recente visita de Donald Trump dá-nos dois bons exemplos da ligação política interna e externa. As coisas andam más a nível interno: não bastava o FBI fugir ao controlo presidencial, como vem agora a CIA agravar os problemas com novas revelações (para não falar nas brigas com os serviços de informação ingleses e israelitas).

O Presidente dos EUA discursou no Museu de Israel e, depois de dizer que “a minha administração estará sempre com Israel”, disse que “a destruição de Israel não acontecerá com Donald J. Trump”.

À primeira vista, seria mais uma das retumbantes declarações de um ego desmesurado, a que já nos habituou.

Mas não deve ser visto assim. O que ficou explícito é que, enquanto ele for Presidente, Israel estará a salvo (independentemente disso ser exequível ou não). Portanto, judeus de todo o mundo, uni-vos e salvai a pátria – em concreto, façam o que puderem para evitar o impeachment. Isto é importante, sobretudo considerando o papel dos media americanos, com forte influência judaica, ultimamente críticos de Trump.

Depois, o Presidente dos EUA discursou perante os Chefes de Estado e de Governo em Bruxelas, e foi pouco diplomático. A ponto de provocar comentários e sorrisos entre os tais chefes, visíveis na reportagem em direto, o que também não foi muito protocolar.

Estaria ele realmente interessado em aumentar os encargos de defesa militar, como forma de combater o terrorismo? É consensual que não é essa a via para garantir a segurança interna e responsabilidades, recaindo o peso das despesas sobre os contribuintes americanos.

Estaria certo, se os interesses dos Estados Unidos coincidissem 100% com os dos seus aliados, o que não se tem verificado, por exemplo no Médio Oriente e no Afeganistão.

Juntando a isto as considerações sobre terrorismo e imigração, depreende-se que Trump não estava a falar para os seus interlocutores europeus (exceto alguns incondicionais, que não estavam ali representados): estava a falar para os eleitores americanos que nele votaram, repetindo os temas da campanha eleitoral.

Ou seja, estava a fazer a manobra dos generais argentinos e dos coronéis gregos, mas em sentido inverso: de fora para dentro.

Mas não deixa de ser eficaz, para quem prefere os argumentos aos factos.

Resta saber se tomar a nuvem por Juno não dará o mesmo destino do gigante Adamastor…

Nuno Santa Clara, 25 de Maio de 2017