Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

Memória de Outubro assombra Rússia de Putin

O centenário da revolução que teve tão grande impacto na Rússia e no mundo parece ter colocado um dilema sério à Rússia de Vladimir Putin. Outubro e o passado soviético continuam ainda a dividir a sociedade russa.

John Reed chamou-lhe, numa reportagem célebre, “os dez dias que mudaram o mundo”. E o historiador Eric Hobsbawm faz data da tomada do poder pelos bolcheviques, a 7 de outubro de 1917, um momento fundador, tão crucial para os destinos do séc. XX como o foi 1789 para o séc. XIX.

Por todo o mundo historiadores, académicos, políticos e militantes de todas as causas continuam a debater apaixonadamente os mais diversos ângulos dos acontecimentos de 1917 – da efémera experiência de fevereiro ao sonho libertário dos sovietes, das condições e do alcance da tomada do poder pelos bolcheviques ao papel do próprio leninismo, da guerra civil e da intervenção estrangeira na deriva estalinista – e dos seus efeitos nos destinos da União Soviética, do comunismo e do sonho da Revolução.

E, no entanto, na pátria da Revolução, o 100 .º aniversário de Outubro está a ser assinalado de uma forma surpreendentemente discreta. Numa Rússia em que a história é convocada a um papel político de primeira linha, os responsáveis do Kremlin abstiveram-se de formular uma versão oficial dos acontecimentos de 1917. O debate público sobre a memória de 1917 tem-se limitado aos círculos intelectuais. A nível dos media, os cem anos da revolução apenas inspiraram algumas iniciativas como uma polémica série transmitida no Canal 1 da televisão oficial russa e centrada na figura de Leon Trotski ou uma série de montagens num portal onlineorganizadas pelo jornalista Mikhail Zygar que dá vida a políticos, artistas e intelectuais do período da revolução. A própria televisão de Estado tem dedicado pouco espaço à memória e ao debate do significado e da herança do ano de 1917.

O 100.º aniversário da Revolução será um dia discreto quanto a manifestações públicas. Só o Partido Comunista Russo dará largo destaque ao aniversário assumindo a bandeira e a herança da revolução numa série de comícios e manifestações em Moscovo e por toda a Rússia.

A memória de Outubro

O Dia da Revolução era das datas mais assinaladas no calendário soviético. O impulso revolucionário de Outubro era já um eco, longínquo mas, num plano meramente retórico e iconográfico que fosse, os ideais da revolução continuavam a inspirar o discurso oficial. Para os soviéticos era o mais popular feriado do ano, o dia em que todos se saudavam com Sprazdnikom! (boa festa!).

Um quarto de século depois do colapso da URSS, a memória de Outubro continua muito presente na paisagem russa, mas com expressões por vezes desconcertantes. O último czar e a sua família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa em 2000, mas uma estação de metro de Moscovo continua a ter o nome de Piotr Voikov, o responsável pela execução da família imperial. Em 1991, o monumento a Felix Dzerjinski, o fundador da Tcheka, foi apeado do seu pedestal em Moscovo e Leninegrado recuperou o seu nome imperial, São Petersburgo. Mas continua a haver ruas Lenin, Marx, Komsomol (Juventude Soviética), e Ditadura do Proletariado por toda a Rússia. Moscovo tem um cinema Outubro e uma Praça da Revolução.

Na sociedade russa, as opiniões sobre os acontecimentos de Outubro de 1917 dividem-se. Uma sondagem conduzida pelo instituto Levada Centre em abril último apurou que 48% dos russos viam a Revolução de Outubro como um acontecimento positivo, enquanto 31% a avaliavam de forma negativa e 21% hesitavam na resposta. O papel de Lenine na história merece uma apreciação positiva de 53% dos russos, contra apenas 27% com uma visão desfavorável.

Mas numa sondagem de dezembro de 2016 da radio Ekho Moskvy sobre a revolução de fevereiro de 1917, apenas 47% dos inquiridos aprovaram o derrube de Nicolau II, contra 53%. Outras sondagens revelam ao mesmo tempo que o número dos que acreditam que os primeiros anos após 1917 trouxeram “mais mal do que bem” aumenta consistentemente, crescendo dez pontos percentuais ente 1984 (38%) e 2016 (48%).

As gerações de cidadãos que alimentam ainda uma memória romântica da revolução ou alguma nostalgia do período soviético vão sendo vencidas pelos anos, e, para os mais jovens, Outubro é uma memória longínqua.

A “história milenar” da Rússia

A história, a interpretação do passado e a manipulação da memória transformaram-se numa arma política na Rússia de Putin. O regime elaborou uma narrativa oficial da história pátria que celebra séculos de grandeza da Rússia ao sabor das grandes campanhas bélicas do passado (incluindo a ocupação da Crimeia em 2014), das biografias de líderes políticos e militares, e em que os russos são convidados a reconhecer um destino nacional e um motivo de identidade, de coesão e de orgulho.

O próprio Putin teve um papel crucial na elaboração desta visão oficial da “história milenar” da Rússia. Foi ele que determinou como os russos deviam ver acontecimentos como a transferência da Crimeia para a Ucrânia por Nikita Krutchov, o Pacto Molotov-Ribbentrop ou a importância de figuras como Piotr Stolypin, primeiro-ministro do império no início do séc. XX (1906-1911) que procurou conter o impulso revolucionário através de uma série de reformas.

Mesmo figuras de um passado distante foram convocadas para esta narrativa, como Vladimir, o Grande, o príncipe de Kiev que adotou o cristianismo em 988, a quem foi erguido uma estátua junto ao Kremlin em 2016 – o que gerou polémica com a Ucrânia. Foi mesmo erigido um monumento a Ivan, o Terrível, uma figura cruel mas que marca a expansão do território russo no séc. XVI.

Uma narrativa em que não há lugar para derrotas, dúvidas ou episódios críticos. Aspetos dramáticos, e que continuam a dividir a sociedade russa, como as purgas de Estaline ou o Gulag. O regime permitiu a construção no centro de Moscovo de um monumento para comemorar as vítimas da repressão estalinista, mas parece apostado em dissuadir formas mais vigorosas de desestalinização. O Memorial, organização que perpetua a memória das vítimas do estalinismo, foi chamada “agente estrangeiro” pelo governo russo.

A vitória na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi é cada vez mais o momento eleito pelo regime para celebrar a grandeza da Rússia e a unidade. O 7 de Novembro de 2016 foi assinalado com uma recriação da parada militar realizada na Praça Vermelha em novembro de 1941, após a qual as tropas marcharam diretamente para a frente.

“A elite russa nacionalizou a memória histórica” – diz Andrei Kolesnikov, do Carnegie Center Moscow. “E instalou a ideia de que quem põe em causa o sistema político russo está a minar a vitória partilhada do país.”

Putin e a Revolução

O centenário da Revolução parece ter colocado um problema dilemático ao regime de Vladimir Putin: como enquadrar a Revolução de Outubro nesta narrativa oficial da história russa. A Revolução de Outubro foi o berço da URSS, garantiu de algum modo o espaço do defunto império russo e lançou os alicerces das conquistas sociais, militares e científicas soviéticas que o país continua a reivindicar. Mas a própria ideia de “revolução” joga mal com um regime que faz da estabilidade política e coesão social um dos seus baluartes.

As poucas ocasiões em que Putin se referiu especificamente à Revolução de Outubro sugerem que o presidente russo olha para os acontecimentos de 1917 com marcada reserva. No discurso sobre o Estado da Federação, de dezembro, o presidente russo alertou contra os perigos dos levantamentos políticos. “Conhecemos bem as consequências que essas grandes convulsões trazem. Infelizmente, o nosso país passou por muitas dessas convulsões e as suas consequências no século XX”, disse Putin.

“Quando olhamos para as lições de há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências tanto negativas como positivas desses acontecimentos” – afirmou. “Temos de nos perguntar se não teria sido possível avançar, não através da revolução mas de uma evolução, sem destruir o Estado e arruinar o destino de milhões, através de um progresso passo a passo.” Numa palavra, a Rússia “não necessitava de uma revolução global”.

Pontos nos ii, Putin considerou que o 100.º aniversário das revoluções de fevereiro e de outubro de 1917 “será um grande momento para olhar para trás e rever as causas e a natureza dessas revoluções na Rússia”, mas lembrando sempre ao mesmo tempo que “somos um só povo e temos apenas uma Rússia”.

Numa palavra, o presidente apelou a uma atitude de “respeito” e a “uma análise objetiva e honesta” da “história comum do pais”, mas abstendo-se de formular uma leitura definitiva dos acontecimentos de 1917. O Kremlin remeteu a questão do centenário à esfera académica nomeando um comité oficial com a missão de organizar seminários, conferências e outros eventos.

Os fantasmas de 1917

De algum modo 1917 destoa da versão da história russa do Kremlin como uma longa e unificada marcha para um estatuto e um lugar no mundo que Putin tanto se tem esforçado para devolver ao país. Por outro lado, assinalava o The Guardian, há uma incómoda falta de figuras “heroicas” na revolução – nem o czar deposto, Nicolau II, nem Kerenski, a figura central no governo provisório, nem o próprio Lenine reúnem condições de cumprir o papel de alguém com quem a atual liderança se possa identificar.

Mas o embaraço mais sério que o centenário de Outubro terá colocado ao Kremlin passará ainda pelo potencial de discórdia que a memória de 1917 encerra ainda. Andrei Kolesnikov recorda que a própria ideia de devolver a propriedade da Catedral de Santo Isaac à Igreja Ortodoxa, avançada pelo Estado em janeiro deste ano, como gesto de reconciliação a posteriori entre Vermelhos e Brancos, deparou com viva resistência em São Petersburgo, acabando por gerar mais divisões do que o almejado pedrão mútuo.

As divisões acerca de Outubro de 1917 e do passado soviético poderão assim explicar a relutância do regime em assumir uma posição clara sobre o centenário e terão desaconselhado grandes celebrações. Curiosamente, o Kremlin decretou há dez anos um novo feriado, o Dia da Unidade Nacional, a 4 de novembro – apenas a três dias do aniversário da Revolução -, que jogará decerto melhor com a narrativa oficial.

Historiadores como Orlando Figes insistem no carácter especificamente russo da tomada do poder pelos bolcheviques e veem uma linha de continuidade – uma “herança de séculos de escravatura e poder autocrático que manteve o povo comum impotente e passivo” – nos regimes que atravessaram a história russa até ao presente.

Uma forma, polémica sem dúvida, de sublinhar a importância que a Revolução de Outubro continua a ter para compreender o presente e muitos dilemas da Rússia. Em Moscovo, há mesmo quem arrisque que Putin e os seus devem estar impacientes para ver este centenário pelas costas.

A Revolução de Outubro e as suas consequências continuarão ainda durante muito tempo a alimentar apaixonada polémica. Se, para uns, Outubro representa ainda a própria essência da utopia revolucionária, o centenário da Revolução tem inspirado a outros análises que insistem em extrair de 1917 uma grelha de leitura do presente, e em particular da Rússia de Putin. Para uns e outros, Outubro continua a ser uma referência absoluta. Como diria ainda Figes, “os fantasmas de 1917 ainda não dormiram o seu último sono”.

Carlos Santos Pereira, 7 de Novembro de 2017, in DN

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

UM MUNDIAL DE ALTO RISCO

Concluída a fase de apuramento inicia-se uma fase de contagem descendente para o Mundial 2018 na Rússia que se anuncia plena de incógnitas e de riscos.

A realização da prova máxima do futebol mundial assume particular importância para a Rússia de Putin num momento de tensão e de confronto com o Ocidente. Se o desporto tem desde sempre uma vincada dimensão política, o Mundial 2018 assume uma evidente relevância estratégica.

Há 38 anos, em plena guerra-fria, a invasão soviética do Afeganistão  gerou uma fase de grande tensão nas relações leste-oeste. O bloco ocidental retaliou boicotando em bloco os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo – e roubando assim grande parte do brilho a uma ocasião desportiva e política em que a URSS tanto jogava.

Os tempos são outros, dir-se-á. No actual quadro das relações entre a Rússia e o Ocidente, o Mundial de Moscovo não deixa ainda assim de representar um momento de alta tensão.

A confirmar-se a intenção americana de fornecer armas à Ucrânia, convidando assim Porochenko a resolver o problema do separatismo de Donetsk e Luhank por via das armas, é óbvio o risco de uma nova escalada de tensão, ou mesmo de um confronto directo entre os dispositivos bélicos concentrado pela NATO e pela Rússia no centro-leste da Europa.

Incidentes ou protestos graves da oposição nas eleições russas do próximo ano não deixariam de valer ao regime de Putin novas acusações de atropelos à democracia ou de violação das liberdades fundamentais e dos direitos humanos.

Seria decerto o bastante para envenenar ainda mais o clima de tensão entre o Ocidente e a Rússia e criar um clima de algum modo equivalente ao que precedeu em 1980 o boicote aos Jogos de Moscovo.

Um Mundial bem sucedido constituirá um momento de afirmação da Rússia  no plano internacional. Um atentado terrorista em plena competição ou mesmo desacatos mais graves entre adeptos bastariam para manchar gravemente a grande ocasião e transformar o Mundial da Rússia num fracasso humilhante.

Queira-se ou não, o Mundial da Rússia será uma grande ocasião política. E, nessa dimensão, um momento de alto risco.

Carlos Santos Pereira

Convergência

Convergência

Nuno Santa Clara,

Há coisas difíceis de imaginar.

As gerações que se seguiram à II Guerra Mundial ficaram marcadas por um novo conflito, não direto e violento, mas mais insidioso e não menos assustador. Foi aquilo a que se chamou a Guerra Fria – um afrontamento de ameaças de consequências inimagináveis, quando que se acumulavam engenhos nucleares em número e potência suficientes de destruir várias vezes toda a Terra (não apenas a Humanidade), e quando as contas se faziam em megamortos (ou seja, em milhões de mortos).

As elucubrações estratégicas da época rondavam a insanidade. Conceitos como “equilíbrio do terror”, “destruição mútua assegurada”, “danos incomportáveis” e outras figuras eram moeda corrente, e faziam as delícias dos estrategas profissionais ou amadores.

A corrida aos armamentos daí decorrente foi a causa direta da implosão da União Soviética, condicionada por uma economia de guerra que negava aos seus cidadãos o acesso a bens de consumo que abundavam do outro lado da Cortina de Ferro.

Naturalmente – diria que fatalmente – o bom senso (o tal inimigo do senso comum) acabou por se impor, e sucederam-se iniciativas para reduzir os riscos de levar o planeta a uma catástrofe que representaria o seu fim. SALT, START e outros acrónimos por que ficaram conhecidos os tratados, hoje felizmente desconhecidos das novas gerações, que levaram a um desanuviamento e aos primeiros passos no sentido da coexistência pacífica.

Curiosamente, essas conversações tiverem um efeito inesperado num país periférico: Portugal. Decorrendo então o que ficou conhecido como PREC, a União Soviética, que encarava com simpatia o processo, não quis comprometer as conversações em curso com os Estados Unidos da América sobre redução de armamentos (assunto vital para a depauperada economia da URSS) com uma intromissão a Ocidente, e, para desilusão de muitos, a criação de uma Cuba na Europa ficou adiada para as calendas gregas.

Vêm agora o Presidente Vladimir Putin e o Presidente eleito Donald Trump anunciar, como a uma só voz, a necessidade de melhorar e aumentar o arsenal militar. Decerto os adeptos da teoria da conspiração verão aqui a prova da aliança contranatura entre os dois dirigentes, e a confirmação da ingerência dos russos nas eleições americanas.

Também houve um pacto Molotov-Ribbentrop; porque não um acordo Trump-Putin?

Estranha convergência, difícil de imaginar. Se, do lado russo, se entende a necessidade de reafirmar a Rússia como potência mundial, e as suas ações recentes mostram isso mesmo, já do lado americano é difícil perceber como o desiderato “Make America Great Again” se coaduna com o aumento de despesas militares, em época de diminuição de gastos com a defesa. Considerando a anunciada baixa de impostos (para as empresas), aumentar na Defesa implicará cortes na Educação, na Saúde, nas Infraestruturas, etc. Ou seja, uma aproximação a uma economia de guerra.

Portanto, algo de semelhante à velha questão de Albert Speer, ministro dos Armamentos de Hitler: querem canhões ou manteiga? Esta questão ilustra o que é a Guerra Total; “Totalen Krieg – Kürzester Krieg” (guerra total, guerra mais curta), anunciou Goebbels, o ministro da propaganda do III Reich. Mas o resultado não foi o que esperavam…

Num regime democrático, uma economia de guerra não é tolerada em tempo de paz; no regime soviético, a economia de guerra foi imposta, até chegar ao colapso, provocado mais por contradições internas do que por influência externa direta.

Apesar das mudanças operadas na Rússia, Putin tem ainda capacidade suficiente para impor uma economia de guerra. E as sanções económicas têm o efeito perverso de ajudar a criar a psicose de cerco, facilitando a aceitação de sacrifícios.

Terá Donald Trump a mesma capacidade? Poderá impor restrições aos americanos em nome de um risco pouco consistente?

Aqui acaba a convergência.

Também é bom não esquecendo que, se estão os dois de acordo, é porque estão contra terceiros. E estes não deixarão de reagir, mas não o farão com armas nucleares. Podem fazê-lo simplesmente atacando o ponto fraco dos EUA: os seus deficits.