Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, “os dez dias que mudaram o mundo”. E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 – da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista – e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100 .º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal onlineorganizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram “mais mal do que bem” aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A “história milenar” da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da “história milenar” da Rússia. Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 – o que gerou polémica com a Ucrânia. Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada “agente estrangeiro” pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

“A elite russa nacionalizou a memória histórica” – diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. “E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país.”

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. Mas a própria ideia de “revolução” joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. “Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX”, disse Putin.

“Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos” – afirmou. “Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo.” Numa palavra, a Rússia “não necessitava de uma revolução global”.

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 “será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia”, mas lembrando sempre ao mesmo tempo que “somos um só povo e temos apenas uma Rússia”.

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de “respeito” e a “uma análise objetiva e honesta” da “história comum do pais”, mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917

De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras “heroicas” na revolução – nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro – apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade – uma “herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo” – nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. Como diria ainda Figes, “os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono”.

Carlos Santos Pereira, 7 de Novembro de 2017, in DN

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

Concluída a fase de apuramento inicia-se uma fase de contagem descendente para o Mundial 2018 na Rússia que se anuncia plena de incógnitas e de riscos.

A realização da prova máxima do futebol mundial assume particular importância para a Rússia de Putin num momento de tensão e de confronto com o Ocidente. Se o desporto tem desde sempre uma vincada dimensão política, o Mundial 2018 assume uma evidente relevância estratégica.

Há 38 anos, em plena guerra-fria, a invasão soviética do Afeganistão  gerou uma fase de grande tensão nas relações leste-oeste. O bloco ocidental retaliou boicotando em bloco os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo – e roubando assim grande parte do brilho a uma ocasião desportiva e política em que a URSS tanto jogava.

Os tempos são outros, dir-se-á. No actual quadro das relações entre a Rússia e o Ocidente, o Mundial de Moscovo não deixa ainda assim de representar um momento de alta tensão.

A confirmar-se a intenção americana de fornecer armas à Ucrânia, convidando assim Porochenko a resolver o problema do separatismo de Donetsk e Luhank por via das armas, é óbvio o risco de uma nova escalada de tensão, ou mesmo de um confronto directo entre os dispositivos bélicos concentrado pela NATO e pela Rússia no centro-leste da Europa.

Incidentes ou protestos graves da oposição nas eleições russas do próximo ano não deixariam de valer ao regime de Putin novas acusações de atropelos à democracia ou de violação das liberdades fundamentais e dos direitos humanos.

Seria decerto o bastante para envenenar ainda mais o clima de tensão entre o Ocidente e a Rússia e criar um clima de algum modo equivalente ao que precedeu em 1980 o boicote aos Jogos de Moscovo.

Um Mundial bem sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia  no plano internacional. Um atentado terrorista em plena competição ou mesmo desacatos mais graves entre adeptos bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante.

Queira-se ou não, o Mundial da Rússia será uma grande ocasião política. E, nessa dimensão, um momento de alto risco.

Carlos Santos Pereira

TRUMP, A AMÉRICA E A UNESCO

TRUMP,  A AMÉRICA E A UNESCO

Ao anunciar a decisão de abandonar a UNESCO, no passado dia 12, o presidente norte-americano  limitou-se a consumar uma ruptura há muito anunciada.

Donald Trump, prontamente seguido pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justificou a decisão de bater com a porta  acusando a organização de manter uma atitude sistematicamente anti-israelita.

A má vontade América em relação à UNESCO não é criação de Trump. Entronca numa longa guerra contra esta agência das Nações Unidas.

Nem é sequer a primeira vez que os Estados Unidos viram as costas à UNESCO. Já nos anos 1980, em plena Administração Reagan, a América, seguida pela fiel Britânia, rompeu com a organização.

O argumento oficial era na altura a gestão incompetente e esbanjadora e do então secretário- geral Amadou Mahtar M’ Bow. A longa polémica que antecedeu a retirada americana revelou claramente que Washington tinha razões mais fundas. A UNESCO era acusada de se ter transformado em agência do terceiro mundismo e da diplomacia cultural da URSS.

A América de Reagan ajustava assim contas com uma agência que não conseguia controlar. Os anos seguintes mostraram de resto que essa atitude traduzia um profundo mal-estar dos Estados Unidos perante todas as instâncias multilaterais que escapam à sua batuta. Bastará recordar a enorme campanha destinada desacreditar as Nações Unidas durante os conflitos balcânicos dos anos 1990 e obrigar a organização a render à NATO a gestão política e militar do conflito.

Dezoito anos depois, em Setembro de 2002, George W. Bush anunciou o regresso dos Estados Unidos à UNESCO. Mas o mal-estar nunca desapareceu.

Ao que tudo indica, Trump baseia a acusação de preconceito  “anti-israelita” em desenvolvimentos recentes como  a decisão da UNESCO de admitir a Palestina como membro de pleno direito, em 2011 – ao que Washington respondeu na ocasião cortando os fundos à agência – ou a declaração de Hebron, em plena Margem ocidental ocupada por Israel, como Património da Humanidade, em Julho último.

Em rigor, qualquer pretexto serviria para o caso.

A decisão valeu ao presidente americano um coro de críticas. Os dedos apontados ao “trumpismo” não terão reparado que Trump se limitou uma vez mais a dar expressão a tendências com raízes sólidas no establishment político norte-americano.

Carlos Santos Pereira

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

MADRID, A EUROPA E A QUESTÃO CATALÃ

Tem boas razões para celebrar, Mariano Rajoy.

Escudado numa Constituição aprovada num contexto político há muito ultrapassado e valendo-se da razão da força, o primeiro ministro espanhol impôs a administração directa de Madrid, prendeu os líderes independentistas, defenestrou os dirigentes eleitos da Catalunha e propõe-se assumir o controlo da televisão catalã.

Mais do que vergar o desafio independentista, Rajoy levou até ao fim a sanha de humilhar Puigdemont e com ele a própria Catalunha.

Estão agora por contabilizar os custos da vitória de Rajoy. Mesmo sem ter qualquer tradução política viável, o referendo do primeiro de Outubro constitui um triunfo simbólico para os defensores de uma Catalunha soberana. O independentismo catalão conta agora novas razões na memória da presença de 4000 agentes de segurança enviados por Madrid, das cargas policiais sobre votantes e manifestantes, dos presos políticos e do clima de repressão que se abateu sobre a Catalunha.

A questão catalã tem uma história longa e marcada por memórias mal saradas. No auge da crise, já sob a ameaça directa do “artigo 155”, Carles Puigdemont e outros lideres catalães prestaram tributo público Lluis Companys, um líder catalão executado por Franco no decorrer da guerra civil de 1936-39. Os fantasmas da guerra civil e dos 36 anos de franquismo ressurgiram muitas vezes no calor do confronto entre Madrid e Barcelona.

Rajoy propõe-se refazer o quadro político catalão decretando eleições antecipadas para Janeiro. Conta com uma presumida maioria de catalães que aplaudirão a intervenção de Madrid. Resta a incógnita dos efeitos deste episódio nos humores do eleitorado catalão.

A Europa, a Europa europeia, cumpriu um papel assinalável na crise catalã. Por mais que Bruxelas repetisse que se tratava de uma questão interna de Espanha, a Comissão Europeia encorajou Rajoy a arrumar prontamente a questão, dando mão livre ao chefe do Governo de Madrid e declarou desde logo que uma Catalunha independente não tinha lugar na Europa.

E enquanto Donald Tusk repetia que estava fora de causa qualquer mediação de Bruxelas, Jean-Claude Juncker dizia aos catalães que a Europa não estava disposta a aceitar mais um país independente no seu seio.

A mesma Europa que não hesitou em acolher a Croácia, com o genocídio da Krajina ainda bem fresco nas memórias. A mesma Europa que aplaudiu o bombardeamento da Sérvia por Milosevic ter enviado forças de segurança para reprimir os terroristas do UCK em nome de  argumentos “humanitários” descaradamente manipulados.

A mesma Europa que quando, em 2008, os irlandeses votaram “Não” ao tratado de Lisboa, não descansou enquanto não os obrigou a irem de novo às urnas e, sob pressões e ameaças diversas, a trocarem o “Não” pelo “Sim”

Para já, a ordem reina de novo na Catalunha.

Mas a questão terá que ser encarada de frente, mais tarde ou mais cedo. Uma revisão substancial da Constituição espanhola está já no horizonte. E a questão do estatuto da Catalunha, e provavelmente de outras regiões de Espanha com forte identidade política e cultural, e com velhos contenciosos com Grã-Castela, colocar-se-á doravante noutros termos.

Rajoy bem pode celebrar. Mas o chefe do Governo de Madrid pode arriscar-se a ficar na História como o homem que precipitou o fim da Espanha tal como a conhecemos hoje…

Carlos Santos Pereira

Coerências

Coerências

As embrulhadas da situação na Catalunha, abundantemente divulgadas em direto nas Televisões de todo o Mundo, revelaram algo de insólito nesta Europa que se pensava estável, sensata e instituída.

Decerto que está na memória de todos o que se passou nos Balcãs após a implosão da Jugoslávia: guerra civil, genocídio, crimes de guerra e, a culminar, a consagração do direito de ingerência de terceiros países ou de organizações internacionais, em nome dos Direitos Humanos.

Como de costume, remeteu-se tudo isso, muito vitorianamente, para áreas remotas, habitadas por gente sem vivência democrática. Esquecendo que se tratava da Europa Central, e não de franjas do Continente Europeu, e muito menos do Terceiro Mundo.

Surgem agora os tumultos da Catalunha, em que houve já quem invocasse o tal direito de ingerência, embora amenizado sob a forma de uma mediação, felizmente rejeitada por ambas as partes.

Que descalabro! Só faltou pedir capacetes azuis para patrulhar as Ramblas!

Mas afinal, onde estamos nós? Vladimir Putin, o lobo em pele de raposa, foi dizendo que na Federação Russa, há muitas Catalunhas – e deve ter razão. A CE agarrou-se à legalidade constitucional – e não podia fazer outra coisa. Donald Trump apoiou “uma Espanha forte”, sem se lembrar (ou porque nunca soube, ou se sabia ainda é pior) que soa algo como a Espanha “Una, Grande y Libre” do franquismo.

A Catalunha teve a sua origem nas Marcas de Carlos Magno, que instituiu, na dependência dos “marqueses” (daí o título) vários condados aquém Pirinéus: Paillards, Ribagorce, Urgel, Cerdanha, Gerona, Ausona, Besalú, Empúrias… e Barcelona. O tempo e a virtú (no conceito de Maquiavel) encarregaram-se de estabelecer o primado de Barcelona sobre os outros condados. Posteriormente o domínio do condado estendeu-se até Carcassonne e Béziers, bem dentro da França atual, o que ainda hoje tem alguma importância, como veremos.

A Reconquista levou à criação do reino de Aragão, do qual a Catalunha fazia parte: o rei de Aragão era também Conde de Barcelona, em pé de igualdade. Este reino, com o qual Portugal teve relações privilegiadas até à união com o reino de Castela, sob os Reis Católicos, chegou a dominar Valência, as Baleares, a Córsega, a Sardenha e o reino de Nápoles, incluindo a Sicília.

A junção dos reinos de Aragão e Castela foi nefasta para os Catalães, que perderam proeminência face ao endémico centralismo de Castela. As coisas complicaram-se com a estranha herança de Carlos V (I de Espanha), deixando ao seu filho Filipe II os Países Baixos, o que levou à chamada Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), até ao abandono dessas províncias pelos (agora) espanhóis, o que ocorreu ao mesmo ano que o fim da Guerra dos Trinta Anos.

Para essa guerra, foram pedidos contingentes portugueses e catalães, o que resultou, em 1640, nas revoltas dos respetivos povos. A da Catalunha fracassou, mas a de Portugal resultou.

A Guerra de Sucessão de Espanha (1701-1714) tornou a trazer a Catalunha à baila, já que Barcelona resistiu às tropas de Filipe V até ao fim, com represálias cuja recordação ainda perdura.

A liberalização da Espanha após as Invasões Francesas levou a um surto de progresso na Catalunha, de que o urbanismo de Barcelona é a melhor mostra.

Mas o fim da Guerra Civil (1936-1939), com a vitória dos nacionalistas de Franco, veio repor o centralismo castelhano, oposto ao liberalismo regionalista catalão. Já no último quartel do século XX, a democratização da Espanha atenuou as queixas, mas alguma coisa ficou na memória coletiva.

Em paralelo, o País basco, baseado em razões algo semelhantes, quase mergulhou numa guerra civil, com centenas de mortos, a tiro ou à bomba, incluindo o imposto revolucionário, a repressão e ações pouco legais do governo central.

Só que houve o bom senso de atribuir ao País Basco aquele quantum de autonomia que, num mundo globalizado, era e é o melhor antídoto para as independências pouco viáveis.

Não se fez o mesmo na Catalunha, com o resultado que se vê.

E aqui entra o conceito de coerência. Se o País Basco obteve autonomia q.b., a ponto de ser hoje uma terra pacata e ordeira, porque não a Catalunha?

Ambos têm uma língua, uma cultura, uma história que os habilita à afirmação nacional. Só não o farão se, serenamente e refletidamente, acordarem a integração num conjunto político mais vasto. Como as colónias americanas, os cantões suíços ou as províncias holandesas aceitaram constituir-se num estado único.

Se a diferença está na metodologia utilizada, a conclusão é terrificante: isto só vai à bomba. Logo, os irredutíveis catalães estariam justificados, se passarem à fase do terrorismo.

Não chegaremos lá, mas haverá decerto muitas cabeças partidas, em ambos os lados. E porquê?

A Catalunha contava em 2012 com 7.570.908 habitantes, dos quais 1.443.480 vindos de outras regiões de Espanha e 1.342.271 de outros países, nomeadamente da Europa e América Latina. Ou seja, 36,8% não são catalães. Se juntarmos a estes os não-independentistas, decerto teríamos uma maioria que preferia continuar espanhola.

Afinal, quem tem medo do Lobo Mau, ou seja, das urnas?

Portanto, o que parece estar em causa não é o resultado, é o princípio. O Governo de Madrid não tem medo do resultado (ou não devia ter): tem medo da participação popular, dando assim trunfos aos minoritários independentistas.

Faz lembrar o “Portugal e o Futuro”, de António de Spínola, onde se dizia que “não se delimitam países como se delimitam coutadas”…

Entretanto, assiste-se a uma fuga maciça de empresas e capitais para fora da Catalunha, com as naturais consequências para a região. É que se pode ter o coração de um lado, mas a carteira está do outro… Para os independentistas, é um rude golpe, como que uma antecipação das dificuldades que a separação acarretaria.

Tudo porque o debate não se fez pelos prós e contras, mas pelos sentimentos. Tal como aconteceu com o BREXIT, que deveria ter servido de exemplo.

E agora, dentro da invocada coerência, o que farão a CE, os EUA e outros quando a Escócia fizer um referendo sobre a independência, como parece provável?

Seria ocioso falar do Curdistão, que é metido e tirado da cartola ao sabor das circunstâncias, ou das Catalunhas de Vladimir Putin. Ou do problema das regiões da Cerdanha e do Rossilhão, onde se fala catalão, mas estão situadas em França…

Ou seja, coerências há muitas. Cada um escolha a sua.

Quanto a Portugal, não resisto a parafrasear um, político brasileiro, sobre a Guerra das Malvinas: se a Argentina ganhar, é uma vitória da América Latina, e é bom para o Brasil; se perder, é uma derrota da Argentina, e é ótimo para o Brasil.

Deste modo, se a Catalunha se mantiver integrada na Espanha, é uma vitória da Comunidade Europeia, e é bom para Portugal; se a Catalunha se tornar independente, enfraquece a Espanha, e é bom para Portugal…

Nuno Santa Clara

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O Golpe de Estado de 21 de Agosto em Washington

O discurso de 21 de Agosto de Trump aos Estados Unidos, a propósito da política para o Afeganistão, foi o resultado visível de um golpe de estado em Washington. Os generais do Pentágono tomaram o poder. Trump é, a partir de ontem à noite, apenas o títere dos militares americanos. Numa manobra prévia, os generais correram, defenestraram, todos os cortesãos iniciais de Trump e apenas o deixaram a ele, à mesa da sala oval, a fazer de espantalho. No dia 21 à noite, impuseram-lhe um discurso de resignação sob a forma de “nova política para o Afeganistão”, onde o colocaram a desdizer tudo o que tinha dito e prometido quanto a política de intervenção militar na campanha eleitoral. Puseram-no a defender a política de Hilary Clinton, a sua candidata!

A 20 de janeiro deste ano de 2017, Donald Trump proclamou que daí em diante seria «America First », isto é, a América não se aventuraria mais no estrangeiro. Agora, como escreve o Washington Post, «teve de se vergar diante da realidade.» E a realidade é que quem manda são os generais. E o que os generais dizem é que o Afeganistão é um saloon numa região árida e sem lei. Por isso os americanos têm de lá estar para competirem com os outros pretendentes a donos do local. Um clássico dos westerns. O Afeganistão interessa à Rússia, é parte da sua fronteira sul, interessa à China, é parte da sua fronteira ocidental (mesmo que numa estreita língua), permite a ligação ao sub-continente indiano e ao Índico, faz fronteira com o Irão.

Mas, além destes factores da ordem da estratégia, os generais americanos sabem que Afeganistão é historicamente um território dividido por senhoritos da guerra, venais, que servem quem pagar melhor e se aliam a quem lhe parece ter mais possibilidades de vitória. Senhoritos sem fidelidades, nem piedades. É um território de mercenários e, por isso, um excelente viveiro de ratazanas de desestabilização regional. As três grandes potências imperiais têm de estar ali para desestabilizar os seus rivais. Nenhuma delas pode estar fora do Afeganistão.

O idiota do Trump não sabe história, nem geografia, nem viu filmes de cobóis e comprou a ideia do neo-isolacionismo para fazer a América grande! Os generais e a máquina de guerra já lhe colocaram a coleira, a trela e o açaimo através do golpe palaciano que teve a sua cerimónia pública com o discurso de 21 de agosto. A estratégia dos golpistas do pentágono é clara e é a de Hilary Clinton. A vencida, vencedora deste golpe.

Em resumo, diga Trump o que disser, os Estados Unidos terão sempre uma presença militar entre o Médio Oriente e as fronteiras sul da Rússia e ocidental da China. Estarão no Afeganistão, não para matar terroristas, mas para contratar e manipular terroristas. Também se manterão na Síria, embora em menor escala que no Afeganistão, porque aí Israel se encarrega do trabalho de desestabilização em outsourcing. O Iraque é para cortar às fatias e os militares americanos disporão sempre de um dos cutelos. Resta o Irão e a Turquia. Os generais americanos evitarão a guerra com o Irão — demasiado cara e de resultados duvidosos — e tentarão manter o turco sob controlo, na NATO, ou pelo menos sem o deixar passar para a órbita dos russos.

Parece, por outro lado, evidente que os russos vão atirar sal para todas as fogueiras que os americanos atearam e que o Trump passará a ser apenas o boneco do ventríloquo, de umas vezes do Departamento de Estado, quase sempre do Pentágono. Será um refém com tempo de antena e saídas precárias para golfe. Até já o acusam de ele e a numerosa parentela gastarem demais em segurança privada. Os chineses têm sempre à mão o fogareiro da Coreia do Norte, para condicionarem todas as opções americanas para a Coreia do Sul e o Japão. Os navios da esquadra do Pacífico entretanto chocam com navios mercantes.

Por cá, os comentadores avençados — as caixas de ressonância do alt right e do Tea Party — por limitações senis, continuam a acreditar que o Trump dirige a política dos Estados Unidos. O governo, dirigido por pessoas circunspectas e sensatas, está ciente da irrelevância do país na Europa e da Europa no mundo. Sem fanfarronadas, perfilou-se como um ordenança dos generais que tomaram o poder em Washington e vai disponibilizar uma mão cheia de briosos militares para integrar uma coligação que dê direito a visita de ministro e presidente da República em datas festivas.

Com o golpe de 21 de Agosto o mundo retomou a normalidade.

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Que terroristas vai Trump matar para o Afeganistão?

Lemos, vemos, ouvimos, mas não pensamos. Que vale termos acesso à informação se a engolimos sem a mastigar? No Le Monde de 22 de Agosto saíram duas notícias a par. Numa, mais um pontapé de Donald Trump nas promessas da campanha eleitoral. Trump candidato tinha prometido retirar as tropas americanas do Afeganistão. Trump eleito, num discurso de 21 de Agosto engole as afirmações e lê o discurso preparado pelos generais e pelo o complexo militar-industrial. Um discurso articulado em dois blocos, um perceptível por um auditório médio: “Não se trata de um cheque em branco, nem de exportar a democracia” e outro para satisfazer os pistoleiros broncos do nível de Trump: “Trata-se de matar os terroristas!” A eles, sus!

Haverá quem acredite que os americanos andam a matar os terroristas no Afeganistão? O Le Monde parece que sim e os seus leitores também. Não existe nenhuma crítica à afirmação. No entanto, confiante que os consumidores comem tudo, o Le Monde coloca ao lado da banha de cobra de Trump a notícia de que os atentados da Catalunha foram realizados por cidadãos marroquinos, conduzidos ao crime por um também marroquino estabelecido com banca de atentados numa mesquita em Ripoll, uma localidade espanhola e que tinha passado várias temporadas na Bélgica a traficar droga. Um delinquente como tantos outros que cresceram entre nós e que foram por nós educados, como recordaram os avós de dois dos assassinos. Não há notícia destes terroristas de Barcelona terem passado pelo Afeganistão, por onde também não passaram os assassinos de Londres, da Alemanha, de Paris, de Nice, de Bruxelas…

Le Monde é um jornal de referência, seria suposto que perguntasse que raio de terroristas vão os americanos matar agora para o Afeganistão, se não são estes que cometem atentados aqui pela Europa e, que se saiba, também não cometeram nenhum nos Estados Unidos?

Aqui chegados, se os terroristas que os americanos vão matar às ordens dos generais de Trump para o Afeganistão não são os que matam e espalham o terror aqui na Europa, que raio vão fazer os militares europeus para o Afeganistão, se os seus inimigos estão aqui na Europa e não lá?

Podemos pensar nisto?

Carlos Matos Gomes, 22 de Agosto de 2017