Perder o Norte

Perder o Norte

Neste País de marinheiros (ao que se diz) esta expressão tem o significado de perder o rumo, ficar à toa, sem orientação. Reflexo da gesta dos Descobrimentos, a expressão ficou, mesmo para os que nunca sulcaram as águas do mar.

Mas há outro norte, ou mais propriamente um North, que merece ser recordado.

Oliver Laurence North, nascido no Texas em 1943, foi um brilhante oficial dos U. S. Marines, condecorado com a Silver Star, a Bronze Star e a Purple Heart, entre outras medalhas, todas em combate no Vietname, quando era ainda subalterno.

Depois de uma movimentada carreira, sendo já tenente-coronel, foi nomeado em 1981 sub-diretor do National Security Council (NSC) para a área dos assuntos político-militares. Teve assim acesso frequente ao Presidente dos EUA.

Foi nessa qualidade que interveio numa tentativa secreta de trocar armas pelos reféns americanos em poder do HAMAS, experiência de que mais tarde se serviu para levar a cabo a operação que o tornaria indesejavelmente conhecido a nível mundial.

O Presidente Ronald Reagan estava empenhado em intervir na Nicarágua, procurando derrubar o governo sandinista através do apoio aos “contras” anticomunistas. Porém, o Congresso americano, na ressaca da Guerra do Vietname, estava avesso a quaisquer novas aventuras militares fora de portas. Daí a Emenda Bolland, de 1882, proibindo o financiamento de tais ações.

A necessidade aguça o engenho, e Oliver North encabeçou um processo que resultaria na venda de armas americanas ao Irão (esse mesmo, o do Eixo da Mal), obtendo fundos que seriam em parte desviados para financiar os “contras”. Tudo, obviamente, através de paraísos fiscais e redes de traficantes.

Recorde-se que um país que nessa altura vendesse armas ao Irão arriscava-se a sofrer sanções por parte dos Estados Unidos…

Os problemas surgiram quando os jornais (os das Fake News, diria o atual Presidente) descobriram a negociata, dando origem ao chamado escândalo Irão-Contras. Da negação ao reconhecimento dos fatos, lá se seguiu a habitual via-sacra (que agora se repete), saindo a verdade a conta-gotas.

Oliver North assumiu publicamente a responsabilidade do caso, ilibando o Presidente que, segundo declarou, não sabia de nada. A verdade é que as comissões de inquérito não encontraram nenhuma prova da intervenção de Ronald Reagan neste assunto, e em 1986 North acabou por ser demitido, julgado e condenado a três anos de prisão, com pena suspensa, além de umas sanções acessórias, e veria truncada uma promissora carreira militar. Veio a ser ilibado em 1991, tendo posteriormente falhado uma carreira política e acabando como professor e comentarista de TV.

Mais tarde reconheceu, num inquérito não passível de ser usado como matéria de incriminação (como em alguns inquéritos de segurança), que o Presidente tinha conhecimento de tudo. Para ele, tarde demais.

De fato, é difícil imaginar que um assunto tão delicado tivesse passado ao lado do Presidente. E, quanto a ordens escritas, os habituais cínicos lembrarão que também não foi encontrada nenhuma ordem escrita de Hitler mandando matar um judeu que fosse…

Passando aos dias de hoje, temos o folhetim Donald Trump Jr. e a sua ligação ao Kremlin, por interposta e atraente pessoa.

E lá voltamos às cenas dos capítulos anteriores, em que o filho tomou iniciativas e fez coisas graves sem dizer ao pai (por acaso, o Presidente); e até se fez constar que o jovem tinha atravessado um período de más relações com o ilustre progenitor; assim, num nobre impulso, e para se redimir, teria intentado, na sua inocência, fazer um favor e uma surpresa ao pai (coisas dos verdes anos!).

Não parece que se trate de uma manifestação do complexo de Édipo (nem a mãe foi para aqui chamada); mais provavelmente, teria sido uma manifestação do complexo militar-industrial, a tentar proteger os seus interesses (sem grande subtileza).

Só não se percebe que a preparação da surpresa tivesse sido partilhada pelo diretor da campanha eleitoral e por um lobbyst (palavra que, felizmente, não tem tradução em português) de origem russa, que são pessoas adultas, experientes e sisudas, e que bem poderiam ter refreado o entusiasmo juvenil do Jr.

No meio do temporal dos twitter do atual Presidente dos EUA, mais variáveis que os ventos no Aeroporto Cristiano Ronaldo, e com efeitos igualmente catastróficos, resta-nos uma atitude sensata.

Não fazer como o North, e não perder o Norte.

Nuno Santa Clara

Alemanha e França os donos da Europa?

Alemanha e França os donos da Europa?
A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado “cidadão honorário da Europa”. O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro.

Há poucos dias, realizou-se no Parlamento Europeu uma cerimónia inédita que constituiu ao mesmo tempo um espectáculo indigno.

Tratou-se de uma homenagem fúnebre a Helmut Kohl, que foi pretexto para grandiosos testemunhos de europeísmo por parte de alguns líderes europeus.

A estranheza começa logo por Kohl ter sido proclamado “cidadão honorário da Europa”. O que é que isso significa? A Europa não concede cidadanias. Um cidadão da União Europeia é alguém que adquire essa qualidade meramente pelo facto de ser cidadão de um estado-membro. Ao que sei, Kohl era cidadão alemão e portanto era cidadão da União Europeia. Então ao que vem esta propaganda barata de fazer crer que a Europa é um estado que concede cidadanias?

Mas não foi este facto (que aliás não é inédito), por absurdo que seja, que causou a indignidade do espectáculo. A questão foi outra.

É que toda a cerimónia foi pura propaganda em prol da liderança alemã da Europa. Querer fazer-nos crer que Kohl foi o grande campeão de uma Alemanha europeia é um embuste dos mais indignos que se podem fazer em face de um caixão que continha os restos mortais de alguém devia merecer maior respeito.

Kohl foi o grande obreiro inicial da Europa alemã e conseguiu ter sucesso enquanto foi chanceler. O seu grande objectivo – a hegemonia alemã por meios pacíficos – é agora prosseguido, com base no que Kohl obteve, por Angela Merkel que não tem rebuço em endeusar Kohl para seu próprio interesse enquanto rosto actual dessa mesma hegemonia.

Tem um parceiro ideal – Macron, que, com total subserviência, abrirá todas as portas que Merkel necessite. Por isso mesmo, como prémio, foi-lhe dada a possibilidade de ser o outro chefe de governo a falar para além da chanceler. Como se Alemanha e França fossem os donos da Europa.

A ilusão pode-lhes sair muito cara.

João Ferreira do Amaral, 07 de Julho de 2017, in RR

Eclipses, solstícios, equinócios

Eclipses, solstícios, equinócios

Desde a mais remota antiguidade os homens têm tentado explicar os fenómenos da Natureza. Uns pareciam fáceis, como o dia e a noite, ou as estações do ano. Outros eram mais complexos, como o movimento dos astros e a ocorrência dos eclipses.

Para os povos que consideravam que os astros governavam a Natureza, adivinhar um eclipse, determinar o dia exato dos solstícios e equinócios, ou apenas prever as marés, era considerado o supra sumo da Ciência, tudo naturalmente rodeado de uma aura de misticismo.

Até tempos bem recentes, grandes decisores recorriam a esses sábios para tomar decisões. Travar uma batalha, nomear um herdeiro, casar, tudo isso implicava consultar um astrólogo.

Dizem as más-línguas que, pela calada, esse hábito ainda se mantém, mesmo a níveis que se julgaria impensável. Adiante.

Prever as atitudes e decisões dos líderes de outros países, inimigos, adversários ou até amigos, é o sonho de qualquer governante. A busca dessas informações recorre tanto a meios sofisticados como a golpes baixos sobre os pontos vulneráveis dos “alvos”. A Literatura, o Cinema e a Televisão estão cheios de histórias e estórias sobre esse assunto.

Com a decadência (aparente?) da astrologia, resta investigar no terreno das ciências humanas um modo de resolver esta carência de informação, ou melhor, de previsão do comportamento do inimigo, adversário ou amigo (amigo no sentido restrito dos interesses comuns: para além disso, torna-se, pelo menos, adversário).

O quebra-cabeças atual chama-se Donald Trump. Sobre ele acumulam-se acusações de impreparação política interna e externa, falta de cultura, ignorância sobre as regras da diplomacia, e outras mais; como, naturalmente, também não faltam admiradores e apoiantes.

Mas é o carácter de imprevisibilidade das suas declarações públicas (com especial relevo para o twitter, esse insólito meio de difundir objetivos ou orientações políticas) que tem dado dores de cabeça a muita gente, e desafiado os analistas convencionais.

Será assim tão imprevisível? Aparentemente, sim. Não estávamos habituados a ver o dirigente do país mais forte do Mundo lançar uma opinião/orientação arrasadora, que, no curto espaço de 24 horas, fosse laboriosamente desvalorizada pela equipa do seu governo, e liminarmente anulada por uma declaração contrária do próprio autor.

Convenhamos que, para os demais governos, organizações internacionais e simples cidadãos, isto constitui um desafio.

Mas vejamos essa questão mais em detalhe, por exemplo na escaldante situação no Médio Oriente. Várias guerras, ou várias frentes da mesma guerra, comportam um risco acrescido de escalada, de conflito local a regional e, quem sabe, até global.

Os vários intervenientes estão interessados no fim dos conflitos, mas com um senão. Todos querem ganhar mas, acima de tudo, não querem que o outro ganhe. Ou seja, a Turquia quer o fim do ISIL, mas sem o concurso dos curdos; a Rússia também, mas com o seu aliado no governo; os EUA também, mas em o ditador e com os curdos; os xiitas, idem, mas sem os sunitas, e estes em sentido inverso; e assim por diante.

Deste modo, a visita de Trump aos países árabes reveste especial interesse. Não pelo apregoado encontro de religiões: o de Jerusalém foi folclore, o de Riad acabou com críticas à ausência de véu da Primeira-Dama, e do de Roma é melhor nem falar. Mas pelo resultado prático das visitas.

Pois bem, a Arábia Saudita acabou por firmar negócio de armamento cifrado em zeros que ocupariam metade desta linha. Israel, com a venda de caças F-35, cujas virtudes foram apregoados em público pelo Presidente ao melhor estilo da Feira da Ladra.

Pouco depois, os países do Golfo, com a Arábia à cabeça, exigiram a submissão da Catar. Motivo: apoio ao Irão e ao terrorismo. Ver estes países, direta ou indiretamente financiadores da Al-Qaeda e similares, pregar contra o terrorismo, só lembra o Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz.

Sendo óbvia a ligação entre esta atitude e a visita presidencial, eis que a América anuncia a venda de caças F-15 ao Catar, novamente por muitos zeros! Ou seja, a armar o adversário do seu aliado!

A nudez crua da verdade apareceu quando, no ultimatum de dezasseis pontos ao Catar, surgiu o encerramento da al-Jazeera, uma das cadeias internacionais de televisão mais vistas, sobretudo no mundo árabe… Uma das várias formas de reconduzir ao redil aquela ovelha tresmalhada. No fundo, nostalgia do Império.

Mudando de continente, a pública e pomposa declaração de Trump de substituir o muro do México por uma cortina de painéis solares pode parecer insólita. Mas ele percebeu (só agora!) que o carvão não tem futuro, e que as energias renováveis eram um bom negócio (o que não tem nada a ver como ambiente). Portanto, com prejuízo para os construtores civis, mas para gáudio das indústrias de ponta, vá de emendar a mão, sem renunciar ao espírito do Muro.

Dito isto, parece que Trump, afinal, é tão previsível como os eclipses, e com a precisão dos solstícios. Basta saber onde se pode fazer um bom negócio.

Ou seja, como muito bem observou o Professor Adriano Moreira, “… a proposta metodológica que está na cabeça dele, é aplicar ao estado líder mundial – segundo o conceito em que o tínhamos – a metodologia do empresário”.

Nuno Santa Clara, 27-06-2017

 

Helmut Kohl

Helmut Kohl
Não é difícil perceber qual a razão de tantos elogios a Kohl. Vêm em grande parte daqueles que querem a todo o custo criar a imagem de Merkel como um novo exemplo do “bom” europeísmo alemão.

Foi extraordinária a unanimidade de elogios a Helmut Kohl na hora da sua morte. O grande europeísta, o pai da nova Europa foi incensado de todas as formas e feitios. Tal unanimidade e tal entusiasmo fazem suspeitar de que há aqui aproveitamento para outros fins.

Por mim, não creio que o nosso país tenha muito para ficar agradecido ao antigo chanceler alemão. Na realidade, Helmut Kohl foi um obreiro da Europa – mas de uma Europa alemã. Foi Kohl que soube aproveitar muito bem a inépcia de François Mitterrand para criar uma moeda única assente em instituições que são réplica das instituições alemãs e que estabeleceram o contexto necessário para que Alemanha ganhasse um peso desmedido nas instituições comunitárias, como de facto aconteceu e de que maneira.

E não esqueçamos o exemplo do reconhecimento, em antecipação, da Croácia, com as consequências que daí advieram, que foi bem um indício de como a Alemanha de Kohl só usaria o seu europeísmo como veículo para o avanço dos interesses germânicos.

Kohl foi sem dúvida um grande chanceler. Mas foi um grande chanceler para a Alemanha e não para a Europa que sofre hoje do legado caótico que a sua acção, mais do que qualquer outra, ajudou a criar.

Não é difícil perceber qual a razão de tantos elogios a Kohl. Vêm em grande parte daqueles que querem a todo o custo criar a imagem de Merkel como um novo exemplo do “bom” europeísmo alemão, tentando fazer esquecer a sua acção desde o início da crise grega e apostando no pseudo-federalismo germânico que está a levar a Europa para o precipício.

João Ferreira do Amaral, 22 de Junho de 2017 em RR

De fora para dentro

De fora para dentro

Através dos tempos, a maneira clássica de um dirigente político contornar dificuldades internas é criar, provocar ou acirrar a ameaça de um inimigo externo.

Se a manobra for bem feita, resulta em pleno. Esquecem-se as diferenças perante a ameaça exterior (real ou imaginária), e, todos irmanados pelo interesse comum, constituem-se frentes patrióticas, uniões sagradas, ou outros movimentos do mesmo estilo, para conjurar as ameaças e salvar a Pátria.

Foi assim que os generais argentinos pretenderam unir o povo em torno da Guerra das Malvinas, ou que os coronéis gregos declararam a guerra santa pela ocupação de Chipre. Ambas acabaram em fracasso, e acarretaram a queda dos respetivos regimes.

É que uma guerra, sobretudo uma destas, não pode ser perdida, e para que isso aconteça o caminho mais fácil é improvisar estratégias, atamancar táticas e basear-se na fantasia. Melhor dizendo, tomar os seus anseios por factos reais, segundo a fórmula de Eça de Queirós: cobrir com o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.

Decerto o conceito de verdade tem evoluído nos últimos tempos. Mas também é verdade que, numa guerra, a arte suprema está em iludir o adversário, e isso só se faz através da mentira deliberada.

A recente visita de Donald Trump dá-nos dois bons exemplos da ligação política interna e externa. As coisas andam más a nível interno: não bastava o FBI fugir ao controlo presidencial, como vem agora a CIA agravar os problemas com novas revelações (para não falar nas brigas com os serviços de informação ingleses e israelitas).

O Presidente dos EUA discursou no Museu de Israel e, depois de dizer que “a minha administração estará sempre com Israel”, disse que “a destruição de Israel não acontecerá com Donald J. Trump”.

À primeira vista, seria mais uma das retumbantes declarações de um ego desmesurado, a que já nos habituou.

Mas não deve ser visto assim. O que ficou explícito é que, enquanto ele for Presidente, Israel estará a salvo (independentemente disso ser exequível ou não). Portanto, judeus de todo o mundo, uni-vos e salvai a pátria – em concreto, façam o que puderem para evitar o impeachment. Isto é importante, sobretudo considerando o papel dos media americanos, com forte influência judaica, ultimamente críticos de Trump.

Depois, o Presidente dos EUA discursou perante os Chefes de Estado e de Governo em Bruxelas, e foi pouco diplomático. A ponto de provocar comentários e sorrisos entre os tais chefes, visíveis na reportagem em direto, o que também não foi muito protocolar.

Estaria ele realmente interessado em aumentar os encargos de defesa militar, como forma de combater o terrorismo? É consensual que não é essa a via para garantir a segurança interna e responsabilidades, recaindo o peso das despesas sobre os contribuintes americanos.

Estaria certo, se os interesses dos Estados Unidos coincidissem 100% com os dos seus aliados, o que não se tem verificado, por exemplo no Médio Oriente e no Afeganistão.

Juntando a isto as considerações sobre terrorismo e imigração, depreende-se que Trump não estava a falar para os seus interlocutores europeus (exceto alguns incondicionais, que não estavam ali representados): estava a falar para os eleitores americanos que nele votaram, repetindo os temas da campanha eleitoral.

Ou seja, estava a fazer a manobra dos generais argentinos e dos coronéis gregos, mas em sentido inverso: de fora para dentro.

Mas não deixa de ser eficaz, para quem prefere os argumentos aos factos.

Resta saber se tomar a nuvem por Juno não dará o mesmo destino do gigante Adamastor…

Nuno Santa Clara, 25 de Maio de 2017

Técnica do salame

Técnica do salame

O texto abaixo transcrito é atribuído a Martin Niemöller, alemão opositor ao nazismo, que o terá escrito em 1933. Mais tarde, aparecem textos semelhantes, escritos por Bertold Brecht, Vladimir Maiakovsky e outros. Dizia o seguinte:

“Um dia vieram e levaram o meu vizinho judeu; como não era judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, levaram o meu vizinho que era comunista; como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia levaram o meu amigo católico; como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia vieram e levaram-me.

Já não havia ninguém para reclamar”.

Considero dispensável fazer aqui uma pesquisa aprofundada sobre a paternidade desta ideia. O importante é o que o texto contém e a lição que encerra, que é profunda e intemporal.

O Homem é um animal político, disse-o Aristóteles, e ele próprio pode ter ido buscar essa ideia mais atrás. E dentro da Política, ou do conceito corrente que dela se tem, recorrer a táticas refinadas, a laboriosas estratégias ou mesmo a golpes baixos, é coisa que aceitamos, se não como uma fatalidade, pelo menos com resignação.

O modo de eliminar sucessivamente os inimigos, adversários ou rivais políticos (a classificação varia apenas em função do tempo) tem vindo a ser registado ao longo da História, e Nicolò Machiavelli (mais conhecido entre nós por Maquiavel) não descobriu nada nesse campo: apenas sistematizou e passou a escrito. Assim se obteve um manual precioso de como fazer política sem preconceitos morais. Com incidências no comportamento e na semântica: por exemplo, o conceito de virtù a que Maquiavel recorreu dificilmente pode ser traduzido por virtude, no conceito cristão e atual; baseava-se na determinação do governante em impor a sua vontade, contra oposições e adversidades.

Ao método de eliminação progressiva dos indesejáveis foi posto o saboroso nome de “técnica do salame”, porque a analogia é evidente: vão-se eliminando paulatinamente os tais inimigos, adversários ou rivais (ver o acima dito) um por um, para não dar nas vistas e não ter o aspeto de uma campanha sistemática. Sempre em nome de grandes princípios, como os da Ordem, da Pátria, da Raça, ou até da Lei, se o poder for absoluto. Ou do Povo, que tem as costas largas.

Sendo a acusação uma arma de arremesso, parece que o método seria infalível. Mas tem dois contras, qual deles com pior efeito, e ambos são referidos na sabedoria ancestral.

Um contra decorre do velho ditado “Palavra fora da boca é pedra fora da mão”. O projétil verbal, que em tempos idos podia ser contestado por falta de registo fiável, é hoje uma arma fatal: está registado, escrito, gravado, guardado em memória. Por isso se diz que é mais fácil escrever a História com base nas hemerotecas do que nas bibliotecas ou mesmo nas chancelarias. Embora haja muitos que preferem desvalorizar o que foi dito e escrito em jornais, escritos ou falados, por serem peças literárias de natureza efémera, e portanto para convenientemente esquecer. Pelo menos, é cómodo.

O outro contra decorre de uma ainda mais ancestral tecnologia, a do boomerang, inventado pelos australianos, que não conheciam sequer os metais, mas a quem não faltava criatividade. Pois essa elaborada (que não sofisticada) arma podia voltar ao ponto de partida, quiçá atingindo o desastrado lançador. E não é que os projéteis verbais têm uma malvada tendência de seguir o mesmo percurso?

Basta, pois estar atento às palavras de arremesso, desarmá-las ou reenvia-las ao lançador.

Voltemos ao salame, e à forma de, através de ataques sucessivos, desfazer uma peça inteira. Suponhamos que se pretende fazer cair uma aliança, tida como sólida. Basta encontrar uma pequena fissura, o “elo mais fraco”, e escarafunchar por aí. Eliminado esse e enfraquecida a aliança, passa-se ao “elo fraco” seguinte. E assim sucessivamente, até ao desmembrar da aliança.

Assim fizeram os alemães, na I Guerra Mundial, introduzindo na Rússia um tal Vladimir Ilich Ulianov, que ficou mais conhecido por Lenine. A revolução que ele desencadeou fez cessar a guerra numa das frentes; mas, passados vinte anos, a Alemanha foi derrotada pela União Soviética. A fatia de salame ganhara vida própria…

De modo menos espetacular, há outras formas de reduzir resistências usando o mesmo método. Por exemplo, Donald Trump já anunciou que não haverá fundos federais para os estados e cidades que não aplicarem as leis sobre imigração, por terem sido declaradas inconstitucionais pelas instâncias judiciais.

Nova inconstitucionalidade, dirão uns; tremendamente eficaz, dirão outros. E lá voltamos ao acima dito: a técnica do salame é mais eficaz num regime ditatorial – mesmo que não oficialmente reconhecido como tal.

Em jeito de conclusão: qualquer semelhança com o que se passou, e ainda se passa, do lado do de cá do Atlântico, não é pura coincidência: a técnica do salame é um fenómeno global, que exige de todos nós toda a atenção.

Senão, lá vamos ter à velha (atual) história: primeiro um desconhecido, depois um próximo, depois um amigo, até chegar à nossa vez… tarde demais para reagir.

Nuno Santa Clara

​Sarcasmo?

​Sarcasmo?
A União Europeia levou a Europa para um caminho desastroso que pode desembocar em novos abismos. É por isso urgente substituir esta pseudo-união por um novo projecto que não se faça contra as democracias nacionais,forçando um federalismo utópico.

A União Europeia vai definhando penosamente, irreversivelmente. Está longe de ser uma surpresa. Criada em 1992, baseava-se num projecto sem quaisquer condições para funcionar bem que era (e ainda é) a união económica e monetária.

Criação espúria, que misturava na sua génese concepções federalistas com uma combinação de neoliberalismo primário e monetarismo, a União destruiu economias, aumentou o desemprego, humilhou estados, subverteu as autonomias nacionais, reforçou o poder de mega-instituições desligadas das populações, debilitou profundamente o funcionamento das democracias que a compõem. Também de forma igualmente previsível, foi, por isso, a grande responsável pelo ressurgir dos movimentos xenófobos e racistas.

Ao substituir a CEE, que, com os seus problemas, foi o projecto mais equilibrado de cooperação entre os estados europeus que a História regista, a União Europeia levou a Europa para um caminho desastroso que pode desembocar em novos abismos.

É por isso urgente substituir esta pseudo-união por um novo projecto que não se faça contra as democracias nacionais, forçando um federalismo utópico, nem seja desenhado para servir os interesses do(s) estado(s) dominante(s).

Curiosamente, nenhum dos cincos cenários de futuro(?) preparados pela Comissão Europeia contempla a possibilidade de a Europa avançar para um novo projecto. Não admira: nenhuma instituição burocrática propõe reduções do seu próprio poder e há a consciência que tal projecto terá de passar necessariamente por uma devolução de poderes aos estados. Poderes em má hora centralizados pela União nas instituições comunitárias.

Claro que no nosso país não faltaram vozes que se julgam ainda em 1986 para vir defender que o que é preciso é Portugal continuar na primeira linha da integração. Face ao que tem sido a dolorosa experiência portuguesa e ao que são hoje as realidades europeias, tal defesa do pelotão da frente pode ser entendida como sarcasmo.

Mas não, não é sarcasmo. As nossas elites europeístas é que não dão para mais.

João Ferreira do Amaral, 17 Março 2017 in RR “Sarcasmo?