Lo dia de los muertos

Lo dia de los muertos

No México, e em outros países da América Central, existe uma comemoração sui generis. Trata-se do Dia de los Muertos, que pouco ou nada tem a ver com o nosso Dia de Finados. Essas comemorações dos mortos, com origem nos ritos pagãos dos aztecas, maias e outros povos, inicialmente feitas nos meses de Julho e Agosto, têm para nós uma estranha miscelânea de defuntos e vivos.

A cristianização da América Central (nem sempre pacífica) acabou por assimilar esse culto dos mortos ao Dia dos Fiéis Defuntos, celebrado a 2 de Novembro no calendário litúrgico. Tirando a data (três a quatro meses de diferença) este fenómeno não é muito diferente de outros em que a Igreja Cristã, na impossibilidade de apagar por completo as tradições pagãs, recuperou-as e integrou-as no seu próprio calendário. Assim foi com os Santos Populares, associados ao solstício de verão, ou mesmo o Natal, que ocorre por alturas do solstício de inverno.

Algo semelhante com a continuidade dos locais de culto: há em Portugal pelo menos duas antas transformadas em capelas, e muitas ermidas estão situadas em sítios de cultos ancestrais. Não confundir com as mesquitas adaptadas a igrejas, que são espaços criados por duas religiões monoteístas, oriundas do mesmo espaço geográfico e comungando de culturas próximas.

As comemorações do Dia de los Muertos decorrem de 31 de Outubro a 2 de Novembro, e representam um ponto alto na sociedade mexicana. Come-se, bebe-se, dança-se nas ruas e nos cemitérios; os esqueletos são as figuras mais vistas, e tudo decorre dentro do espírito ancestral da convivência entre vivos e mortos. Não com assombrações e almas do outro mundo, mas em festejos e comezainas. Os mortos vêm visitar os vivos, e estes prestam-lhes as suas homenagens.

Talvez nos pareça muito estranho, mas é naturalíssimo para aquelas gentes. A abordagem que têm da Morte é diferente da nossa. Basta lembrar a frase célebre de alguém com peso mediático no nosso País: estar vivo é o contrário de estar morto. Para os mesoamericanos, as fronteiras são mais ténues.

Nesta época de globalização, não seria de estranhar que este hábito aparentemente macabro se espalhasse para fora da América Central. Foi assim que o Halloween (o Dia das Bruxas) entrou nas nossas casas e ruas, destronando o Pão Por Deus, esse sim, com fundas tradições culturais e religiosas neste reino tradicionalmente dedicado a outros valores.

Parece a tal influência já vai aparecendo. A ideia de fazer um banquete no Panteão Nacional parece ir nesse sentido. Numa saudável convivência, as ossadas de alguns dos nossos mais ilustres antepassados assistiram ao ágape, embora sem tomar parte nele, como fariam os seus equivalentes mesoamericanos.

Julgo ociosa a discussão sobre quem tem a culpa da patuscada em tal local, o que para quem tem um mínimo de bom senso é no mínimo irreverente. A ideia mestra desta iniciativa é rentabilizar o Panteão, como os Jerónimos ou o Convento de Cristo, e que alguém achou ter algum mérito. Dentro desta linha, não sei porque não se fizeram já concertos de rock dentro da Grande Pirâmide, rave parties em cemitérios, ou esfrega-esfrega em igrejas.

A lógica é simples: se as verbas para a Cultura são escassas, há que encontrar soluções; e o neoliberalismo tem razões que a sensibilidade desconhece.

De modo que podemos esperar que, num futuro não muito longínquo, as câmaras municipais venham a promover atividades recreativas nos seus cemitérios, invocando o precedente do Panteão e a inspiração mexicana, e que os crematórios, nas horas mortas (não é trocadilho) possam vir a rentabilizar os seus espaços; na mesma onda, o Monumento aos Combatentes poderá servir de pista de skate, e a Basílica de Fátima para desportos radicais.

Quanto aos nossos mais ilustres antepassados, não serão mais do que uma atração marginal na rentabilização dos espaços públicos, decorando-se urnas, estátuas e memoriais de acordo com o tipo de festa.

Nuno Santa Clara, 13 de Novembro de 2017

Rainha por um dia

Rainha por um dia

Conta-se que, quando da Restauração de 1640, ter-se ia levantado um problema aos conjurados: o rei escolhido, D. João, 8.º Duque de Bragança, era casado com uma espanhola, D. Luísa de Gusmão.

Nada mais natural. O casamento de um duque, para mais do ducado mais importante das Espanhas, era um assunto de Estado. D. Teodósio II, 7.º Duque de Bragança, pai de D. João, havia casado com D. Ana de Velasco e Girón, filha do duque de Frias; e Filipe IV (III de Portugal) tratou de casar o novo Duque de Bragança com Luisa Maria Francisca de Guzmán, filha do Duque de Medina Sidónia, um dos Grandes de Espanha.

Para onde iriam as inclinações da duquesa? Presumivelmente, para Espanha; mas não foi assim que aconteceu. D. Luísa optou pela sua Pátria de adoção e lançou uma daquelas frases que ficam para a História: mais vale rainha por um dia que duquesa toda a vida.

Semelhante tirada só a de Teodora, antiga atriz tornada esposa do Imperador Justiniano de Constantinopla. Quando foi proposto que a corte fugisse do palácio, em riscos de ser invadido pela turba em fúria, a imperatriz Teodora teria dito algo como “de púrpura se faz uma fina mortalha”. E ficaram todos – até por vergonha.

Pois na nossa Península, parecemos ter voltado a 1640, com a Revolta dos Segadores dum lado e a Restauração Portuguesa do outro.

Carles Puigemont foi presidente da Catalunha por um dia. Pode ter-se inspirado em Luísa de Gusmão, mas não em Teodora, uma vez que seguiu de imediato para a Bélgica (talvez ainda a considere como uma ex-colónia da Espanha), acompanhado apenas por alguns colaboradores próximos.

Ora a Bélgica tem duas facetas: é o centro da União Europeia, e capital de um país.

Acontece que Jean-Claude Juncker, entre outras coisas, disse que a Espanha não oprimia a Catalunha, pelo que não se aplicava o direito de ingerência; pelo que Puigemont nada deve esperar das instâncias europeias sobre um assunto interno de Espanha.

Quanto à Bélgica, já tem com que se preocupar com as questões linguísticas e culturais que a tornam um país no limite da secessão. Acolher um secessionista não deve ser uma prioridade para os belgas.

Puigemont viajou legalmente, como cidadão comunitário. Não se vê razão para ter acesso ao estatuto de refugiado político, como se chegou a dizer. Se ao menos tivesse chegado à praia de Ostende numa patera desconjuntada, seria caso para reconsiderar…

Não mostrou vocação para mártir, nem mesmo tendo a certeza de não ser martirizado. Decerto que foi presidente por um dia, mas como será o resto da vida?

Sabemos todos que Mariano Rajoy é adversário das autonomias; se pudesse, reverteria o estatuto da País Basco. A sua intransigência está na origem da presente crise, de que ele estará talvez convencido que é o grande vencedor.

Acontece que a Democracia é uma arma de dois gumes. Ao anunciar – e bem! – a realização de eleições (embora num prazo muito curto), Rajoy declarou sujeitar-se ao veredito popular.

Qual será o resultado? Ninguém irá esquecer a quota de responsabilidade do atual Primeiro Ministro – os catalães e os outros. Como escrevi há poucos dias, é provável que os independentistas percam, mas isso não quer dizer que os autonomistas não ganhem. E autonomistas há-os por toda a Espanha.

Assim, a vitória de Rajoy pode ter sido um sucesso tático, mas uma derrota estratégica. O que acontece frequentemente aos aprendizes de Napoleão…

Finalizando, os portugueses continuam arredados de nuestros hermanos num aspeto essencial: a cultura. Decerto vamos às tiendas, a Torremolinos ou a Madrid. Mas não conhecemos a sua escala de valores.

E, neste século XX, as duas mais célebres figuras da Literatura espanhola voltam a defrontar-se. De um lado D. Quixote, o idealista, desinserido das realidades, apaixonado por Dulcineia, quer ela exista ou não; por outro, Sancho Pança, sempre à coca de uma boa comezaina, resumindo a sua sabedoria à citação de provérbios, pragmático por natureza.

Rajoy & Companhia apostaram em Sancho Pança. Saíram da Catalunha 1.800m empresas, muitas delas com sonantes nomes catalães, símbolos do sucesso do Condado de Barcelona. Ficaram os Dons Quijotes, abraçados às bandeiras.

Fim da festa? Nem pensar! Como escreveu Descartes, “o Coração tem razões que a Razão desconhece” (com um pedido de desculpa ao Prof. António Damásio). A Sancho Pança pode faltar o grão de loucura, mas não falta aquele mínimo de discernimento que o leva a desconfiar dos DDT (Donos Disto Tudo). Como o Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, para fazer o paralelismo rural.

As eleições aí vêm, mesmo com muito pouco tempo de preparação. E se, em Madrid, há um grande monumento dedicado a Cervantes, na sua base estão D. Quixote e Sancho Pança – amigos para a vida.

Nuno Santa Clara

Negócios

Negócios

Os portugueses têm uma certa tendência para a auto depreciação. Embora em certas épocas tivesse havido quem puxasse pela nossa fibra patriótica, a verdade é que o tom dominante ao longo da nossa História tem sido negativista.

Grandes nomes da nossa cultura ilustraram essa tendência. Camões referiu-se à nossa “apagada e vil tristeza”; Eça de Queirós escreveu que este país não era uma Monarquia ou uma República, era um chinfrim; Fialho classificou-nos como o País das Uvas. E no século XX, as coisas ficaram piores.

De onde vem esta maldição?

Vem de que, entre nós, todas as ideias, por mais generosas que sejam, acabam mal. Fomos para os Descobrimentos, mas deles não tirámos os proveitos dos que nos seguiram. Colonizámos o Brasil, mas foram outros que lucraram com isso. Instituímos a República, mas para dar cabo dela em dezasseis anos. Fizemos a Revolução dos Cravos, mas para ficarmos encravados ao fim de um período semelhante.

Porquê?

A resposta está no título. Negócios, affaires, business, e afins. Sempre que alguém tem uma ideia capaz de mudar o Mundo, logo alguém se apropria dela, e monta um negociozinho.

A título de exemplo, foi assim com o computador Magalhães, que até tinha condições para andar; com os submarinos, que deram origem a prisões em toda a Europa, mas não em Portugal; com os escândalos financeiros, de que não há fim à vista; e com muitos mais, os quais impossível referir, quer por falta de espaço, quer porque há sempre quem queira morrer de velho (ao contrário da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, a quem presto sincera homenagem).

Vem agora a questão dos incêndios. Este asno, por duas vezes, o País foi flagelado por tragédias que se julgava arredadas para sempre do nosso quotidiano. Por duas vezes, mãos criminosas atearam fogos, com efeitos que, por pudor (e só por isso!), julgamos não ter estado na mente de quem os ateou.

Por duas vezes, sistemas de comando e controlo caríssimos não funcionaram; chefias providas por equivalências não corresponderam; descentralizações apregoadas não existiram; alertas oportunos não foram considerados; as populações acudiram aos fogos com púcaros; e assim regressámos à Idade Média, ao sabor das fatalidades, como no tempo em que Fome, Peste e Guerra eram fenómenos naturais e inevitáveis.

No entanto, não é assim noutros lados, pelo menos na Europa, a que nos orgulhamos de pertencer.

Para não ir muito longe, centremo-nos da vizinha Espanha, com um inúmeras semelhanças climáticas e ambientais connosco.

O Ejército del Aire tem na sua orgânica o Grupo 43, que dispõe de 14 aviões Bombardier CL 413, e 3 Canadair CL-215T, para combate aos fogos. Não passou pela cabeça de “nuestros hermanos” acudir aos fogos através de negociatas, nem mesmo sob a capa de concursos públicos: encarregou disso a sua Força Aérea, dentro das missões clássicas de quaisquer Forças Armadas de um país decente: acudir à necessidades das suas populações, e contribuir para a segurança e soberania nacional (que passa pela salvaguarda dos recursos do país, dos quais a floresta não é o parente pobre).

De modo que ficamos à espera (provavelmente em vão) de um inquérito independente (?) no qual se explique para onde foram os milhões destinados aos meios de comando e aos meios aéreos de combate aos fogos, e se, contas feitas, não teria sido mais barato e eficaz ter comprado os aviões e treinado os pilotos da Força Aérea para essa missão.

E assim teriam evitado muitas questões ligadas aos negócios, affaires e business, rompendo o ancestral ciclo vicioso.

Em jeito de remate, os militares podem ser mobilizados por telefone, a confirmar posteriormente por documento escrito; carecem de meios financeiros para voar e manter as suas qualificações; não precisam de concurso público para atuar; e estão, por natureza, vocacionados para colaborar para os fins superiores do Estado.

Têm, no entanto, um grave contra, com fundas razões históricas: a tendência de manter com a classe política uma relação institucional desprovida de subserviência, o que se complica quando se entra na espiral da asneira.

Assim Deus os conserve!

Nuno Santa Clara

Coerências

Coerências

As embrulhadas da situação na Catalunha, abundantemente divulgadas em direto nas Televisões de todo o Mundo, revelaram algo de insólito nesta Europa que se pensava estável, sensata e instituída.

Decerto que está na memória de todos o que se passou nos Balcãs após a implosão da Jugoslávia: guerra civil, genocídio, crimes de guerra e, a culminar, a consagração do direito de ingerência de terceiros países ou de organizações internacionais, em nome dos Direitos Humanos.

Como de costume, remeteu-se tudo isso, muito vitorianamente, para áreas remotas, habitadas por gente sem vivência democrática. Esquecendo que se tratava da Europa Central, e não de franjas do Continente Europeu, e muito menos do Terceiro Mundo.

Surgem agora os tumultos da Catalunha, em que houve já quem invocasse o tal direito de ingerência, embora amenizado sob a forma de uma mediação, felizmente rejeitada por ambas as partes.

Que descalabro! Só faltou pedir capacetes azuis para patrulhar as Ramblas!

Mas afinal, onde estamos nós? Vladimir Putin, o lobo em pele de raposa, foi dizendo que na Federação Russa, há muitas Catalunhas – e deve ter razão. A CE agarrou-se à legalidade constitucional – e não podia fazer outra coisa. Donald Trump apoiou “uma Espanha forte”, sem se lembrar (ou porque nunca soube, ou se sabia ainda é pior) que soa algo como a Espanha “Una, Grande y Libre” do franquismo.

A Catalunha teve a sua origem nas Marcas de Carlos Magno, que instituiu, na dependência dos “marqueses” (daí o título) vários condados aquém Pirinéus: Paillards, Ribagorce, Urgel, Cerdanha, Gerona, Ausona, Besalú, Empúrias… e Barcelona. O tempo e a virtú (no conceito de Maquiavel) encarregaram-se de estabelecer o primado de Barcelona sobre os outros condados. Posteriormente o domínio do condado estendeu-se até Carcassonne e Béziers, bem dentro da França atual, o que ainda hoje tem alguma importância, como veremos.

A Reconquista levou à criação do reino de Aragão, do qual a Catalunha fazia parte: o rei de Aragão era também Conde de Barcelona, em pé de igualdade. Este reino, com o qual Portugal teve relações privilegiadas até à união com o reino de Castela, sob os Reis Católicos, chegou a dominar Valência, as Baleares, a Córsega, a Sardenha e o reino de Nápoles, incluindo a Sicília.

A junção dos reinos de Aragão e Castela foi nefasta para os Catalães, que perderam proeminência face ao endémico centralismo de Castela. As coisas complicaram-se com a estranha herança de Carlos V (I de Espanha), deixando ao seu filho Filipe II os Países Baixos, o que levou à chamada Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), até ao abandono dessas províncias pelos (agora) espanhóis, o que ocorreu ao mesmo ano que o fim da Guerra dos Trinta Anos.

Para essa guerra, foram pedidos contingentes portugueses e catalães, o que resultou, em 1640, nas revoltas dos respetivos povos. A da Catalunha fracassou, mas a de Portugal resultou.

A Guerra de Sucessão de Espanha (1701-1714) tornou a trazer a Catalunha à baila, já que Barcelona resistiu às tropas de Filipe V até ao fim, com represálias cuja recordação ainda perdura.

A liberalização da Espanha após as Invasões Francesas levou a um surto de progresso na Catalunha, de que o urbanismo de Barcelona é a melhor mostra.

Mas o fim da Guerra Civil (1936-1939), com a vitória dos nacionalistas de Franco, veio repor o centralismo castelhano, oposto ao liberalismo regionalista catalão. Já no último quartel do século XX, a democratização da Espanha atenuou as queixas, mas alguma coisa ficou na memória coletiva.

Em paralelo, o País basco, baseado em razões algo semelhantes, quase mergulhou numa guerra civil, com centenas de mortos, a tiro ou à bomba, incluindo o imposto revolucionário, a repressão e ações pouco legais do governo central.

Só que houve o bom senso de atribuir ao País Basco aquele quantum de autonomia que, num mundo globalizado, era e é o melhor antídoto para as independências pouco viáveis.

Não se fez o mesmo na Catalunha, com o resultado que se vê.

E aqui entra o conceito de coerência. Se o País Basco obteve autonomia q.b., a ponto de ser hoje uma terra pacata e ordeira, porque não a Catalunha?

Ambos têm uma língua, uma cultura, uma história que os habilita à afirmação nacional. Só não o farão se, serenamente e refletidamente, acordarem a integração num conjunto político mais vasto. Como as colónias americanas, os cantões suíços ou as províncias holandesas aceitaram constituir-se num estado único.

Se a diferença está na metodologia utilizada, a conclusão é terrificante: isto só vai à bomba. Logo, os irredutíveis catalães estariam justificados, se passarem à fase do terrorismo.

Não chegaremos lá, mas haverá decerto muitas cabeças partidas, em ambos os lados. E porquê?

A Catalunha contava em 2012 com 7.570.908 habitantes, dos quais 1.443.480 vindos de outras regiões de Espanha e 1.342.271 de outros países, nomeadamente da Europa e América Latina. Ou seja, 36,8% não são catalães. Se juntarmos a estes os não-independentistas, decerto teríamos uma maioria que preferia continuar espanhola.

Afinal, quem tem medo do Lobo Mau, ou seja, das urnas?

Portanto, o que parece estar em causa não é o resultado, é o princípio. O Governo de Madrid não tem medo do resultado (ou não devia ter): tem medo da participação popular, dando assim trunfos aos minoritários independentistas.

Faz lembrar o “Portugal e o Futuro”, de António de Spínola, onde se dizia que “não se delimitam países como se delimitam coutadas”…

Entretanto, assiste-se a uma fuga maciça de empresas e capitais para fora da Catalunha, com as naturais consequências para a região. É que se pode ter o coração de um lado, mas a carteira está do outro… Para os independentistas, é um rude golpe, como que uma antecipação das dificuldades que a separação acarretaria.

Tudo porque o debate não se fez pelos prós e contras, mas pelos sentimentos. Tal como aconteceu com o BREXIT, que deveria ter servido de exemplo.

E agora, dentro da invocada coerência, o que farão a CE, os EUA e outros quando a Escócia fizer um referendo sobre a independência, como parece provável?

Seria ocioso falar do Curdistão, que é metido e tirado da cartola ao sabor das circunstâncias, ou das Catalunhas de Vladimir Putin. Ou do problema das regiões da Cerdanha e do Rossilhão, onde se fala catalão, mas estão situadas em França…

Ou seja, coerências há muitas. Cada um escolha a sua.

Quanto a Portugal, não resisto a parafrasear um, político brasileiro, sobre a Guerra das Malvinas: se a Argentina ganhar, é uma vitória da América Latina, e é bom para o Brasil; se perder, é uma derrota da Argentina, e é ótimo para o Brasil.

Deste modo, se a Catalunha se mantiver integrada na Espanha, é uma vitória da Comunidade Europeia, e é bom para Portugal; se a Catalunha se tornar independente, enfraquece a Espanha, e é bom para Portugal…

Nuno Santa Clara

Azeitonas e tâmaras

Azeitonas e tâmaras

Nem toda a gente tem a perceção da influência do árabe na língua portuguesa. Se a base desta é o latim (dizem que o português a língua mais próxima do original latino), se o grego deu origem aos vocábulos mais eruditos, o árabe deixou-nos não só um conjunto de palavras, algumas facilmente reconhecíveis, mas também um outro legado: as vogais fechadas, tão típicas do português da Europa.

A título de exemplo, usamos a palavra azeitona, do árabe az-zaituna, e não olivo, como os espanhóis ou olive, os franceses, e por extensão os ingleses. Tal como tâmara, do árabe tamar, em contraste com o espanhol dátil, o francês datte, ou o inglês date.

Usei estas duas palavras por serem do universo mediterrânico; tudo levaria a esperar uma semelhança de termos dos povos da mesma área; mas, neste confronto latim-árabe, quem levou a melhor foram os mais recentes ocupantes do nosso território.

Não vamos referir outros legados, como a nora, a micro hidráulica e os legumes, ou, no caso da Madeira, o bolo do caco e o couscous.

Na vizinha Espanha, a queda do reino de Granada, em 1492, levou à expulsão das elites mouras para o Norte de África, mas o grosso da população permaneceu na Península. Não foi uma convivência pacífica: no século que se seguiu à conquista deste reino, houve vários levantamentos e novas expulsões, e muito trabalho para a Santa Inquisição. Mas foi possível registar, pelas piores razões, o percurso dos então chamados “mouriscos”.

E em Portugal? Com a conquista definitiva do Algarve em1249, sabemos que, como era a tradição, as elites partiram e as populações ficaram. Para estas últimas, a grande mudança era o regime fiscal: se a terra pertencesse a um senhor cristão, oneravam-se os muçulmanos; se pertencesse a um senhor mouro, havia uma sobretaxa para os cristãos. Quanto aos judeus, pagavam de qualquer maneira…

Certo é que a comunidade muçulmana foi sendo absorvida, sem ser necessário recorrer a leis contra do chador. Referindo-se a um período mais tardio, Alexandre Herculano, salvo erro em “O Monge de Cister”, refere um Ale, ou Ali, que deambulava por Lisboa misturado com fidalgos, frades de mercadores, aparentemente sem problemas de maior.

Na busca de mais elementos sobre esta singular integração, encontrei um livro de um autor marroquino sobre a perseguição dos mouros em Portugal. Ora aqui está, pensei eu. Mas o livro tratava apenas dos mouros oriundos das praças do Norte de África, convertidos por crença ou por cálculo, e que se vieram a estabelecer em Lisboa ou noutras terras. Cedo descobriram que, para os cristãos velhos, eram suspeitos, e que a prometida cidadania plena era um logro. Quando quiseram regressar ao seio dos muçulmanos, foram tratados (e com razão) como apóstatas.

Mas com uma agravante: tendo sido cristãos, caíram nas garras da Inquisição, e essa foi a origem das perseguições referidas nesse livro. Quanto aos fiéis muçulmanos, seguiram a sua vidinha, e a Inquisição nem sequer tinha jurisdição sobre eles…

Dos recentes atentados na Catalunha descobriu-se que os terroristas eram todos de origem marroquina, e deveriam estar integrados na sociedade ibérica. Será que o fenómeno dos mouriscos é resiliente? Só que os atuais terroristas vieram de livre vontade, e alguns até na sequência de um pedido de asilo…

Marrocos é o segundo país mais próximo de Portugal, com quem sempre tivemos boas relações (depois do abandono de Mazagão, claro) e há todo o interesse em que tudo assim continue. Tâmaras e azeitonas unem-nos. Mas é também, pelas suas atuais condições políticas e sociais, um alfobre de fundamentalistas.

Deste lado do Mediterrâneo, a Mouraria de Lisboa parece ter retomado a sua vocação dos tempos medievais: o eixo Anjos-Martim Moniz tem ares de ser um bairro de maioria muçulmana. Sem restrições ou imposições, mas por natural agregação, como os bairros chineses, italianos ou portugueses das cidades de imigração.

Ou, seja, nada de novo, em termos históricos.

A maior parte dos jovens portugueses desconhece a forte componente de militares muçulmanos, na maioria guineenses ou moçambicanos, que integraram as Forças Armadas Portuguesas. Muitos por aqui ficaram, e aí estão, perfeitamente integrados.

A irrupção de minorias radicais também não é novidade (lembre-se o recente caso de Charlottesville), mas não impede a viabilidade do conjunto da sociedade, como sucede na maioria dos casos. Cabe aos cidadãos de todos as etnias e religiões zelar pela sã convivência, isolar e neutralizar os extremistas, e cooperar com as autoridades nos casos extremos. Como sucedeu na Catalunha, em que a colaboração dos habitantes foi essencial para a detenção dos culpados.

Igrejas e mesquitas são locais de oração. Cumpre-nos evitar que sejam coios de neo-nazis ou ninhos de talibãs. E a única forma de evitar essas derivas está na integração plena, e no respeito pela diferença.

Será possível? Oxalá, que é a forma portuguesa de dizer Inch´Allah (Queira Deus).

E despeço-me com um salamaleque, que é a nossa versão de Salaam Aleikum (a Paz seja contigo).

Nuno Santa Clara

Perder o Norte

Perder o Norte

Neste País de marinheiros (ao que se diz) esta expressão tem o significado de perder o rumo, ficar à toa, sem orientação. Reflexo da gesta dos Descobrimentos, a expressão ficou, mesmo para os que nunca sulcaram as águas do mar.

Mas há outro norte, ou mais propriamente um North, que merece ser recordado.

Oliver Laurence North, nascido no Texas em 1943, foi um brilhante oficial dos U. S. Marines, condecorado com a Silver Star, a Bronze Star e a Purple Heart, entre outras medalhas, todas em combate no Vietname, quando era ainda subalterno.

Depois de uma movimentada carreira, sendo já tenente-coronel, foi nomeado em 1981 sub-diretor do National Security Council (NSC) para a área dos assuntos político-militares. Teve assim acesso frequente ao Presidente dos EUA.

Foi nessa qualidade que interveio numa tentativa secreta de trocar armas pelos reféns americanos em poder do HAMAS, experiência de que mais tarde se serviu para levar a cabo a operação que o tornaria indesejavelmente conhecido a nível mundial.

O Presidente Ronald Reagan estava empenhado em intervir na Nicarágua, procurando derrubar o governo sandinista através do apoio aos “contras” anticomunistas. Porém, o Congresso americano, na ressaca da Guerra do Vietname, estava avesso a quaisquer novas aventuras militares fora de portas. Daí a Emenda Bolland, de 1882, proibindo o financiamento de tais ações.

A necessidade aguça o engenho, e Oliver North encabeçou um processo que resultaria na venda de armas americanas ao Irão (esse mesmo, o do Eixo da Mal), obtendo fundos que seriam em parte desviados para financiar os “contras”. Tudo, obviamente, através de paraísos fiscais e redes de traficantes.

Recorde-se que um país que nessa altura vendesse armas ao Irão arriscava-se a sofrer sanções por parte dos Estados Unidos…

Os problemas surgiram quando os jornais (os das Fake News, diria o atual Presidente) descobriram a negociata, dando origem ao chamado escândalo Irão-Contras. Da negação ao reconhecimento dos fatos, lá se seguiu a habitual via-sacra (que agora se repete), saindo a verdade a conta-gotas.

Oliver North assumiu publicamente a responsabilidade do caso, ilibando o Presidente que, segundo declarou, não sabia de nada. A verdade é que as comissões de inquérito não encontraram nenhuma prova da intervenção de Ronald Reagan neste assunto, e em 1986 North acabou por ser demitido, julgado e condenado a três anos de prisão, com pena suspensa, além de umas sanções acessórias, e veria truncada uma promissora carreira militar. Veio a ser ilibado em 1991, tendo posteriormente falhado uma carreira política e acabando como professor e comentarista de TV.

Mais tarde reconheceu, num inquérito não passível de ser usado como matéria de incriminação (como em alguns inquéritos de segurança), que o Presidente tinha conhecimento de tudo. Para ele, tarde demais.

De fato, é difícil imaginar que um assunto tão delicado tivesse passado ao lado do Presidente. E, quanto a ordens escritas, os habituais cínicos lembrarão que também não foi encontrada nenhuma ordem escrita de Hitler mandando matar um judeu que fosse…

Passando aos dias de hoje, temos o folhetim Donald Trump Jr. e a sua ligação ao Kremlin, por interposta e atraente pessoa.

E lá voltamos às cenas dos capítulos anteriores, em que o filho tomou iniciativas e fez coisas graves sem dizer ao pai (por acaso, o Presidente); e até se fez constar que o jovem tinha atravessado um período de más relações com o ilustre progenitor; assim, num nobre impulso, e para se redimir, teria intentado, na sua inocência, fazer um favor e uma surpresa ao pai (coisas dos verdes anos!).

Não parece que se trate de uma manifestação do complexo de Édipo (nem a mãe foi para aqui chamada); mais provavelmente, teria sido uma manifestação do complexo militar-industrial, a tentar proteger os seus interesses (sem grande subtileza).

Só não se percebe que a preparação da surpresa tivesse sido partilhada pelo diretor da campanha eleitoral e por um lobbyst (palavra que, felizmente, não tem tradução em português) de origem russa, que são pessoas adultas, experientes e sisudas, e que bem poderiam ter refreado o entusiasmo juvenil do Jr.

No meio do temporal dos twitter do atual Presidente dos EUA, mais variáveis que os ventos no Aeroporto Cristiano Ronaldo, e com efeitos igualmente catastróficos, resta-nos uma atitude sensata.

Não fazer como o North, e não perder o Norte.

Nuno Santa Clara

O Movimento das Espadas

O Movimento das Espadas

O anúncio de uma manifestação de oficiais do Exército que culminaria com a entrega das espadas ao Presidente da República, como Supremo das Força Armadas, terá deixado muita gente perplexa.

Mas não devia. Esta é apenas uma amostra de que o ensino da História de Portugal anda muito por baixo.

Por mim, deixou-me apenas uma sensação de “déjà vu”, por estranho que pareça.

Se não, vejamos: antes deste houvera já um “Movimento das Espadas” feito por oficiais generais em 5 de Dezembro de 1869, como forma de apoio ao Marechal Saldanha; e em 1915, outro “Movimento das Espadas”, que decorreu entre 20 e 25 de Janeiro, desta vez com contornos mais vincadamente políticos e não apenas corporativos. Vale a pena recordar este último.

Reinando nesta República recém-plantada à beira mar o Partido Democrático (um avatar do antigo Partido Republicano) com confortável maioria, a intromissão de critérios políticos nas promoções e colocações dos militares era frequente. De acordo com desse mau hábito, foi compulsivamente transferido de guarnição o major Craveiro Lopes (1), por se ter travado de razões com um notável do Partido Democrático. Os camaradas decidiram entregar as espadas ao Presidente da República, Manuel de Arriaga, em sinal de protesto. A este movimento se juntaram oficiais do Regimento de Lanceiros 2.

Foram detidos e encarcerados na veneranda fragata D. Fernando e Glória, surta no Tejo.

Entretanto, o próprio Machado Santos foi entregar a espada ao Presidente da República, gesto que, vindo de quem vinha, desencadeou uma crise, agravada com a posição tomada pelos partidos Unionista e Evolucionista (dissidentes do Partido Republicano), e tudo acabou com a demissão do governo e a nomeação do General Pimenta de Castro para formar novo governo, em “ditadura”, ou seja, fora do quadro parlamentar e até novas eleições. Nem foram aplicadas medidas de restrição de liberdades, pelo que o termo “ditadura” não pode ser transcrito para o contexto atual.

A situação assim instituída durou até à revolta de 14 de Maio desse ano, que terminou com a demissão de Manuel de Arriaga e do governo Pimenta de Castro, reintroduzindo o regime anterior, mas ao preço de cerca de 200 mortos e 1.000 feridos.

Claro que, por detrás da mera transferência de um major, estavam vários agravos institucionais e questões mais sérias, como a participação de Portugal na I Guerra Mundial. E que as medidas apaziguadoras de Pimenta de Castro face aos monárquicos e à Igreja Católica não agradaram aos republicanos radicais.

Mas estes dois episódios deixaram marcas profundas no País: criaram-se clivagens no Exército e na sociedade civil que levariam, a prazo, ao 28 de Maio. Em particular, dividiram as Forças Armadas em “guerristas” e “anti-gueristas”, uma divisão que marcaria por decénios a Instituição.

A título de exemplo, oporiam os veteranos de guerra ao “tenentes do 28 de Maio” – e, ainda aqui, também com uma componente corporativa (o atraso nas promoções).

Estamos pois como num “eterno regresso”, em que acontecimentos que parecem insólitos não são mais do que o resultado de tirar velhas coisas do baú.

Com um fundo comum: nos dois casos: foram as forças tradicionalistas e conservadoras que desencadearam o movimento, ainda que, no caso de 1915, com a ajuda de um progressista.

Se é verdade que quem não aprende com a História, está condenado a repeti-la, aqui fica este lembrete.

Nuno Santa Clara

Nota (1): o major, mais tarde general de divisão, João Carlos Craveiro Lopes, foi pai do general Craveiro Lopes, Presidente da República (1951-1958). Comandou uma brigada do CEP em França e foi Governador-Geral da Índia.