Feitiço contra o feiticeiro

Feitiço contra o feiticeiro
O orgulho de pertencer a um dado estado é considerado depreciativamente. O termo “identitário”, por exemplo é quase equiparado a “fascista” pelo federalismo europeu.
As autoridades europeias, em particular a Comissão, mas também o Parlamento Europeu mantêm uma sistemática acção de descrédito dos Estados-membros.

Percebe-se, em particular para a Comissão, que isso suceda. É uma forma de valorizar os seus poderes, tentando demonstrar aos cidadãos dos estados que estes não actuam suficientemente em seu benefício e que são as instituições comunitárias que, impolutas e generosas, espalham a sua bondade pela Europa. Usando, claro, o dinheiro dos Estados. E quando necessário, qual mãe extremosa, a Comissão põe na ordem os estouvados estados – principalmente os de menor dimensão.

Nada de mais. São comportamentos próprios das burocracias quando, pouco avisados, lhes cedemos poderes excessivos, como é o caso da União Europeia. O rol de actuações que pretendem reduzir a lealdade dos cidadãos aos respectivos estados é grande e diverso: “a Europa das regiões”, os programas transfronteiriços, as sanções aos estados em dificuldade financeira, etc., na sua diversidade têm uma coisa em comum: é a mensagem que os estados, verdadeiramente, não se sabem governar e que portanto é necessário reforçar os poderes dos níveis regionais abaixo do nível estatal e dos poderes europeus acima desse nível, enfraquecendo os estados. A velha e obtusa ideia da Europa forte formada por Estados fracos.

O orgulho de pertencer a um dado estado é considerado depreciativamente. O termo “identitário”, por exemplo é quase equiparado a “fascista” pelo federalismo europeu, como se fosse um crime alguém comungar da identidade do estado a que pertence.

O problema é que o caso da Catalunha está a demonstrar que este tipo de propaganda de depreciação dos estados está a dar resultado, mas está a virar o feitiço contra o feiticeiro. E agora, aqui d’el rei, teme-se que desfazer estados historicamente sedimentados possa levar ao fim da União e talvez ao fim da paz na Europa.

O que é verdade, mas quem semeou os ventos?

João Ferreira do Amaral, 10 de Novembro de 2017, in RR

A cooperação estruturada permanente

A cooperação estruturada permanente
Jura-se a pés juntos que não irá existir um exército europeu. Mas, através da subordinação dos interesses nacionais aos colectivos e da especialização, torna-se inevitável a criação a prazo desse exército.
A maioria dos estados da União Europeia decidiu avançar para a criação de uma cooperação estruturada permanente na área da defesa. Portugal não assinou o respectivo documento de notificação ao Conselho (da União), mas o governo já referiu que irá assinar em 11 de Dezembro a decisão de criação desta cooperação.
A questão que se pode pôr é se o que está previsto para a cooperação e consta da notificação preserva o que é essencial, ou seja, a soberania de Portugal no que respeita à sua defesa. Soberania não significa isolamento, mas sim que a participação numa aliança militar, qualquer que ela seja, não impeça de pôr em primeiro lugar os interesses nacionais neste domínio e que, por outro lado, permita que o País possa por si mesmo assegurar o nível mais básico da sua defesa.
Não basta por isso que o documento garanta que as decisões são tomadas por unanimidade para assegurar que deixa intocável a soberania nacional. É naturalmente importante que as decisões sejam tomadas por unanimidade e que a participação na cooperação seja voluntária, mas não chega. Efectivamente, o próprio documento, no seu ponto 16 no Anexo II, faz subordinar os interesses nacionais aos colectivos no colmatar das deficiências a nível de capacidades. Por outro lado, adopta a ideia, que já vem do Tratado de Lisboa, da especialização das capacidades de defesa. Ambas estas ideias são evidentemente inaceitáveis porque apontam para no futuro se criarem forças armadas europeias, ficando as nossas necessidades de defesa (nomeadamente do território marítimo) completamente esmagadas face aos interesses dos estados dominantes.
A táctica é simples. Como o ambiente político e social da Europa não está para avanços federalistas (ou seja, os que impõem a superioridade dos interesses europeus sobre – o que serão? – os interesses nacionais), jura-se a pés juntos que não irá existir um exército europeu. Mas, através da subordinação dos interesses nacionais aos colectivos e da especialização, torna-se inevitável a criação a prazo desse exército porque se retira aos estados, principalmente aos de menor dimensão, as condições para prosseguirem objectivos nacionais de defesa.

Por isso, do meu ponto de vista, Portugal não deveria aderir. E acenar, tal como se fez com a moeda única, com os milhões de que supostamente a nossa economia irá beneficiar com a participação, francamente, já não pega.

João Ferreira do Amaral, 24 Novembro 2017, in RR

O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis — entre o Carnaval e a Paixão

O dilema dos juízes espanhóis perante os dirigentes que declararam a independência da Catalunha é o de os levarem a sério, ou os considerarem uns excêntricos mais ou menos irresponsáveis.

Ou consideravam que Puigdemont e os seus comparsas tinham organizado um carnaval em 1 de outubro, sob a forma de referendo que, além de ilegal, não cumpria regras de seriedade e transparência, nem os resultados eram verificáveis, que haviam realizado um baile de máscaras no parlamento para uma declaração de independência que se assemelhava a uma quarta-feira de cinzas, isto é, ou consideravam Puigdemont e os seus apóstolos uns foliões de uma trupe carnavalesca, ou os consideravam políticos independentistas responsáveis pelos seus atos, credíveis, a sério, que haviam gasto uns milhões de euros dos contribuintes em acções políticas passíveis de serem julgadas.

Ou os enviavam para casa com uma admoestação e o conselho para terem juízo e portarem-se como homenzinhos e mulherzinhas, ou os levavam a julgamento.

Os juízes espanhóis optaram por os levarem sério e por levaram a sério a sua função de juízes, em vez de entraram no corso e se transformarem em jurados de uma farsa em que o farsante mor até foi passear a Bruxelas como se fosse um turco perseguido, ou um paladino da liberdade fugido de camisas negras!

De muitas orações e textos publicados, da recusa dos juízes espanhóis em colaborar no carnaval da escola de samba de Puigdemont, resultou que os sambistas catalães sejam considerados mártires da liberdade, presos e refugiados políticos e que os severos juízes, por não se terem mascarado de compères para a récita, nem lançado confétis, sejam acusados do rol completo de insultos em uso: fascistas, franquistas, espanholistas, filipistas, incendiários ao serviço de Castela! Tipos sem humor, certamente, por, em vez de haverem gozado com a sua função no Carnaval, tocando cornetas e apitos, terem afivelado a máscara séria de uma Paixão. Os seus detratores e os apoiantes do chefe libertador da Catalunha são pessoas divertidas!

Os juízes espanhóis deviam ter umas aulas de pândega e de farsa para julgar o circo da família Pujol, os patrões de Puigdemont, em vez deitarem mão a essas tretas de leis e constituições!

Anseio pelo dia em que o “nosso” Arnaldo de Matos se mascarar de Puigdemont e se apresentar em Bruxelas a reclamar a independência dos proletários portugueses! Até lá, siga a dança.

Carlos Matos Gomes, 3 de Novembro de 2017 in Medium

Rainha por um dia

Rainha por um dia

Conta-se que, quando da Restauração de 1640, ter-se ia levantado um problema aos conjurados: o rei escolhido, D. João, 8.º Duque de Bragança, era casado com uma espanhola, D. Luísa de Gusmão.

Nada mais natural. O casamento de um duque, para mais do ducado mais importante das Espanhas, era um assunto de Estado. D. Teodósio II, 7.º Duque de Bragança, pai de D. João, havia casado com D. Ana de Velasco e Girón, filha do duque de Frias; e Filipe IV (III de Portugal) tratou de casar o novo Duque de Bragança com Luisa Maria Francisca de Guzmán, filha do Duque de Medina Sidónia, um dos Grandes de Espanha.

Para onde iriam as inclinações da duquesa? Presumivelmente, para Espanha; mas não foi assim que aconteceu. D. Luísa optou pela sua Pátria de adoção e lançou uma daquelas frases que ficam para a História: mais vale rainha por um dia que duquesa toda a vida.

Semelhante tirada só a de Teodora, antiga atriz tornada esposa do Imperador Justiniano de Constantinopla. Quando foi proposto que a corte fugisse do palácio, em riscos de ser invadido pela turba em fúria, a imperatriz Teodora teria dito algo como “de púrpura se faz uma fina mortalha”. E ficaram todos – até por vergonha.

Pois na nossa Península, parecemos ter voltado a 1640, com a Revolta dos Segadores dum lado e a Restauração Portuguesa do outro.

Carles Puigemont foi presidente da Catalunha por um dia. Pode ter-se inspirado em Luísa de Gusmão, mas não em Teodora, uma vez que seguiu de imediato para a Bélgica (talvez ainda a considere como uma ex-colónia da Espanha), acompanhado apenas por alguns colaboradores próximos.

Ora a Bélgica tem duas facetas: é o centro da União Europeia, e capital de um país.

Acontece que Jean-Claude Juncker, entre outras coisas, disse que a Espanha não oprimia a Catalunha, pelo que não se aplicava o direito de ingerência; pelo que Puigemont nada deve esperar das instâncias europeias sobre um assunto interno de Espanha.

Quanto à Bélgica, já tem com que se preocupar com as questões linguísticas e culturais que a tornam um país no limite da secessão. Acolher um secessionista não deve ser uma prioridade para os belgas.

Puigemont viajou legalmente, como cidadão comunitário. Não se vê razão para ter acesso ao estatuto de refugiado político, como se chegou a dizer. Se ao menos tivesse chegado à praia de Ostende numa patera desconjuntada, seria caso para reconsiderar…

Não mostrou vocação para mártir, nem mesmo tendo a certeza de não ser martirizado. Decerto que foi presidente por um dia, mas como será o resto da vida?

Sabemos todos que Mariano Rajoy é adversário das autonomias; se pudesse, reverteria o estatuto da País Basco. A sua intransigência está na origem da presente crise, de que ele estará talvez convencido que é o grande vencedor.

Acontece que a Democracia é uma arma de dois gumes. Ao anunciar – e bem! – a realização de eleições (embora num prazo muito curto), Rajoy declarou sujeitar-se ao veredito popular.

Qual será o resultado? Ninguém irá esquecer a quota de responsabilidade do atual Primeiro Ministro – os catalães e os outros. Como escrevi há poucos dias, é provável que os independentistas percam, mas isso não quer dizer que os autonomistas não ganhem. E autonomistas há-os por toda a Espanha.

Assim, a vitória de Rajoy pode ter sido um sucesso tático, mas uma derrota estratégica. O que acontece frequentemente aos aprendizes de Napoleão…

Finalizando, os portugueses continuam arredados de nuestros hermanos num aspeto essencial: a cultura. Decerto vamos às tiendas, a Torremolinos ou a Madrid. Mas não conhecemos a sua escala de valores.

E, neste século XX, as duas mais célebres figuras da Literatura espanhola voltam a defrontar-se. De um lado D. Quixote, o idealista, desinserido das realidades, apaixonado por Dulcineia, quer ela exista ou não; por outro, Sancho Pança, sempre à coca de uma boa comezaina, resumindo a sua sabedoria à citação de provérbios, pragmático por natureza.

Rajoy & Companhia apostaram em Sancho Pança. Saíram da Catalunha 1.800m empresas, muitas delas com sonantes nomes catalães, símbolos do sucesso do Condado de Barcelona. Ficaram os Dons Quijotes, abraçados às bandeiras.

Fim da festa? Nem pensar! Como escreveu Descartes, “o Coração tem razões que a Razão desconhece” (com um pedido de desculpa ao Prof. António Damásio). A Sancho Pança pode faltar o grão de loucura, mas não falta aquele mínimo de discernimento que o leva a desconfiar dos DDT (Donos Disto Tudo). Como o Malhadinhas de Aquilino Ribeiro, para fazer o paralelismo rural.

As eleições aí vêm, mesmo com muito pouco tempo de preparação. E se, em Madrid, há um grande monumento dedicado a Cervantes, na sua base estão D. Quixote e Sancho Pança – amigos para a vida.

Nuno Santa Clara

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

Tem boas razões para celebrar, Mariano Rajoy.

Escudado numa Constituição aprovada num contexto político há muito ultrapassado e valendo-se da razão da força, o primeiro ministro espanhol impôs a administração directa de Madrid, prendeu os líderes independentistas, defenestrou os dirigentes eleitos da Catalunha e propõe-se assumir o controlo da televisão catalã.

Mais do que vergar o desafio independentista, Rajoy levou até ao fim a sanha de humilhar Puigdemont e com ele a própria Catalunha.

Estão agora por contabilizar os custos da vitória de Rajoy. Mesmo sem ter qualquer tradução política viável, o referendo do primeiro de Outubro constitui um triunfo simbólico para os defensores de uma Catalunha soberana. O independentismo catalão conta agora novas razões na memória da presença de 4000 agentes de segurança enviados por Madrid, das cargas policiais sobre votantes e manifestantes, dos presos políticos e do clima de repressão que se abateu sobre a Catalunha.

A questão catalã tem uma história longa e marcada por memórias mal saradas. No auge da crise, já sob a ameaça directa do “artigo 155”, Carles Puigdemont e outros lideres catalães prestaram tributo público Lluis Companys, um líder catalão executado por Franco no decorrer da guerra civil de 1936-39. Os fantasmas da guerra civil e dos 36 anos de franquismo ressurgiram muitas vezes no calor do confronto entre Madrid e Barcelona.

Rajoy propõe-se refazer o quadro político catalão decretando eleições antecipadas para Janeiro. Conta com uma presumida maioria de catalães que aplaudirão a intervenção de Madrid. Resta a incógnita dos efeitos deste episódio nos humores do eleitorado catalão.

A Europa, a Europa europeia, cumpriu um papel assinalável na crise catalã. Por mais que Bruxelas repetisse que se tratava de uma questão interna de Espanha, a Comissão Europeia encorajou Rajoy a arrumar prontamente a questão, dando mão livre ao chefe do Governo de Madrid e declarou desde logo que uma Catalunha independente não tinha lugar na Europa.

E enquanto Donald Tusk repetia que estava fora de causa qualquer mediação de Bruxelas, Jean-Claude Juncker dizia aos catalães que a Europa não estava disposta a aceitar mais um país independente no seu seio.

A mesma Europa que não hesitou em acolher a Croácia, com o genocídio da Krajina ainda bem fresco nas memórias. A mesma Europa que aplaudiu o bombardeamento da Sérvia por Milosevic ter enviado forças de segurança para reprimir os terroristas do UCK em nome de  argumentos “humanitários” descaradamente manipulados.

A mesma Europa que quando, em 2008, os irlandeses votaram “Não” ao tratado de Lisboa, não descansou enquanto não os obrigou a irem de novo às urnas e, sob pressões e ameaças diversas, a trocarem o “Não” pelo “Sim”

Para já, a ordem reina de novo na Catalunha.

Mas a questão terá que ser encarada de frente, mais tarde ou mais cedo. Uma revisão substancial da Constituição espanhola está já no horizonte. E a questão do estatuto da Catalunha, e provavelmente de outras regiões de Espanha com forte identidade política e cultural, e com velhos contenciosos com Grã-Castela, colocar-se-á doravante noutros termos.

Rajoy bem pode celebrar. Mas o chefe do Governo de Madrid pode arriscar-se a ficar na História como o homem que precipitou o fim da Espanha tal como a conhecemos hoje…

Carlos Santos Pereira

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

As peripécias a propósito das chamas do incêndio de fervor nacionalista que percorre a Catalunha (mais Barcelona e menos Catalunha), é um espectáculo de fogo de artifício.

Acender a fogueira nacionalista e atirar-lhe petróleo como estão a fazer os líderes da rebelião de Barcelona constituem técnicas clássicas de golpe de estado, técnicas de conquista do poder por parte de um grupo organizado para o tomar. Curzio Malaparte demostrou que o assalto ao poder, que é do que se trata em Barcelona, não tem que ser necessariamente violento, muitas vezes basta um grupo de tipos determinados e sem escrúpulos apoderar-se de certas instituições para as confrontar com o aparelho do Estado, uns demagogos excitarem as massas com os temas que sempre as mobilizam: a liberdade em primeiro lugar. Palavra estandarte de todos os chefes populistas, condimentada com uns excitantes também eficazes de história: Patriotismo e Traição qb! Demagogia e populismo com todas as letras, a que podem juntar-se doses maiores ou menores de provocação e agitação.

O nacionalismo catalão e a atual urticária independentista é muito fácil de explicar: Após o fim da ditadura franquista e do desmantelamento do seu aparelho repressivo, um grupo de senhoritos locais, depois de bem seguro e certo da ausência de perigos materiais e físicos (são de pouca coragem e muito desplante), aproveitou a cómoda situação para se chegar ao poder içando a bandeira do nacionalismo catalão, o que incluiu até a tomada do poder no Barcelona clube de futebol, as manobras que levaram os jogos olímpicos a Barcelona, a imposição de um esquecido dialeto local como língua nacional, entre outras.

Para esse grupo, nacionalismo catalão e independência da Catalunha significa apenas o assalto ao poder e através dele a conquista da maior parcela possível da riqueza da região. Esse grupo entende que, sem perigo nem incómodos, pode acumular riqueza de forma parasitária e na completa impunidade que as imunidades políticas conferem.

É evidente que nenhum grupo de predadores económicos apresenta em público e às claras as suas intenções. Há que conquistar e arrastar as massas. Os argumentos do grupo que quer tomar o poder em Barcelona é um manual clássico de demagogia.

O manual clássico da demagogia é grego, como quase tudo o que é essencial na nossa civilização. Constitui a colecção “Arengas antes da batalha”, que o filósofo grego Onansander, autor de “Estratégia”, reuniu e que inclui discursos Tucídides, de Péricles, de Demóstenes, de Brásidas. O historiador inglês Anthony Burgess estudou-os e concluiu que essas arengas seguem um esquema padrão que inclui uma recordação dos antepassados (recurso à História como justificador da ação presente, com um apelo a que os contemporâneos não desonrem a sua memória); uma comparação de forças em presença e uma chamada vibrante ao patriotismo; a promessa da grande recompensa que espera os vencedores; a garantia de que os presságios são favoráveis; que a morte é gloriosa para os vencedores; que a derrota é uma desgraça; a afirmação de que já venceram estes inimigos antes; que a guerra é justa porque o inimigo é iníquo; que os nossos chefes e os nossos deuses são superiores aos do inimigo.

Esta é a arenga típica de qualquer demagogo, onde se incluem os grandes dirigentes que ao longo da história da humanidade mandaram os seus jovens morrer nas guerras para sua glória e riqueza. Dos dirigentes nacionalistas de Barcelona aos treinadores de futebol de qualquer campeonato todos fazem os mesmos apelos. Este discurso é ainda o que está na base dos grandes sermões de excitação da fé contra a razão, de que o pregador cristão Paulo de Tarso (São Paulo) é um dos melhores exemplos de demagogia e fanatismo. Na carta aos Coríntios fala da ida à guerra com a certeza da vitória, em ir à guerra ao serviço do senhor, na graça de não só acreditar na vitória, mas de sofrer por ela.

A prova de que a demagogia é eficaz pode ser encontrada na quantidade de crentes nas virtudes da independência da Catalunha, na dos que peregrinam a Fátima, dos que andam pelas ruas com camisolas numeradas nas costas, acompanhadas do nome de um tipo que não conhecem, mas que recebe direitos de imagem por alguém andar com o seu nome estampado no lombo!

As arengas antes da batalha, as cartas de São Paulo, os discursos dos senhoritos da generalitat pertencem ao mundo da demagogia e da manipulação das massas para as colocar ao serviço de um pequeno grupo, de um gangue, ou de um governo. Já deram origem a grandes desgraças…não são nem inocentes, nem desprovidas de riscos.

Num texto escrito noutro local comparei as atitudes dos dirigentes nacionalistas de Barcelona a birras de crianças, que batem o pé e gritam quero, sem cuidarem de prever os efeitos das suas acções, a não ser nas suas contas bancárias.

Alguns apoiantes nacionais do grupo que se prepara para, sem queimar os dedos, tirar as boas castanhas do lume catalão ficaram ofendidos por os ter comparado a infantes sem tino. Entupiram-me o texto com lições de história da Catalunha e descrições de direitos inalienáveis dos povos à autodeterminação; assuntos que nunca pensei confundir com uma golpada. Sim, na Catalunha trata-se apenas de uma golpada de um grupo que quer tomar o poder e locupletar-se com um tesouro. Trata-se da história de um assalto. De mais um.

 

Carlos Matos Gomes, 21 de Setembro de 2017 in Medium

Alemanha e França os donos da Europa?

Alemanha e França os donos da Europa?
A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado “cidadão honorário da Europa”. O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro.

Há poucos dias, realizou-se no Parlamento Europeu uma cerimónia inédita que constituiu ao mesmo tempo um espectáculo indigno.

Tratou-se de uma homenagem fúnebre a Helmut Kohl, que foi pretexto para grandiosos testemunhos de europeísmo por parte de alguns líderes europeus.

A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado “cidadão honorário da Europa”. O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro. Ao que sei, Kohl era cidadão alemão e portanto era cidadão da União Europeia. Então ao que vem esta propaganda barata de fazer crer que a Europa é um estado que concede cidadanias?

Mas não foi este facto (que aliás não é inédito), por absurdo que seja, que causou a indignidade do espectáculo. A questão foi outra.

É que toda a cerimónia foi pura propaganda em prol da liderança alemã da Europa. Querer fazer-nos crer que Kohl foi o grande campeão de uma Alemanha europeia é um embuste dos mais indignos que se podem fazer em face de um caixão que continha os restos mortais de alguém devia merecer maior respeito.

Kohl foi o grande obreiro inicial da Europa alemã e conseguiu ter sucesso enquanto foi chanceler. O seu grande objectivo – a hegemonia alemã por meios pacíficos – é agora prosseguido, com base no que Kohl obteve, por Angela Merkel que não tem rebuço em endeusar Kohl para seu próprio interesse enquanto rosto actual dessa mesma hegemonia.

Tem um parceiro ideal – Macron, que, com total subserviência, abrirá todas as portas que Merkel necessite. Por isso mesmo, como prémio, foi-lhe dada a possibilidade de ser o outro chefe de governo a falar para além da chanceler. Como se Alemanha e França fossem os donos da Europa.

A ilusão pode-lhes sair muito cara.

João Ferreira do Amaral, 07 de Julho de 2017, in RR