O fio condutor

O fio condutor

Dois acontecimentos têm quase monopolizado as atenções da comunicação social nestes últimos tempos, e pelas piores razões.

Trata-se do incêndio de Pedrógão Grande e do roubo de armamento e munições dos paióis de Tancos.

Aparentemente, não têm nada a ver um com o outro. Mas não é bem assim.

A primeira semelhança deriva da tradicional sequência de ações desencadeadas neste tipo de acontecimentos: desorientação completa; reação caótica; busca frenética dos responsáveis; punição exemplar dos inocentes; absolvição dos culpados; enaltecimento dos que não tiveram nada a ver com o caso; ausência de conclusões acertadas e, a médio prazo, o esquecimento do assunto (normalmente face a nova embrulhada).

Na parte que compete ao Exército, esperemos que não seja assim.

A esta habitual sequência, junta-se, nos países democráticos, um amplo debate público e a utilização de outras armas, estas de arremesso, pela classe política.

A segunda semelhança deriva de outra tradição nacional: comprar materiais ou serviços sem incluir a sua manutenção, ou até a sua testagem operacional. Decerto fica mais barato; mas, à primeira deficiência ou avaria, milhões de euros em material tornam-se praticamente inúteis. No mínimo, fica tudo inoperacional até que seja encontrada verba necessária, depois que seja lançado um concurso público, e depois ainda que se recupere o sistema (se puder ser recuperado, o que nem sempre acontece).

Os resultados podem ser catastróficos: não só perda de vidas humanas e/ou elevadíssimos prejuízos materiais, mas também perda de credibilidade interna e externa.

As Forças Armadas têm vindo a construir uma imagem externa muito positiva, inclusive através do esforço do seu pessoal e dos seus meios em teatros exteriores; as Forças de Segurança, além de idêntica afirmação no exterior, têm mantido uma paz interna de que todos beneficiamos, nomeadamente no crescente fluxo turístico. Mas umas e outras têm sido objecto de roubos de armamento que deixa perplexo o comum dos cidadãos. E que não contribui nem para a imagem externa, nem para as hipóteses de cooperação com instituições congéneres.

Decerto temos tendência para levar tudo “numa boa”. A título de exemplo, sete casos de violação dos corredores de aproximação a aeroportos por drones têm vindo a ser consideradas como “rapaziadas”. Até pode ser que sejam: mas se houver a queda de um avião, ou um boicote dos pilotos aos nossos aeroportos, boa parte dos hotéis ficarão vazios e o tão propalado boom turístico e consequente fatia da recuperação económica passarão à História. Não falando de vidas humanas, que não são contabilizáveis, o que faz que muitos não se preocupam com isso.

Mas agora os casos são graves. O roubo em Tancos mostra uma actuação fora do comum, não só pelo volume de material roubado, como pelas suas características. Não parece haver dúvidas de que se trata de satisfazer uma “lista de compras”, não para abastecer um mercado negro interno, mas para equipar grupos visando acções de vulto em qualquer ponto da Europa.

E o “bom aluno” da dita Europa não pode dar o flanco de modo tão flagrante, ilustrado pelas notícias que vieram a público sobre as deficiências na segurança de instalações tão sensíveis. Um Mundo tornado mais instável não se compadece com amadorismos, optimismos, laxismos e outros ismos, que rimam com terrorismo.

As reduções sucessivas nos orçamentos dos serviços públicos – e a Segurança é um deles – só podem ter como resultado lógico final o seu encerramento, seja um hospital, uma base aérea, um navio de guerra, ou uma escola. Não há meio hospital, meio avião, meio navio ou meia escola.

Portanto, se pretendemos um serviço, e for considerado essencial, como a Saúde, o Ensino ou a Segurança, é bom que seja dotado com os mínimos necessários ao seu regular funcionamento, sendo que a segurança é um dos requisitos desse funcionamento.

A menos que se pretenda continuar com o folclore das inaugurações e aquisições mediáticas, e se continue a ignorar as necessidades inerentes ao funcionamento e manutenção desses investimentos. Por norma, inaugura-se a construção de uma estrada, mas a sua reparação, relegada para a quinta página; como o lançamento à água de um navio, mas não a sua manutenção; como também a primeira pedra de um hospital, mas a aquisição do seu recheio e contratação de pessoal.

A menos que se dê razão aos cínicos, que dizem que na adjudicação das obras ou na aquisição dos materiais é que está o interesse… E poderá estar aqui o fio condutor que liga estes acontecimentos, sobretudo quando são ultrapassados os operacionais sobre a definição das prioridades, em detrimento dos decisores armados do exclusivo das aquisições.

Como nota final, um dos argumentos para a substituição dos serviço militar obrigatório pela profissionalização das Forças Armadas era o aumento do grau de confiança e responsabilidade do pessoal. Ora, a substituição do compromisso solene da defesa da Pátria, a troco de quase nada, por um contrato de trabalho, não parece ter sido suficiente para garantir essa confiança.

É que, se a lógica for só essa, business is business…

Nuno Santa Clara, 28-06-2017