Responsabilidade, Reconhecimento, Diversidade e Liberdade

Responsabilidade, Reconhecimento, Diversidade e Liberdade
Excertos da intervenção de António Sampaio da Nóvoa na cerimónia em que lhe foi atribuído o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade Lusófona, juntamente com Carlos Alberto Torres, professor da UCLA, no dia 25 de Outubro de 2016

Não é fácil agradecer uma distinção. Se falasse para me aumentar, seria insuportável. Se para me diminuir, soaria a falso. Talvez a única opção seja dizer o que sinto, e que se traduz numa única palavra: responsabilidade.

Cada distinção alarga a nossa responsabilidade, porque nos acrescenta instituições que em nós confiam, pessoas que nos escolhem como portadores de uma história e de um futuro.

Entendo esta distinção como o reconhecimento de pessoas e de gerações que se bateram, nas últimas décadas, pela democratização do ensino, pela renovação da universidade e pela abertura de Portugal.

Junto delas, serei portador deste vosso gesto.

  • Hoje, pela primeira vez na nossa história, deixamos para trás o “discurso do atraso” quando falamos da nossa escola pública. As gerações de Abril podem orgulhar-se do que fizeram pela educação, mesmo com investimentos bem inferiores à média europeia, mesmo que falte ainda tanto por fazer. Na democratização do ensino. Na qualidade das aprendizagens. Numa escola que promova o sucesso de todos os alunos, independentemente do seu cheiro, cor, linguagem ou encadernação, como dizia João dos Santos.

Felizmente, ao longo deste ano, recuperámos um direito ao presente, que nos vinha sendo retirado. Mas é preciso que este presente não seja morno, tépido, que não nos impeça de ver as grandes transformações da educação do futuro.

Na reconstrução de um modelo escolar que tem 150 anos, e já não nos serve. Na organização de escolas diferentes que, sem porem em causa “o comum”, permitam a abertura a uma diversidade de projectos e iniciativas. No reforço de um espaço público da educação, muito mais amplo do que o espaço da escola, no qual pessoas e instituições se façam presentes e assumam os seus direitos e deveres educativos.

  • Serei portador de um segundo gesto de reconhecimento, às gerações que, nos últimos trinta anos, se bateram pela renovação da universidade.

Quero agradecer o elogio proferido pela Professora Rita Hofstetter, da Universidade de Genebra.

Genebra tem sido o epicentro do pensamento educativo, com Rousseau, claro, com a Educação Nova, há cem anos, quando lá estavam António Sérgio e Faria de Vasconcelos, as duas referências maiores da nossa pedagogia.

Genebra é a minha primeira universidade. Foi lá que me formei universitário. Foi lá que fiz o meu primeiro doutoramento. Foi lá que aprendi com um conjunto notável de professores, a começar por Daniel Hameline e Pierre Furter, dois homens tão diferentes, e tão notáveis, a quem dedico a distinção que hoje recebo.

Depois, foi Wisconsin, Oxford, Nova Iorque e Paris, para um segundo doutoramento, que junta a história à comparação. E Brasília e o Rio de Janeiro. Continuarei: o andar é tudo: princípio e fim (Teixeira de Pascoaes).

Lisboa recebeu-me, apesar de vir de fora, e não de dentro. Aqui encontrei a minha universidade. Participei nos primeiros mestrados, na década de 80, numa nova concepção dos programas de doutoramento, nos primeiros grandes projectos científicos europeus. Começava uma coisa nova e todos tínhamos consciência disso.

Da vida, levo duas causas de honra. Falarei apenas de uma: ter sido Reitor da Universidade de Lisboa. E ter conseguido, com muita gente, de muitos lugares, sobretudo com o António Cruz Serra, corrigir o erro histórico da separação das universidades ditas “clássica” e “técnica” – medicina para um lado, engenharia para o outro, humanidades e direito para um lado, economia para o outro. Espanta-me como nos habituámos a uma realidade tão absurda e incompreensível.

Fez-se a Universidade de Lisboa. Está feita. Existe apenas há três anos, mas vai dando ao país o que o país precisa: uma instituição de referência internacional, a partir da língua portuguesa, de Lisboa para o mundo, que não separa a ciência do ensino, que trabalha na convergência de todos os conhecimentos, que reconhece a sua responsabilidade na economia, no trabalho, na cultura, no desenvolvimento, na cidade.

E agora? Agora, falta fazer quase tudo, mas é isso que nos anima. E falta também trabalhar no país para promover a diversidade do sistema de ensino superior. Lisboa não é igual a Évora. O Porto não é igual a Bragança. Precisamos de universidades diferentes, de politécnicos diferentes, com uma diferença marcada pelos seus projectos próprios, pelos seus modelos próprios de organização, e não por separações à nascença que são sempre factor de discriminação.

Diversidade e liberdade. O momento actual das universidades é crítico em todo o mundo. Por um lado, vive-se uma fase de expansão e de percepção da sua centralidade nas sociedades contemporâneas (já não falta muito para que os estudantes do ensino superior representem 5% da população mundial, 350 milhões). Por outro lado, há uma submissão a lógicas marcadas pela empregabilidade e por um produtivismo académico delirante – papers e mais papers, e mais comunicações, e mais factores de impacto, e mais outputs e outputs, tudo num frenesim que retira tempo à ciência, que impede a distância crítica de que a reflexão se alimenta.

A mistura de três tendências – a obsessão pelos rankings, uma visão empresarial da gestão e a perpétua burocracia – está a transformar-se num perigo para as universidades. Se forem vencidas pelo imediatismo, por indicadores e mais indicadores que dão conta de tudo menos do que verdadeiramente conta, as universidades podem perder o que as distingue das outras instituições, a capacidade de serem diferentes, de pensarem o que não se pode pensar em nenhum outro lugar.

Não devemos recusar a medida, nem a avaliação, nem a comparação, mas quando estes instrumentos se transformam em modo dominante, único, de governo das instituições, então, perde-se a liberdade incondicional, sem condição, que é constitutiva da própria ideia de universidade.

  • Finalmente, serei portador deste vosso gesto junto das gerações que nos tiraram do isolamento e abriram Portugal à Europa e ao mundo. A educação teve um papel central neste processo. As universidades e a ciência também.

Partilho esta distinção com Carlos Alberto Torres, o que muito me honra. Não é um acaso. É um sinal da importância da internacionalização, e do esforço para pensar a educação numa perspectiva comparada. A isso nos vamos dedicando, um e outro.

Há muito provincianismo no nosso país, feito ora de fechamento, ora de fascínio pelo estrangeiro. As novidades já não vêm pelo comboio ou pelo vapor, mas pelas páginas da internet, que alguns lêem e repetem, e assim se acham modernos. Nunca daqui saíram. E se saíram foi com alguma bolsa ou subsídio pago cá dentro. E se algum escrito publicaram foi sobre o “caso português”. São “casos”, não são ciência, nem cultura.

Não é esta internacionalização que me interessa, mas aquela que nos inscreve como partícipes, como participantes por inteiro dos processos científicos e culturais. Não somos um “caso”. Devemos ser parceiros no trabalho científico que se faz no mundo. É isso que as novas gerações nos têm ensinado, com uma presença internacional de que nos orgulhamos e que temos de reforçar nas próximas décadas.

E temos condições únicas para o fazer. Pela nossa história. Pela nossa geografia. Sobretudo pela nossa língua. É nela que devemos enraizar a nossa abertura ao mundo. Na Europa, obviamente. Mas também no espaço ibero-americano, tão importante para o nosso futuro. E no Mediterrâneo. E no Atlântico Sul. E sempre que a partir da língua portuguesa pudermos estar no mundo. A língua não é o que nos fecha no nosso “elemento”, mas o que nos permite comunicar, estar presentes, ser universais na nossa singularidade.

  • Como sabem, não tive, até hoje, qualquer ligação académica ou institucional à Universidade Lusófona. Sinto, por isso, uma responsabilidade ainda maior na vossa distinção. Recebo-a como parte dos três movimentos que apresentei e que nos trouxeram uma “vida nova”.

Só conheço uma maneira útil de honrar esta distinção: continuar a bater-me pelos mesmos ideais, com independência, com liberdade, sejam quais forem os tempos e as circunstâncias.

Só tenho um instrumento ao meu dispor: a palavra. À maneira dos honoris causa antigos, juro perante vós não abrandar no meu esforço pela democratização do ensino, pela renovação da universidade e pela abertura de Portugal. Só morremos quando esquecemos as palavras. Prometo-vos que não as esquecerei.

Nada me honra mais do que a presença de tantos amigos nesta cerimónia. Peço desculpa de não poder agradecer individualmente a cada uma das pessoas aqui presentes. E, no entanto, talvez esta minha intervenção pudesse ter sido, apenas, e já seria muito, a leitura dos vossos nomes, porque em cada um dos vossos nomes está um pedaço dos movimentos que procurei trazer-vos.

Tenho nostalgia de muitas coisas que não fui e que também já não serei. Mas os amigos permitem que nos continuemos no tempo. São eles que nos prolongam. Termino, por isso, com a força da solidariedade, da convivialidade, de uma amizade que nos faz parte de um movimento.

É isso o que mais me importa – aprofundar lógicas de participação nas decisões políticas, económicas, sociais, nas decisões sobre educação, saúde, sobre a cidade…

Mas como é que conseguimos uma autonomia de participação, e de decisão, quando a economia se define em lugares desconhecidos, “invisíveis”, quando os partidos se defendem do que não controlam, quando a comunicação social mostra apenas o que quer e esconde tudo o resto?

Vivemos uma crise política, de representação, que tem muitas origens, mas também inconfessadas resistências à participação. Uma democracia da apatia e da indiferença não é democracia.

A participação é o denominador comum dos três movimentos de que vos falei. Não vale a pena drogarmo-nos com heroísmos grandiosos. A vida é feita de gestos e de compromissos, diários, que podem parecer insignificantes, mas são eles que fazem o movimento de mudança.

Para que o momento surja, cada um tem de fazer a sua parte. Com compromisso. Com conhecimento. Com responsabilidade. Continuaremos…