Os reis do lixo

Os reis do lixo

Manuel Martins Gomes Júnior, natural de Santo António da Charneca, viveu entre os séculos XIX e XX, e é uma das figuras mais curiosas do Concelho do Barreiro.

Dedicando-se à criação de gado, ficou famoso por ter arrematado o lixo de Lisboa, nessa altura constituído basicamente por matéria orgânica, que transportava em fragatas para o rio Coina, para com isso alimentar porcos. Não havendo ASAE nem controlos sanitários, era ouro sobre azul: alimentava os porcos quase de borla!

Tão bom foi o negócio que mandou construir, numa antiga quinta que fora de um irmão do Intendente Pina Manique, um palácio ao estilo da Renascença Italiana, que hoje é conhecido por Torre de Coina, e que é suficientemente grande para ter servido de referência aos pilotos militares da vizinha base do Montijo.

Diga-se, de passagem, que o palácio está muito degradado, e, infelizmente, não se conhece alguma iniciativa para a sua recuperação.

Portanto, isto do lixo dá dinheiro, e não só por cá. Basta lembrar a vicissitudes da recolha e tratamento ilegal do lixo na região de Nápoles, controlada pela Camorra (a Mafia local), com a teia de interesses de que pouco se conhece, além dos efeitos.

Mas há mais negócios do lixo bem mais proveitosos.

As soberanas agências de rating, essas eternas insatisfeitas, continuam o manter Portugal ao nível do “lixo”, apesar de todos os indicadores e sinais favoráveis da nossa economia, e das declarações de insuspeitos políticos e especialistas.

Ainda recentemente, o Prémio Nobel da Economia de 2002, Joseph Stiglitz (que não é propriamente um defensor do euro, assunto já por ele profusamente tratado) disse sobre as agências de rating que “são instituições profundamente politizadas que fingem ser avaliadores objetivos e independentes do risco económico”, e que as únicas razões para manter Portugal no lixo são apenas políticas.

Aqui, com o atrevimento de quem é leigo no assunto, diria que talvez se passe também no sentido inverso: são os interesses das empresas de rating que ditam as classificações, estas as cotações, e estas as políticas.

Assim como o ovo e a galinha.

Mas o peso dessas agências é esmagador, e daí lhes ter chamado soberanas, à falta de um termo que ultrapasse o conceito da soberania das nações.

Ser soberano, ou rei, tem mais sabor quando o poder é absoluto – o que parece ser o caso, já que as ações das agências escapam a qualquer supervisão, controlo ou tutela.

Uma vez que lhes cabe, não a atribuição de títulos e honrarias, ducados e condados, mas o exclusivo da classificação de “lixo”, fica-lhes bem o epíteto de “Reis do Lixo”.

Tal como o nosso Manuel Martins Gomes Júnior, com o lixo dão de comer aos porcos, aqui entendidos no mesmo sentido da célebre caricatura de Raphael Bordalo Pinheiro, intitulada “A porca da política”.

Tal como a Camorra de Nápoles, não se percebe bem como funcionam.

Quanto à maioria dos cidadãos, produz cada vez menos lixo, sobretudo orgânico, porque os tempos não estão para desperdícios.

Nuno Santa Clara, 31-05-2017

De fora para dentro

De fora para dentro

Através dos tempos, a maneira clássica de um dirigente político contornar dificuldades internas é criar, provocar ou acirrar a ameaça de um inimigo externo.

Se a manobra for bem feita, resulta em pleno. Esquecem-se as diferenças perante a ameaça exterior (real ou imaginária), e, todos irmanados pelo interesse comum, constituem-se frentes patrióticas, uniões sagradas, ou outros movimentos do mesmo estilo, para conjurar as ameaças e salvar a Pátria.

Foi assim que os generais argentinos pretenderam unir o povo em torno da Guerra das Malvinas, ou que os coronéis gregos declararam a guerra santa pela ocupação de Chipre. Ambas acabaram em fracasso, e acarretaram a queda dos respetivos regimes.

É que uma guerra, sobretudo uma destas, não pode ser perdida, e para que isso aconteça o caminho mais fácil é improvisar estratégias, atamancar táticas e basear-se na fantasia. Melhor dizendo, tomar os seus anseios por factos reais, segundo a fórmula de Eça de Queirós: cobrir com o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.

Decerto o conceito de verdade tem evoluído nos últimos tempos. Mas também é verdade que, numa guerra, a arte suprema está em iludir o adversário, e isso só se faz através da mentira deliberada.

A recente visita de Donald Trump dá-nos dois bons exemplos da ligação política interna e externa. As coisas andam más a nível interno: não bastava o FBI fugir ao controlo presidencial, como vem agora a CIA agravar os problemas com novas revelações (para não falar nas brigas com os serviços de informação ingleses e israelitas).

O Presidente dos EUA discursou no Museu de Israel e, depois de dizer que “a minha administração estará sempre com Israel”, disse que “a destruição de Israel não acontecerá com Donald J. Trump”.

À primeira vista, seria mais uma das retumbantes declarações de um ego desmesurado, a que já nos habituou.

Mas não deve ser visto assim. O que ficou explícito é que, enquanto ele for Presidente, Israel estará a salvo (independentemente disso ser exequível ou não). Portanto, judeus de todo o mundo, uni-vos e salvai a pátria – em concreto, façam o que puderem para evitar o impeachment. Isto é importante, sobretudo considerando o papel dos media americanos, com forte influência judaica, ultimamente críticos de Trump.

Depois, o Presidente dos EUA discursou perante os Chefes de Estado e de Governo em Bruxelas, e foi pouco diplomático. A ponto de provocar comentários e sorrisos entre os tais chefes, visíveis na reportagem em direto, o que também não foi muito protocolar.

Estaria ele realmente interessado em aumentar os encargos de defesa militar, como forma de combater o terrorismo? É consensual que não é essa a via para garantir a segurança interna e responsabilidades, recaindo o peso das despesas sobre os contribuintes americanos.

Estaria certo, se os interesses dos Estados Unidos coincidissem 100% com os dos seus aliados, o que não se tem verificado, por exemplo no Médio Oriente e no Afeganistão.

Juntando a isto as considerações sobre terrorismo e imigração, depreende-se que Trump não estava a falar para os seus interlocutores europeus (exceto alguns incondicionais, que não estavam ali representados): estava a falar para os eleitores americanos que nele votaram, repetindo os temas da campanha eleitoral.

Ou seja, estava a fazer a manobra dos generais argentinos e dos coronéis gregos, mas em sentido inverso: de fora para dentro.

Mas não deixa de ser eficaz, para quem prefere os argumentos aos factos.

Resta saber se tomar a nuvem por Juno não dará o mesmo destino do gigante Adamastor…

Nuno Santa Clara, 25 de Maio de 2017

O Macron da música

O Macron da música

Imaginemos um cenário, algo surrealista, em que alguém que nem solfejo sabe se põe a dar opiniões sobre Música.

Nada de novo, dirão quase todos: desde o futebol à política, não faltam comentadores que nem sequer sabem o que é um fora-de-jogo, ou que não distinguem o presidencialismo do parlamentarismo.

Há que estabelecer ressalvas. Não é de todo incorreto meter a foice em seara alheia; basta, por vezes, distinguir o trigo do centeio. Foi por isso que Marcelo Rebelo de Sousa reagiu à tirada de Maria luís Albuquerque sobre a chasse gardée da Economia. A resposta, se estão lembrados, fez escola.

Grave seria se o acima referido ignorante das regras mais primárias da Arte da Música se pusesse a discorrer sobre harmonia, contraponto, dodecafonia e coisas afins.

Mas, se ele abordasse a Música como fenómeno social?

O País teve um fim-de-semana histórico. Houve a visita do Papa, afirmou-se o Tetra do Benfica, e aconteceu a vitória no Festival da Eurovisão. O Papa foi por vezes incómodo (falar dos pobres, dos refugiados ou do clericalismo não agradou a todos); o Benfica é um clube entre outros (até se contestou que o Primeiro-Ministro tivesse ido ver o jogo, esquecendo que, por exemplo, Jorge Sampaio ia regularmente ver o Sporting); mas o Festival fez a unanimidade.

Para além do natural fervilhar do orgulho nacional, para mais numa área cinzenta da nossa imagem externa, houve alguns aspetos muito interessantes nesta vitória.

Salvador Sobral fez em direto umas considerações de peso. Referiu o primado da essência da musica sobre o espetáculo – isto quando, desde o top internacional às festas de aldeia, a qualidade dos artistas avalia-se mais pela imagem mediática do que pela forma e conteúdo das canções. Ou seja, a coisa mede-se mais pelo gasto com as roupas (contrabalançado pela poupança em metros de tecido das raparigas lá-lá-lá), pela iluminação, pelo cenário, ou mesmo pelo fogo-de-artifício (referido por Salvador Sobral).

Ele também se exprimiu fluentemente em inglês (uma machadada no chamado nacional-cançonetismo), e cantou em português (uma das línguas mais faladas do Mundo). Sem comentários.

E, pelas reações dentro e fora do Festival, ficámos com a ideia que houve um movimento e uma votação no sentido da contestação do “sistema” – o tal do espetáculo com precedência sobre o conteúdo.

Independentemente dos méritos da canção vencedora, e dos seu(s) intérpretes(s), algo poderá mudar nos próximos festivais. E esse mérito ninguém tirará aos nossos representantes.

Passando ao sociológico, estamos como Emmanuel Macron na política francesa (e, através dela, na política europeia). Foi uma vitória do inconformismo, se não mesmo do contra o sistema. E, tal como no Festival, algo pode mudar, deixando de parte gastos artistas e estereotipados cantores (as prima-donas da política, que se esqueceram de que o público mal as suporta).

Se assim for, tivemos um Macron na música.

Bem haja!

Nuno Santa Clara

Técnica do salame

Técnica do salame

O texto abaixo transcrito é atribuído a Martin Niemöller, alemão opositor ao nazismo, que o terá escrito em 1933. Mais tarde, aparecem textos semelhantes, escritos por Bertold Brecht, Vladimir Maiakovsky e outros. Dizia o seguinte:

“Um dia vieram e levaram o meu vizinho judeu; como não era judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, levaram o meu vizinho que era comunista; como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia levaram o meu amigo católico; como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia vieram e levaram-me.

Já não havia ninguém para reclamar”.

Considero dispensável fazer aqui uma pesquisa aprofundada sobre a paternidade desta ideia. O importante é o que o texto contém e a lição que encerra, que é profunda e intemporal.

O Homem é um animal político, disse-o Aristóteles, e ele próprio pode ter ido buscar essa ideia mais atrás. E dentro da Política, ou do conceito corrente que dela se tem, recorrer a táticas refinadas, a laboriosas estratégias ou mesmo a golpes baixos, é coisa que aceitamos, se não como uma fatalidade, pelo menos com resignação.

O modo de eliminar sucessivamente os inimigos, adversários ou rivais políticos (a classificação varia apenas em função do tempo) tem vindo a ser registado ao longo da História, e Nicolò Machiavelli (mais conhecido entre nós por Maquiavel) não descobriu nada nesse campo: apenas sistematizou e passou a escrito. Assim se obteve um manual precioso de como fazer política sem preconceitos morais. Com incidências no comportamento e na semântica: por exemplo, o conceito de virtù a que Maquiavel recorreu dificilmente pode ser traduzido por virtude, no conceito cristão e atual; baseava-se na determinação do governante em impor a sua vontade, contra oposições e adversidades.

Ao método de eliminação progressiva dos indesejáveis foi posto o saboroso nome de “técnica do salame”, porque a analogia é evidente: vão-se eliminando paulatinamente os tais inimigos, adversários ou rivais (ver o acima dito) um por um, para não dar nas vistas e não ter o aspeto de uma campanha sistemática. Sempre em nome de grandes princípios, como os da Ordem, da Pátria, da Raça, ou até da Lei, se o poder for absoluto. Ou do Povo, que tem as costas largas.

Sendo a acusação uma arma de arremesso, parece que o método seria infalível. Mas tem dois contras, qual deles com pior efeito, e ambos são referidos na sabedoria ancestral.

Um contra decorre do velho ditado “Palavra fora da boca é pedra fora da mão”. O projétil verbal, que em tempos idos podia ser contestado por falta de registo fiável, é hoje uma arma fatal: está registado, escrito, gravado, guardado em memória. Por isso se diz que é mais fácil escrever a História com base nas hemerotecas do que nas bibliotecas ou mesmo nas chancelarias. Embora haja muitos que preferem desvalorizar o que foi dito e escrito em jornais, escritos ou falados, por serem peças literárias de natureza efémera, e portanto para convenientemente esquecer. Pelo menos, é cómodo.

O outro contra decorre de uma ainda mais ancestral tecnologia, a do boomerang, inventado pelos australianos, que não conheciam sequer os metais, mas a quem não faltava criatividade. Pois essa elaborada (que não sofisticada) arma podia voltar ao ponto de partida, quiçá atingindo o desastrado lançador. E não é que os projéteis verbais têm uma malvada tendência de seguir o mesmo percurso?

Basta, pois estar atento às palavras de arremesso, desarmá-las ou reenvia-las ao lançador.

Voltemos ao salame, e à forma de, através de ataques sucessivos, desfazer uma peça inteira. Suponhamos que se pretende fazer cair uma aliança, tida como sólida. Basta encontrar uma pequena fissura, o “elo mais fraco”, e escarafunchar por aí. Eliminado esse e enfraquecida a aliança, passa-se ao “elo fraco” seguinte. E assim sucessivamente, até ao desmembrar da aliança.

Assim fizeram os alemães, na I Guerra Mundial, introduzindo na Rússia um tal Vladimir Ilich Ulianov, que ficou mais conhecido por Lenine. A revolução que ele desencadeou fez cessar a guerra numa das frentes; mas, passados vinte anos, a Alemanha foi derrotada pela União Soviética. A fatia de salame ganhara vida própria…

De modo menos espetacular, há outras formas de reduzir resistências usando o mesmo método. Por exemplo, Donald Trump já anunciou que não haverá fundos federais para os estados e cidades que não aplicarem as leis sobre imigração, por terem sido declaradas inconstitucionais pelas instâncias judiciais.

Nova inconstitucionalidade, dirão uns; tremendamente eficaz, dirão outros. E lá voltamos ao acima dito: a técnica do salame é mais eficaz num regime ditatorial – mesmo que não oficialmente reconhecido como tal.

Em jeito de conclusão: qualquer semelhança com o que se passou, e ainda se passa, do lado do de cá do Atlântico, não é pura coincidência: a técnica do salame é um fenómeno global, que exige de todos nós toda a atenção.

Senão, lá vamos ter à velha (atual) história: primeiro um desconhecido, depois um próximo, depois um amigo, até chegar à nossa vez… tarde demais para reagir.

Nuno Santa Clara

O reino dos céus e a mostarda

O reino dos céus e a mostarda

Nos Evangelhos de S. Mateus, de S. Lucas e de S. Marcos aparecem referências à parábola do grão de mostarda. Com ligeiras variantes, ali se diz que o Reino dos Céus é semelhante ao grão de mostarda que, sendo a mais pequena das sementes, dá origem a uma planta na qual até as aves dos céus vêm pousar.

Não vou, decerto, dissertar sobre temas bíblicos. Mas a “grande desordem sob os céus” (desta vez uma citação de Mao Ze Dong, ou Mao Tsé Tung, se preferem) que se regista no nosso País merece uma abordagem mais cuidada.

Foi anunciada a da ampliação da capacidade de movimentação de passageiros e carga aérea na área de Lisboa através da opção da utilização do aeroporto do Montijo, atual Base Aérea n.º 6. Uma opção entre outras, como a reconversão da Base Aérea da Ota, chumbada pelas suas limitações operacionais, ou o aproveitamento (parcial) do Campo de Tiro de Alcochete (o tal do jamais).

É um folhetim antigo. No tempo de Marcelo Caetano, aventou-se a hipótese de Rio Frio, sem outra consequência que não fosse uma corrida aos terrenos da região. Delito de iniciado, dirão uns; estalou-lhes a castanha na boca, dirão outros.

A dialética (chamemos-lhe assim) Alcochete – Ota teve contornos tragicómicos, o mais famoso dos quais foi a classificação da Margem Sul como deserto. Os seus habitantes, assim promovidos a camelos, não o esqueceram.

Vem agora o Montijo. Solução provisória, já se vê: pistas que já existem, ligação rodoviária já implantada, ligação fluvial assegurada, tudo bom, tudo barato.

Nas três soluções, um ponto comum: são instalações militares, portanto estariam (sublinho o condicional) fora de causa onerosas expropriações. Politicamente falando, representaria receber os dividendos do fim da Guerra Fria e da Guerra Colonial.

Mas agora parece levantar-se o problema da utilização conjunta de meios civis e militares da atual Base do Montijo. Segundo um periódico bem informado, isso passaria pela utilização de uma das pistas do aeroporto por militares, e outra por civis. O que levantaria tais questões que levaria à conclusão que o melhor seria encerrar a BA 6, e passar tudo para a aviação civil.

Coisa estranha. Mas vamos tentar ver a questão pelos olhos de um leigo.

A estratégica Base Aérea 4, na Ilha Terceira, Açores, foi aberta em 1943 para utilização pelos ingleses, e a partir de 1946 pelos americanos. Sempre aceitou trânsito civil, e a partir de 1979 passou a ser um aeroporto internacional. Tem só uma pista (15/33, de 3.312 metros), eque todos os aviões utilizam, limitando-se a virar à esquerda ou à direita, para a BA 4 ou para o terminal civil, para os normais procedimentos de passageiros e carga.

O Aeroporto de Lisboa foi aberto em 1942, com três pistas, e a partir de 1962 passou a dispor de apenas duas, a 03/21, de 3.805 metros, a normalmente utilizada, e a 17/35, de 2.400 metros, hoje pouco utilizada. Tem também movimento militar, através do Aeródromo de Trânsito n.º 1, conhecido por Figo Maduro, por onde passam aeronaves da FAP, nomeadamente as que transportam Altas Entidades. Todos os aviões usam as mesmas pistas; apenas divergem nos terminais.

Podemos ainda invocar o caso do Aeroporto do Porto Santo, com uma só pista, ampliada a partir de 1968 com fundos da NATO, além de outras infraestruturas, e que tem servido ambos os propósitos, civis e militares.

A Base do Montijo tem duas pistas, a 01/19, de 2.147 metros, de asfalto, e a 08/26, de 2.440 metros, de cimento. Nenhuma delas foi concebida para receber os atuais aviões de grande porte.

Segundo um semanário usualmente bem informado, a pista 01/19, com uma orientação próxima da 03/21 da Portela, facilitaria a manobra dos aviões; um pouco como os aeroportos de pistas paralelas, desta vez afastadas por cerca de uma dezena de quilómetros. Quanto à pista 08/26, ficaria reservada para os movimentos militares, o que significaria confusão na gestão do espaço aéreo, donde a incompatibilidade das duas atividades.

Aparentemente, é uma solução absurda. É como se a pista 17/35 da Portela ficasse reservada para fins militares, com as dificuldades de navegação aérea que daí adviriam.

Se juntarmos a estas questões o facto de a BA 6 estar vocacionada e muito bem localizada para a patrulha marítima e sobretudo para a busca e salvamento no mar, pode bem questionar-se a vantagem na deslocalização destas duas atividades.

E, last but not least, a NATO investiu muito dinheiro na Base do Montijo. Será que irá considerar isso como fundo perdido?

Alguém com a tendência para a teoria da conspiração diria que tudo não passa de uma manobra a longo prazo para a privatização da península do Montijo.

Não vou por aí. Mas, inspirado nos Evangelhos, está-me chegando a mostarda ao nariz, à força de ver o que se prepara à volta das coisas que andam pelos céus.

Nuno Santa Clara

Mayflower

Mayflower
“Flor de Maio”, tradução literal de Mayflower. Este era o nome de um pequeno navio mercante que, em 1620, transportou 102 passageiros de Plymouth, Sul de Inglaterra, para a América, tendo aportado, após dois meses de atribulada viagem, no Cabo Cod, hoje integrado no estado de Massachusetts.

Até aqui, nada de especial.

O cabo Cod fora já reconhecido por europeus, primeiro pelo viquingue Leif Eriksson cerca do ano 1.000 D.C., depois pelo italiano Giovanni Varrazzano em 1524, seguido pelo português Estevão Gomes (que lhe deu o nome de Cabo de Arenas, já que estava ao serviço de Espanha) em 1524, pelo inglês Bartholomew Gosnold (que lhe deu o atual nome) em 1602, e foi ainda avistado pelo célebre John Smith em 1614.

Porque marcou tanto o Mayflower o imaginário americano? Um pequeno navio de imigrantes, entre tantos outros, aportando a uma costa já conhecida e povoada, fundando uma pequena colónia, não justificaria os brados da Fama.

A singularidade reside na qualidade dos imigrantes. Estes eram um grupo de protestantes, auto intitulados de “puritanos”, que se consideravam em oposição à Igreja Anglicana, tornada oficial na Inglaterra (tinha por chefe o próprio rei), e que, segundo eles, estava corrompida a afastada da desejada pureza. Emigraram primeiro para a Holanda, onde tinham liberdade religiosa (como os judeus e protestantes portugueses), mas acabaram por voltar à Inglaterra e obter do rei permissão para partir para o Novo Mundo.

Ao desembarcar, subscreveram o “Pacto do Mayflower”, documento que ainda hoje existe, onde, entre outras coisas, se comprometiam a constituir uma sociedade política civil (entenda-se que dentro de valores cívicos), governada por membros regularmente eleitos, a quem juravam obedecer.

Os primeiros tempos foram duros, e teriam perecido todos se não fosse a ajuda dos índios; em troca, estes foram despojados das suas terras, em devido tempo…

Tendo sobrevivido ao primeiro inverno da Massachusetts, resolveram realizar no fim do verão uma celebração de índole religiosa. Foi esta a origem do Thanksgiving, o Dia de Ação de Graças, que hoje constitui, a par do Natal, a principal festa americana (embora à custa dos perus).

O que podemos chamar o “mito da Mayflower” constitui uma das bases da idiossincrasia dos EUA, como para nós a batalha de Ourique (quer tivesse havido, ou não).

Nela estão contidas algumas das ideias que serviram de inspiração aos “Pais Fundadores”, que elaboraram séculos depois a Constituição dos EUA. Como a liberdade religiosa, a busca de um mundo novo e puro, a sociedade civil, a eleição dos dirigentes.

A mística do Mayflower vai ao ponto de sete Presidentes, dezenas ou centenas de políticos, escritores e artistas, e muito povo anónimo, se reclamarem como descendentes dos “Peregrinos”. Como se essa ascendência fosse um atestado ou uma garantia de americanismo legítimo.

Assim sendo, não são de admirar as reações de cidadãos americanos às recentes bombásticas declarações e não menos explosivos decretos do atual Presidente dos EUA. É que o ideário do Mayflower está a ser subvertido, ou seja, o fundo político e moral americano está ameaçado.

Mais do que as reações externas, são essas tomadas de posição, baseadas no civismo, que importa reter, porque serão essas que farão infletir o perigoso rumo que tem tomado a governação dos EUA.

Algum espírito malévolo diria que Donald Trump tem tanto a ver com o Mayflower como um mexicano wetback que atravessou clandestinamente o Rio Grande. Os avós de Trump eram alemães, a mãe escocesa, e todos entraram na América apenas no século XX. Dentro desta lógica, a militância anti-imigração de Trump teria contornos de zelo de neófito.

Não concordo, obviamente. Os EUA formaram-se por imigração, e assim continuam e continuarão a ser, quer Trump queira ou não. A base do seu povoamento é o espírito do Mayflower, a busca da liberdade civil e religiosa, da realização pessoal, da igualdade de oportunidades e de direitos. Mesmo àqueles que imigraram forçadamente, no porão de navios negreiros, esses direitos vieram a ser reconhecidos.

É bom que as grandes ideias estejam ligadas a uma flor. Mesmo que por casualidade: quem batizou o navio de Mayflower não fazia ideia que o peso desse nome iria ter. Como a florista que ofereceu cravos aos soldados, que os colocaram nas armas, jamais imaginou as consequências desse gesto tão simples e espontâneo.

Mayflower, Red Carnation… Flor de Maio, Flor de Abril…

Que bem floresce a Democracia!

Nuno Santa Clara, 05 de Fevereiro de 2017

Populímetro e Povometria

Populímetro e Povometria

Nuno Santa Clara,

A tomada de posse do Presidente Donald Trump e os seus primeiros actos continuam a ser o prato forte dos media; assim mesmo, com grafia anglo-saxónica, como convém. Não se trata, portanto, de fixação mórbida da minha parte; apenas de seguir (por uma vez!) o que está a dar, l´air du temps, what´s going on, qué pasa.

Pois o dito Trump tomou posse e, no seu primeiro decreto, retirou emblematicamente o seguro de saúde a 20 milhões de americanos; mas, sobretudo, discursou na cerimónia de posse e na sua primeira e prioritária visita à CIA.

Só que não discursou: fez dois comícios, algo extemporâneos, uma vez que a campanha eleitoral acabou há muito tempo. Mas, para os mais distraídos, o mote está dado: se o populismo ganha eleições, também pode governar países – mesmo o mais forte da Terra.

Diz o saber popular que “atrás de mim virá quem bom de mim fará”. Pois Donald Trump arrisca-se a conseguir o que se julgava impossível: fazer do ex-Presidente George W. Bush um bom orador, erudito, elevado, enfim, um modelo de Presidente numa nação civilizada.

E o novo Presidente declarou, alto e bom som, que iria devolver o poder ao Povo. Aplausos frenéticos. Ninguém se lembrou que tem vindo a nomear para o governo dos EUA uma série de milionários, com quem o Povo que o elegeu não terá muito em comum…

Decerto que, no nosso conceito de Democracia, o Poder pertence ao Povo. Mesmo na Constituição Portuguesa de 1933 (não propriamente democrática), se dizia que “a Soberania reside em a Nação”, e a Nação era tão sagrada que não se permitia dizer na Nação – seria falta de respeito.

No modo como é que o Povo exerce esse Poder é que parece estar o problema. Mesmo na América, democracia velha de dois séculos e meio, inspiradora da Revolução Francesa, parece haver diversas interpretações.

Por exemplo, o candidato mais votado pode não ser eleito – e já lá vão duas eleições com esse resultado.

Mas Donald Trump não está só: na velha Europa, políticos variados desafiam o sistema em nome do Povo, e a Extrema-Direita avança ao som dessa canção.

Os analistas mais lúcidos (os que param para pensar, em vez de se citarem uns aos outros) reconheceram já que a entrega do Poder a uma clique de políticos profissionais traz maus resultados. Globalização, poder financeiro descontrolado e desregulado, corrupção, abolição de controlos fronteiriços para atividades duvidosas (um eufemismo), tudo concorre para criar um clima de descrença no sistema.

E com razão, apesar de a culpa ser também do comum dos cidadãos, que se excedeu na delegação de competências e se desligou da Coisa Pública. Com o resultado de serem excluídos do trabalho, enganados na Saúde ou na Educação, ou mesmo espoliados da Banca, onde compraram gato por lebre, inspirados por figuras públicas.

Levando estas questões ao extremo, o sentimento generalizado atual dos portugueses pode ser dividido em dois vetores: “volta, D. Branca, estás perdoada”; e “quando virá D. Sebastião?”.

Pois o sebastianismo, contrariamente ao que parece, não é um fenómeno português. Ele aí está, por todo o Mundo, fruto do divórcio ente o Povo e quem o governa, e mesmo entre quem está mandatado para governar e quem governa efetivamente.

Para quem vê vedado ou dificultado o acesso ao Trabalho, à Educação, à Justiça, à Saúde, para falar dos direitos mais básicos, falar em nome do Povo parece música celestial – afinal, quem é o Povo?

Esta onda de populismo – pois é disso que se trata – é o resultado natural, lógico e diria mesmo expectável do divórcio acima referido.

Só que falar em nome do povo é hábito antigo e resiliente. Não assistimos a Repúblicas Populares, cuja popularidade, nunca referendada, se derreteu como neve ao sol?

Por outro lado, não assistimos à influência das sondagens e das ações de rua na governação?

De modo que há que encontrar novas formas de clarificar, sistematizar, estruturar e aplicar à Coisa Púbica a Vontade do Povo – essa vontade tão invocada, mas difícil de identificar, de organizar e de levar à prática.

Sistemas como o Führerprinzip de Hitler ou a Democracia Orgânica de Estaline estão fora de moda, e a Democracia Parlamentar parece não responder, segundo os populistas.

Resta recorrer aos sábios das áreas da Sociologia, da Matemática Aplicada, da Psicologia de Massas (e outros julgados necessários), e criar-se o Populímetro e a Povometria, ciências destinadas a saber o que o Povo sente e o que o Povo quer, e assim poderemos sair desta crise de identidades e de valores.

E esta, hein?

23 de Janeiro de 2017