Rainha por um dia

Rainha por um dia

Conta-se que, quando da Restauração de 1640, ter-se ia levantado um problema aos conjurados: o rei escolhido, D. João, 8.º Duque de Bragança, era casado com uma espanhola, D. Luísa de Gusmão.

Nada mais natural. O casamento de um duque, para mais do ducado mais importante das Espanhas, era um assunto de Estado. D. Teodósio II, 7.º Duque de Bragança, pai de D. João, havia casado com D. Ana de Velasco e Girón, filha do duque de Frias; e Filipe IV (III de Portugal) tratou de casar o novo Duque de Bragança com Luisa Maria Francisca de Guzmán, filha do Duque de Medina Sidónia, um dos Grandes de Espanha.

Para onde iriam as inclinações da duquesa? Presumivelmente, para Espanha; mas não foi assim que aconteceu. D. Luísa optou pela sua Pátria de adoção e lançou uma daquelas frases que ficam para a História: mais vale rainha por um dia que duquesa toda a vida.

Semelhante tirada só a de Teodora, antiga atriz tornada esposa do Imperador Justiniano de Constantinopla. Quando foi proposto que a corte fugisse do palácio, em riscos de ser invadido pela turba em fúria, a imperatriz Teodora teria dito algo como “de púrpura se faz uma fina mortalha”. E ficaram todos – até por vergonha.

Pois na nossa Península, parecemos ter voltado a 1640, com a Revolta dos Segadores dum lado e a Restauração Portuguesa do outro.

Carles Puigemont foi presidente da Catalunha por um dia. Pode ter-se inspirado em Luísa de Gusmão, mas não em Teodora, uma vez que seguiu de imediato para a Bélgica (talvez ainda a considere como uma ex-colónia da Espanha), acompanhado apenas por alguns colaboradores próximos.

Ora a Bélgica tem duas facetas: é o centro da União Europeia, e capital de um país.

Acontece que Jean-Claude Juncker, entre outras coisas, disse que a Espanha não oprimia a Catalunha, pelo que não se aplicava o direito de ingerência; pelo que Puigemont nada deve esperar das instâncias europeias sobre um assunto interno de Espanha.

Quanto à Bélgica, já tem com que se preocupar com as questões linguísticas e culturais que a tornam um país no limite da secessão. Acolher um secessionista não deve ser uma prioridade para os belgas.

Puigemont viajou legalmente, como cidadão comunitário. Não se vê razão para ter acesso ao estatuto de refugiado político, como se chegou a dizer. Se ao menos tivesse chegado à praia de Ostende numa patera desconjuntada, seria caso para reconsiderar…

Não mostrou vocação para mártir, nem mesmo tendo a certeza de não ser martirizado. Decerto que foi presidente por um dia, mas como será o resto da vida?

Sabemos todos que Mariano Rajoy é adversário das autonomias; se pudesse, reverteria o estatuto da País Basco. A sua intransigência está na origem da presente crise, de que ele estará talvez convencido que é o grande vencedor.

Acontece que a Democracia é uma arma de dois gumes. Ao anunciar – e bem! – a realização de eleições (embora num prazo muito curto), Rajoy declarou sujeitar-se ao veredito popular.

Qual será o resultado? Ninguém irá esquecer a quota de responsabilidade do atual Primeiro Ministro – os catalães e os outros. Como escrevi há poucos dias, é provável que os independentistas percam, mas isso não quer dizer que os autonomistas não ganhem. E autonomistas há-os por toda a Espanha.

Assim, a vitória de Rajoy pode ter sido um sucesso tático, mas uma derrota estratégica. O que acontece frequentemente aos aprendizes de Napoleão…

Finalizando, os portugueses continuam arredados de nuestros hermanos num aspeto essencial: a cultura. Decerto vamos às tiendas, a Torremolinos ou a Madrid. Mas não conhecemos a sua escala de valores.

E, neste século XX, as duas mais célebres figuras da Literatura espanhola voltam a defrontar-se. De um lado D. Quixote, o idealista, desinserido das realidades, apaixonado por Dulcineia, quer ela exista ou não; por outro, Sancho Pança, sempre à coca de uma boa comezaina, resumindo a sua sabedoria à citação de provérbios, pragmático por natureza.

Rajoy & Companhia apostaram em Sancho Pança. Saíram da Catalunha 1.800m empresas, muitas delas com sonantes nomes catalães, símbolos do sucesso do Condado de Barcelona. Ficaram os Dons Quijotes, abraçados às bandeiras.

Fim da festa? Nem pensar! Como escreveu Descartes, “o Coração tem razões que a Razão desconhece” (com um pedido de desculpa ao Prof. António Damásio). A Sancho Pança pode faltar o grão de loucura, mas não falta aquele mínimo de discernimento que o leva a desconfiar dos DDT (Donos Disto Tudo). Como o Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, para fazer o paralelismo rural.

As eleições aí vêm, mesmo com muito pouco tempo de preparação. E se, em Madrid, há um grande monumento dedicado a Cervantes, na sua base estão D. Quixote e Sancho Pança – amigos para a vida.

Nuno Santa Clara

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

Concluída a fase de apuramento inicia-se uma fase de contagem descendente para o Mundial 2018 na Rússia que se anuncia plena de incógnitas e de riscos.

A realização da prova máxima do futebol mundial assume particular importância para a Rússia de Putin num momento de tensão e de confronto com o Ocidente. Se o desporto tem desde sempre uma vincada dimensão política, o Mundial 2018 assume uma evidente relevância estratégica.

Há 38 anos, em plena guerra-fria, a invasão soviética do Afeganistão  gerou uma fase de grande tensão nas relações leste-oeste. O bloco ocidental retaliou boicotando em bloco os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo – e roubando assim grande parte do brilho a uma ocasião desportiva e política em que a URSS tanto jogava.

Os tempos são outros, dir-se-á. No actual quadro das relações entre a Rússia e o Ocidente, o Mundial de Moscovo não deixa ainda assim de representar um momento de alta tensão.

A confirmar-se a intenção americana de fornecer armas à Ucrânia, convidando assim Porochenko a resolver o problema do separatismo de Donetsk e Luhank por via das armas, é óbvio o risco de uma nova escalada de tensão, ou mesmo de um confronto directo entre os dispositivos bélicos concentrado pela NATO e pela Rússia no centro-leste da Europa.

Incidentes ou protestos graves da oposição nas eleições russas do próximo ano não deixariam de valer ao regime de Putin novas acusações de atropelos à democracia ou de violação das liberdades fundamentais e dos direitos humanos.

Seria decerto o bastante para envenenar ainda mais o clima de tensão entre o Ocidente e a Rússia e criar um clima de algum modo equivalente ao que precedeu em 1980 o boicote aos Jogos de Moscovo.

Um Mundial bem sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia  no plano internacional. Um atentado terrorista em plena competição ou mesmo desacatos mais graves entre adeptos bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante.

Queira-se ou não, o Mundial da Rússia será uma grande ocasião política. E, nessa dimensão, um momento de alto risco.

Carlos Santos Pereira

TRUMP, A AMÉRICA E A UNESCO

TRUMP,  A AMÉRICA E A UNESCO

Ao anunciar a decisão de abandonar a UNESCO, no passado dia 12, o presidente norte-americano  limitou-se a consumar uma ruptura há muito anunciada.

Donald Trump, prontamente seguido pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justificou a decisão de bater com a porta  acusando a organização de manter uma atitude sistematicamente anti-israelita.

A má vontade América em relação à UNESCO não é criação de Trump. Entronca numa longa guerra contra esta agência das Nações Unidas.

Nem é sequer a primeira vez que os Estados Unidos viram as costas à UNESCO. Já nos anos 1980, em plena Administração Reagan, a América, seguida pela fiel Britânia, rompeu com a organização.

O argumento oficial era na altura a gestão incompetente e esbanjadora e do então secretário- geral Amadou Mahtar M’ Bow. A longa polémica que antecedeu a retirada americana revelou claramente que Washington tinha razões mais fundas. A UNESCO era acusada de se ter transformado em agência do terceiro mundismo e da diplomacia cultural da URSS.

A América de Reagan ajustava assim contas com uma agência que não conseguia controlar. Os anos seguintes mostraram de resto que essa atitude traduzia um profundo mal-estar dos Estados Unidos perante todas as instâncias multilaterais que escapam à sua batuta. Bastará recordar a enorme campanha destinada desacreditar as Nações Unidas durante os conflitos balcânicos dos anos 1990 e obrigar a organização a render à NATO a gestão política e militar do conflito.

Dezoito anos depois, em Setembro de 2002, George W. Bush anunciou o regresso dos Estados Unidos à UNESCO. Mas o mal-estar nunca desapareceu.

Ao que tudo indica, Trump baseia a acusação de preconceito  “anti-israelita” em desenvolvimentos recentes como  a decisão da UNESCO de admitir a Palestina como membro de pleno direito, em 2011 – ao que Washington respondeu na ocasião cortando os fundos à agência – ou a declaração de Hebron, em plena Margem ocidental ocupada por Israel, como Património da Humanidade, em Julho último.

Em rigor, qualquer pretexto serviria para o caso.

A decisão valeu ao presidente americano um coro de críticas. Os dedos apontados ao “trumpismo” não terão reparado que Trump se limitou uma vez mais a dar expressão a tendências com raízes sólidas no establishment político norte-americano.

Carlos Santos Pereira

Negócios

Negócios

Os portugueses têm uma certa tendência para a auto depreciação. Embora em certas épocas tivesse havido quem puxasse pela nossa fibra patriótica, a verdade é que o tom dominante ao longo da nossa História tem sido negativista.

Grandes nomes da nossa cultura ilustraram essa tendência. Camões referiu-se à nossa “apagada e vil tristeza”; Eça de Queirós escreveu que este país não era uma Monarquia ou uma República, era um chinfrim; Fialho classificou-nos como o País das Uvas. E no século XX, as coisas ficaram piores.

De onde vem esta maldição?

Vem de que, entre nós, todas as ideias, por mais generosas que sejam, acabam mal. Fomos para os Descobrimentos, mas deles não tirámos os proveitos dos que nos seguiram. Colonizámos o Brasil, mas foram outros que lucraram com isso. Instituímos a República, mas para dar cabo dela em dezasseis anos. Fizemos a Revolução dos Cravos, mas para ficarmos encravados ao fim de um período semelhante.

Porquê?

A resposta está no título. Negócios, affaires, business, e afins. Sempre que alguém tem uma ideia capaz de mudar o Mundo, logo alguém se apropria dela, e monta um negociozinho.

A título de exemplo, foi assim com o computador Magalhães, que até tinha condições para andar; com os submarinos, que deram origem a prisões em toda a Europa, mas não em Portugal; com os escândalos financeiros, de que não há fim à vista; e com muitos mais, os quais impossível referir, quer por falta de espaço, quer porque há sempre quem queira morrer de velho (ao contrário da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, a quem presto sincera homenagem).

Vem agora a questão dos incêndios. Este asno, por duas vezes, o País foi flagelado por tragédias que se julgava arredadas para sempre do nosso quotidiano. Por duas vezes, mãos criminosas atearam fogos, com efeitos que, por pudor (e só por isso!), julgamos não ter estado na mente de quem os ateou.

Por duas vezes, sistemas de comando e controlo caríssimos não funcionaram; chefias providas por equivalências não corresponderam; descentralizações apregoadas não existiram; alertas oportunos não foram considerados; as populações acudiram aos fogos com púcaros; e assim regressámos à Idade Média, ao sabor das fatalidades, como no tempo em que Fome, Peste e Guerra eram fenómenos naturais e inevitáveis.

No entanto, não é assim noutros lados, pelo menos na Europa, a que nos orgulhamos de pertencer.

Para não ir muito longe, centremo-nos da vizinha Espanha, com um inúmeras semelhanças climáticas e ambientais connosco.

O Ejército del Aire tem na sua orgânica o Grupo 43, que dispõe de 14 aviões Bombardier CL 413, e 3 Canadair CL-215T, para combate aos fogos. Não passou pela cabeça de “nuestros hermanos” acudir aos fogos através de negociatas, nem mesmo sob a capa de concursos públicos: encarregou disso a sua Força Aérea, dentro das missões clássicas de quaisquer Forças Armadas de um país decente: acudir à necessidades das suas populações, e contribuir para a segurança e soberania nacional (que passa pela salvaguarda dos recursos do país, dos quais a floresta não é o parente pobre).

De modo que ficamos à espera (provavelmente em vão) de um inquérito independente (?) no qual se explique para onde foram os milhões destinados aos meios de comando e aos meios aéreos de combate aos fogos, e se, contas feitas, não teria sido mais barato e eficaz ter comprado os aviões e treinado os pilotos da Força Aérea para essa missão.

E assim teriam evitado muitas questões ligadas aos negócios, affaires e business, rompendo o ancestral ciclo vicioso.

Em jeito de remate, os militares podem ser mobilizados por telefone, a confirmar posteriormente por documento escrito; carecem de meios financeiros para voar e manter as suas qualificações; não precisam de concurso público para atuar; e estão, por natureza, vocacionados para colaborar para os fins superiores do Estado.

Têm, no entanto, um grave contra, com fundas razões históricas: a tendência de manter com a classe política uma relação institucional desprovida de subserviência, o que se complica quando se entra na espiral da asneira.

Assim Deus os conserve!

Nuno Santa Clara

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

Após o 25 de abril de 74, a direita portuguesa reunida no CDS tentou maquilhar-se à europeia, assumir o liberalismo e o anti-socialismo, designando-se como “personalista cristã”. Atirou para debaixo do tapete a velha tradição miguelista, integralista, salazarista, trauliteira e anti-liberal. Há uns anos, Paulo Portas, vindo do saco de gatos do Independente, iniciou o movimento na direcção do populismo e da abjuração da via democrata-cristã.

Com Portas, a direita portuguesa mandou a ideologia democrata-cristã às malvas e adotou na política o comportamento das tainhas, como se sabe peixes de águas salobras, lodosas que se alimentam dos dejetos sem origem recomendável ou reconhecível nas saídos dos esgotos.

O comportamento do CDS e da sua líder Assunção Cristas no caso dos incêndios, atribuindo ao Estado o exclusivo da responsabilidade pelas mortes que ocorreram é a demonstração de que um único princípio rege agora a ideologia da direita portuguesa: o da oportunidade! O CDS, como as tainhas, atira-se a tudo o que surja a flutuar na corrente. Um incêndio ou uma inundação servem para culpar o Estado por ausência e responsabilizá-lo perante a coletividade. O aborto ou o casamento homossexual servem para acusar o Estado de ingerência na vida dos indivíduos!

Os liberais acreditam na responsabilidade individual, que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, tendo o dever de arcar com as consequências das suas decisões. A direita ideologicamente herdeira do pensamento liberal é contra a regulação da vida e das atitudes das pessoas pelo Estado. Por isso, e coerentemente, é contra um serviço nacional e estatal de saúde e a favor de seguros individuais; a direita é contra a segurança social assegurado pelo Estado e a favor de planos de poupança individuais; a direita é contra um serviço de educação público e estatal e a favor do ensino privado, como ainda recente se viu.

São opções ideológicas coerentes, até para o CDS, mas que entendeu abrir uma excepção no caso dos incêndios, considerando que neste caso o responsável é o Estado. Que o Estado é o único responsável por um serviço que previna incêndios, mesmo resultantes de acções individuais, ou da meteorologia. Que o Estado se responsabilize por um serviço contra incêndios, mesmo que este seja constituído por organizações privadas — as associações humanitárias de bombeiros voluntários — mesmo que esse serviço esteja em boa medida descentralizado e sob responsabilidade das autarquias. Mesmo que, desde a adopção da política agrícola da CEE, os liberais nos governos de Cavaco Silva tenham desmantelado nos anos 80 do século passado as estruturas do Estado de gestão e controlo das terras e florestas!

A ideologia da direita clássica assenta nos deveres e responsabilidades do indivíduo, considera que lhe devem ser imputadas a ele mesmo as consequências das suas supostas más escolhas. Excepto este CDS, para quem o Estado é sempre o culpado e o responsável por todas as más escolhas, mesmo as dos indivíduos em decisões do seu interesse, ou resultantes da sua incúria (queimadas, p.ex) ou ação deliberada, mesmo que de outros órgãos de eleição e responsabilização local, como as autarquias!

A direita portuguesa é actualmente, pela voz da sua líder, a favor da intervenção do Estado na regulação da floresta, mas Assunção Cristas foi até há dois anos, enquanto ministra, promotora de legislação a favor da iniciativa privada e da liberalização do plantio das espécies mais rentáveis em termos económicos e mais perigosas em termos ambientais e de incêndios, o eucalipto. Entende agora que o Estado é responsável pelas mortes que resultam da sua política liberal! É uma direita capaz de morder a própria cauda!

A direita convencional habitualmente acusa a esquerda de ignorar a responsabilidade individual e de andar sempre a pedir desculpa por atos colectivos do Estado. Muitas vezes tem razão, quando afirma que daqui a pouco estaremos a responder a processos de indemnização por danos morais coletivos ou sociais em benefício de minorias historicamente oprimidas, da escravatura ao colonialismo, por exemplo. Mas a direita portuguesa entende que, no caso destes incêndios, toda a culpa é do Estado e, mais do que o Estado, do governo em funções! Exige um pedido de desculpas!

A direita usa habitualmente o argumento contra os progressistas de que os pedidos de desculpa propostas por eles assentam num fundamento inaceitável: a ausência de responsabilidade individual e a sua transferência para as culpas da sociedade, do Estado. Agora, ao responsabilizar — e censurar com moção na Assembleia — o Estado e o governo em funções, a direita portuguesa assume, para além do comportamento da tainha em águas com dejectos em suspensão, aquilo que é o produto mais romântico do socialismo: o de que o Estado substitui cada individuo e que a sociedade, o Estado e o governo, paga a parte, a cota, da responsabilidade individual. A direita de Cristas socializa as culpas individuais, que também existem.

Para a atual direita portuguesa, o Estado, este governo, passou a ser não só responsável pelas mortes e prejuízos, mas transformou-se e transformou cada cidadão num devedor e num culpado a quem o CDS censura com uma moção na Assembleia e discursos inflamados.

A moção de censura do CDS, responsabilizando o Estado pelas mortes resultantes dos incêndios, expôs a novidade de um partido de direita estatizante e anti-liberal! Um aborto ideológico, resultante da desfaçatez da sua líder e da sua atitude de corvo que se atira a tudo o que brilha. Conceição Cristas não se prende com coerências e incoerências. Se vê uma panela, bate nela, se vê uma pedra atira-a à primeira janela, se for a do governo.

Aquilo que esta ideologia do oportunismo revela é a desconfiança do CDS nas pessoas, em cada uma delas. O argumento da responsabilidade do Estado assenta em última instância na tese de que os indivíduos não são dotados de autonomia, de capacidade reflexiva. São animais domésticos que necessitam de seres iluminados como os dirigentes do CDS, capazes de entender a complexidade humana, para lhes dizer como viver. Curiosamente são os mesmos argumentos que justificam o planeamento centralizado nas sociedades socialistas!

Para a direita convencional, a norma é a do respeito pelas decisões da esfera privada individual e as acções do Estado são em princípio questionáveis. Neste caso, porque as mortes e as acusações ao Estado/governo podiam dar algum lucro eleitoral, o CDS de Cristas faz-se estatista e socializante! Assunção Cristas deve estar a preparar o ingresso do CDS na Internacional Socialista!

Para Assunção Cristas os princípios ideológicos podem ser tocados num acordeão, esticam e encolhem à vontade do tocador e a pedido do público presente na romaria.

Carlos Matos Gomes, 25 de Outubro de 2017, in Medium

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

Por partes. Condições climáticas, ausência de ordenamento florestal, sobrepovoamento de eucaliptos, desertificação interior… Ninguém duvidará de que esses e muitos outros factores terão contribuído para as proporções assumidas pelos incêndios deste Verão.

Mas os incêndios dos últimos meses vieram antes de mais provar, pela enésima das enésimas vezes, uma verdade há muito consabida, e que por insondáveis razões se continua a querer escamotear: se a floresta arde, é porque alguém lhe deita fogo. Ponto final. Tudo o resto vem a seguir. Os fogos por acidente ou causas naturais são eventos muito excepcionais. Não nos atirem areia para os olhos…

O problema tem muitos anos, mesmo se este Verão assumiu proporções sem precedentes.

Bastava percorrer as aldeias deste país na incontornável época dos fogos. Dois dedos de conversa e qualquer um apontava sem hesitar quem botava o fogo e os mandantes que o encomendavam. E não eram precisas muito mais perguntas para perceber a enorme rede de cumplicidades em torno de cada incêndio.

Se as autoridades deste país não quiseram ver e ouvir, lá terão as suas razões. E o país continuou a arder, ano após ano.

Nos últimos anos a coisa atingiu tais proporções que as autoridades se viram obrigadas a mostrar algum serviço. Apanhados em flagrante os incendiários são levados ao juiz e… mandados para casa.

Na madrugada seguinte estão, é óbvio, a atear mais fogos.

Chamemos os bois pelos nomes. Enquanto não se atacar a questão da economia dos incêndios, enquanto não se enfrentarem os interesses que ateiam os fogos, enquanto não se desmontar o fabuloso negócio do combate ao fogo e os balúrdios pagos a empresas privadas, não há reformas florestais nem remodelações da Protecção Civil que lhe cheguem.

Segundo. A geografia anual dos fogos vem assumindo uma regularidade que a torna perfeitamente previsível. Teria sido por isso possível mobilizar recursos para patrulhar as áreas de risco.

Lembraram-se agora, depois da casa ardida…

Resta a questão do assumir de responsabilidades políticas.

No essencial, a intervenção do presidente da República dois dias depois da catástrofe teve o resultado real de precipitar a demissão de uma ministra já em plena queda. Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou de caminho a vulnerabilidade do Executivo para multiplicar sinais públicos de que tinha o Gabinete de António Costa debaixo de olho – e esquecendo talvez pelo meio que é ao Parlamento que o Governo responde.

Quanto à adopção de uma série de medidas de combate ao flagelo dos incêndios entretanto anunciada pelo governo, é de duvidar que tenha alguma coisa a ver com o “murro na mesa” de Marcelo Rebelo de Sousa.

E, ainda que assim fosse, que pena o senhor presidente não se ter lembrado de engrossar a voz uns meses mais cedo…

É que, se o Estado falhou em toda a linha na tragédia dos incêndios, o Primeiro Magistrado da Nação não será decerto o último dos responsáveis.

Carlos Santos Pereira

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

Ninguém poderá acusar os jornais, as rádios e as televisões deste país de não terem dado a devida atenção aos incêndios que assolaram o centro e o Norte de Portugal no penúltimo fim-de-semana. A tragédia fez as primeiras páginas dos jornais, inspirou destaques e edições especiais e monopolizou virtualmente telejornais  e “especiais” das televisões.

Os media deram voz às populações atingidas, trouxeram a lume realidades chocantes e muitas vezes esquecidas do país e chamaram à antena políticos, académicos, bombeiros e responsáveis das forças de segurança num esforço de debater os mais diversos ângulos da questão dos fogos florestais.

Os critérios editoriais na cobertura da tragédia levantam ainda assim algumas questões, em particular no caso dos audiovisuais.

Durante o trágico fim-de-semana e ao longo dos dias que se seguiram, as televisões ocuparam horas a fio com a questão dos incêndios. Foram as imagens das labaredas dantescas passadas e repassadas em ciclo contínuo. Os testemunhos atrás de testemunhos. As lágrimas, os queixumes, o desespero incessantemente repetidos. Os intermináveis directos em que repórteres no terreno eram mantidos em antena a repetir vezes sem contra e as mesmas escassas informações. O rodopio de políticos, técnicos e peritos, mais analistas e comentadores a repetirem as mesmas sentenças.

A fixação das câmaras nos incêndios acabou por engolir os serviços noticiosos normais e levou algumas televisões a ignorar por completo tudo o que demais aconteceu pelo Mundo. Nem o indefectível futebol escapou, remetido a apressadas breves, mesmo em dia de Liga dos Campeões.

Os canais de informação contínua revelaram-se afinal uma vez mais cadeias de 24 – quando não de 48 e mais horas – de notícias recicladas em série.

De tão marelada e redundante, a cobertura dos incêndios pisou obstinadamente, com largo destaque para os canais privados, a linha que separa a informação da pura exploração mediática (e comercial) da tragédia e da dor.

Um padrão que se repete sistematicamente com a cobertura de outros eventos dramáticos como os atentados terroristas –a  mesma insistência nas imagens chocantes, nos testemunhos cruciantes, nos longos directos sem qualquer conteúdo. Uma cobertura claramente destinada a produzir impactos emocionais e agarrar audiências, a editar a realidade mais do que a informar.

Coincidência ou não, o tom da cobertura registou uma notória evolução a partir de terça-feira. Desde que, sobretudo depois do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, a tragédia ameaçou gerar uma crise governamental, a cobertura dos incêndios passou a centrar-se na insistência dos custos dos para as populações e o país, apoiada pelos números e mais números da tragédia e pelo refrão, repetido a cada passo, das palavras do presidente.

E o detalhe com que a SIC Notícias anunciou a organização das manifestações convocadas para o passado domingo mais parecia uma acção de mobilização.

Carlos Santos Pereira