Convergência

Convergência

Nuno Santa Clara,

Há coisas difíceis de imaginar.

As gerações que se seguiram à II Guerra Mundial ficaram marcadas por um novo conflito, não direto e violento, mas mais insidioso e não menos assustador. Foi aquilo a que se chamou a Guerra Fria – um afrontamento de ameaças de consequências inimagináveis, quando que se acumulavam engenhos nucleares em número e potência suficientes de destruir várias vezes toda a Terra (não apenas a Humanidade), e quando as contas se faziam em megamortos (ou seja, em milhões de mortos).

As elucubrações estratégicas da época rondavam a insanidade. Conceitos como “equilíbrio do terror”, “destruição mútua assegurada”, “danos incomportáveis” e outras figuras eram moeda corrente, e faziam as delícias dos estrategas profissionais ou amadores.

A corrida aos armamentos daí decorrente foi a causa direta da implosão da União Soviética, condicionada por uma economia de guerra que negava aos seus cidadãos o acesso a bens de consumo que abundavam do outro lado da Cortina de Ferro.

Naturalmente – diria que fatalmente – o bom senso (o tal inimigo do senso comum) acabou por se impor, e sucederam-se iniciativas para reduzir os riscos de levar o planeta a uma catástrofe que representaria o seu fim. SALT, START e outros acrónimos por que ficaram conhecidos os tratados, hoje felizmente desconhecidos das novas gerações, que levaram a um desanuviamento e aos primeiros passos no sentido da coexistência pacífica.

Curiosamente, essas conversações tiverem um efeito inesperado num país periférico: Portugal. Decorrendo então o que ficou conhecido como PREC, a União Soviética, que encarava com simpatia o processo, não quis comprometer as conversações em curso com os Estados Unidos da América sobre redução de armamentos (assunto vital para a depauperada economia da URSS) com uma intromissão a Ocidente, e, para desilusão de muitos, a criação de uma Cuba na Europa ficou adiada para as calendas gregas.

Vêm agora o Presidente Vladimir Putin e o Presidente eleito Donald Trump anunciar, como a uma só voz, a necessidade de melhorar e aumentar o arsenal militar. Decerto os adeptos da teoria da conspiração verão aqui a prova da aliança contranatura entre os dois dirigentes, e a confirmação da ingerência dos russos nas eleições americanas.

Também houve um pacto Molotov-Ribbentrop; porque não um acordo Trump-Putin?

Estranha convergência, difícil de imaginar. Se, do lado russo, se entende a necessidade de reafirmar a Rússia como potência mundial, e as suas ações recentes mostram isso mesmo, já do lado americano é difícil perceber como o desiderato “Make America Great Again” se coaduna com o aumento de despesas militares, em época de diminuição de gastos com a defesa. Considerando a anunciada baixa de impostos (para as empresas), aumentar na Defesa implicará cortes na Educação, na Saúde, nas Infraestruturas, etc. Ou seja, uma aproximação a uma economia de guerra.

Portanto, algo de semelhante à velha questão de Albert Speer, ministro dos Armamentos de Hitler: querem canhões ou manteiga? Esta questão ilustra o que é a Guerra Total; “Totalen Krieg – Kürzester Krieg” (guerra total, guerra mais curta), anunciou Goebbels, o ministro da propaganda do III Reich. Mas o resultado não foi o que esperavam…

Num regime democrático, uma economia de guerra não é tolerada em tempo de paz; no regime soviético, a economia de guerra foi imposta, até chegar ao colapso, provocado mais por contradições internas do que por influência externa direta.

Apesar das mudanças operadas na Rússia, Putin tem ainda capacidade suficiente para impor uma economia de guerra. E as sanções económicas têm o efeito perverso de ajudar a criar a psicose de cerco, facilitando a aceitação de sacrifícios.

Terá Donald Trump a mesma capacidade? Poderá impor restrições aos americanos em nome de um risco pouco consistente?

Aqui acaba a convergência.

Também é bom não esquecendo que, se estão os dois de acordo, é porque estão contra terceiros. E estes não deixarão de reagir, mas não o farão com armas nucleares. Podem fazê-lo simplesmente atacando o ponto fraco dos EUA: os seus deficits.