Ainda o Estatuto dos Militares da GNR

Ainda o Estatuto dos Militares da GNR

Um estatuto deve regular a actividade de uma classe profissional e responder aos seus desejos e anseios. Com os militares tem sido diferente. Cada estatuto é pior que o anterior. A classe política, responsável pela sua feitura, parece estar empenhada em asfixiar os militares, aparentando fazê-lo como se fosse uma tarefa inscrita na sua carta de missão.

O Estatuto dos Militares da GNR está pejado de erros e incoerências Vejamos.

No preâmbulo do dec-lei, determina-se que a promoção por escolha só será empregue nos postos superiores de cada categoria. Contudo, ela vai ser usada em 75% dos postos de cada uma delas, isto é, nos superiores e nos inferiores.

Estatutariamente, os militares das FA e os elementos da PSP têm um documento de identificação que substitui o cartão de cidadão. Aos militares da GNR o Estatuto remove esse direito. Porquê?

.No Estatuto, as funções de tenente e alferes, de 1º e 2º sargento e de guarda e guarda-principal são, respectivamente, as mesmas. Deste modo, a promoção ao posto seguinte, deverá ser feita no dia imediato àquele em que foi cumprido o tempo mínimo de permanência no posto.

A condição militar e a policial estão explícitas nos respectivos estatutos e são bastante diferentes. Logo, o suplemento de serviço nas forças de segurança, decorrente dessa condição, tem que ser, também, distinto. Igual, terá que ser o suplemento de risco, existente noutras profissões, que tem que ser criado com urgência, em nome da justiça e da equidade.

Na categoria de Guardas a carreira está mal planeada. A promoção a Cabo, primeiro posto com funções de comando, ocorre após 20 anos de serviço e 40 de idade, já na fase descendente da carreira e com desgaste físico e psicológico notórios.

Desde 2011, ingressaram na GNR, no posto de guarda, 22 Mestres. O Estatuto retira aos guardas, com um mestrado em áreas de interesse para a Guarda, a hipótese de concorrerem a oficial, forçando-os a passar por sargento, o que os desmotiva e faz perder tempo à Instituição.

Em 2000 o Governo fixou em 23 844 o efectivo da categoria de guardas, por o entender necessário para a GNR cumprir a sua missão. Após essa data novos encargos lhe foram atribuídos e, como corolário, novos serviços e unidades foram fundados. Paradoxalmente, os governos foram reduzindo, desde então, o número de militares no Quadro. Para 2017 autorizaram somente 19 478 guardas. Este diferencial já seria grave, mas tornou-se dramático por existirem, apenas, 16 700 guardas. Cabe a estes militares cumprir o seu serviço e o de mais 9 000 guardas deliberadamente em falta. Assim, temos semanas de 40 ou mais horas de trabalho, patrulhas de dia e de noite, ao sol e á chuva, cansaço continuado, risco constante, stresse permanente, degradação contínua da saúde física e mental, separação da família, quebras psíquicas, etc…

Srs ministros, estas mulheres e homens merecem o respeito e a admiração de todos, merecem ser tratados com dignidade e devem ser orgulho e exemplo para os portugueses. Olhem para eles e dêem-lhes o devido valor.

Mário Cabrita, Ten-Gen Ref, 08-07-2017, in DN

 

Senhora Ministra, ainda está a tempo!

Senhora Ministra, ainda está a tempo!

O actual Estatuto dos Militares da GNR está longe de servir os elementos que integram esta Força. Pelo contrário, penaliza-os mais que o anterior. A classe política parece esforçar-se por asfixiar os militares, aparentando fazê-lo como se fosse uma tarefa inscrita na sua carta de missão.

Senhora Ministra, aumentar, de novo, o tempo mínimo de permanência em cada posto, e em todas as categorias, é uma decisão que castiga os seus tutelados. Sabe que esta medida torna a carreira mais lenta, o acesso aos postos superiores mais difícil e a remuneração mais baixa. Mesmo assim, decidiu aplicá-la, o que revela menos apreço pelos seus militares.

A Guarda é deficitária em capitães e excedentária em subalternos. O Estatuto comete um erro grave, pois aumenta de dois anos a permanência em alferes e tenente, o que eleva ainda mais o número de subalternos. Esta norma gera dois anos sem haver promoções a capitão, o que torna a situação dramática no que toca ao comando de destacamentos. E nem se pode argumentar que avançam os tenentes para essas funções. Primeiro, porque o Estatuto não o permite e, se isso acontecer, será uma aplicação abusiva destes oficiais, já que terão que assumir as responsabilidades inerentes ao posto de capitão, continuando a ser remunerados como tenentes.

A agravar a situação, o Estatuto altera a modalidade de promoção a tenente e a capitão de diuturnidade para antiguidade A manter-se a promoção por antiguidade cria-se um risco enorme, sobretudo nos serviços com efectivos reduzidos. Quando os postos superiores estiverem ocupados não haverá promoções e os subalternos poderão ficar 10 a 15 anos sem serem promovidos. O mesmo se aplica aos 2º sargentos. Uma situação que por ser previsível e inadmissível, exige que seja corrigida.

Esta é mais uma forma de reduzir o vencimento dos militares. Tal como o atraso de muitos meses na concretização de promoções, em todas as categorias, se traduz num esbulhar das suas parcas remunerações.

Foi decidido que só os oficiais oriundos da AM têm acesso a oficial-general. Por isso importa, sem pôr em causa a carreira dos oficiais do CFO, que seja desbloqueada a progressão dos oficiais formados na AM. Um pequeno conjunto de medidas auxiliaria a alcançar esse fim, com relevo para a valorização dos 3 anos de antiguidade que os oficiais da AM perderam em relação aos do CFO, fruto da diferente duração do curso de ingresso na Guarda.

Senhora Ministra, se quer ser ousada e inovadora, recomende e defenda a 4ª estrela para o Comandante da GNR. Argumentos para sustentar esta proposta não faltam.

As mulheres e os homens da Guarda cumprem as missões que lhes são atribuídas com brio e pundonor, sem olhar às condições em que as executam. Fazem tudo para garantir a sua segurança e a de todos os portugueses. Por isso dê-lhes um Estatuto que preserve os escassos direitos que ainda possuem, que estruture uma carreira digna, equilibrada e estável; um Regulamento de Avaliação que não recorra, em exclusivo, à modalidade de promoção por escolha e um Sistema Retributivo que recupere as perdas que os seus vencimentos tiveram nas últimas décadas e que contemple a atribuição de um Suplemento de Risco igual ao que existe em outras profissões.

Lute por isto, que eles merecem!

Mário Augusto Mourato Cabrita,  03 de Junho de 2017