Coerências

Coerências

As embrulhadas da situação na Catalunha, abundantemente divulgadas em direto nas Televisões de todo o Mundo, revelaram algo de insólito nesta Europa que se pensava estável, sensata e instituída.

Decerto que está na memória de todos o que se passou nos Balcãs após a implosão da Jugoslávia: guerra civil, genocídio, crimes de guerra e, a culminar, a consagração do direito de ingerência de terceiros países ou de organizações internacionais, em nome dos Direitos Humanos.

Como de costume, remeteu-se tudo isso, muito vitorianamente, para áreas remotas, habitadas por gente sem vivência democrática. Esquecendo que se tratava da Europa Central, e não de franjas do Continente Europeu, e muito menos do Terceiro Mundo.

Surgem agora os tumultos da Catalunha, em que houve já quem invocasse o tal direito de ingerência, embora amenizado sob a forma de uma mediação, felizmente rejeitada por ambas as partes.

Que descalabro! Só faltou pedir capacetes azuis para patrulhar as Ramblas!

Mas afinal, onde estamos nós? Vladimir Putin, o lobo em pele de raposa, foi dizendo que na Federação Russa, há muitas Catalunhas – e deve ter razão. A CE agarrou-se à legalidade constitucional – e não podia fazer outra coisa. Donald Trump apoiou “uma Espanha forte”, sem se lembrar (ou porque nunca soube, ou se sabia ainda é pior) que soa algo como a Espanha “Una, Grande y Libre” do franquismo.

A Catalunha teve a sua origem nas Marcas de Carlos Magno, que instituiu, na dependência dos “marqueses” (daí o título) vários condados aquém Pirinéus: Paillards, Ribagorce, Urgel, Cerdanha, Gerona, Ausona, Besalú, Empúrias… e Barcelona. O tempo e a virtú (no conceito de Maquiavel) encarregaram-se de estabelecer o primado de Barcelona sobre os outros condados. Posteriormente o domínio do condado estendeu-se até Carcassonne e Béziers, bem dentro da França atual, o que ainda hoje tem alguma importância, como veremos.

A Reconquista levou à criação do reino de Aragão, do qual a Catalunha fazia parte: o rei de Aragão era também Conde de Barcelona, em pé de igualdade. Este reino, com o qual Portugal teve relações privilegiadas até à união com o reino de Castela, sob os Reis Católicos, chegou a dominar Valência, as Baleares, a Córsega, a Sardenha e o reino de Nápoles, incluindo a Sicília.

A junção dos reinos de Aragão e Castela foi nefasta para os Catalães, que perderam proeminência face ao endémico centralismo de Castela. As coisas complicaram-se com a estranha herança de Carlos V (I de Espanha), deixando ao seu filho Filipe II os Países Baixos, o que levou à chamada Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), até ao abandono dessas províncias pelos (agora) espanhóis, o que ocorreu ao mesmo ano que o fim da Guerra dos Trinta Anos.

Para essa guerra, foram pedidos contingentes portugueses e catalães, o que resultou, em 1640, nas revoltas dos respetivos povos. A da Catalunha fracassou, mas a de Portugal resultou.

A Guerra de Sucessão de Espanha (1701-1714) tornou a trazer a Catalunha à baila, já que Barcelona resistiu às tropas de Filipe V até ao fim, com represálias cuja recordação ainda perdura.

A liberalização da Espanha após as Invasões Francesas levou a um surto de progresso na Catalunha, de que o urbanismo de Barcelona é a melhor mostra.

Mas o fim da Guerra Civil (1936-1939), com a vitória dos nacionalistas de Franco, veio repor o centralismo castelhano, oposto ao liberalismo regionalista catalão. Já no último quartel do século XX, a democratização da Espanha atenuou as queixas, mas alguma coisa ficou na memória coletiva.

Em paralelo, o País basco, baseado em razões algo semelhantes, quase mergulhou numa guerra civil, com centenas de mortos, a tiro ou à bomba, incluindo o imposto revolucionário, a repressão e ações pouco legais do governo central.

Só que houve o bom senso de atribuir ao País Basco aquele quantum de autonomia que, num mundo globalizado, era e é o melhor antídoto para as independências pouco viáveis.

Não se fez o mesmo na Catalunha, com o resultado que se vê.

E aqui entra o conceito de coerência. Se o País Basco obteve autonomia q.b., a ponto de ser hoje uma terra pacata e ordeira, porque não a Catalunha?

Ambos têm uma língua, uma cultura, uma história que os habilita à afirmação nacional. Só não o farão se, serenamente e refletidamente, acordarem a integração num conjunto político mais vasto. Como as colónias americanas, os cantões suíços ou as províncias holandesas aceitaram constituir-se num estado único.

Se a diferença está na metodologia utilizada, a conclusão é terrificante: isto só vai à bomba. Logo, os irredutíveis catalães estariam justificados, se passarem à fase do terrorismo.

Não chegaremos lá, mas haverá decerto muitas cabeças partidas, em ambos os lados. E porquê?

A Catalunha contava em 2012 com 7.570.908 habitantes, dos quais 1.443.480 vindos de outras regiões de Espanha e 1.342.271 de outros países, nomeadamente da Europa e América Latina. Ou seja, 36,8% não são catalães. Se juntarmos a estes os não-independentistas, decerto teríamos uma maioria que preferia continuar espanhola.

Afinal, quem tem medo do Lobo Mau, ou seja, das urnas?

Portanto, o que parece estar em causa não é o resultado, é o princípio. O Governo de Madrid não tem medo do resultado (ou não devia ter): tem medo da participação popular, dando assim trunfos aos minoritários independentistas.

Faz lembrar o “Portugal e o Futuro”, de António de Spínola, onde se dizia que “não se delimitam países como se delimitam coutadas”…

Entretanto, assiste-se a uma fuga maciça de empresas e capitais para fora da Catalunha, com as naturais consequências para a região. É que se pode ter o coração de um lado, mas a carteira está do outro… Para os independentistas, é um rude golpe, como que uma antecipação das dificuldades que a separação acarretaria.

Tudo porque o debate não se fez pelos prós e contras, mas pelos sentimentos. Tal como aconteceu com o BREXIT, que deveria ter servido de exemplo.

E agora, dentro da invocada coerência, o que farão a CE, os EUA e outros quando a Escócia fizer um referendo sobre a independência, como parece provável?

Seria ocioso falar do Curdistão, que é metido e tirado da cartola ao sabor das circunstâncias, ou das Catalunhas de Vladimir Putin. Ou do problema das regiões da Cerdanha e do Rossilhão, onde se fala catalão, mas estão situadas em França…

Ou seja, coerências há muitas. Cada um escolha a sua.

Quanto a Portugal, não resisto a parafrasear um, político brasileiro, sobre a Guerra das Malvinas: se a Argentina ganhar, é uma vitória da América Latina, e é bom para o Brasil; se perder, é uma derrota da Argentina, e é ótimo para o Brasil.

Deste modo, se a Catalunha se mantiver integrada na Espanha, é uma vitória da Comunidade Europeia, e é bom para Portugal; se a Catalunha se tornar independente, enfraquece a Espanha, e é bom para Portugal…

Nuno Santa Clara

Análise política e conversa de comadres

Análise política e conversa de comadres

A análise política devia ser uma ferramenta de análise de conteúdos e usada com a metodologia das ciências exatas. As análises políticas deveriam ser formuladas de forma metódica, evitando dados não-verificáveis, como intenções e palpites, o oposto de uma “Conversa de comadres à espera da morte”, um conto que li há uns tempos, em que um grupo de vizinhas murmura em ziguezague à volta da cama de uma outra que está a morrer.

As comadres falam sobre o passado da pobre mulher, rezam-lhe pela alma e pelos pecados reais e inventados, julgam-lhe as virtudes e as maldades, incluindo a recusa de morrer mais rápido, sugerem modos de dividir os bens, as ambições dos parentes, criticam as futuras cerimónias do enterro, descrevem o além, onde a sua alma se instalará, coçam-se, sussurram entre as falhas dos dentes… à espera da morte.

Os analistas políticos inventam intenções para as julgar, convocam a história, a psicologia e até os astros para obter resultados preestabelecidos, confundem economia doméstica com especulação bolsista, moral com racionalidade, força com repressão, perversidade com fina inteligência, teimosia com respeito pelos usos e costumes, meteorologia com punições dos deuses, analisam com o mesmo à vontade eleições, incêndios e inundações, relações internacionais e ensino pré-escolar, desporto e armamento. A frase mais reveladora da ausência de rigor na análise é a de que um dado actor político “apostou” numa determinada ação. O descaramento dos painéis de analistas reduz-se à aposta num dado cavalo, como nas corridas. Os analistas, em vez de, como as comadres do conto, esperarem a morte na má-língua, esperam que a audiência lhes preste atenção. Nos tempos iniciais da revolução existia um só educador do povo, Arnaldo de Matos, agora multiplicaram-se e surgem em rebanho ou em matilha.

A análise política devia descodificar o discurso político, em vez disso confunde-se com ele. Na mixórdia que nos é vendida como análise política, ou as conclusões não dependem dos dados do problema, ou os dados do problema são escolhidos para produzirem o resultado desejado. O cliente manda, neste caso o patrão que avençou os analistas. Toda esta mistificação, porque é de mistificação que se trata, surge embrulhada numa linguagem pretensamente científica, um “politiquês” que pretende fazer dos ouvintes crentes de abanar a cabeça e murmurar amens, como os fiéis das antigas missas em latim.

A análise política é uma actividade intelectualmente muito complexa? Não. Bastava que fosse, em primeiro lugar, um honesto exercício de lógica: Determinadas causas produzem determinados efeitos; e que fosse, em segundo lugar, um estudo objectivo de relações de força, aquilo que os estados-maiores militares designam por “análise do potencial relativo de combate”. De que forças dispõem os contendores? Em que condições (situação) vão travar os confrontos? Quem se encontra no terreno mais favorável? O que pretende cada uma das partes? O que propõe atingir? Quem é o seu inimigo principal? Quem são os seus aliados?

O resultado da análise política devia apresentar uma comparação de vantagens e inconvenientes, terminando com uma previsão objectiva de resultados. O analista político não é um juiz, nem um apostador, nem uma comadre, nem um Marques Mendes ou um Gomes Ferreira, os paradigmas da venda de banha de cobra como análise e comentário político, diria um cínico local. Devia ser alguém dotado de pensamento lógico, capaz de colocar um problema em equação e de ter, não só um saber estruturado, mas uma ética.

Experimentem aplicar estes fundamentos da análise política ao processo de decisão que levou Puigdemont a lançar-se no salto sem rede da aventura da proposta de independência da Catalunha, ou das twitadelas inconsequentes de Trump na Casa Branca sobre a Coreia do Norte, ou o Irão. Apliquem-na também às charlas de tantos “analistas políticos” que se apresentam nos jornais, rádio e TV aqui em Portugal como pirólogos quando há incêndios, comissários de polícia em época de manifestações, teólogos nos dias santos, engenheiros perante um desabamento, médicos, curandeiros, astrólogos, justiceiros de mata e esfola quando a vítima está indefesa. Às vezes tudo ao mesmo tempo.

Cito a frase de um autor certamente tão cético quanto eu e com muito maior sentido de humor: “a análise política é a arte e a ciência de administrar um circo a partir da jaula dos macacos”.

Carlos Matos Gomes, in “Medium” 16 de Outubro de 2017

E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

E SE O “RELATÓRIO” DO EXPRESSO FOSSE VERDADEIRO?

Falando sobre FACTOS…

Os militares têm sobejas razões de queixa pela forma como têm sido abusados e maltratados pelos agentes políticos.
É sabido que a missão maior e última de qualquer Oficial é o exercício do comando e das responsabilidades que lhe são inerentes, o que obriga a uma cultura de integridade moral e pessoal que se apoia na sua maturidade, autonomia e capacidade crítica.
É normal encontrar por isso, no seio da organização militar e como parte do processo de decisão, documentos, traduzindo as posições mais díspares, de acordo com o pensamento e a opinião de quem os produziu. Analisados, ponderados e integrados em escalões hierárquicos sucessivos, suportam a decisão a cada nível de responsabilidade.

Toda a gente conhece a situação do Expresso. Há muito que deixou de ser um jornal de referência e de leitura obrigatória. Por um lado, devido à sua transformação progressiva num órgão de propaganda política e por outro, relacionado com o primeiro, com a perda de qualidade da sua linha editorial no que aliás não se diferencia de boa parte da comunicação social portuguesa
Não é incomum ver o Expresso adoptar práticas que outrora recusava, de pouca aderência à verdade, retirando frases do contexto, utilizando títulos que não traduzem os conteúdos, preferindo o sensacionalismo ao rigor da notícia para melhor se encaixar na matriz de intervenção política que entendeu promover.
Julgará o Expresso que esta é a melhor forma de evitar a falência a que estes mesmos métodos e processos o conduziram, sacrificando o prestígio e o rigor que já foi a sua imagem de marca. O Expresso é que sabe. Adiante…

Podia ter acontecido que tivesse sido cedida ao Expresso alguma informação interna, opinião escrita, análise pessoal ou qualquer outro documento dessa natureza que, tratado sem rigor e de forma tendenciosa, permitisse identificá-lo como aquilo que não é e utilizar o Exército como arma de arremesso partidário.
Se isso tivesse acontecido, significaria que algum Oficial se tinha esquecido do respeito que devia a si próprio, abusado da confiança da Instituição Militar e de quem tivesse produzido o documento, vendendo gato por lebre, sem que o discernimento crítico dos editores do Expresso conseguisse identificar a diferença na ansiedade de bem servir outros interesses.
Mas não aconteceu, porque não é possível, porque nenhum Oficial responsável, mesmo com motivos de agravo graves, seria tão miserável e sem carácter para o fazer e porque nada bate certo no que se conhece deste documento nem sequer do ponto de vista técnico da produção de “Informações Militares”.

Todos os documentos militares com validade interna e externa são assinados, datados, classificados, registados com as referências do assunto e do serviço envolvido e ostentam os carimbos e despachos próprios de quem os analisou e validou. Bastaria a indicação de alguns destes elementos para acreditar o alegado “relatório” a que o Expresso diz ter tido “acesso” sem comprometer nenhuma “fonte”.
Compete ao Expresso provar o que diz, no entanto assistimos a um progressivo recuo da argumentação que não anuncia nada de bom:

  1. Afirma agora que nunca disse que era “Oficial”. Mas se não disse insinuou e todos perceberam perfeitamente o que pretendia;
  2. Diz agora que o alegado “relatório” tem origem numa “Rede de Serviços de Informações Portugueses” onde teria sido partilhado. Que serviços? Que rede? Só pode ser clandestina já que a Lei não a prevê?
  3. Finalmente conclui, uma vez mais contrariando as declarações iniciais, que o alegado “relatório”, não tinha sido enviado à PJ nem ao SIED.

Perante esta trapalhada, deixo as seguintes interrogações aos jornalistas e ao senso comum:

  • Se este documento, não é oficial, se não é das “secretas”, se não é “final” e se em consequência, se trata apenas de um “relatório” apócrifo que alguém decidiu parir numa noite de insónias, qual é o seu interesse jornalístico?
  • Diz o Expresso que não divulga o alegado “relatório” porque contem “informação de segurança nacional, cuja divulgação causaria alarme social e informação policial que identifica suspeitos que não saberão que o são”. Quantas notícias fabricadas, ignorantes, sensacionalistas, conspirativas e sem rigor jornalístico é que têm sido publicadas pelo Expresso e outros jornais sobre o assalto de Tancos? o Expresso foi de repente acometido de uma crise de consciência? ou descobriu uma desculpa esfarrapada para não prestar contas da porcaria que fez?

Tecnicamente, os relatórios militares são despidos de subjectividade e quando incluem análises conclusivas elas dirigem-se ao futuro, para sugerir ou antecipar acções concretas a desenvolver. Não são processos de intenções. Nenhum militar elaboraria um documento de “informações” destes a não ser por ignorância, má fé ou incompetência notória. Não basta fazer colagens de meia dúzia de sites da Internet e registar umas “bocas” ouvidas aqui e ali, para que notícias avulsas tenham qualidade militar.

Fabricação, ou frete político, onde se mistura indevidamente o nome do Exército na busca de uma credibilidade inexistente, só o Expresso poderá dizer.

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

A Catalunha: a técnica do golpe de estado e as arengas antes da batalha

As peripécias a propósito das chamas do incêndio de fervor nacionalista que percorre a Catalunha (mais Barcelona e menos Catalunha), é um espectáculo de fogo de artifício.

Acender a fogueira nacionalista e atirar-lhe petróleo como estão a fazer os líderes da rebelião de Barcelona constituem técnicas clássicas de golpe de estado, técnicas de conquista do poder por parte de um grupo organizado para o tomar. Curzio Malaparte demostrou que o assalto ao poder, que é do que se trata em Barcelona, não tem que ser necessariamente violento, muitas vezes basta um grupo de tipos determinados e sem escrúpulos apoderar-se de certas instituições para as confrontar com o aparelho do Estado, uns demagogos excitarem as massas com os temas que sempre as mobilizam: a liberdade em primeiro lugar. Palavra estandarte de todos os chefes populistas, condimentada com uns excitantes também eficazes de história: Patriotismo e Traição qb! Demagogia e populismo com todas as letras, a que podem juntar-se doses maiores ou menores de provocação e agitação.

O nacionalismo catalão e a atual urticária independentista é muito fácil de explicar: Após o fim da ditadura franquista e do desmantelamento do seu aparelho repressivo, um grupo de senhoritos locais, depois de bem seguro e certo da ausência de perigos materiais e físicos (são de pouca coragem e muito desplante), aproveitou a cómoda situação para se chegar ao poder içando a bandeira do nacionalismo catalão, o que incluiu até a tomada do poder no Barcelona clube de futebol, as manobras que levaram os jogos olímpicos a Barcelona, a imposição de um esquecido dialeto local como língua nacional, entre outras.

Para esse grupo, nacionalismo catalão e independência da Catalunha significa apenas o assalto ao poder e através dele a conquista da maior parcela possível da riqueza da região. Esse grupo entende que, sem perigo nem incómodos, pode acumular riqueza de forma parasitária e na completa impunidade que as imunidades políticas conferem.

É evidente que nenhum grupo de predadores económicos apresenta em público e às claras as suas intenções. Há que conquistar e arrastar as massas. Os argumentos do grupo que quer tomar o poder em Barcelona é um manual clássico de demagogia.

O manual clássico da demagogia é grego, como quase tudo o que é essencial na nossa civilização. Constitui a colecção “Arengas antes da batalha”, que o filósofo grego Onansander, autor de “Estratégia”, reuniu e que inclui discursos Tucídides, de Péricles, de Demóstenes, de Brásidas. O historiador inglês Anthony Burgess estudou-os e concluiu que essas arengas seguem um esquema padrão que inclui uma recordação dos antepassados (recurso à História como justificador da ação presente, com um apelo a que os contemporâneos não desonrem a sua memória); uma comparação de forças em presença e uma chamada vibrante ao patriotismo; a promessa da grande recompensa que espera os vencedores; a garantia de que os presságios são favoráveis; que a morte é gloriosa para os vencedores; que a derrota é uma desgraça; a afirmação de que já venceram estes inimigos antes; que a guerra é justa porque o inimigo é iníquo; que os nossos chefes e os nossos deuses são superiores aos do inimigo.

Esta é a arenga típica de qualquer demagogo, onde se incluem os grandes dirigentes que ao longo da história da humanidade mandaram os seus jovens morrer nas guerras para sua glória e riqueza. Dos dirigentes nacionalistas de Barcelona aos treinadores de futebol de qualquer campeonato todos fazem os mesmos apelos. Este discurso é ainda o que está na base dos grandes sermões de excitação da fé contra a razão, de que o pregador cristão Paulo de Tarso (São Paulo) é um dos melhores exemplos de demagogia e fanatismo. Na carta aos Coríntios fala da ida à guerra com a certeza da vitória, em ir à guerra ao serviço do senhor, na graça de não só acreditar na vitória, mas de sofrer por ela.

A prova de que a demagogia é eficaz pode ser encontrada na quantidade de crentes nas virtudes da independência da Catalunha, na dos que peregrinam a Fátima, dos que andam pelas ruas com camisolas numeradas nas costas, acompanhadas do nome de um tipo que não conhecem, mas que recebe direitos de imagem por alguém andar com o seu nome estampado no lombo!

As arengas antes da batalha, as cartas de São Paulo, os discursos dos senhoritos da generalitat pertencem ao mundo da demagogia e da manipulação das massas para as colocar ao serviço de um pequeno grupo, de um gangue, ou de um governo. Já deram origem a grandes desgraças…não são nem inocentes, nem desprovidas de riscos.

Num texto escrito noutro local comparei as atitudes dos dirigentes nacionalistas de Barcelona a birras de crianças, que batem o pé e gritam quero, sem cuidarem de prever os efeitos das suas acções, a não ser nas suas contas bancárias.

Alguns apoiantes nacionais do grupo que se prepara para, sem queimar os dedos, tirar as boas castanhas do lume catalão ficaram ofendidos por os ter comparado a infantes sem tino. Entupiram-me o texto com lições de história da Catalunha e descrições de direitos inalienáveis dos povos à autodeterminação; assuntos que nunca pensei confundir com uma golpada. Sim, na Catalunha trata-se apenas de uma golpada de um grupo que quer tomar o poder e locupletar-se com um tesouro. Trata-se da história de um assalto. De mais um.

 

Carlos Matos Gomes, 21 de Setembro de 2017 in Medium

A descolonização é um absurdo

A descolonização é um absurdo

Este é um texto do romancista Carlos Vale Ferraz, porque foi através de um romance do Carlos Vale Ferraz, a “Última Viúva de África” que desenvolvi a ideia do absurdo da descolonização, ou da descolonização como um conceito absurdo. Um absurdo não no sentido de “desagradável ao ouvido”, o seu primeiro significado, mas no sentido de contrário à razão.

O romance desenvolve a reflexão do absurdo como atributo inerente do fenómeno que é habitualmente designado por “movimento descolonizador” de África feita por várias personagens. No início do romance, o narrador, um jovem português, estudante de filosofia na universidade de Lovaina, na Bélgica, fotógrafo por desejo de aventura, confrontado com as notícias e as reportagens dos tumultos que se seguiram à independência do Congo Belga, em 1960, considera como primeira impressão que os europeus andavam por África a extrair o que necessitavam para viverem melhor nas suas terras de origem, aonde regressariam após a campanha, como os pescadores de bacalhau que cumpriam temporadas na Terra Nova. Ou cumpriam penas de degredo longe das suas pátrias. O narrador apoiava as independências porque considerava um anacronismo a exploração direta de África pelos europeus:

Para mim, descolonizar constituía uma prova de inteligência. Não apoiava as independências das colónias por ser um direito dos povos colonizados. Não me converti ao anticolonialismo por ideologia, nem por moral, mas por pragmatismo. Quis conhecer os mercenários do Congo e Jean Scrame, em particular, para perceber porque lutava depois de administrar uma propriedade da qual já havia tirado o proveito que lhe permitia estabelecer-se noutro país, ou regressar à Bélgica.”

O narrador comete aqui a mais vulgar das confusões: refere-se, não à colonização, mas ao colonialismo. É de colonialismo que fala. O Congo Belga, como toda a África a sul do Sara, nunca foi colonizado, com excepção da Colónia do Cabo, onde os ingleses ensaiaram o que viria a ser o seu modelo de administração colonial (indirect rule). O Congo Belga (que começou por ser propriedade pessoal do rei dos belgas) foi sujeito ao fenómeno do colonialismo e o colonialismo foi um sistema de exercício violento de direitos de exploração de matérias-primas instituído e acordado na Conferência de Berlim, em 1885, entre potências europeias, para satisfazer as necessidades dos complexos industriais desenvolvidos com a energia da máquina a vapor. O colonialismo é um fruto da máquina a vapor e da revolução industrial.

Até à II Guerra Mundial foi indispensável as potências europeias assegurarem a exploração direta das matérias-primas, depois, passou a ser mais rentável delegar essa tarefa em agentes locais, as elites indígenas entretanto assimiladas e integradas na cultura e nos processos europeus.

Mas houve, entre os europeus que foram para África executar tarefas de exploração directa, um grupo que, por razões diversas, assumiu aquelas terras como o seu destino final — que afirmaram ser a África, fosse o Congo, Angola, a Rodésia, Moçambique ou o Quénia, a sua pátria! Em Portugal utiliza-se o termo de “cafrealização” para designar esse processo, na Bélgica ele foi designado por “zairização”. O comandante de mercenários designado no romance como Jean Scrame e a portuguesa Alice Vieira, a última viúva de áfrica, pertencem a esse grupo. O narrador descobrirá, contudo, que nem eles — mesmo assumindo a sua nova identidade de africanos brancos — se opõem ao processo de independência das colónias, a um governo de negros, porque percebem que o sistema de administração e exploração delas se mantem, apenas mudaram os executores diretos, que passaram a ser títeres locais nomeados pelos brancos, europeus e americanos. O colonialismo manteve-se enquanto sistema de exploração de riquezas. O “Movimento Descolonizador” foi apenas uma mudança de tripulação num navio que continuou a realizar as mesmas viagens, transportando os mesmos produtos entre os mesmos portos.

Não existiu qualquer movimento descolonizador, que foi e é apenas uma designação utilizada para referir o movimento de transição da administração das colónias dos funcionários das potências europeias para uma elite de funcionários e políticos negros aculturados — ditos “assimilados” ou evolués, que, no essencial, replicam os métodos dos europeus e servem os seus interesses. Em termos políticos não existe qualquer descolonização. Não existe também qualquer libertação.

Mas não existe também descolonização em termos civilizacionais. Colonizar é a instalação de um grupo de uma dada sociedade no território de outra e implica troca de experiências, saberes, valores, relações comerciais e humanas, de forma mais ou menos pacífica ou mais ou menos violenta. Colonizar é sempre uma exportação de bens civilizacionais, da língua à religião. Entre o colonizador e o colonizado estabelece-se uma relação como a de uma gota de tinta que cai num copo de água. A gota de água dissolve-se e não é possível reconstituí-la, retirá-la da água onde se dissolveu. É por isso impossível reverter a colonização, retirar dos povos colonizados o essencial do que os colonizadores levaram e lhes inculcaram.

Nós, os portugueses devíamos conhecer bem a impossibilidade de descolonizar. Fomos colonizados pelos romanos e pelos árabes, mantemos fortes marcas dessa colonização — não fomos descolonizados até hoje. Colonizámos alguns pontos do mundo, e deixámos lá as nossas marcas, como os romanos e os árabes nos tinham deixado. O Brasil, Angola, Moçambique, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé, não foram descolonizados, tornaram-se entidades políticas independentes, estados-nação com bandeira, hino, gravatas de seda ao pescoço dos hierarcas, número de ordem nas Nações Unidas e embaixadores que falam inglês. Tanto o discurso comum da “malvada descolonização”, como da “descolonização possível” são absurdos. O discurso da “entrega” é patológico, com origem na exacerbação de sentimentos que bloqueiam o raciocínio.

As antigas colónias europeias de África não se descolonizaram, não reverteram as instituições de governo introduzidas pelas potências coloniais, retomando as suas tradições do tempo antes da chegada dos colonizadores europeus. Pelo contrário, os dirigentes dos movimentos independentistas, do movimento descolonizador do pós II Guerra, foram particularmente violentos na aniquilação das autoridades tradicionais e dos costumes ancestrais — quase sempre com o aplauso dos antigos colonizadores e das suas instituições, com relevo para a ONU e as suas agências, que os elogiaram pela luta anti-tribalista, tomada como uma acção de modernidade.

O movimento descolonizador dos pós-II guerra é um gigantesco embuste. A descolonização de África foi, de facto, a adopção pelos africanos da “ordem” do colonialismo — constituição de estados-nação com os mesmos princípios dos estados-nação que instituíram o colonialismo, imposição dos seus sistemas políticos e jurídicos, das suas línguas, até dos seus deuses e, principalmente, das suas armas, do canhangulo à AK, do jipe ao Mirage. Não existiu qualquer libertação de África, a África política e a África dos povos está sujeita às mesmas regras e normas dos países que enviaram os seus exploradores ao continente africano no século XIX e que o dividiram em Berlim.

O facto de não ter existido nem descolonização, nem libertação de África não é nem bom nem mau — não existiu Mal, nem Bem, nem desastrosa descolonização, nem criminosa entrega, nem falsa libertação, houve sim uma realidade: a imposição por parte das antigas e novas potências coloniais de uma nova grelha de domínio de África, de uma grelha que facilita a relação e a exploração, pois quer uma quer outra se realizam segundo a regra dominante. O resto, o que subsiste da antiga África antes do colonialismo, das danças às mezinhas dos feiticeiros é folclore que serve de atração turística.

Resta uma pergunta que Alice, A Última Viúva de África e Scrame, o último dos grandes comandantes de mercenários, colocam: Porque não podem e não puderam eles e os europeus manter-se em África como africanos brancos? Porque não pode ser a África uma pátria de brancos, como foram e são as Américas?

O romance ensaia uma resposta. A ficção é mais adequada a abordar questões difíceis que a análise política e histórica…

Carlos Vale Ferraz in Medium

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O título do texto é deliberadamente confuso, para corresponder ao assunto: Um senhor de nome Pedro Schacht Pereira (PSP), apresentado como “Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa, nos EUA”, perplexo, segundo ele, com as declarações do Presidente da República numa visita a Gorée, o antigo entreposto de escravos no Senegal, escreveu um postindignado no FB. As reações levaram-no a publicar uma carta aberta “Regresso a Gorée — Não em nosso nome”, que o DN publicou a 19 de Abril de 2017, com entrevista ao autor por Fernanda Câncio.

Comentando que “a história que se dá na escola sobre o esclavagismo português ainda é a mesma que se dava no Estado Novo; fiz o liceu depois do 25 de Abril e não me lembro de se ter sequer falado do assunto, para além da declaração de que ‘Portugal aboliu a escravatura em 1761’”, Schacht ficou ainda assim “boquiaberto” com as afirmações do PR: “Pus-me a pensar na quantidade de trabalho que temos pela frente.” E, ofendido, como se percebe no longo post que escreveu no FB, no qual comenta: “Não é desmentir o Presidente, por lamentável que seja essa necessidade, aquilo que está ou deveria estar em causa. O que está em causa é que a obstinação em não reconhecer a responsabilidade nacional na história nacional implica uma admissão involuntária de culpa não resolvida, como uma desonra familiar que se esconde dos hóspedes. E, concomitantemente, a infantilização dos cidadãos, como se elas/eles não tivessem capacidade de receber em herança a sua história, e de, como dizia Sophia, “livres habitarmos a substância do tempo”. Palavras de PSP.

As respostas ao post, com várias pessoas a pedir que o tornasse público para ser partilhado, levaram-no a formular a hipótese de escrever uma carta e a decisão de avançar com a dita.

O que me levou (Carlos Matos Gomes) a escrever este texto foi a interrogação: Como é que um cidadão tão impreparado para abordar o processo histórico e, por isso, os fenómenos históricos, incluindo neste particular a escravatura (ele abordará também e do mesmo modo confuso e empírico o colonialismo e a colonização) consegue o feito notável de ser entrevistado duas vezes por uma jornalista vedeta do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, uma a 19 de Abril sobre escravatura e pedido de perdão de Portugal e outra a 27 de Agosto centrada no racismo. (Sobre o tema do racismo Fernanda Câncio entrevistaria as autoras de um trabalho sobre o racismo na escola no DN de 13 de Junho com o título: É preciso descolonizar Portugal.) Consegue ainda Pedro Schacht Pereira portas abertas para publicar um artigo no Público em 25 de Agosto, sobre a questão da “Lusofonia”, levantada numa entrevista do ministro da Cultura a João Céu e Silva, do DN. Neste último artigo escreve PSP naquilo que é, para mim (CMG), um patuá vazio de sentido, a fazer de conta que se trata de uma sofisticada linguagem científica: “no decurso da entrevista (o ministro) produz afirmações que, se evidenciam uma frontalidade inusual no discurso oficial sobre a vexata quaestio do legado do colonialismo português, também rapidamente se enredam numa ambivalência desconcertante, e que a economia discursiva imposta pelo formato de uma entrevista jornalística destinada a um público amplo e heterogéneo não permite infelizmente dissolver. Assim sendo, e dada a surpreendente carência de perguntas complementares que permitissem ao entrevistado elaborar raciocínios meramente sugeridos, a ambivalência das declarações de Castro Mendes acaba por não se distinguir da ambivalência que caracteriza os discursos excepcionalistas inspiradores de muitas formulações da Lusofonia, e que ele pretende rejeitar.”

Os links para as entrevistas e o artigo de PSP seguem no final. O que me interessou nesta intervenção pública de Pedro Schacht Pereira foi então, repito, a facilidade com que um autor de vulgaridades históricas, que não chegam sequer à categoria de vulgata editio ou vulgata versio da Bíblia, pois esta foi a tradução de São Jerónimo para ser simultaneamente mais exata e mais fácil de compreender, enquanto os textos de Schacth Pereira são adulterações que promovem a confusão sobre os temas e os factos da História a que estão associados. Isto com aplauso boquiberto de alguma comunicação social lisboeta.

Pedro Schacht Pereira escreve e fala transmitindo a visão e a moral do homem comum, o que não é nada de indigno, mas para ler aquilo que em linguagem erudita se designa por “sentido universal” e em linguagem popular “filosofia de táxi” ou “de barbeiro” não se percebe tanta publicidade. Ele salta sobre o tempo, o que é a negação do mais elementar do trabalho do historiador, ou reduz o tempo a uma folha, o que pode resultar em boa massa folhada, mas não em boa História. Mas PSP também introduz no seu discurso, como faz o homem comum, o conceito da moral na história e, para agravar a subjectividade e a vulgaridade do seu pensamento, decide o que é Bem e o Mal na história à luz dos conceitos do seu tempo (o presente), da sua cultura de adopção (a americana), das suas normas (ainda em processo de fermentação e falhas de sentido crítico). É o historiador do tipo Deus ex machina, com a energia da inconsciência da sua ignorânciao que tem o valor que cada um lhe quiser atribuir.

É elementar: não existe um Bem em si, mas a interpretação do Bem (cit Nietzsche, A genealogia do mal). Mais: Ninguém define e tem responsabilidade sobre o processo histórico (a não ser os pastores evangélicos, os nacionalistas, incluindo a versão jiadista e os políticos em campanha eleitoral). Pedro Schacht Pereira entende que sim, em vez de historiador arma-se em juiz e exige que os portugueses se declarem culpados de fenómenos que ele nunca consegue delimitar e que confunde, como sejam colonização e colonialismo, escravatura e tráfico negreiro, racismo, diferenças, choques culturais e destinos sociais. A análise dos processos históricos em Pedro Schacht Pereira é um tudo ao molho e fé na ignorância dos interlocutores.

Quando, como faz o tão publicitado autor deste Verão em Portugal, anulamos o tempo na análise de processos históricos, caímos de cabeça no reino do empirismo e da demagogia. O comportamento e o pensamento dos anglosaxões e, em particular, dos seus emigrantes na América, assenta em boa parte no conceito da culpa, da sua denúncia e do pedido de perdão, típicos da ética protestante e da Reforma. A denúncia, tal como a confissão dos católicos romanos, não explica causas, exacerba sentimentos, sejam de piedade, sejam de ódio. É esta conhecida e velha grelha de análise da História (do passado) à luz da moral protestante atual que Pedro Schacht Pereira trouxe aos portugueses leitores do DN e do Público e que, pelos vistos extasiou parte da comunicação social portuguesa.

Já agora, ao contrário do que parece fazer crer o discurso de PSP, nos Estados Unidos não existe consenso sobre as relações de domínio dos vários grupos de invasores da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) poderem ser designadas como colonialismo. Não lhes interessa à construção da sua história! Ele não reparou, porque como cristão novo (adquiriu a nacionalidade americana recentemente) interiorizou acriticamente a verdade oficial dos grupos dominantes no pensamento dos EUA, que a ocupação violenta da costa Leste por colonos ingleses e holandeses, a ocupação violenta do centro da América e do Oeste, com o aniquilamento (genocídio) dos povos indígenas nunca é incluída na categoria de colonialismo, nem nunca é designada por colonialismo? Mas porque se designa por colonialismo a relação dos portugueses com os seus escravos trazidos de África no Brasil? Nos Estados Unidos nunca existiu colonialismo, já no Brasil sim, existiu. Porquê? Para PSP, tal como para o pensamento dominante nos EUA, racismo é a relação conflituosa que existe entre a comunidade de origem africana (o que designa pela fórmula destituída de razoabilidade de afroamericanos) e a comunidade wasp (brancos, anglosaxões e protestantes), nada mais, as relações com as comunidades hispânicas, latinas, asiáticas, nativas, eslavas são apagadas da discussão sobre o racismo. Pura manipulação ideológica por parte dos historiadores e evangelistas americanos de origem inglesa e holandesa. Manipulação que Pedro Schacht Pereira, professor associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na The Ohio State University, difunde através das suas entrevistas e artigos sem contraditório.

Como escreveu Mário de Carvalho, convinha falar destas coisas… (com seriedade)

Nota: não conheço nem Pedro Schacht Pereira, nem Fernanda Câncio. Não tenho qualquer animosidade contra qualquer deles. Respeito o seu trabalho. Entendo que estes temas são importantes para os portugueses estabelecerem consensos sobre o seu passado, ou, pelo menos, para disporem de elementos de reflexão.

Critico e sujeito-me à crítica. Nada mais

Carlos Matos Gomes, 4 de Setembro de 2017 em Medium

Links:

http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

https://www.publico.pt/2017/08/25/mundo/noticia/a-lusofonia-a-ambivalencia-e-as-grelhas-do-ministro-1782621

http://www.dn.pt/portugal/interior/marcelo-lancou-finalmente-o-debate-publico-sobre-a-escravatura-6228783.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/tudo-o-que-remeta-para-a-questao-da-raca-e-tabu-em-portugal-8688869.html

[1] Patuá, com o sentido de conversa fiada, fala-barato

As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium