O choque petrolífero

O choque petrolífero

Nuno Santa Clara,

Por este nome ficou conhecida uma das quatro fases tidas como marcantes do processo conhecido como “crise petrolífera”. Todas essas fases decorreram de surtos de instabilidade no Próximo e Médio Oriente. Recapitulando: 1956 – crise do Suez; 1973 – Guerra de Yom Kippur; 1979 – deposição do Xá da Pérsia; 1991 – Primeira Guerra do Golfo.

Houve decerto outros altos e baixos na produção, distribuição e venda de petróleo, mas os picos acima referidos foram os mais marcantes. E, entre eles, particularmente o de 1973, que muitos entendem ver como o grande “choque petrolífero”.

Para o comum dos portugueses, o choque de 1973 teve duas consequências importantes.

Uma, a crise global, que se refletiu entre nós, e que acabou por colocar os nossos agentes económicos (belo eufemismo!) contra os poderes políticos da época, considerando que estes, pelo seu imobilismo, não respondiam aos novos desafios, sobretudo à globalização que já então se desenhava. Daí que o 25 de Abril, na sua origem, tivesse sido encarado por essa gente, se não com bonomia, pelo menos com alguma consideração e expectativa.

Outra consequência foi a promoção do petróleo ao estatuto de bem escasso, e como tal sujeito a regras de oferta e procura que ultrapassaram em muito o valor real do produto. Não me vou referir à especulação sobre os preços, mas a uma coisa bem mais comezinha.

Antes de 1973, quem fosse a uma bomba de gasolina era recebido por um funcionário atencioso, que atestava o depósito, perguntava se queria que verificasse a água e o óleo, bem como a pressão dos pneus, limpava o para-brisas e se despedia com um sorriso.

Com a crise, os consumidores foram todos para a fila, pediam com humildade que enchesse o depósito com os litros autorizados, e iam embora felizes, com o para-brisas sujo e sem saber como estavam o óleo, a água e os pneus.

Fenómeno irreversível: mesmo depois de voltar a abundância (?) nunca mais voltámos a ter os serviços personalizados. Pelo contrário, evoluiu-se para o self-service, obrigando executivos e “tias” a manusear as mangueiras, ficando com as mãos a cheirar a gasolina ou gasóleo, e a ter que verificar os variados níveis; em suma, perderam estatuto.

Dirão alguns que, por caminhos ínvios, se procedeu a uma democratização da sociedade e se racionalizaram custos, cortando em serviços considerados quase como sumptuários.

Diria eu que este caso é um belo exemplo da promoção de um bem corrente ao estatuto de coisa rara – logo, cara – a ponto de perturbar as relações institucionais. O ouro é raro, logo caro, e quando se fala do “vil metal” é pelo seu valor venal e não pelas suas qualidades. No entanto elas existem, e as aplicações do ouro na alta tecnologia (para não falar nos dentes, já fora de moda) raramente são referidas.

Em sentido contrário, o alumínio passou de bem precioso para o fundo da tabela (baixela dos pobres) quando a tecnologia permitiu a sua produção a baixo preço – sem que as suas qualidades fossem alteradas.

Assim, a alta do preço da gasolina levou à valorização do funcionário da bomba; deixou de ser um serventuário para ser empregado, depois trabalhador, e agora colaborador; e o consumidor viu-se obrigado, se não a amassar o seu pão com o suor do rosto, pelo menos a meter a mão na massa e a ficar com um incomodativo cheiro nas ditas mãos.

Donde se conclui que o choque petrolífero de 1973 teve o efeito de contribuir para a democratização do País e das relações de trabalho – pelo menos nas bombas de gasolina…