Perder o Norte

Perder o Norte

Neste País de marinheiros (ao que se diz) esta expressão tem o significado de perder o rumo, ficar à toa, sem orientação. Reflexo da gesta dos Descobrimentos, a expressão ficou, mesmo para os que nunca sulcaram as águas do mar.

Mas há outro norte, ou mais propriamente um North, que merece ser recordado.

Oliver Laurence North, nascido no Texas em 1943, foi um brilhante oficial dos U. S. Marines, condecorado com a Silver Star, a Bronze Star e a Purple Heart, entre outras medalhas, todas em combate no Vietname, quando era ainda subalterno.

Depois de uma movimentada carreira, sendo já tenente-coronel, foi nomeado em 1981 sub-diretor do National Security Council (NSC) para a área dos assuntos político-militares. Teve assim acesso frequente ao Presidente dos EUA.

Foi nessa qualidade que interveio numa tentativa secreta de trocar armas pelos reféns americanos em poder do HAMAS, experiência de que mais tarde se serviu para levar a cabo a operação que o tornaria indesejavelmente conhecido a nível mundial.

O Presidente Ronald Reagan estava empenhado em intervir na Nicarágua, procurando derrubar o governo sandinista através do apoio aos “contras” anticomunistas. Porém, o Congresso americano, na ressaca da Guerra do Vietname, estava avesso a quaisquer novas aventuras militares fora de portas. Daí a Emenda Bolland, de 1882, proibindo o financiamento de tais ações.

A necessidade aguça o engenho, e Oliver North encabeçou um processo que resultaria na venda de armas americanas ao Irão (esse mesmo, o do Eixo da Mal), obtendo fundos que seriam em parte desviados para financiar os “contras”. Tudo, obviamente, através de paraísos fiscais e redes de traficantes.

Recorde-se que um país que nessa altura vendesse armas ao Irão arriscava-se a sofrer sanções por parte dos Estados Unidos…

Os problemas surgiram quando os jornais (os das Fake News, diria o atual Presidente) descobriram a negociata, dando origem ao chamado escândalo Irão-Contras. Da negação ao reconhecimento dos fatos, lá se seguiu a habitual via-sacra (que agora se repete), saindo a verdade a conta-gotas.

Oliver North assumiu publicamente a responsabilidade do caso, ilibando o Presidente que, segundo declarou, não sabia de nada. A verdade é que as comissões de inquérito não encontraram nenhuma prova da intervenção de Ronald Reagan neste assunto, e em 1986 North acabou por ser demitido, julgado e condenado a três anos de prisão, com pena suspensa, além de umas sanções acessórias, e veria truncada uma promissora carreira militar. Veio a ser ilibado em 1991, tendo posteriormente falhado uma carreira política e acabando como professor e comentarista de TV.

Mais tarde reconheceu, num inquérito não passível de ser usado como matéria de incriminação (como em alguns inquéritos de segurança), que o Presidente tinha conhecimento de tudo. Para ele, tarde demais.

De fato, é difícil imaginar que um assunto tão delicado tivesse passado ao lado do Presidente. E, quanto a ordens escritas, os habituais cínicos lembrarão que também não foi encontrada nenhuma ordem escrita de Hitler mandando matar um judeu que fosse…

Passando aos dias de hoje, temos o folhetim Donald Trump Jr. e a sua ligação ao Kremlin, por interposta e atraente pessoa.

E lá voltamos às cenas dos capítulos anteriores, em que o filho tomou iniciativas e fez coisas graves sem dizer ao pai (por acaso, o Presidente); e até se fez constar que o jovem tinha atravessado um período de más relações com o ilustre progenitor; assim, num nobre impulso, e para se redimir, teria intentado, na sua inocência, fazer um favor e uma surpresa ao pai (coisas dos verdes anos!).

Não parece que se trate de uma manifestação do complexo de Édipo (nem a mãe foi para aqui chamada); mais provavelmente, teria sido uma manifestação do complexo militar-industrial, a tentar proteger os seus interesses (sem grande subtileza).

Só não se percebe que a preparação da surpresa tivesse sido partilhada pelo diretor da campanha eleitoral e por um lobbyst (palavra que, felizmente, não tem tradução em português) de origem russa, que são pessoas adultas, experientes e sisudas, e que bem poderiam ter refreado o entusiasmo juvenil do Jr.

No meio do temporal dos twitter do atual Presidente dos EUA, mais variáveis que os ventos no Aeroporto Cristiano Ronaldo, e com efeitos igualmente catastróficos, resta-nos uma atitude sensata.

Não fazer como o North, e não perder o Norte.

Nuno Santa Clara

Eclipses, solstícios, equinócios

Eclipses, solstícios, equinócios

Desde a mais remota antiguidade os homens têm tentado explicar os fenómenos da Natureza. Uns pareciam fáceis, como o dia e a noite, ou as estações do ano. Outros eram mais complexos, como o movimento dos astros e a ocorrência dos eclipses.

Para os povos que consideravam que os astros governavam a Natureza, adivinhar um eclipse, determinar o dia exato dos solstícios e equinócios, ou apenas prever as marés, era considerado o supra sumo da Ciência, tudo naturalmente rodeado de uma aura de misticismo.

Até tempos bem recentes, grandes decisores recorriam a esses sábios para tomar decisões. Travar uma batalha, nomear um herdeiro, casar, tudo isso implicava consultar um astrólogo.

Dizem as más-línguas que, pela calada, esse hábito ainda se mantém, mesmo a níveis que se julgaria impensável. Adiante.

Prever as atitudes e decisões dos líderes de outros países, inimigos, adversários ou até amigos, é o sonho de qualquer governante. A busca dessas informações recorre tanto a meios sofisticados como a golpes baixos sobre os pontos vulneráveis dos “alvos”. A Literatura, o Cinema e a Televisão estão cheios de histórias e estórias sobre esse assunto.

Com a decadência (aparente?) da astrologia, resta investigar no terreno das ciências humanas um modo de resolver esta carência de informação, ou melhor, de previsão do comportamento do inimigo, adversário ou amigo (amigo no sentido restrito dos interesses comuns: para além disso, torna-se, pelo menos, adversário).

O quebra-cabeças atual chama-se Donald Trump. Sobre ele acumulam-se acusações de impreparação política interna e externa, falta de cultura, ignorância sobre as regras da diplomacia, e outras mais; como, naturalmente, também não faltam admiradores e apoiantes.

Mas é o carácter de imprevisibilidade das suas declarações públicas (com especial relevo para o twitter, esse insólito meio de difundir objetivos ou orientações políticas) que tem dado dores de cabeça a muita gente, e desafiado os analistas convencionais.

Será assim tão imprevisível? Aparentemente, sim. Não estávamos habituados a ver o dirigente do país mais forte do Mundo lançar uma opinião/orientação arrasadora, que, no curto espaço de 24 horas, fosse laboriosamente desvalorizada pela equipa do seu governo, e liminarmente anulada por uma declaração contrária do próprio autor.

Convenhamos que, para os demais governos, organizações internacionais e simples cidadãos, isto constitui um desafio.

Mas vejamos essa questão mais em detalhe, por exemplo na escaldante situação no Médio Oriente. Várias guerras, ou várias frentes da mesma guerra, comportam um risco acrescido de escalada, de conflito local a regional e, quem sabe, até global.

Os vários intervenientes estão interessados no fim dos conflitos, mas com um senão. Todos querem ganhar mas, acima de tudo, não querem que o outro ganhe. Ou seja, a Turquia quer o fim do ISIL, mas sem o concurso dos curdos; a Rússia também, mas com o seu aliado no governo; os EUA também, mas em o ditador e com os curdos; os xiitas, idem, mas sem os sunitas, e estes em sentido inverso; e assim por diante.

Deste modo, a visita de Trump aos países árabes reveste especial interesse. Não pelo apregoado encontro de religiões: o de Jerusalém foi folclore, o de Riad acabou com críticas à ausência de véu da Primeira-Dama, e do de Roma é melhor nem falar. Mas pelo resultado prático das visitas.

Pois bem, a Arábia Saudita acabou por firmar negócio de armamento cifrado em zeros que ocupariam metade desta linha. Israel, com a venda de caças F-35, cujas virtudes foram apregoados em público pelo Presidente ao melhor estilo da Feira da Ladra.

Pouco depois, os países do Golfo, com a Arábia à cabeça, exigiram a submissão da Catar. Motivo: apoio ao Irão e ao terrorismo. Ver estes países, direta ou indiretamente financiadores da Al-Qaeda e similares, pregar contra o terrorismo, só lembra o Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz.

Sendo óbvia a ligação entre esta atitude e a visita presidencial, eis que a América anuncia a venda de caças F-15 ao Catar, novamente por muitos zeros! Ou seja, a armar o adversário do seu aliado!

A nudez crua da verdade apareceu quando, no ultimatum de dezasseis pontos ao Catar, surgiu o encerramento da al-Jazeera, uma das cadeias internacionais de televisão mais vistas, sobretudo no mundo árabe… Uma das várias formas de reconduzir ao redil aquela ovelha tresmalhada. No fundo, nostalgia do Império.

Mudando de continente, a pública e pomposa declaração de Trump de substituir o muro do México por uma cortina de painéis solares pode parecer insólita. Mas ele percebeu (só agora!) que o carvão não tem futuro, e que as energias renováveis eram um bom negócio (o que não tem nada a ver como ambiente). Portanto, com prejuízo para os construtores civis, mas para gáudio das indústrias de ponta, vá de emendar a mão, sem renunciar ao espírito do Muro.

Dito isto, parece que Trump, afinal, é tão previsível como os eclipses, e com a precisão dos solstícios. Basta saber onde se pode fazer um bom negócio.

Ou seja, como muito bem observou o Professor Adriano Moreira, “… a proposta metodológica que está na cabeça dele, é aplicar ao estado líder mundial – segundo o conceito em que o tínhamos – a metodologia do empresário”.

Nuno Santa Clara, 27-06-2017

 

De fora para dentro

De fora para dentro

Através dos tempos, a maneira clássica de um dirigente político contornar dificuldades internas é criar, provocar ou acirrar a ameaça de um inimigo externo.

Se a manobra for bem feita, resulta em pleno. Esquecem-se as diferenças perante a ameaça exterior (real ou imaginária), e, todos irmanados pelo interesse comum, constituem-se frentes patrióticas, uniões sagradas, ou outros movimentos do mesmo estilo, para conjurar as ameaças e salvar a Pátria.

Foi assim que os generais argentinos pretenderam unir o povo em torno da Guerra das Malvinas, ou que os coronéis gregos declararam a guerra santa pela ocupação de Chipre. Ambas acabaram em fracasso, e acarretaram a queda dos respetivos regimes.

É que uma guerra, sobretudo uma destas, não pode ser perdida, e para que isso aconteça o caminho mais fácil é improvisar estratégias, atamancar táticas e basear-se na fantasia. Melhor dizendo, tomar os seus anseios por factos reais, segundo a fórmula de Eça de Queirós: cobrir com o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.

Decerto o conceito de verdade tem evoluído nos últimos tempos. Mas também é verdade que, numa guerra, a arte suprema está em iludir o adversário, e isso só se faz através da mentira deliberada.

A recente visita de Donald Trump dá-nos dois bons exemplos da ligação política interna e externa. As coisas andam más a nível interno: não bastava o FBI fugir ao controlo presidencial, como vem agora a CIA agravar os problemas com novas revelações (para não falar nas brigas com os serviços de informação ingleses e israelitas).

O Presidente dos EUA discursou no Museu de Israel e, depois de dizer que “a minha administração estará sempre com Israel”, disse que “a destruição de Israel não acontecerá com Donald J. Trump”.

À primeira vista, seria mais uma das retumbantes declarações de um ego desmesurado, a que já nos habituou.

Mas não deve ser visto assim. O que ficou explícito é que, enquanto ele for Presidente, Israel estará a salvo (independentemente disso ser exequível ou não). Portanto, judeus de todo o mundo, uni-vos e salvai a pátria – em concreto, façam o que puderem para evitar o impeachment. Isto é importante, sobretudo considerando o papel dos media americanos, com forte influência judaica, ultimamente críticos de Trump.

Depois, o Presidente dos EUA discursou perante os Chefes de Estado e de Governo em Bruxelas, e foi pouco diplomático. A ponto de provocar comentários e sorrisos entre os tais chefes, visíveis na reportagem em direto, o que também não foi muito protocolar.

Estaria ele realmente interessado em aumentar os encargos de defesa militar, como forma de combater o terrorismo? É consensual que não é essa a via para garantir a segurança interna e responsabilidades, recaindo o peso das despesas sobre os contribuintes americanos.

Estaria certo, se os interesses dos Estados Unidos coincidissem 100% com os dos seus aliados, o que não se tem verificado, por exemplo no Médio Oriente e no Afeganistão.

Juntando a isto as considerações sobre terrorismo e imigração, depreende-se que Trump não estava a falar para os seus interlocutores europeus (exceto alguns incondicionais, que não estavam ali representados): estava a falar para os eleitores americanos que nele votaram, repetindo os temas da campanha eleitoral.

Ou seja, estava a fazer a manobra dos generais argentinos e dos coronéis gregos, mas em sentido inverso: de fora para dentro.

Mas não deixa de ser eficaz, para quem prefere os argumentos aos factos.

Resta saber se tomar a nuvem por Juno não dará o mesmo destino do gigante Adamastor…

Nuno Santa Clara, 25 de Maio de 2017

Mayflower

Mayflower
“Flor de Maio”, tradução literal de Mayflower. Este era o nome de um pequeno navio mercante que, em 1620, transportou 102 passageiros de Plymouth, Sul de Inglaterra, para a América, tendo aportado, após dois meses de atribulada viagem, no Cabo Cod, hoje integrado no estado de Massachusetts.

Até aqui, nada de especial.

O cabo Cod fora já reconhecido por europeus, primeiro pelo viquingue Leif Eriksson cerca do ano 1.000 D.C., depois pelo italiano Giovanni Varrazzano em 1524, seguido pelo português Estevão Gomes (que lhe deu o nome de Cabo de Arenas, já que estava ao serviço de Espanha) em 1524, pelo inglês Bartholomew Gosnold (que lhe deu o atual nome) em 1602, e foi ainda avistado pelo célebre John Smith em 1614.

Porque marcou tanto o Mayflower o imaginário americano? Um pequeno navio de imigrantes, entre tantos outros, aportando a uma costa já conhecida e povoada, fundando uma pequena colónia, não justificaria os brados da Fama.

A singularidade reside na qualidade dos imigrantes. Estes eram um grupo de protestantes, auto intitulados de “puritanos”, que se consideravam em oposição à Igreja Anglicana, tornada oficial na Inglaterra (tinha por chefe o próprio rei), e que, segundo eles, estava corrompida a afastada da desejada pureza. Emigraram primeiro para a Holanda, onde tinham liberdade religiosa (como os judeus e protestantes portugueses), mas acabaram por voltar à Inglaterra e obter do rei permissão para partir para o Novo Mundo.

Ao desembarcar, subscreveram o “Pacto do Mayflower”, documento que ainda hoje existe, onde, entre outras coisas, se comprometiam a constituir uma sociedade política civil (entenda-se que dentro de valores cívicos), governada por membros regularmente eleitos, a quem juravam obedecer.

Os primeiros tempos foram duros, e teriam perecido todos se não fosse a ajuda dos índios; em troca, estes foram despojados das suas terras, em devido tempo…

Tendo sobrevivido ao primeiro inverno da Massachusetts, resolveram realizar no fim do verão uma celebração de índole religiosa. Foi esta a origem do Thanksgiving, o Dia de Ação de Graças, que hoje constitui, a par do Natal, a principal festa americana (embora à custa dos perus).

O que podemos chamar o “mito da Mayflower” constitui uma das bases da idiossincrasia dos EUA, como para nós a batalha de Ourique (quer tivesse havido, ou não).

Nela estão contidas algumas das ideias que serviram de inspiração aos “Pais Fundadores”, que elaboraram séculos depois a Constituição dos EUA. Como a liberdade religiosa, a busca de um mundo novo e puro, a sociedade civil, a eleição dos dirigentes.

A mística do Mayflower vai ao ponto de sete Presidentes, dezenas ou centenas de políticos, escritores e artistas, e muito povo anónimo, se reclamarem como descendentes dos “Peregrinos”. Como se essa ascendência fosse um atestado ou uma garantia de americanismo legítimo.

Assim sendo, não são de admirar as reações de cidadãos americanos às recentes bombásticas declarações e não menos explosivos decretos do atual Presidente dos EUA. É que o ideário do Mayflower está a ser subvertido, ou seja, o fundo político e moral americano está ameaçado.

Mais do que as reações externas, são essas tomadas de posição, baseadas no civismo, que importa reter, porque serão essas que farão infletir o perigoso rumo que tem tomado a governação dos EUA.

Algum espírito malévolo diria que Donald Trump tem tanto a ver com o Mayflower como um mexicano wetback que atravessou clandestinamente o Rio Grande. Os avós de Trump eram alemães, a mãe escocesa, e todos entraram na América apenas no século XX. Dentro desta lógica, a militância anti-imigração de Trump teria contornos de zelo de neófito.

Não concordo, obviamente. Os EUA formaram-se por imigração, e assim continuam e continuarão a ser, quer Trump queira ou não. A base do seu povoamento é o espírito do Mayflower, a busca da liberdade civil e religiosa, da realização pessoal, da igualdade de oportunidades e de direitos. Mesmo àqueles que imigraram forçadamente, no porão de navios negreiros, esses direitos vieram a ser reconhecidos.

É bom que as grandes ideias estejam ligadas a uma flor. Mesmo que por casualidade: quem batizou o navio de Mayflower não fazia ideia que o peso desse nome iria ter. Como a florista que ofereceu cravos aos soldados, que os colocaram nas armas, jamais imaginou as consequências desse gesto tão simples e espontâneo.

Mayflower, Red Carnation… Flor de Maio, Flor de Abril…

Que bem floresce a Democracia!

Nuno Santa Clara, 05 de Fevereiro de 2017

Populímetro e Povometria

Populímetro e Povometria

Nuno Santa Clara,

A tomada de posse do Presidente Donald Trump e os seus primeiros actos continuam a ser o prato forte dos media; assim mesmo, com grafia anglo-saxónica, como convém. Não se trata, portanto, de fixação mórbida da minha parte; apenas de seguir (por uma vez!) o que está a dar, l´air du temps, what´s going on, qué pasa.

Pois o dito Trump tomou posse e, no seu primeiro decreto, retirou emblematicamente o seguro de saúde a 20 milhões de americanos; mas, sobretudo, discursou na cerimónia de posse e na sua primeira e prioritária visita à CIA.

Só que não discursou: fez dois comícios, algo extemporâneos, uma vez que a campanha eleitoral acabou há muito tempo. Mas, para os mais distraídos, o mote está dado: se o populismo ganha eleições, também pode governar países – mesmo o mais forte da Terra.

Diz o saber popular que “atrás de mim virá quem bom de mim fará”. Pois Donald Trump arrisca-se a conseguir o que se julgava impossível: fazer do ex-Presidente George W. Bush um bom orador, erudito, elevado, enfim, um modelo de Presidente numa nação civilizada.

E o novo Presidente declarou, alto e bom som, que iria devolver o poder ao Povo. Aplausos frenéticos. Ninguém se lembrou que tem vindo a nomear para o governo dos EUA uma série de milionários, com quem o Povo que o elegeu não terá muito em comum…

Decerto que, no nosso conceito de Democracia, o Poder pertence ao Povo. Mesmo na Constituição Portuguesa de 1933 (não propriamente democrática), se dizia que “a Soberania reside em a Nação”, e a Nação era tão sagrada que não se permitia dizer na Nação – seria falta de respeito.

No modo como é que o Povo exerce esse Poder é que parece estar o problema. Mesmo na América, democracia velha de dois séculos e meio, inspiradora da Revolução Francesa, parece haver diversas interpretações.

Por exemplo, o candidato mais votado pode não ser eleito – e já lá vão duas eleições com esse resultado.

Mas Donald Trump não está só: na velha Europa, políticos variados desafiam o sistema em nome do Povo, e a Extrema-Direita avança ao som dessa canção.

Os analistas mais lúcidos (os que param para pensar, em vez de se citarem uns aos outros) reconheceram já que a entrega do Poder a uma clique de políticos profissionais traz maus resultados. Globalização, poder financeiro descontrolado e desregulado, corrupção, abolição de controlos fronteiriços para atividades duvidosas (um eufemismo), tudo concorre para criar um clima de descrença no sistema.

E com razão, apesar de a culpa ser também do comum dos cidadãos, que se excedeu na delegação de competências e se desligou da Coisa Pública. Com o resultado de serem excluídos do trabalho, enganados na Saúde ou na Educação, ou mesmo espoliados da Banca, onde compraram gato por lebre, inspirados por figuras públicas.

Levando estas questões ao extremo, o sentimento generalizado atual dos portugueses pode ser dividido em dois vetores: “volta, D. Branca, estás perdoada”; e “quando virá D. Sebastião?”.

Pois o sebastianismo, contrariamente ao que parece, não é um fenómeno português. Ele aí está, por todo o Mundo, fruto do divórcio ente o Povo e quem o governa, e mesmo entre quem está mandatado para governar e quem governa efetivamente.

Para quem vê vedado ou dificultado o acesso ao Trabalho, à Educação, à Justiça, à Saúde, para falar dos direitos mais básicos, falar em nome do Povo parece música celestial – afinal, quem é o Povo?

Esta onda de populismo – pois é disso que se trata – é o resultado natural, lógico e diria mesmo expectável do divórcio acima referido.

Só que falar em nome do povo é hábito antigo e resiliente. Não assistimos a Repúblicas Populares, cuja popularidade, nunca referendada, se derreteu como neve ao sol?

Por outro lado, não assistimos à influência das sondagens e das ações de rua na governação?

De modo que há que encontrar novas formas de clarificar, sistematizar, estruturar e aplicar à Coisa Púbica a Vontade do Povo – essa vontade tão invocada, mas difícil de identificar, de organizar e de levar à prática.

Sistemas como o Führerprinzip de Hitler ou a Democracia Orgânica de Estaline estão fora de moda, e a Democracia Parlamentar parece não responder, segundo os populistas.

Resta recorrer aos sábios das áreas da Sociologia, da Matemática Aplicada, da Psicologia de Massas (e outros julgados necessários), e criar-se o Populímetro e a Povometria, ciências destinadas a saber o que o Povo sente e o que o Povo quer, e assim poderemos sair desta crise de identidades e de valores.

E esta, hein?

23 de Janeiro de 2017

 

União: lembraram-se agora?

União: lembraram-se agora?
Vamos provavelmente enfrentar novas propostas de avanços em larga escala do centralismo e de aumento de poder do directório criado pelo Tratado de Lisboa.

Bastaram mais umas afirmações descabeladas de Trump sobre o Brexit e a Europa para os ministros dos negócios estrangeiros de Alemanha e da França se porem em bicos de pés e apelarem dramaticamente à união entre os estados europeus para responderem a Trump.

Tudo isto soa a falso.

Por um lado, toda a gente percebe que nunca haverá qualquer possibilidade de criar um ”inimigo americano” da União Europeia. A debilidade da capacidade de defesa da Europa, aumentada, ainda pelo Brexit, impede qualquer tomada de posição real contra os EUA. Mais: a existir essa tentação (totalmente absurda) por parte de países como a Alemanha ou a França seguir-se-ia imediatamente o fim da União quanto mais não fosse por saída dos países do leste do continente.

Por outro lado, todos sabemos também o que significam os apelos à união dos estados europeus. Significam nada mais do que a tentativa de anular o impacte das justíssimas críticas que se fazem ao modo de funcionamento da União em particular à sua centralização de poder em benefício da Alemanha.

Manter o status quo com o pretexto Trump e, se possível, aproveitar o Brexit para aprofundar o poder da Alemanha e do seu acólito menor, a França, sobre a União é a real intenção destes pouco convincentes apelos. Como aliás se tornará muto claro quando, dentro de pouco tempo, se conhecerem as propostas de mudanças da União que serão apresentadas a propósito da comemoração dos 60 anos do Tratado de Roma. Vamos provavelmente enfrentar novas propostas de avanços em larga escala do centralismo e de aumento de poder do directório (a um ou a um e meio, como se queira) criado pelo Tratado de Lisboa.

Porque se os apelos à união fossem sinceros então teríamos já hoje uma mudança drástica das políticas comunitárias entre outros nos domínios económicos e financeiros. O que – não tenhamos ilusões – não sucederá.

João Ferreira do Amaral, em Rádio Renascença, a 20 de Janeiro de 2017

Partilha de sentimentos

Partilha de sentimentos

Nuno Santa Clara,

A campanha eleitoral que levou Donald Trump à Presidência dos EUA ficou marcada pela exploração dos sentimentos, e não pela lógica do confronto das propostas, dos números e das realidades.

Isso mesmo explica a sua vitória – e mal andou a direção de campanha de Hillary Clinton, quando se deixou enredar nessa teia.

Daí que mais de meia América, e grande parte do resto do Mundo, tivesse acordado com um sentimento de surpresa, do tipo “como foi possível?”, seguindo de “e agora?”.

E agora multiplicam-se os sinais de que algumas das promessas eleitorais vão ser levadas à prática (nem todas, obviamente), e vai aumentando, a nível global, o sentimento de insegurança.

Cabe aqui lembrar o que sucedeu na Alemanha entre as duas guerras mundiais. O partido Nacional-Socialista de Adolf Hitler tinha ficado em segundo lugar nas eleições de 1932, atrás da coligação do Marechal Paul von Hindenburg, mas a pressão feita pelo partido nazi e por alguns importantes membros do tecido empresarial alemão impôs ao Marechal a nomeação de Hitler para Chanceler, em 1933; a morte de von Hindenburg em 1934 facilitou a completa tomada do poder. O que ele fez depois de chegar ao topo é bem conhecido…

Mas não restam dúvidas de que Hitler chegou ao poder por via legal e democrática, ou seja, utilizando e beneficiando de duas coisas que ele abominava. E acabando por “domesticar” a classe empresarial, seduzida pelo aumento exponencial dos encargos militares e pela contenção (repressão) das classes trabalhadoras.

A reação naturalmente mais mediática ao “fenómeno Trump” foi a que se vai registando entre os artistas americanos, e é bem sintomática do mal-estar que aflige a sociedade americana. Desde a corajosa intervenção de Meryl Streep durante a entrega dos Golden Globes, à jocosa imitação de Trump feita por Alec Baldwin (que corre o mundo da Net), ou ainda à recusa de grandes figuras do meio artístico americano em abrilhantar a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente (o que até agora era considerado uma honra), tudo se conjuga para um divórcio entre o Poder eleito e os mais conhecidos e respeitados representantes da América que idealizamos.

Não admira que se venha a assistir, com projeção a nível mundial, a uma parada de música pimba, com intervenções a condizer…

(as reticências são intencionais: a reação de Trump à intervenção de Meryl Streep foi pôr no Twitter que ele era uma…)

Este sentimento é bem conhecido de nós, os portugueses com memória do antes do 25 de Abril (que já vão diminuindo…). Era o que tínhamos quando olhávamos para nós próprios, desprovidos de direitos, garantias, de respeito, em suma, da nossa completa humanidade.

Era o que sentíamos quendo cruzávamos a fronteira, e nos faziam perguntas embaraçosas sobre o que se passava cá dentro.

Era o que sentíamos quando se lia algo publicado, abençoado pelo controlo da Censura, e sobre o qual não podíamos pedir ou publicar uma explicação, uma justificação, ou apenas uma resposta.

Era o que sentíamos por sermos apoucados, confundidos com a clique que nos governava, com o que era impingido como o melhor da cultura portuguesa.

Era sobretudo quando alguém de fora nos perguntava se “os portugueses eram todos assim”, ou se “aquele era o melhor dos portugueses”.

Daí que compreenda e partilhe dos sentimentos daqueles valentes que desafiam o Poder arrogante que se desenha do horizonte, arriscando carreiras ou até direitos de cidadania, como sucedeu nos pouco saudosos tempos do senador Joseph McCarthy e do diretor do FBI Edgar Hoover, com a famosa caça às bruxas dos anos 50. Da “Lista Negra de Hollywood”, feita por indicação do tristemente célebre Comité de Atividades Antiamericanas, constavam nomes como Leonard Bernstein, Aaron Copland, Richard Attenboroug e até Charles Chaplin…

16 de Janeiro de 2017