O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O esplendor do patuá[1] como linguagem científica e dos pastores evangélicos da História

O título do texto é deliberadamente confuso, para corresponder ao assunto: Um senhor de nome Pedro Schacht Pereira (PSP), apresentado como “Professor Associado de Literaturas de Língua Portuguesa, nos EUA”, perplexo, segundo ele, com as declarações do Presidente da República numa visita a Gorée, o antigo entreposto de escravos no Senegal, escreveu um postindignado no FB. As reações levaram-no a publicar uma carta aberta “Regresso a Gorée — Não em nosso nome”, que o DN publicou a 19 de Abril de 2017, com entrevista ao autor por Fernanda Câncio.

Comentando que “a história que se dá na escola sobre o esclavagismo português ainda é a mesma que se dava no Estado Novo; fiz o liceu depois do 25 de Abril e não me lembro de se ter sequer falado do assunto, para além da declaração de que ‘Portugal aboliu a escravatura em 1761’”, Schacht ficou ainda assim “boquiaberto” com as afirmações do PR: “Pus-me a pensar na quantidade de trabalho que temos pela frente.” E, ofendido, como se percebe no longo post que escreveu no FB, no qual comenta: “Não é desmentir o Presidente, por lamentável que seja essa necessidade, aquilo que está ou deveria estar em causa. O que está em causa é que a obstinação em não reconhecer a responsabilidade nacional na história nacional implica uma admissão involuntária de culpa não resolvida, como uma desonra familiar que se esconde dos hóspedes. E, concomitantemente, a infantilização dos cidadãos, como se elas/eles não tivessem capacidade de receber em herança a sua história, e de, como dizia Sophia, “livres habitarmos a substância do tempo”. Palavras de PSP.

As respostas ao post, com várias pessoas a pedir que o tornasse público para ser partilhado, levaram-no a formular a hipótese de escrever uma carta e a decisão de avançar com a dita.

O que me levou (Carlos Matos Gomes) a escrever este texto foi a interrogação: Como é que um cidadão tão impreparado para abordar o processo histórico e, por isso, os fenómenos históricos, incluindo neste particular a escravatura (ele abordará também e do mesmo modo confuso e empírico o colonialismo e a colonização) consegue o feito notável de ser entrevistado duas vezes por uma jornalista vedeta do Diário de Notícias, Fernanda Câncio, uma a 19 de Abril sobre escravatura e pedido de perdão de Portugal e outra a 27 de Agosto centrada no racismo. (Sobre o tema do racismo Fernanda Câncio entrevistaria as autoras de um trabalho sobre o racismo na escola no DN de 13 de Junho com o título: É preciso descolonizar Portugal.) Consegue ainda Pedro Schacht Pereira portas abertas para publicar um artigo no Público em 25 de Agosto, sobre a questão da “Lusofonia”, levantada numa entrevista do ministro da Cultura a João Céu e Silva, do DN. Neste último artigo escreve PSP naquilo que é, para mim (CMG), um patuá vazio de sentido, a fazer de conta que se trata de uma sofisticada linguagem científica: “no decurso da entrevista (o ministro) produz afirmações que, se evidenciam uma frontalidade inusual no discurso oficial sobre a vexata quaestio do legado do colonialismo português, também rapidamente se enredam numa ambivalência desconcertante, e que a economia discursiva imposta pelo formato de uma entrevista jornalística destinada a um público amplo e heterogéneo não permite infelizmente dissolver. Assim sendo, e dada a surpreendente carência de perguntas complementares que permitissem ao entrevistado elaborar raciocínios meramente sugeridos, a ambivalência das declarações de Castro Mendes acaba por não se distinguir da ambivalência que caracteriza os discursos excepcionalistas inspiradores de muitas formulações da Lusofonia, e que ele pretende rejeitar.”

Os links para as entrevistas e o artigo de PSP seguem no final. O que me interessou nesta intervenção pública de Pedro Schacht Pereira foi então, repito, a facilidade com que um autor de vulgaridades históricas, que não chegam sequer à categoria de vulgata editio ou vulgata versio da Bíblia, pois esta foi a tradução de São Jerónimo para ser simultaneamente mais exata e mais fácil de compreender, enquanto os textos de Schacth Pereira são adulterações que promovem a confusão sobre os temas e os factos da História a que estão associados. Isto com aplauso boquiberto de alguma comunicação social lisboeta.

Pedro Schacht Pereira escreve e fala transmitindo a visão e a moral do homem comum, o que não é nada de indigno, mas para ler aquilo que em linguagem erudita se designa por “sentido universal” e em linguagem popular “filosofia de táxi” ou “de barbeiro” não se percebe tanta publicidade. Ele salta sobre o tempo, o que é a negação do mais elementar do trabalho do historiador, ou reduz o tempo a uma folha, o que pode resultar em boa massa folhada, mas não em boa História. Mas PSP também introduz no seu discurso, como faz o homem comum, o conceito da moral na história e, para agravar a subjectividade e a vulgaridade do seu pensamento, decide o que é Bem e o Mal na história à luz dos conceitos do seu tempo (o presente), da sua cultura de adopção (a americana), das suas normas (ainda em processo de fermentação e falhas de sentido crítico). É o historiador do tipo Deus ex machina, com a energia da inconsciência da sua ignorânciao que tem o valor que cada um lhe quiser atribuir.

É elementar: não existe um Bem em si, mas a interpretação do Bem (cit Nietzsche, A genealogia do mal). Mais: Ninguém define e tem responsabilidade sobre o processo histórico (a não ser os pastores evangélicos, os nacionalistas, incluindo a versão jiadista e os políticos em campanha eleitoral). Pedro Schacht Pereira entende que sim, em vez de historiador arma-se em juiz e exige que os portugueses se declarem culpados de fenómenos que ele nunca consegue delimitar e que confunde, como sejam colonização e colonialismo, escravatura e tráfico negreiro, racismo, diferenças, choques culturais e destinos sociais. A análise dos processos históricos em Pedro Schacht Pereira é um tudo ao molho e fé na ignorância dos interlocutores.

Quando, como faz o tão publicitado autor deste Verão em Portugal, anulamos o tempo na análise de processos históricos, caímos de cabeça no reino do empirismo e da demagogia. O comportamento e o pensamento dos anglosaxões e, em particular, dos seus emigrantes na América, assenta em boa parte no conceito da culpa, da sua denúncia e do pedido de perdão, típicos da ética protestante e da Reforma. A denúncia, tal como a confissão dos católicos romanos, não explica causas, exacerba sentimentos, sejam de piedade, sejam de ódio. É esta conhecida e velha grelha de análise da História (do passado) à luz da moral protestante atual que Pedro Schacht Pereira trouxe aos portugueses leitores do DN e do Público e que, pelos vistos extasiou parte da comunicação social portuguesa.

Já agora, ao contrário do que parece fazer crer o discurso de PSP, nos Estados Unidos não existe consenso sobre as relações de domínio dos vários grupos de invasores da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) poderem ser designadas como colonialismo. Não lhes interessa à construção da sua história! Ele não reparou, porque como cristão novo (adquiriu a nacionalidade americana recentemente) interiorizou acriticamente a verdade oficial dos grupos dominantes no pensamento dos EUA, que a ocupação violenta da costa Leste por colonos ingleses e holandeses, a ocupação violenta do centro da América e do Oeste, com o aniquilamento (genocídio) dos povos indígenas nunca é incluída na categoria de colonialismo, nem nunca é designada por colonialismo? Mas porque se designa por colonialismo a relação dos portugueses com os seus escravos trazidos de África no Brasil? Nos Estados Unidos nunca existiu colonialismo, já no Brasil sim, existiu. Porquê? Para PSP, tal como para o pensamento dominante nos EUA, racismo é a relação conflituosa que existe entre a comunidade de origem africana (o que designa pela fórmula destituída de razoabilidade de afroamericanos) e a comunidade wasp (brancos, anglosaxões e protestantes), nada mais, as relações com as comunidades hispânicas, latinas, asiáticas, nativas, eslavas são apagadas da discussão sobre o racismo. Pura manipulação ideológica por parte dos historiadores e evangelistas americanos de origem inglesa e holandesa. Manipulação que Pedro Schacht Pereira, professor associado de Estudos Portugueses e Ibéricos na The Ohio State University, difunde através das suas entrevistas e artigos sem contraditório.

Como escreveu Mário de Carvalho, convinha falar destas coisas… (com seriedade)

Nota: não conheço nem Pedro Schacht Pereira, nem Fernanda Câncio. Não tenho qualquer animosidade contra qualquer deles. Respeito o seu trabalho. Entendo que estes temas são importantes para os portugueses estabelecerem consensos sobre o seu passado, ou, pelo menos, para disporem de elementos de reflexão.

Critico e sujeito-me à crítica. Nada mais

Carlos Matos Gomes, 4 de Setembro de 2017 em Medium

Links:

http://www.dn.pt/portugal/interior/racismo-e-preciso-descolonizar-portugal-8558961.html

https://www.publico.pt/2017/08/25/mundo/noticia/a-lusofonia-a-ambivalencia-e-as-grelhas-do-ministro-1782621

http://www.dn.pt/portugal/interior/marcelo-lancou-finalmente-o-debate-publico-sobre-a-escravatura-6228783.html

http://www.dn.pt/mundo/interior/tudo-o-que-remeta-para-a-questao-da-raca-e-tabu-em-portugal-8688869.html

[1] Patuá, com o sentido de conversa fiada, fala-barato

As universidades de Verão

As universidades de Verão

Velhas afirmações e novas interrogações.

Sou contra o batizado de crianças. Pertencer a uma igreja deve ser um acto consciente, fruto de alguma vida e de experiência para fazer uma escolha. Por isso sou também contra as juventudes clubísticas, futebolísticas e partidárias. Se a opção por uma claque de cube pode ser um mero acaso, uma oportunidade, um instinto, fruto de uma bebedeira, de uma paixão, fruto de uma irracionalidade, a opção pela militância em organizações políticas e numa dada organização em particular deve ser fruto de reflexão, de observação, de ponderação. Deve ser um acto de maturidade.

Dito isto, sou contra as “jotas”, as juventudes partidárias. Julgo que a ideia mais geral e bem intencionada de constituir “jotas” foi e é a de que os jovens partidários não estão no pleno uso das suas faculdades, são inexperientes, pouco conhecedores, impulsivos, úteis, mas também perigosos. Os jotas podem cometer excessos, asneiras que só o tempo amaciará. Há que domesticá-los. Os jotas são, objetivamente, militantes de segunda — mas os seus votos contam o mesmo dos seniores . É uma contradição, mas o sistema faz de conta que ninguém se apercebe. Um jota é um tipo que ainda não sabe conduzir mas já tem carta. Há que lhe ministrar aulas extra. É para isso que servem as universidades de verão. Para dar explicações como as que antigamente serviam de ajuda à admissão aos liceus.

Os jovens, a quem os partidos não reconhecem plena maturidade, mas que votam como gente grande, necessitam de umas lições para embeberem os princípios elementares da arte e da ciência da política que os podem fazer votantes conscientes (que, repito, valem tanto como os inconscientes). Servem também, as ditas universidades joteiras, de incubadora de futuros dirigentes e membros dos aparelhos políticos, Os resultados desta seleção são conhecidos.

Por outro lado, gente que se julgaria curtida com o juízo da idade, imune a figuras tristes, presta-se com alegria e entusiasmo à tarefa de educar os jotas. De lhes transmitir o seu saber e a sua experiência. E eles aí estão, no final das férias, antes das vindimas, os barões, os senadores da política e da República (alguns monárquicos) sorridentes e a transbordar de entusiasmo e boa vontade no seu serviço cívico! E, com eles, acorrem repórteres esbaforidos a escutarem as suas sábias palavras. O mundo dos telespetadores coça-se antes de escutar o que os chacais vão dizer à ninhada!

Esperam estes velhos macacos de rabo pelado que os jotas lhes sigam os exemplos e lá vão às ditas universidades exibirem o seu sucesso a uma plateia de jovens que começaram cedo a tratar da vida e a procurar o caminho das pedras para não molharem os pés nos perigosos fundões da vida.

Por fim, o que levará um conjunto de jovens a encafuarem-se numa sala a ouvir ecos de outros tempos, de outros mundos? Serão normais os jovens que passam uma semana a ouvirem bonzos, vozes do além e do aquém?

Que mundo espera um jovem normal que lhe prometa um Cavaco Silva ou um papa Bento XVI? Um Kissinger ou uma Madame Lagarde? O Marques Mendes ou o Durão Barroso? Um Jorge Coelho ou uma Maria João Avillez?
Duas questões: o que leva os macacões da política — a brigada do reumático dos governos e conselhos de administração e fiscais — a subirem ao palco? Valerá o sacrifício a hipocrisia que leva os macaquitos pretendentes aos seus lugares (em seu devido tempo) a sentarem-se durante uma semana numa sala para aprender os truques?

Parece que sim.

Carlos Matos Gomes inMedium

Azeitonas e tâmaras

Azeitonas e tâmaras

Nem toda a gente tem a perceção da influência do árabe na língua portuguesa. Se a base desta é o latim (dizem que o português a língua mais próxima do original latino), se o grego deu origem aos vocábulos mais eruditos, o árabe deixou-nos não só um conjunto de palavras, algumas facilmente reconhecíveis, mas também um outro legado: as vogais fechadas, tão típicas do português da Europa.

A título de exemplo, usamos a palavra azeitona, do árabe az-zaituna, e não olivo, como os espanhóis ou olive, os franceses, e por extensão os ingleses. Tal como tâmara, do árabe tamar, em contraste com o espanhol dátil, o francês datte, ou o inglês date.

Usei estas duas palavras por serem do universo mediterrânico; tudo levaria a esperar uma semelhança de termos dos povos da mesma área; mas, neste confronto latim-árabe, quem levou a melhor foram os mais recentes ocupantes do nosso território.

Não vamos referir outros legados, como a nora, a micro hidráulica e os legumes, ou, no caso da Madeira, o bolo do caco e o couscous.

Na vizinha Espanha, a queda do reino de Granada, em 1492, levou à expulsão das elites mouras para o Norte de África, mas o grosso da população permaneceu na Península. Não foi uma convivência pacífica: no século que se seguiu à conquista deste reino, houve vários levantamentos e novas expulsões, e muito trabalho para a Santa Inquisição. Mas foi possível registar, pelas piores razões, o percurso dos então chamados “mouriscos”.

E em Portugal? Com a conquista definitiva do Algarve em1249, sabemos que, como era a tradição, as elites partiram e as populações ficaram. Para estas últimas, a grande mudança era o regime fiscal: se a terra pertencesse a um senhor cristão, oneravam-se os muçulmanos; se pertencesse a um senhor mouro, havia uma sobretaxa para os cristãos. Quanto aos judeus, pagavam de qualquer maneira…

Certo é que a comunidade muçulmana foi sendo absorvida, sem ser necessário recorrer a leis contra do chador. Referindo-se a um período mais tardio, Alexandre Herculano, salvo erro em “O Monge de Cister”, refere um Ale, ou Ali, que deambulava por Lisboa misturado com fidalgos, frades de mercadores, aparentemente sem problemas de maior.

Na busca de mais elementos sobre esta singular integração, encontrei um livro de um autor marroquino sobre a perseguição dos mouros em Portugal. Ora aqui está, pensei eu. Mas o livro tratava apenas dos mouros oriundos das praças do Norte de África, convertidos por crença ou por cálculo, e que se vieram a estabelecer em Lisboa ou noutras terras. Cedo descobriram que, para os cristãos velhos, eram suspeitos, e que a prometida cidadania plena era um logro. Quando quiseram regressar ao seio dos muçulmanos, foram tratados (e com razão) como apóstatas.

Mas com uma agravante: tendo sido cristãos, caíram nas garras da Inquisição, e essa foi a origem das perseguições referidas nesse livro. Quanto aos fiéis muçulmanos, seguiram a sua vidinha, e a Inquisição nem sequer tinha jurisdição sobre eles…

Dos recentes atentados na Catalunha descobriu-se que os terroristas eram todos de origem marroquina, e deveriam estar integrados na sociedade ibérica. Será que o fenómeno dos mouriscos é resiliente? Só que os atuais terroristas vieram de livre vontade, e alguns até na sequência de um pedido de asilo…

Marrocos é o segundo país mais próximo de Portugal, com quem sempre tivemos boas relações (depois do abandono de Mazagão, claro) e há todo o interesse em que tudo assim continue. Tâmaras e azeitonas unem-nos. Mas é também, pelas suas atuais condições políticas e sociais, um alfobre de fundamentalistas.

Deste lado do Mediterrâneo, a Mouraria de Lisboa parece ter retomado a sua vocação dos tempos medievais: o eixo Anjos-Martim Moniz tem ares de ser um bairro de maioria muçulmana. Sem restrições ou imposições, mas por natural agregação, como os bairros chineses, italianos ou portugueses das cidades de imigração.

Ou, seja, nada de novo, em termos históricos.

A maior parte dos jovens portugueses desconhece a forte componente de militares muçulmanos, na maioria guineenses ou moçambicanos, que integraram as Forças Armadas Portuguesas. Muitos por aqui ficaram, e aí estão, perfeitamente integrados.

A irrupção de minorias radicais também não é novidade (lembre-se o recente caso de Charlottesville), mas não impede a viabilidade do conjunto da sociedade, como sucede na maioria dos casos. Cabe aos cidadãos de todos as etnias e religiões zelar pela sã convivência, isolar e neutralizar os extremistas, e cooperar com as autoridades nos casos extremos. Como sucedeu na Catalunha, em que a colaboração dos habitantes foi essencial para a detenção dos culpados.

Igrejas e mesquitas são locais de oração. Cumpre-nos evitar que sejam coios de neo-nazis ou ninhos de talibãs. E a única forma de evitar essas derivas está na integração plena, e no respeito pela diferença.

Será possível? Oxalá, que é a forma portuguesa de dizer Inch´Allah (Queira Deus).

E despeço-me com um salamaleque, que é a nossa versão de Salaam Aleikum (a Paz seja contigo).

Nuno Santa Clara

A moral das séries históricas da televisão

A moral das séries históricas da televisão

Moral, razão e ficção. Não sou um consumidor regular de televisão, mas consumo séries, de preferência históricas. O mundo desses espectáculos é o de heróis e mártires, de santos e vilões. Pretendem colocar o cidadão comum fora do palco da vida. Eu gosto de heróis e vilões em conflito com mártires e santos, aceito a alienação e admito-a (que remédio!). Era aqui que pretendia chegar depois de ter visto alguns episódios de uma série internacional : Os Médicis ; e de uma série portuguesa: Madre Paula. Ambas as séries nos levam às antecâmaras do poder. Do poder absoluto, que é o único.

As peripécias são emocionantes, os cenários e os guarda-roupas magníficos. Somos fascinados e encadeados. Somos alienados. O mal é deliberadamente apresentado como um banquete sumptuoso. Se repararmos, os mais abjectos e criminosos actos são-nos servidos (impingidos) como factos aceitáveis. Um assassínio, um incesto, uma violação, uma traição, uma tortura, um roubo, uma guerra particular, um tráfico, um envenenamento, um massacre são meras e normais acções de exercício do poder, ou da sua conquista, realizadas por quem está a jogar um jogo dentro das suas regras, fora do mundo dos cidadãos comuns.

A série diz-nos subliminarmente que «eles» que «aqueles eles» podem fazer aquilo. As séries históricas inculcam nas massas de hoje a ideia de que sempre foi assim — só mudam as roupas e faltam os computadores e os telemóveis — e que os eleitos (eleitos por qualquer processo e por quem quer que seja — de um Deus a um comité central a um colégio eleitoral) têm direito à amoralidade. Dizem que a família de Trump, ou do seu equivalente coreano Kim Jong-un, ou da família Saud, por exemplo, ou Putin, se tiver família, seguem a moral dos Médicis. Estamos num processo histórico. Nada a fazer.

Pelo seu lado, a série da Madre Paula diz-nos o mesmo quanto à amoralidade dos poderosos e mais alguma coisa que remete para o sagrado. Para os poderosos, além de não existirem limites morais, também não existe o sacrilégio. Um poderoso é um Deus! Apreciada sem as lentes da fantasia e da alienação, a série da Madre Paula apresenta-nos um convento como um bordel, com as esposas de Deus a servir de amantes dos reis e nobres; reis e nobres que o são por graça desse mesmo Deus! O caso dos reis e nobres freiráticos, como o D. João que ia às meninas ao convento de Odivelas, expõe o caso de um soberano pela graça de Deus que, em linguagem brejeira, encorna o Deus que o fez rei. Apesar disso, o Magnânimo teve direito a funeral com missa cantada e alma encomendada para os paraísos dos céus, assim como o terão tido o papa Alexandre VI da família dos Borgias e o Leão X, nascido João Lourenço Médicis!

Mas nunca pensamos nestas aberrações amorais quando vemos as séries. Acreditamos que vivemos num regime baseado na razão e na moral. Que a razão e a moral, isto é a distinção entre o Bem e o Mal, constituem os fundamentos da nossa vida em sociedade.

As séries históricas alimentam a ficção de os humanos de linhagem comum, e no nosso caso de homens e mulheres embebidos da cultura ocidental, de sermos racionais e morais. Na realidade somos um rebanho que come de tudo e vai para onde o levam. Falo por mim, claro.

Carlos Matos Gomes, 10 de Agosto de 2017, in  Medium