Lo dia de los muertos

Lo dia de los muertos

No México, e em outros países da América Central, existe uma comemoração sui generis. Trata-se do Dia de los Muertos, que pouco ou nada tem a ver com o nosso Dia de Finados. Essas comemorações dos mortos, com origem nos ritos pagãos dos aztecas, maias e outros povos, inicialmente feitas nos meses de Julho e Agosto, têm para nós uma estranha miscelânea de defuntos e vivos.

A cristianização da América Central (nem sempre pacífica) acabou por assimilar esse culto dos mortos ao Dia dos Fiéis Defuntos, celebrado a 2 de Novembro no calendário litúrgico. Tirando a data (três a quatro meses de diferença) este fenómeno não é muito diferente de outros em que a Igreja Cristã, na impossibilidade de apagar por completo as tradições pagãs, recuperou-as e integrou-as no seu próprio calendário. Assim foi com os Santos Populares, associados ao solstício de verão, ou mesmo o Natal, que ocorre por alturas do solstício de inverno.

Algo semelhante com a continuidade dos locais de culto: há em Portugal pelo menos duas antas transformadas em capelas, e muitas ermidas estão situadas em sítios de cultos ancestrais. Não confundir com as mesquitas adaptadas a igrejas, que são espaços criados por duas religiões monoteístas, oriundas do mesmo espaço geográfico e comungando de culturas próximas.

As comemorações do Dia de los Muertos decorrem de 31 de Outubro a 2 de Novembro, e representam um ponto alto na sociedade mexicana. Come-se, bebe-se, dança-se nas ruas e nos cemitérios; os esqueletos são as figuras mais vistas, e tudo decorre dentro do espírito ancestral da convivência entre vivos e mortos. Não com assombrações e almas do outro mundo, mas em festejos e comezainas. Os mortos vêm visitar os vivos, e estes prestam-lhes as suas homenagens.

Talvez nos pareça muito estranho, mas é naturalíssimo para aquelas gentes. A abordagem que têm da Morte é diferente da nossa. Basta lembrar a frase célebre de alguém com peso mediático no nosso País: estar vivo é o contrário de estar morto. Para os mesoamericanos, as fronteiras são mais ténues.

Nesta época de globalização, não seria de estranhar que este hábito aparentemente macabro se espalhasse para fora da América Central. Foi assim que o Halloween (o Dia das Bruxas) entrou nas nossas casas e ruas, destronando o Pão Por Deus, esse sim, com fundas tradições culturais e religiosas neste reino tradicionalmente dedicado a outros valores.

Parece a tal influência já vai aparecendo. A ideia de fazer um banquete no Panteão Nacional parece ir nesse sentido. Numa saudável convivência, as ossadas de alguns dos nossos mais ilustres antepassados assistiram ao ágape, embora sem tomar parte nele, como fariam os seus equivalentes mesoamericanos.

Julgo ociosa a discussão sobre quem tem a culpa da patuscada em tal local, o que para quem tem um mínimo de bom senso é no mínimo irreverente. A ideia mestra desta iniciativa é rentabilizar o Panteão, como os Jerónimos ou o Convento de Cristo, e que alguém achou ter algum mérito. Dentro desta linha, não sei porque não se fizeram já concertos de rock dentro da Grande Pirâmide, rave parties em cemitérios, ou esfrega-esfrega em igrejas.

A lógica é simples: se as verbas para a Cultura são escassas, há que encontrar soluções; e o neoliberalismo tem razões que a sensibilidade desconhece.

De modo que podemos esperar que, num futuro não muito longínquo, as câmaras municipais venham a promover atividades recreativas nos seus cemitérios, invocando o precedente do Panteão e a inspiração mexicana, e que os crematórios, nas horas mortas (não é trocadilho) possam vir a rentabilizar os seus espaços; na mesma onda, o Monumento aos Combatentes poderá servir de pista de skate, e a Basílica de Fátima para desportos radicais.

Quanto aos nossos mais ilustres antepassados, não serão mais do que uma atração marginal na rentabilização dos espaços públicos, decorando-se urnas, estátuas e memoriais de acordo com o tipo de festa.

Nuno Santa Clara, 13 de Novembro de 2017

A Participação das Forças Armadas no Combate aos Incêndios. Um Debate por Fazer

A Participação das Forças Armadas no Combate aos Incêndios. Um Debate por Fazer

Nas últimas duas décadas, sempre que o país tem ardido, tem sido recorrente discutir-se a participação das Forças Armadas no combate aos incêndios, infelizmente sem consequências. Pouco ou nada se concretizou. No rescaldo dos acontecimentos de 17 de julho e de 15 de outubro, o Governo anunciou que a Força Aérea passará a efetuar a gestão dos meios aéreos a serem empregues no combate aos incêndios.

Por outro lado, a Comissão Independente criada pela Assembleia da República para apurar os factos relativamente aos incêndios sublinhou a necessidade de se reforçar do papel das Forças Armadas no sistema de proteção civil. Salienta ainda o relatório da Comissão que as Forças Armadas, como agentes de proteção civil, não estão devidamente enquadradas nos dispositivos e estão subaproveitadas nas operações de defesa da floresta e de combate aos incêndios rurais.

Não podíamos estar mais de acordo. Contudo, está por definir o modo como se fará esse reforço, qual o modelo a adotar. Estando o tema na ordem do dia há alguns meses, estranha-se que as Forças Armadas não tenham tido a iniciativa de promover essa reflexão.

O modo como o assunto tem sido abordado na Comunicação Social, nomeadamente através das declarações de alguns articulistas, transmite a ideia que com o reforço do papel das Forças Armadas os problemas irão ser todos resolvidos. As forças armadas tornaram-se na formula milagrosa que vai salvar tudo, criando assim na opinião pública uma perceção errada das suas possibilidades. Gostaria de alertar para este perigo.

Em primeiro lugar, há que definir exatamente o que se pretende das Forças Armadas, que missões no âmbito da Proteção Civil lhe irão ser atribuídas. Será um emprego especializado, participando com valências no domínio logístico, médico-sanitário (entre outras), ou uma utilização do tipo de mão-de-obra intensa e não especializada? Esta definição conceptual a montante é crucial. Isso determinará o tipo de treino, o equipamento a adquirir e o orçamento necessário, de modo a evitar alguns embaraços (solas das botas derretidas, etc.), assim como a criação de legislação própria que permita clarificar a sua intervenção em determinados domínios, o que não será consensual entre as diversas forças políticas com assento na Assembleia da República. É preciso inventariar as necessidades e prever um orçamento em função daquilo que se espera que as Forças Armadas venham a fazer.

O reforço do papel e da participação das Forças Armadas na Proteção Civil faz todo o sentido, mas não é uma panaceia. Não solucionará seguramente a falta de aviões anfíbios pesados. Recorda-se que Portugal é dos únicos países europeus que não dispõem desses meios, tendo que recorrer sistematicamente ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil. Parece que o Governo continua sem planos para colmatar esta grave falha. O que o país precisa é de aviões pesados de combate aos incêndios e não de helicópteros, evitando o inconveniente de pedir às forças aéreas estrangeiras os mesmos meios com que os sucessivos governos recusaram equipar a Força Aérea portuguesa, e assim ter uma capacidade operacional própria.

O debate é urgente e tem de ser informado. A ausência de esclarecimento sobre as reais capacidades das Forças Armadas e o modo correto de as empregar pode, numa situação extrema, transformar as Forças Armadas em meros agentes da proteção civil, pau para toda a obra, em vez de promover uma intervenção especializada, pondo em causa o treino operacional e incapacitando-as de cumprirem as suas missões primárias. E isso não pode acontecer

Carlos Martins Branco, 4 de Novembro de 2017 in semanário Expresso

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

Descolonizar Portugal — A descolonização impossível

“É preciso descolonizar Portugal”. A frase, apresentada a seco, não passa de uma tirada (estirada) bombástica de alguém, político, académico, jornalista ou espontâneo a fazer pela vida. Equivale a dizer é preciso regar Portugal, ou desratizar Portugal. Lembra os slogans de alguns cartazes para a campanha das autarquias, mas não saiu estampada num muro a animar um lusitano rosto de homem ou mulher decidido ou decidida a fazer progredir o seu concelho, ou freguesia.

No entanto, estava impressa como título no Diário de Notícias de 13 de junho (Dia de Santo António), um jornal nacional, foi escolhida por uma grande repórter da publicação, Fernanda Câncio, para resumir uma entrevista a alguém que se presume (presumia) ter arcaboiço político e académico para atirar Portugal ao chão da vergonha da descolonização. Esta tarefa, que apesar de o país não ser muito grande, ainda assim era de tomo, coube a Cristina Roldão, apresentada como investigadora do ISCTE, designada por afrodescendente, que discorreu sobre o que denominou de “racismo institucional” e cujas consequências no percurso dos alunos negros estudou com um colega num trabalho pioneiro e no qual se conclui que a escola portuguesa discrimina os estudantes negros, mais vezes chumbados e encaminhados para cursos profissionais do que os colegas brancos. Conclusão da investigadora e da jornalista: Portugal está colonizado e necessita de ser descolonizado!

Não se percebe porque o estudo é pioneiro, trata-se de uma conclusão empírica, do mais rasteiro lugar comum nas conversas de salas de espera e nos táxis. Para afirmar estas ideias não é necessário investigar, basta viajar nos comboios suburbanos. Pelos vistos há sempre um limite além do que julgamos ser o vazio. O zero do pensamento, neste caso sociológico, pode ser mais profundo que zero absoluto da física!

A entrevistadora e a entrevistada andam no mundo de cabeça para baixo e só não andarão de olhos fechados porque lá se vão safando vendendo pechisbeque por ouro de lei! Investigar é outra coisa. Começa por ser questionar os fundamentos do que julgamos serem certezas. As situações que apresentam, mesmo considerando provados os limitados destinos académicos e profissionais dos alunos designados por “afrodescendentes” com grande ligeireza e muito pouco rigor (o que é um afrodescendente?), não se devem ao facto de Portugal ser um país colonizado e a necessitar de ser descolonizado, mas sim ao fenómeno que ocorreu com as independências das colónias em 1974/75. Foi delas que vieram os antepassados destes alunos, fugidos da guerra, da incerteza e, em última instância, optando para se acolherem no país colonizador, à sua cultura e soberania, em vez dos riscos de e integrar a aventura de construir um novo estado. Esta é a situação de facto. O colonizador recebeu alguns dos que integrara e que se quiseram integrar, designados por assimilados e em francês por evoluées. Mas o título é revelador da pasta gelatinosa a que assuntos complexos são reduzidos nas universidades e na comunicação social, reduzindo-os a slogans e a frases feitas. O título é, como tantos, um revelador do esplendor do lugar-comum jornalístico e académico e da recusa dos seus agentes de pensar e de ajudar os leitores a entender o que se passou e o que se passa. E que se passa não se deve nem à colonização, nem se resolve com qualquer coisa desconhecida e a que a autora da entrevista titulou como descolonização por motivos que guardou para si, que são do seu alvedrio.

Portugal precisa de ser descolonizado. Afirmam as autoras. Porquê, já agora? Portugal, como todos os estados do planeta, é fruto de colonização, de sucessivas colonizações, como sabe alguém que tenha lido a sua história. Por isso, ser descolonizado era não só ser despido, mas desestruturado. É isso que as autoras pretendem? A nossa história é a de fruto de colonizações e de agente colonizador, como a da maioria dos países. Se as autoras, a jornalista e a investigadora, tivessem reparado (pensado), o caso que relatam de percursos académicos, de desajustamentos culturais e até de choques culturais, é um caso típico e vulgar de colonização: duas culturas confrontam as grelhas de interpretação do mundo. Os ditos “afrodescendentes” transportam consigo memórias das culturas de origem que conflituam com as práticas dos indígenas há mais tempo estabelecidos no território português, os que chamaríamos de “euroresidentes”. Este tipo de relacionamento não ocorreu nem à investigadora, nem à jornalista. A questão quente, o pãozinho que vende, é feita de racismo! Esse é o tema que aguça o apetite.

Enfim, a lógica do artigo é mais a de apelar ao instinto do que à reflexão. A estratégia dominante na comunicação social, com os bons resultados que se conhecem. Também não lhes ocorreu que nenhum país, Portugal incluído, necessita de ser descolonizado, mais, que nem sequer o pode ser! A colonização é a matéria-prima das identidades dos povos, das suas sociedades, das suas organizações políticas, económicas, sociais.

A entrevista trata de uma questão de destinos académicos e profissionais de grupos sociais minoritários. Neste caso de grupos com origem em famílias oriundas das antigas colónias portugueses de África.

Na realidade, não existe nenhum fenómeno social e histórico de descolonização. Não se pode desfazer o que não existiu. Hei-de voltar ao tema da descolonização impossível e da ligeireza como se abordam temas para satisfazer preconceitos. Os fenómenos da colonização e do colonialismo, do racismo e do confronto de culturas merecem mais do que uns artigos preconceituosos e umas ideias agitadas com um espanador de pó.

Carlos Matos Gomes, 28 de Aosto de 2017

Link da entrevista:  http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

Negócios

Negócios

Os portugueses têm uma certa tendência para a auto depreciação. Embora em certas épocas tivesse havido quem puxasse pela nossa fibra patriótica, a verdade é que o tom dominante ao longo da nossa História tem sido negativista.

Grandes nomes da nossa cultura ilustraram essa tendência. Camões referiu-se à nossa “apagada e vil tristeza”; Eça de Queirós escreveu que este país não era uma Monarquia ou uma República, era um chinfrim; Fialho classificou-nos como o País das Uvas. E no século XX, as coisas ficaram piores.

De onde vem esta maldição?

Vem de que, entre nós, todas as ideias, por mais generosas que sejam, acabam mal. Fomos para os Descobrimentos, mas deles não tirámos os proveitos dos que nos seguiram. Colonizámos o Brasil, mas foram outros que lucraram com isso. Instituímos a República, mas para dar cabo dela em dezasseis anos. Fizemos a Revolução dos Cravos, mas para ficarmos encravados ao fim de um período semelhante.

Porquê?

A resposta está no título. Negócios, affaires, business, e afins. Sempre que alguém tem uma ideia capaz de mudar o Mundo, logo alguém se apropria dela, e monta um negociozinho.

A título de exemplo, foi assim com o computador Magalhães, que até tinha condições para andar; com os submarinos, que deram origem a prisões em toda a Europa, mas não em Portugal; com os escândalos financeiros, de que não há fim à vista; e com muitos mais, os quais impossível referir, quer por falta de espaço, quer porque há sempre quem queira morrer de velho (ao contrário da jornalista maltesa Daphne Caruana Galizia, a quem presto sincera homenagem).

Vem agora a questão dos incêndios. Este asno, por duas vezes, o País foi flagelado por tragédias que se julgava arredadas para sempre do nosso quotidiano. Por duas vezes, mãos criminosas atearam fogos, com efeitos que, por pudor (e só por isso!), julgamos não ter estado na mente de quem os ateou.

Por duas vezes, sistemas de comando e controlo caríssimos não funcionaram; chefias providas por equivalências não corresponderam; descentralizações apregoadas não existiram; alertas oportunos não foram considerados; as populações acudiram aos fogos com púcaros; e assim regressámos à Idade Média, ao sabor das fatalidades, como no tempo em que Fome, Peste e Guerra eram fenómenos naturais e inevitáveis.

No entanto, não é assim noutros lados, pelo menos na Europa, a que nos orgulhamos de pertencer.

Para não ir muito longe, centremo-nos da vizinha Espanha, com um inúmeras semelhanças climáticas e ambientais connosco.

O Ejército del Aire tem na sua orgânica o Grupo 43, que dispõe de 14 aviões Bombardier CL 413, e 3 Canadair CL-215T, para combate aos fogos. Não passou pela cabeça de “nuestros hermanos” acudir aos fogos através de negociatas, nem mesmo sob a capa de concursos públicos: encarregou disso a sua Força Aérea, dentro das missões clássicas de quaisquer Forças Armadas de um país decente: acudir à necessidades das suas populações, e contribuir para a segurança e soberania nacional (que passa pela salvaguarda dos recursos do país, dos quais a floresta não é o parente pobre).

De modo que ficamos à espera (provavelmente em vão) de um inquérito independente (?) no qual se explique para onde foram os milhões destinados aos meios de comando e aos meios aéreos de combate aos fogos, e se, contas feitas, não teria sido mais barato e eficaz ter comprado os aviões e treinado os pilotos da Força Aérea para essa missão.

E assim teriam evitado muitas questões ligadas aos negócios, affaires e business, rompendo o ancestral ciclo vicioso.

Em jeito de remate, os militares podem ser mobilizados por telefone, a confirmar posteriormente por documento escrito; carecem de meios financeiros para voar e manter as suas qualificações; não precisam de concurso público para atuar; e estão, por natureza, vocacionados para colaborar para os fins superiores do Estado.

Têm, no entanto, um grave contra, com fundas razões históricas: a tendência de manter com a classe política uma relação institucional desprovida de subserviência, o que se complica quando se entra na espiral da asneira.

Assim Deus os conserve!

Nuno Santa Clara

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

As mortes dos incêndios e a morte dos princípios

Após o 25 de abril de 74, a direita portuguesa reunida no CDS tentou maquilhar-se à europeia, assumir o liberalismo e o anti-socialismo, designando-se como “personalista cristã”. Atirou para debaixo do tapete a velha tradição miguelista, integralista, salazarista, trauliteira e anti-liberal. Há uns anos, Paulo Portas, vindo do saco de gatos do Independente, iniciou o movimento na direcção do populismo e da abjuração da via democrata-cristã.

Com Portas, a direita portuguesa mandou a ideologia democrata-cristã às malvas e adotou na política o comportamento das tainhas, como se sabe peixes de águas salobras, lodosas que se alimentam dos dejetos sem origem recomendável ou reconhecível nas saídos dos esgotos.

O comportamento do CDS e da sua líder Assunção Cristas no caso dos incêndios, atribuindo ao Estado o exclusivo da responsabilidade pelas mortes que ocorreram é a demonstração de que um único princípio rege agora a ideologia da direita portuguesa: o da oportunidade! O CDS, como as tainhas, atira-se a tudo o que surja a flutuar na corrente. Um incêndio ou uma inundação servem para culpar o Estado por ausência e responsabilizá-lo perante a coletividade. O aborto ou o casamento homossexual servem para acusar o Estado de ingerência na vida dos indivíduos!

Os liberais acreditam na responsabilidade individual, que os indivíduos são responsáveis pelos seus atos, tendo o dever de arcar com as consequências das suas decisões. A direita ideologicamente herdeira do pensamento liberal é contra a regulação da vida e das atitudes das pessoas pelo Estado. Por isso, e coerentemente, é contra um serviço nacional e estatal de saúde e a favor de seguros individuais; a direita é contra a segurança social assegurado pelo Estado e a favor de planos de poupança individuais; a direita é contra um serviço de educação público e estatal e a favor do ensino privado, como ainda recente se viu.

São opções ideológicas coerentes, até para o CDS, mas que entendeu abrir uma excepção no caso dos incêndios, considerando que neste caso o responsável é o Estado. Que o Estado é o único responsável por um serviço que previna incêndios, mesmo resultantes de acções individuais, ou da meteorologia. Que o Estado se responsabilize por um serviço contra incêndios, mesmo que este seja constituído por organizações privadas — as associações humanitárias de bombeiros voluntários — mesmo que esse serviço esteja em boa medida descentralizado e sob responsabilidade das autarquias. Mesmo que, desde a adopção da política agrícola da CEE, os liberais nos governos de Cavaco Silva tenham desmantelado nos anos 80 do século passado as estruturas do Estado de gestão e controlo das terras e florestas!

A ideologia da direita clássica assenta nos deveres e responsabilidades do indivíduo, considera que lhe devem ser imputadas a ele mesmo as consequências das suas supostas más escolhas. Excepto este CDS, para quem o Estado é sempre o culpado e o responsável por todas as más escolhas, mesmo as dos indivíduos em decisões do seu interesse, ou resultantes da sua incúria (queimadas, p.ex) ou ação deliberada, mesmo que de outros órgãos de eleição e responsabilização local, como as autarquias!

A direita portuguesa é actualmente, pela voz da sua líder, a favor da intervenção do Estado na regulação da floresta, mas Assunção Cristas foi até há dois anos, enquanto ministra, promotora de legislação a favor da iniciativa privada e da liberalização do plantio das espécies mais rentáveis em termos económicos e mais perigosas em termos ambientais e de incêndios, o eucalipto. Entende agora que o Estado é responsável pelas mortes que resultam da sua política liberal! É uma direita capaz de morder a própria cauda!

A direita convencional habitualmente acusa a esquerda de ignorar a responsabilidade individual e de andar sempre a pedir desculpa por atos colectivos do Estado. Muitas vezes tem razão, quando afirma que daqui a pouco estaremos a responder a processos de indemnização por danos morais coletivos ou sociais em benefício de minorias historicamente oprimidas, da escravatura ao colonialismo, por exemplo. Mas a direita portuguesa entende que, no caso destes incêndios, toda a culpa é do Estado e, mais do que o Estado, do governo em funções! Exige um pedido de desculpas!

A direita usa habitualmente o argumento contra os progressistas de que os pedidos de desculpa propostas por eles assentam num fundamento inaceitável: a ausência de responsabilidade individual e a sua transferência para as culpas da sociedade, do Estado. Agora, ao responsabilizar — e censurar com moção na Assembleia — o Estado e o governo em funções, a direita portuguesa assume, para além do comportamento da tainha em águas com dejectos em suspensão, aquilo que é o produto mais romântico do socialismo: o de que o Estado substitui cada individuo e que a sociedade, o Estado e o governo, paga a parte, a cota, da responsabilidade individual. A direita de Cristas socializa as culpas individuais, que também existem.

Para a atual direita portuguesa, o Estado, este governo, passou a ser não só responsável pelas mortes e prejuízos, mas transformou-se e transformou cada cidadão num devedor e num culpado a quem o CDS censura com uma moção na Assembleia e discursos inflamados.

A moção de censura do CDS, responsabilizando o Estado pelas mortes resultantes dos incêndios, expôs a novidade de um partido de direita estatizante e anti-liberal! Um aborto ideológico, resultante da desfaçatez da sua líder e da sua atitude de corvo que se atira a tudo o que brilha. Conceição Cristas não se prende com coerências e incoerências. Se vê uma panela, bate nela, se vê uma pedra atira-a à primeira janela, se for a do governo.

Aquilo que esta ideologia do oportunismo revela é a desconfiança do CDS nas pessoas, em cada uma delas. O argumento da responsabilidade do Estado assenta em última instância na tese de que os indivíduos não são dotados de autonomia, de capacidade reflexiva. São animais domésticos que necessitam de seres iluminados como os dirigentes do CDS, capazes de entender a complexidade humana, para lhes dizer como viver. Curiosamente são os mesmos argumentos que justificam o planeamento centralizado nas sociedades socialistas!

Para a direita convencional, a norma é a do respeito pelas decisões da esfera privada individual e as acções do Estado são em princípio questionáveis. Neste caso, porque as mortes e as acusações ao Estado/governo podiam dar algum lucro eleitoral, o CDS de Cristas faz-se estatista e socializante! Assunção Cristas deve estar a preparar o ingresso do CDS na Internacional Socialista!

Para Assunção Cristas os princípios ideológicos podem ser tocados num acordeão, esticam e encolhem à vontade do tocador e a pedido do público presente na romaria.

Carlos Matos Gomes, 25 de Outubro de 2017, in Medium

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

LABAREDAS, NEGÓCIOS PRIVADOS E RENDAS POLÍTICAS

Por partes. Condições climáticas, ausência de ordenamento florestal, sobrepovoamento de eucaliptos, desertificação interior… Ninguém duvidará de que esses e muitos outros factores terão contribuído para as proporções assumidas pelos incêndios deste Verão.

Mas os incêndios dos últimos meses vieram antes de mais provar, pela enésima das enésimas vezes, uma verdade há muito consabida, e que por insondáveis razões se continua a querer escamotear: se a floresta arde, é porque alguém lhe deita fogo. Ponto final. Tudo o resto vem a seguir. Os fogos por acidente ou causas naturais são eventos muito excepcionais. Não nos atirem areia para os olhos…

O problema tem muitos anos, mesmo se este Verão assumiu proporções sem precedentes.

Bastava percorrer as aldeias deste país na incontornável época dos fogos. Dois dedos de conversa e qualquer um apontava sem hesitar quem botava o fogo e os mandantes que o encomendavam. E não eram precisas muito mais perguntas para perceber a enorme rede de cumplicidades em torno de cada incêndio.

Se as autoridades deste país não quiseram ver e ouvir, lá terão as suas razões. E o país continuou a arder, ano após ano.

Nos últimos anos a coisa atingiu tais proporções que as autoridades se viram obrigadas a mostrar algum serviço. Apanhados em flagrante os incendiários são levados ao juiz e… mandados para casa.

Na madrugada seguinte estão, é óbvio, a atear mais fogos.

Chamemos os bois pelos nomes. Enquanto não se atacar a questão da economia dos incêndios, enquanto não se enfrentarem os interesses que ateiam os fogos, enquanto não se desmontar o fabuloso negócio do combate ao fogo e os balúrdios pagos a empresas privadas, não há reformas florestais nem remodelações da Protecção Civil que lhe cheguem.

Segundo. A geografia anual dos fogos vem assumindo uma regularidade que a torna perfeitamente previsível. Teria sido por isso possível mobilizar recursos para patrulhar as áreas de risco.

Lembraram-se agora, depois da casa ardida…

Resta a questão do assumir de responsabilidades políticas.

No essencial, a intervenção do presidente da República dois dias depois da catástrofe teve o resultado real de precipitar a demissão de uma ministra já em plena queda. Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou de caminho a vulnerabilidade do Executivo para multiplicar sinais públicos de que tinha o Gabinete de António Costa debaixo de olho – e esquecendo talvez pelo meio que é ao Parlamento que o Governo responde.

Quanto à adopção de uma série de medidas de combate ao flagelo dos incêndios entretanto anunciada pelo governo, é de duvidar que tenha alguma coisa a ver com o “murro na mesa” de Marcelo Rebelo de Sousa.

E, ainda que assim fosse, que pena o senhor presidente não se ter lembrado de engrossar a voz uns meses mais cedo…

É que, se o Estado falhou em toda a linha na tragédia dos incêndios, o Primeiro Magistrado da Nação não será decerto o último dos responsáveis.

Carlos Santos Pereira

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

DA EXPLORAÇÃO MEDIÁTICA DA DOR

Ninguém poderá acusar os jornais, as rádios e as televisões deste país de não terem dado a devida atenção aos incêndios que assolaram o centro e o Norte de Portugal no penúltimo fim-de-semana. A tragédia fez as primeiras páginas dos jornais, inspirou destaques e edições especiais e monopolizou virtualmente telejornais  e “especiais” das televisões.

Os media deram voz às populações atingidas, trouxeram a lume realidades chocantes e muitas vezes esquecidas do país e chamaram à antena políticos, académicos, bombeiros e responsáveis das forças de segurança num esforço de debater os mais diversos ângulos da questão dos fogos florestais.

Os critérios editoriais na cobertura da tragédia levantam ainda assim algumas questões, em particular no caso dos audiovisuais.

Durante o trágico fim-de-semana e ao longo dos dias que se seguiram, as televisões ocuparam horas a fio com a questão dos incêndios. Foram as imagens das labaredas dantescas passadas e repassadas em ciclo contínuo. Os testemunhos atrás de testemunhos. As lágrimas, os queixumes, o desespero incessantemente repetidos. Os intermináveis directos em que repórteres no terreno eram mantidos em antena a repetir vezes sem contra e as mesmas escassas informações. O rodopio de políticos, técnicos e peritos, mais analistas e comentadores a repetirem as mesmas sentenças.

A fixação das câmaras nos incêndios acabou por engolir os serviços noticiosos normais e levou algumas televisões a ignorar por completo tudo o que demais aconteceu pelo Mundo. Nem o indefectível futebol escapou, remetido a apressadas breves, mesmo em dia de Liga dos Campeões.

Os canais de informação contínua revelaram-se afinal uma vez mais cadeias de 24 – quando não de 48 e mais horas – de notícias recicladas em série.

De tão marelada e redundante, a cobertura dos incêndios pisou obstinadamente, com largo destaque para os canais privados, a linha que separa a informação da pura exploração mediática (e comercial) da tragédia e da dor.

Um padrão que se repete sistematicamente com a cobertura de outros eventos dramáticos como os atentados terroristas –a  mesma insistência nas imagens chocantes, nos testemunhos cruciantes, nos longos directos sem qualquer conteúdo. Uma cobertura claramente destinada a produzir impactos emocionais e agarrar audiências, a editar a realidade mais do que a informar.

Coincidência ou não, o tom da cobertura registou uma notória evolução a partir de terça-feira. Desde que, sobretudo depois do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, a tragédia ameaçou gerar uma crise governamental, a cobertura dos incêndios passou a centrar-se na insistência dos custos dos para as populações e o país, apoiada pelos números e mais números da tragédia e pelo refrão, repetido a cada passo, das palavras do presidente.

E o detalhe com que a SIC Notícias anunciou a organização das manifestações convocadas para o passado domingo mais parecia uma acção de mobilização.

Carlos Santos Pereira