E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

Falando sobre FACTOS…

Os militares têm sobejas razões de queixa pela forma como têm sido abusados e maltratados pelos agentes políticos.
É sabido que a missão maior e última de qualquer Oficial é o exercício do comando e das responsabilidades que lhe são inerentes, o que obriga a uma cultura de integridade moral e pessoal que se apoia na sua maturidade, autonomia e capacidade crítica.
É normal encontrar por isso, no seio da organização militar e como parte do processo de decisão, documentos, traduzindo as posições mais díspares, de acordo com o pensamento e a opinião de quem os produziu. Analisados, ponderados e integrados em escalões hierárquicos sucessivos, suportam a decisão a cada nível de responsabilidade.

Toda a gente conhece a situação do Expresso. Há muito que deixou de ser um jornal de referência e de leitura obrigatória. Por um lado, devido à sua transformação progressiva num órgão de propaganda política e por outro, relacionado com o primeiro, com a perda de qualidade da sua linha editorial no que aliás não se diferencia de boa parte da comunicação social portuguesa
Não é incomum ver o Expresso adoptar práticas que outrora recusava, de pouca aderência à verdade, retirando frases do contexto, utilizando títulos que não traduzem os conteúdos, preferindo o sensacionalismo ao rigor da notícia para melhor se encaixar na matriz de intervenção política que entendeu promover.
Julgará o Expresso que esta é a melhor forma de evitar a falência a que estes mesmos métodos e processos o conduziram, sacrificando o prestígio e o rigor que já foi a sua imagem de marca. O Expresso é que sabe. Adiante…

Podia ter acontecido que tivesse sido cedida ao Expresso alguma informação interna, opinião escrita, análise pessoal ou qualquer outro documento dessa natureza que, tratado sem rigor e de forma tendenciosa, permitisse identificá-lo como aquilo que não é e utilizar o Exército como arma de arremesso partidário.
Se isso tivesse acontecido, significaria que algum Oficial se tinha esquecido do respeito que devia a si próprio, abusado da confiança da Instituição Militar e de quem tivesse produzido o documento, vendendo gato por lebre, sem que o discernimento crítico dos editores do Expresso conseguisse identificar a diferença na ansiedade de bem servir outros interesses.
Mas não aconteceu, porque não é possível, porque nenhum Oficial responsável, mesmo com motivos de agravo graves, seria tão miserável e sem carácter para o fazer e porque nada bate certo no que se conhece deste documento nem sequer do ponto de vista técnico da produção de “Informações Militares”.

Todos os documentos militares com validade interna e externa são assinados, datados, classificados, registados com as referências do assunto e do serviço envolvido e ostentam os carimbos e despachos próprios de quem os analisou e validou. Bastaria a indicação de alguns destes elementos para acreditar o alegado “relatório” a que o Expresso diz ter tido “acesso” sem comprometer nenhuma “fonte”.
Compete ao Expresso provar o que diz, no entanto assistimos a um progressivo recuo da argumentação que não anuncia nada de bom:

  1. Afirma agora que nunca disse que era “Oficial”. Mas se não disse insinuou e todos perceberam perfeitamente o que pretendia;
  2. Diz agora que o alegado “relatório” tem origem numa “Rede de Serviços de Informações Portugueses” onde teria sido partilhado. Que serviços? Que rede? Só pode ser clandestina já que a Lei não a prevê?
  3. Finalmente conclui, uma vez mais contrariando as declarações iniciais, que o alegado “relatório”, não tinha sido enviado à PJ nem ao SIED.

Perante esta trapalhada, deixo as seguintes interrogações aos jornalistas e ao senso comum:

  • Se este documento, não é oficial, se não é das “secretas”, se não é “final” e se em consequência, se trata apenas de um “relatório” apócrifo que alguém decidiu parir numa noite de insónias, qual é o seu interesse jornalístico?
  • Diz o Expresso que não divulga o alegado “relatório” porque contem “informação de segurança nacional, cuja divulgação causaria alarme social e informação policial que identifica suspeitos que não saberão que o são”. Quantas notícias fabricadas, ignorantes, sensacionalistas, conspirativas e sem rigor jornalístico é que têm sido publicadas pelo Expresso e outros jornais sobre o assalto de Tancos? o Expresso foi de repente acometido de uma crise de consciência? ou descobriu uma desculpa esfarrapada para não prestar contas da porcaria que fez?

Tecnicamente, os relatórios militares são despidos de subjectividade e quando incluem análises conclusivas elas dirigem-se ao futuro, para sugerir ou antecipar acções concretas a desenvolver. Não são processos de intenções. Nenhum militar elaboraria um documento de “informações” destes a não ser por ignorância, má fé ou incompetência notória. Não basta fazer colagens de meia dúzia de sites da Internet e registar umas “bocas” ouvidas aqui e ali, para que notícias avulsas tenham qualidade militar.

Fabricação, ou frete político, onde se mistura indevidamente o nome do Exército na busca de uma credibilidade inexistente, só o Expresso poderá dizer.

Síria: a guerra dos media

Síria: a guerra dos media

Carlos Santos Pereira,

Ensinava o professor Philip Taylor que em situação de conflito há que distinguir rigorosamente a “guerra real” da “guerra dos media”. A cobertura da batalha de Aleppo nos media ocidentais ilustra exemplarmente a ideia.
Os media, e em particular as televisões, têm-nos dado generoso e dramático testemunho do calvário vivido pela população da parte oriental de Aleppo. Vale ainda assim a pena um olhar mais atento sobre o que nos dizem e o que nos não dizem as televisões sobre a realidade do conflito.

Os efeitos dos bombardeamentos sírios e russos sobre os sectores da cidade controlados pelos rebeldes mereceram ampla denúncia nos media. Mas quando o enviado especial da ONU Staffan de Mistura denunciou há semanas o horror dos bombardeamentos rebeldes contra a parte ocidental da cidade as grandes agências internacionais e as editorias dos telejornais pareceram bem menos sensíveis.

E os mesmos telejornais que tanto denunciam a crueldade dos bombardeamentos sobre Aleppo oriental não se deram ao trabalho de questionar as razões dos rebeldes e dos seus apoiantes ao insistirem em arrastar a rendição e prolongar o sofrimento da população mesmo quando a batalha estava definitivamente perdida.

Os media escondem assim de facto uma das faces mais vincadas da batalha: é que a população de Aleppo é tão vítima da brutalidade do assalto das forças de Assad como da aparente aposta dos rebeldes em prolongar tanto quanto possível o calvário da população e fazer render os respectivos impactos mediáticos.

Os mesmos media esqueceram-se igualmente de questionar os Estados Unidos, a Turquia e outros patronos dos rebeldes como se conjuga a promiscuidade entre os chamados “moderados” e  a Jabhat Fateh al-Sham, a antiga Frente al-Nusra, antena da al Qaeda na Síria, com o alegado objectivo do combate ao terrorismo jihaddista.

A recente reocupação de Palmira pelas forças do ISIS, um sério embaraço para a imagem do exército sírio e dos seus apoiantes russos em pleno assalto a Aleppo, levanta, também ela, perplexidades que parecem ter escapado por completo à curiosidade dos media. É com efeito surpreendente que o ISIS tenha conseguido disponibilizar uma força de 4000 homens para lançar o assalto à cidade no preciso momento em que as suas posições estavam à beira do colapso em Aleppo e sob intensa pressão em Raqqa.

Numa entrevista à RT, Assad garantiu que a força que lançou o assalto a Palmira veio directamente de Mossul, escapando miraculosamente à pressão militar sobre a cidade e ao sofisticadíssimo dispositivo de vigilância americano. O presidente sírio não será decerto a mais credível das fontes. Mas a questão mereceria sem dúvida um pequeno esforço, tanto mais que há outras fontes a insistir na mesma versão.

Numa perspectiva de gestão comunicacional, as opções dos editores limitam-se a dar continuidade a técnicas já muito rodadas na cobertura de conflitos armados. A insistência em imagens-choque, nos testemunhos dramáticos, na exploração de histórias, em particular quando protagonizados por crianças e mulheres, garantem o impacto emocional que, como diria Ignacio Ramonet, é cada vez critério da informação televisiva. Uma técnica que secundariza o rigor dos factos e da análise e dispensa uma abordagem mais global e integrada do conflito.

Sublinhe-se enfim a forma como as opções editoriais se ajustam na perfeição à batalha propagandística que se trava em torno de Aleppo, colocando uma vez mais a questão crucial da agenda dos media. Nesse sentido, os famosos media effects parecem garantidos mas, uma vez mais, à custa de uma abordagem claramente selectiva da realidade.

Lisboa, 22 de Dezembro de 2016