DE NOVO A EXPANSÃO DO METRO EM LISBOA

DE NOVO A EXPANSÃO DO METRO EM LISBOA

Ingenuamente ainda pensei que uma melhor avaliação técnica da anunciada expansão da rede do Metropolitano de Lisboa (ML) para Santos e o Cais do Sodré a partir do Rato e a ligação das duas linhas (Amarela e Verde) no Campo Grande, de modo a criar uma linha circular, pudesse ser revertida face aos inúmeros problemas de operação que lhe estão associados, à inversão de prioridades que tal opção representa para o bom desempenho da rede do ML na cidade e à ausência de novos estudos globais que justificassem o abandono das prioridades definidas aquando da realização da chamada “desconexão” da Rotunda – que criou as actuais linhas Amarela e Azul – nos idos anos 90’ do século passado. Pura ilusão! Continuamos a nossa triste sina de “decidir primeiro e estudar depois”, certos que haverá sempre um “técnico mercenário” para justificar o injustificável.

A decisão que a CM de Lisboa patrocinou, tem vários inconvenientes à luz dos bons princípios do planeamento dos transportes e do papel estruturante que o ML deve desempenhar, tanto para o sistema de transportes e a gestão da mobilidade em Lisboa e na sua área metropolitana, como no apoio a um desenvolvimento urbano mais equilibrado e solidário.

As objecções que esta opção levanta são de três tipos: serviço de transportes que a rede de ML deve assegurar, numa perspectiva de contribuir para uma mobilidade menos dependente do automóvel; homogeneização (tanto quanto possível) da acessibilidade em TCSP[1] na cidade; questões operacionais, tanto as resultantes da exploração de uma linha circular, como as que advêm de se “fecharem” no Campo Grande as possibilidades de expansão da rede nesta zona da cidade, além das que ficarão irremediavelmente associadas à existência de um “ramal” para Odivelas. Vejamos cada um deste tipo de objecções.

O mais recente estudo de que se dispõe quanto à expansão da rede do ML foi publicado pela CML em 2005, sob o título “Lisboa: o desafio da mobilidade”. De então para cá foram surgindo ideias e esboços de expansão da rede, mas nenhum deles fundamentado em estudos de procura, articulação com o desenvolvimento urbano da cidade e da sua região envolvente ou em estudos de exploração da rede. Nesse estudo, apontava-se como uma das principais disfuncionalidades da rede de TC de Lisboa o facto do “programa de expansão do ML (ter privilegiado) o serviço a zonas ainda não consolidadas ou aos bairros periféricos dos concelhos limítrofes, deixando por atender as necessidades de mobilidade de alguns dos principais bairros da cidade” (pg. 269), dando-se como exemplos Benfica, Campo de Ourique/Estrela e Olivais. Referia-se ainda que a rede do ML apresentava “poucas ligações transversais, penalizando fortemente os movimentos transversais”, que estavam, já na altura, a assumir uma importância crescente e, face à não resposta do sistema de TC, a serem cada vez mais assegurados com o recurso ao automóvel. Concluía-se ainda que “a extensão da Linha Vermelha a São Sebastião vem melhorar substancialmente as conexões entre as diferentes linhas, ao permitir a transferência entre todas as linhas num ponto mais central da cidade”.

Tendo em conta o diagnóstico realizado (e abundantemente fundamentado em dados objectivos), os valores da procura disponíveis à época (matriz origem/destino) e a procura previsível, nomeadamente a decorrente da concretização do PDM de Lisboa, foram então definidas as seguintes prioridades (pg. 174):

  • O prolongamento da Linha Azul entre Baixa/Chiado e Santa Apolónia (entretanto concretizado).
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre a Alameda e São Sebastião (também já realizado).
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre São Sebastião e Campo de Ourique.
  • O prolongamento da Linha Vermelha entre Oriente e o Lumiar (concretizado apenas até ao aeroporto).
  • O prolongamento da Linha Amarela do Rato até Alcântara.
  • O prolongamento da Linha Verde de Telheiras até à Pontinha.

Como se referiu anteriormente, não é do conhecimento público qualquer outro estudo, digno desse nome, quanto à expansão da rede do ML. Cabe por isso perguntar o que se alterou de então para cá, em termos de ocupação urbana da cidade e das tendências do seu  crescimento ou ao nível do seu sistema de transportes, que justifique esta súbita e inexplicável alteração de prioridades, quando muitos dos prolongamentos propostos ainda estão por concretizar. Se analisarmos a actual densidade de população e de empregos que as áreas não servidas pela rede do ML (e que constavam das prioridades da extensão das suas linhas) só podemos concluir que, se em 2005 se justificavam plenamente as prioridades apontadas, então elas ainda mais se justificam  hoje. Que nova procura, ou que outros interesses, serve então a extensão agora proposta?

Mas ao nível do serviço de transportes que a rede do ML deve assegurar, as objecções têm ainda a ver com o facto da extensão a Santos (zona já servida pelo comboio da linha de Cascais e pela rede de eléctricos modernos da CARRIS) não só protelar a necessária e urgente intermodalidade com o automóvel – nomeadamente nas Amoreiras, Pontinha e Alcântara, onde existe, ou é possível criar, uma boa oferta de estacionamento – como introduzir uma penalização acrescida para os actuais utentes da Linha Amarela, ao transformá-la num ramal a partir do Campo Grande/Telheiras, obrigando assim os seus utilizadores a mais um transbordo nas deslocações entre o corredor de Odivelas e as áreas centrais da cidade. Ora isso é fatal para a atractividade do TC e ainda mais para os que, actualmente, enchem os parques de estacionamento junto às estações do Senhor Roubado e Odivelas, deixando aí o seu automóvel e prosseguindo viagem no ML.

Como se tudo isto não bastasse – e já não é pouco! – a fusão das linhas Azul e Verde no Campo Grande (CG) vai impedir qualquer extensão destas linhas ou a sua articulação eficiente com a linha Vermelha. De facto, ao contrário do que hoje acontece, o corredor de Telheiras e a sua possível e desejável extensão até à Pontinha (com correspondência na estação da Luz com a linha Azul) deixa de ter ligação directa ao centro da cidade, obrigando a mais um transbordo nestas deslocações, ficando antes ligado a … Odivelas! Imagina-se a enorme quantidade de pessoas a quem esta “nova” ligação vai interessar. Por sua vez, a ligação do CG ao aeroporto –  obra de reduzido custo e complexidade – fica definitivamente hipotecada, impedindo um melhor serviço ao aeroporto a partir de três linhas do ML e evitando o “passeio” de mais de 20 minutos pelos Olivais e as Olaias para quem entra ou saia do aeroporto e provenha ou se dirija para as áreas centrais da cidade.

Vejamos agora o que se passa relativamente a uma cobertura mais equilibrada da cidade pela rede do ML. Com os prolongamentos definidos como prioritários em 2005, toda a cidade mais densa e onde se concentram a esmagadora maior dos seus empregos, comércio e serviços, ficava com uma cobertura bastante mais homogénea, podendo mesmo dizer-se que nenhum dos bairros mais populosos de Lisboa ficava sem serviço de metropolitano. Mesmo a zona da Estrela seria servida pelo prolongamento do Rato a Alcântara, além de poder ter nessa estação uma ligação ao prolongamento da linha Vermelha a partir de Campolide e Amoreiras. Com a extensão proposta, apenas a zona da Estrela será servida, já que a localização da futura estação de Santos em nada acrescenta à acessibilidade hoje proporcionada pela rede de eléctricos. Isto é, com esta proposta de extensão e linha circular, não só se penalizam os actuais utentes da rede do ML – pois introduz-se um transbordo adicional no CG e impede-se a ligação deste ao aeroporto – como não se acrescenta nada à actual cobertura da rede, deixando por servir os bairros mais densos e grandes pólos de emprego que hoje estão à margem da rede do ML, como sejam Campolide, Amoreiras, Campo de Ourique e Telheiras.

O mais estranho em todo este processo é que as extensões das linhas a partir de São Sebastião (onde o túnel já está junto ao Palácio da Justiça) e de Telheiras (que passaria por terrenos ainda não ou pouco edificados) não oferecem os mesmos custos e problemas construtivos que a ligação Santos/Cais do Sodré implica (em terreno de aterro e com níveis freáticos muito elevados), não têm os enormes impactes durante o processo de construção (imaginem o que será a Av. 24 de Julho durante as obras!) e exigiriam muito menor investimento para servir uma população incomensuravelmente maior.

Por ultimo analisemos a questão da operação da nova linha circular. Comecemos por constatar que este tipo de linhas já não se constroem actualmente e que as existentes não só são poucas e muito antigas (dos tempos da construção dos primeiros metros) como nenhuma tem uma distância entre os seus tramos tão reduzida como a proposta para Lisboa. Porque será? Primeiro porque uma linha circular tem problemas complicados de exploração, a começar pelo facto de ser difícil encontrar ou realizar no seu percurso espaço para o parqueamento das composições nas horas mortas de serviço, ou para a injecção de novas composições para o reforço do serviço nas horas de ponta, o que obriga a percorrer km adicionais para efectuar esta operação, com os correspondentes custos operacionais. Por outro lado, sempre que se verifique um acidente ou perturbação no serviço, é toda a linha que fica parada, já que não é possível assegurar serviços parciais sem se introduzirem sistemas de mudança de via entre estações, em vez de nos seus términus, o que é mais caro e mais difícil de construir. Quando uma linha circular é construída de novo, ainda é possível prever o necessário espaço para esse tipo de manobras, mas o que fazer quando a linha circular resulta da junção de linhas existentes? Alguém perguntou aos técnicos de exploração do ML como será possível fazer isso no caso presente e quanto custará realizar as necessárias adaptações? Parece que ninguém se lembrou deste pormenor …

As únicas linhas circulares existentes foram desenhadas para resolver um problema que as grandes áreas centrais de grandes metrópoles apresentavam: era necessário assegurar uma boa acessibilidade a esse espaço central (onde se concentrava a maior procura) sem ter de levar até ele todas as linhas radiais que aí teriam de convergir se quiséssemos ligar o centro e a periferia da área metropolitana. Deste modo, a linha circular funcionaria como o anel onde as linhas radiais se poderiam conectar, sem no entanto terem aí de terminar. A linha circular funcionaria assim de linha distribuidora ao longo da área central, evitando os inconvenientes (de espaço e construtivos) que esse serviço implicaria se fosse assegurado por cada uma das linhas radiais, ainda que, neste caso, isso implicasse a introdução de mais um transbordo. Daí a maior distância entre os seus tramos, o que não só atenuaria o efeito penalizador do transbordo como ainda permitiria que o espaço central pudesse ser atravessado por outras linhas de maior procura, em relação às quais o transbordo seria sempre difícil de acomodar. Ora nada disto se passa na cidade de Lisboa, onde as suas centralidades são do tipo linear ou se desenvolvem em espaços mais contidos e já hoje servidos pelas actuais linhas do ML. O que falta ao sistema não é por isso uma linha circular mas sim aumentar as interconexões entre as linhas existentes e aumentar a cobertura espacial da rede, algo que não é assegurado pela linha proposta.

Por fim refira-se a situação de lançar no Cais do Sodré mais passageiros naquilo que é actualmente a maior interface de todo o sistema de transportes da Área Metropolitana de Lisboa e onde a falta de espaço para os acomodar em boas condições de conforto e segurança já se faz sentir. Em vez de distribuir os passageiros da linha de Cascais por duas linhas do ML que servem o Eixo Central da cidade (a partir do Cais do Sodré e da proposta de prolongamento para Alcântara) está-se a concentrar ainda mais passageiros no Cais Sodré, pois aos actuais terão ainda de se somar os que por aí terão de passar devido à linha circular. Tentar entrar ou sair do ML no Cais do Sodré será digno de se ver …

Neste cenário ficam por isso algumas questões por responder. Se esta não é uma opção que serve melhor a cidade, não responde à procura actual e previsível, não permite um melhor serviço de transporte nem segue as prioridades há muito estudadas e definidas, tem problemas e maiores custos de construção e exploração, o que a justifica? Ou será que,  tal como num passado que todos desejaríamos ter ultrapassado, o ML vai funcionar, uma vez mais, através de um modelo de expansão pouco fundamentado? É que a dita linha circular o que faz é ligar directamente a zona do aterro da Boavista à centralidade das Avenidas Novas e alargá-la ao eixo da Av. Almirante Reis. Seria interessante avaliar o benefício concreto para a cidade que resulta  desta opção.

 

 

Fernando Nunes da Silva, Maio de 2017.

[1] TCSP – Transporte Colectivo em Sítio Próprio, isto é, TC que dispõe de uma infraestrutura dedicada, segregada do restante tráfego e por isso não sujeita aos problemas de congestionamento, assegurando assim um transporte de massas.

As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium

Azeitonas e tâmaras

Azeitonas e tâmaras

Nem toda a gente tem a perceção da influência do árabe na língua portuguesa. Se a base desta é o latim (dizem que o português a língua mais próxima do original latino), se o grego deu origem aos vocábulos mais eruditos, o árabe deixou-nos não só um conjunto de palavras, algumas facilmente reconhecíveis, mas também um outro legado: as vogais fechadas, tão típicas do português da Europa.

A título de exemplo, usamos a palavra azeitona, do árabe az-zaituna, e não olivo, como os espanhóis ou olive, os franceses, e por extensão os ingleses. Tal como tâmara, do árabe tamar, em contraste com o espanhol dátil, o francês datte, ou o inglês date.

Usei estas duas palavras por serem do universo mediterrânico; tudo levaria a esperar uma semelhança de termos dos povos da mesma área; mas, neste confronto latim-árabe, quem levou a melhor foram os mais recentes ocupantes do nosso território.

Não vamos referir outros legados, como a nora, a micro hidráulica e os legumes, ou, no caso da Madeira, o bolo do caco e o couscous.

Na vizinha Espanha, a queda do reino de Granada, em 1492, levou à expulsão das elites mouras para o Norte de África, mas o grosso da população permaneceu na Península. Não foi uma convivência pacífica: no século que se seguiu à conquista deste reino, houve vários levantamentos e novas expulsões, e muito trabalho para a Santa Inquisição. Mas foi possível registar, pelas piores razões, o percurso dos então chamados “mouriscos”.

E em Portugal? Com a conquista definitiva do Algarve em1249, sabemos que, como era a tradição, as elites partiram e as populações ficaram. Para estas últimas, a grande mudança era o regime fiscal: se a terra pertencesse a um senhor cristão, oneravam-se os muçulmanos; se pertencesse a um senhor mouro, havia uma sobretaxa para os cristãos. Quanto aos judeus, pagavam de qualquer maneira…

Certo é que a comunidade muçulmana foi sendo absorvida, sem ser necessário recorrer a leis contra do chador. Referindo-se a um período mais tardio, Alexandre Herculano, salvo erro em “O Monge de Cister”, refere um Ale, ou Ali, que deambulava por Lisboa misturado com fidalgos, frades de mercadores, aparentemente sem problemas de maior.

Na busca de mais elementos sobre esta singular integração, encontrei um livro de um autor marroquino sobre a perseguição dos mouros em Portugal. Ora aqui está, pensei eu. Mas o livro tratava apenas dos mouros oriundos das praças do Norte de África, convertidos por crença ou por cálculo, e que se vieram a estabelecer em Lisboa ou noutras terras. Cedo descobriram que, para os cristãos velhos, eram suspeitos, e que a prometida cidadania plena era um logro. Quando quiseram regressar ao seio dos muçulmanos, foram tratados (e com razão) como apóstatas.

Mas com uma agravante: tendo sido cristãos, caíram nas garras da Inquisição, e essa foi a origem das perseguições referidas nesse livro. Quanto aos fiéis muçulmanos, seguiram a sua vidinha, e a Inquisição nem sequer tinha jurisdição sobre eles…

Dos recentes atentados na Catalunha descobriu-se que os terroristas eram todos de origem marroquina, e deveriam estar integrados na sociedade ibérica. Será que o fenómeno dos mouriscos é resiliente? Só que os atuais terroristas vieram de livre vontade, e alguns até na sequência de um pedido de asilo…

Marrocos é o segundo país mais próximo de Portugal, com quem sempre tivemos boas relações (depois do abandono de Mazagão, claro) e há todo o interesse em que tudo assim continue. Tâmaras e azeitonas unem-nos. Mas é também, pelas suas atuais condições políticas e sociais, um alfobre de fundamentalistas.

Deste lado do Mediterrâneo, a Mouraria de Lisboa parece ter retomado a sua vocação dos tempos medievais: o eixo Anjos-Martim Moniz tem ares de ser um bairro de maioria muçulmana. Sem restrições ou imposições, mas por natural agregação, como os bairros chineses, italianos ou portugueses das cidades de imigração.

Ou, seja, nada de novo, em termos históricos.

A maior parte dos jovens portugueses desconhece a forte componente de militares muçulmanos, na maioria guineenses ou moçambicanos, que integraram as Forças Armadas Portuguesas. Muitos por aqui ficaram, e aí estão, perfeitamente integrados.

A irrupção de minorias radicais também não é novidade (lembre-se o recente caso de Charlottesville), mas não impede a viabilidade do conjunto da sociedade, como sucede na maioria dos casos. Cabe aos cidadãos de todos as etnias e religiões zelar pela sã convivência, isolar e neutralizar os extremistas, e cooperar com as autoridades nos casos extremos. Como sucedeu na Catalunha, em que a colaboração dos habitantes foi essencial para a detenção dos culpados.

Igrejas e mesquitas são locais de oração. Cumpre-nos evitar que sejam coios de neo-nazis ou ninhos de talibãs. E a única forma de evitar essas derivas está na integração plena, e no respeito pela diferença.

Será possível? Oxalá, que é a forma portuguesa de dizer Inch´Allah (Queira Deus).

E despeço-me com um salamaleque, que é a nossa versão de Salaam Aleikum (a Paz seja contigo).

Nuno Santa Clara

A moral das séries históricas da televisão

A moral das séries históricas da televisão

Moral, razão e ficção. Não sou um consumidor regular de televisão, mas consumo séries, de preferência históricas. O mundo desses espectáculos é o de heróis e mártires, de santos e vilões. Pretendem colocar o cidadão comum fora do palco da vida. Eu gosto de heróis e vilões em conflito com mártires e santos, aceito a alienação e admito-a (que remédio!). Era aqui que pretendia chegar depois de ter visto alguns episódios de uma série internacional : Os Médicis ; e de uma série portuguesa: Madre Paula. Ambas as séries nos levam às antecâmaras do poder. Do poder absoluto, que é o único.

As peripécias são emocionantes, os cenários e os guarda-roupas magníficos. Somos fascinados e encadeados. Somos alienados. O mal é deliberadamente apresentado como um banquete sumptuoso. Se repararmos, os mais abjectos e criminosos actos são-nos servidos (impingidos) como factos aceitáveis. Um assassínio, um incesto, uma violação, uma traição, uma tortura, um roubo, uma guerra particular, um tráfico, um envenenamento, um massacre são meras e normais acções de exercício do poder, ou da sua conquista, realizadas por quem está a jogar um jogo dentro das suas regras, fora do mundo dos cidadãos comuns.

A série diz-nos subliminarmente que «eles» que «aqueles eles» podem fazer aquilo. As séries históricas inculcam nas massas de hoje a ideia de que sempre foi assim — só mudam as roupas e faltam os computadores e os telemóveis — e que os eleitos (eleitos por qualquer processo e por quem quer que seja — de um Deus a um comité central a um colégio eleitoral) têm direito à amoralidade. Dizem que a família de Trump, ou do seu equivalente coreano Kim Jong-un, ou da família Saud, por exemplo, ou Putin, se tiver família, seguem a moral dos Médicis. Estamos num processo histórico. Nada a fazer.

Pelo seu lado, a série da Madre Paula diz-nos o mesmo quanto à amoralidade dos poderosos e mais alguma coisa que remete para o sagrado. Para os poderosos, além de não existirem limites morais, também não existe o sacrilégio. Um poderoso é um Deus! Apreciada sem as lentes da fantasia e da alienação, a série da Madre Paula apresenta-nos um convento como um bordel, com as esposas de Deus a servir de amantes dos reis e nobres; reis e nobres que o são por graça desse mesmo Deus! O caso dos reis e nobres freiráticos, como o D. João que ia às meninas ao convento de Odivelas, expõe o caso de um soberano pela graça de Deus que, em linguagem brejeira, encorna o Deus que o fez rei. Apesar disso, o Magnânimo teve direito a funeral com missa cantada e alma encomendada para os paraísos dos céus, assim como o terão tido o papa Alexandre VI da família dos Borgias e o Leão X, nascido João Lourenço Médicis!

Mas nunca pensamos nestas aberrações amorais quando vemos as séries. Acreditamos que vivemos num regime baseado na razão e na moral. Que a razão e a moral, isto é a distinção entre o Bem e o Mal, constituem os fundamentos da nossa vida em sociedade.

As séries históricas alimentam a ficção de os humanos de linhagem comum, e no nosso caso de homens e mulheres embebidos da cultura ocidental, de sermos racionais e morais. Na realidade somos um rebanho que come de tudo e vai para onde o levam. Falo por mim, claro.

Carlos Matos Gomes, 10 de Agosto de 2017, in  Medium

A Muralha de Adriano

A Muralha de Adriano

O imperador romano Públio Élio Trajano Adriano (76-138 D.C.) fez construir, entre os anos de 122 e 126, uma muralha, guarnecida de pequenas fortificações, que atravessava a Grã-Bretanha de costa a costa, de forma a conter os povos bárbaros do norte da ilha – os pictos e os escotos, a quem os romanos davam o nome genérico de caledónios.

A Muralha tinha um comprimento de cerca de 80 milhas romanas, o que equivale a cerca de 118 km, uma altura de cerca de 4,5 metros e uma largura de 2,5 metros. Seguia um traçado mais ao sul do que o da atual fronteira Inglaterra-Escócia.

Nada que se compare com a Muralha da China, mas ainda assim imponente. Posteriormente, o imperador Antonino mandou construir outra muralha, mais a norte.

Com a decadência do Império Romano, ambas as muralhas foram desguarnecidas, abandonadas e caíram em ruína, com as pedras a serem aproveitadas para outras construções. O que restava da Muralha de Adriano foi considerado Património Mundial pela Unesco em 1987.

Sic transit gloria mundi, é caso para dizer.

Agora que os muros voltaram a estar na moda, seria bom meditar sobre este exemplo.

Há muros que representam uma viragem na História, tanto pela sua construção, como pela sua destruição. Assim foi com o Muro de Berlim, do qual hoje se disputam pedaços para museus e memoriais; ou com a Muralha da China, tornada atração turística, uma vez que a soberania chinesa se exerce em ambos os seus lados.

Ou seja, mais de que obstáculos perpétuos, passaram a ser símbolos de um passado a que não se quer regressar. Mais tenaz que as pedras é a vontade dos Homens, que tanto pode ser manipulada e escravizada para a construção dos muros, como libertada para a sua destruição – sobretudo quando essa demolição é norteada pela aspiração à Paz, à Democracia e ao salutar convívio entre as gentes.

Mas muros continuam a ser erguidos, sempre com o mesmo propósito: criar um obstáculo entre nós e eles. Não são uma afirmação de força, mas de receio; não são uma demonstração de poder, mas de fraqueza. Adriano considerava que o Império Romano tinha atingido o seu limite, e havia que guardá-lo, e não expandi-lo.

Quando hoje se constroem muros é porque alguém não se julga com meios de conter os outros; o que é uma forma de confessar as suas fraquezas.

Tal não significa permissividade nem desistência na afirmação da soberania; simplesmente, para estancar o fenómeno das migrações, estas têm se ser combatidas na origem. E é aí que pode ser manifestada a força que dá a superioridade moral, económica e até militar, colocada ao serviço da comunidade global.

Quem assistiu, mesmo que com interesse marginal, ao concerto “On Love Manchester”, iniciativa da cantora Ariana Grande, decerto não ficou indiferente. O evento representou regressar ao local do crime, concentrar 50.000 espetadores, mobilizar artistas, para recolher fundos destinados às vítimas; mas também para afirmar em alta voz e tom alegre: estamos aqui! E somos mais do da outra vez!

O povo britânico tem destas coisas. Quando começaram os bombardeamentos de Londres, em 1940, a palavra de ordem de Churchill foi “business as usual”. Evacuaram-se as crianças, os velhos e os doentes, e a vida continuou, apesar de milhares de bombas e milhares de vítimas.

Pois desta vez foi “music as usual”. Alterar o padrão de comportamento dos cidadãos seria dar uma vitória aos autores dos atentados. E os milhares de espetadores que compareceram no estádio mostraram uma coragem tão fria e determinada como a dos seus avós, quando lhes quiseram quebrar a vontade pelo emprego do terror.

Mas houve algo mais de especial. Ariana Grande nem é inglesa – é uma americana da Florida, de origem hispânica. Mas nem as grandes causas têm pátria definida, nem as grandes virtudes são exclusivas de alguma raça em particular.

Ariana ajudou a construir um muro imaterial, invisível, mas tão sólido como uma rocha, com o cimento que aglutina a vontade inquebrantável de defender valores essenciais, sem os quais a nossa sociedade, tal como a entendemos, deixaria de existir.

E um muro imaterial não pode ser demolido.

O Muro de Adriano foi derrubado pelo tempo e pela incúria dos homens; o Muro de Ariana, chamemos-lhe assim, tem a firmeza da Crença e a solidez da Razão.

Nuno Santa Clara

Não ter onde cair morto

Não ter onde cair morto

A notícia de que a família Espírito Santo não tinha um único bem em seu nome elucidou-me sobre o tipo de sociedade em que vivemos, aonde chegámos. Juristas meus amigos garantiram-me que é perfeitamente legal um cidadão, ou cidadã, ou uma família não ter qualquer bem em nome próprio. Nunca tinha colocado a questão da ausência de bens no quadro da legalidade, mas no da necessidade. Acreditava que pessoas caídas na situação de sem-abrigo, refugiados, minorias étnicas não enquadradas como algumas comunidades ciganas podiam não ter nada em seu nome, mas até já ouvira falar no direito a todos os cidadãos possuírem uma conta bancária, um registo de bens, nem que fosse para prever uma melhoria de situação no futuro. Considerava um ato de reconhecimento da cidadania ter em seu nome o que pelo esforço, ou por herança era seu. Chama-se a isso “património”, que tem a mesma origem de pai e de pátria, aquilo que recebemos dos nossos antecessores e que faz parte dos bens que constituem a entidade onde existimos.

Estes conceitos não valem para os Espírito Santo, para estes agora desmascarados e para os da sua extracção que continuam a não ter bens em seu nome, mas têm o nome em tantos bens, em paredes inteiras, em tectos de edifícios, em frontarias, em supermercados, em rótulos de bebidas.

O caso da ausência de bens dos Espírito Santo trouxe à evidência o que o senso comum nos diz dos ricos e poderosos: vivem sobre a desgraça alheia. Até lhe espremem a miséria absoluta de nada possuírem. Exploram-na.No caso, aproveitam a evidência de que quem nada possui com nada poder contribuir para a sociedade para, tudo tendo, se eximirem a participar no esforço comum dos concidadãos. Tudo dentro da legalidade e da chulice, em bom português.

Imagino com facilidade um dos seus advogados e corifeus, um Proença de Carvalho, por exemplo, a bramar contra a injustiça, contra o atentado às liberdades fundamentais dos pobres a nada terem, à violência socializante e colectivista que seria obrigar alguém a declarar bens que utiliza para habitar, para se movimentar por terra, mar e ar, para viver, em suma. Diria: todos somos iguais perante a lei, todos podemos não ter nada, o nada ter é um direito fundamental. Para ter, é preciso querer, e os Espírito Santo não querem ter, querem o direito de usar sem pagar. O mesmo direito do invasor, do predador.

A legalidade do não registo de bens em nome próprio para se eximir ao pagamento de impostos e fugir às responsabilidades perante a justiça é um exemplo da perversidade do sistema judicial e da sua natureza classista. Esta norma legal destina-se a proteger ricos e poderosos. Quem a fez e a mantém sabe a quem serve.Os Espírito Santo não são gente, são empresas, são registos de conservatória, são sociedades anónimas, são offshores com fato e gravata que recebem rendas e dividendos, que pagam almoços e jantares. Não são cidadãos. As cuecas de Ricardo Espírito Santo não são dele, são de uma SA com sede no Panamá, ou no Luxemburgo. A lingerie da madame Espírito Santo é propriedade de um fundo de investimento de Singapura, presumo porque não sou o contabilista. Mas a ausência de bens registados pelos Espírito Santos em seu nome diz também sobre a sua personalidade e o seu carácter. A opção de se eximirem a compartilhar com os restantes portugueses os custos de aqui habitar levanta interrogações delicadas: Serão portugueses? Terão alguma raiz na História comum do povo que aqui vive? Merecem algum respeito e protecção deste Estado que nós sustentamos e que alguns até defenderam e defendem com a vida?

Ao declararem que nada possuem, os Espírito Santo assumem que não têm, além de vergonha, onde cair mortos!

O ridículo a que os Espírito Santo se sujeitam com a declaração de nada a declarar com que passam as fronteiras e alfândegas faz deles uns tipos que não têm onde cair mortos, uns párias.

A declaração de “nada a declarar” em meu nome, nem da minha esposa, filhinhos e restante família dos Espírito Santo, os Donos Disto Tudo, também nos elucida a propósito do pindérico capitalismo nacional: Os Donos Disto Tudo não têm onde cair mortos! O capitalismo em Portugal não tem onde cair morto!

Resta ir perguntar pelas declarações de bens dos Amorins, o mais rico dos donos disto, do senhor do Pingo Doce, do engenheiro Belmiro, dos senhores Mellos da antiga Cuf, dos senhores Violas, dos Motas da Engil e do senhor José Guilherme da Amadora para nos certificarmos se o capitalismo nacional se resume a uma colecção de sem abrigo que não têm onde cair mortos! É que,se assim for, os capitalistas portugueses, não só fazem o que é costume: explorar os pobres portugueses, como os envergonham.

Os ricos, antigamente, mandavam construir jazigos que pareciam basílicas para terem onde cair depois de mortos – basta dar uma volta pelos cemitérios das cidades e vilas. Os ricos de hoje alugam um talhão ao ano em nome de uma sociedade anónima!Os Espírito Santo, nem têm um jazigo de família!

Eu, perante a evidência da miséria, se fosse ao senhor presidente da República, num intervalo da hibernação em Belém, declarava o território nacional como uma zona de refúgio de sem-abrigo, uma vala comum e acrescentava a legenda na bandeira Nacional: “Ditosa Pátria que tais filhos tem sem nada!”

Carlos Matos Gomes

Poder local: A reforma urgente

Poder local: A reforma urgente

(Professor Doutor Paulo Morais)
Comunicação na Conferência
“Áreas e Sectores da Vida Nacional” – Exploração e integração dos “Saberes de Experiência Feita”
em 
12 de Abril de 2017 na Fundação Calouste Gulbenkian

 

A necessidade de enriquecer o espaço público – Professor Doutor Paulo Morais

A importância do poder local na vida das pessoas – Professor Doutor Paulo Morais

O urbanismo é a maior fonte de corrupção em Portugal – Professor Doutor Paulo Morais

Corrupção no urbanismo em Portugal só é equivalente à do tráfico de droga – Doutor Paulo Morais

Consequências mais de 1,500,000 casas vazias em Portugal – Professor Doutor Paulo Morais

Consequências peritos avaliam 17 m2 de terreno em 2,1 milhões de euros – Doutor Paulo Morais

Consequências uma gigantesca bolha imobiliária em Portugal – Professor Doutor Paulo Morais

As vigarices urbanísticas e os benefícios dos infractores – Professor Doutor Paulo Morais

Então em Portugal não há leis para punir os criminosos? – Professor Doutor Paulo Morais

Empregos para os “rapazes” dos partidos – Professor Doutor Paulo Morais

A ruinosa privatização da água em Portugal – Professor Doutor Paulo Morais

Uma política tomada pela corrupção – Professor Doutor Paulo Morais

As razões ocultas da recapitalização Caixa Geral de Depósitos – Professor Doutor Paulo Morais