Eclipses, solstícios, equinócios

Eclipses, solstícios, equinócios

Desde a mais remota antiguidade os homens têm tentado explicar os fenómenos da Natureza. Uns pareciam fáceis, como o dia e a noite, ou as estações do ano. Outros eram mais complexos, como o movimento dos astros e a ocorrência dos eclipses.

Para os povos que consideravam que os astros governavam a Natureza, adivinhar um eclipse, determinar o dia exato dos solstícios e equinócios, ou apenas prever as marés, era considerado o supra sumo da Ciência, tudo naturalmente rodeado de uma aura de misticismo.

Até tempos bem recentes, grandes decisores recorriam a esses sábios para tomar decisões. Travar uma batalha, nomear um herdeiro, casar, tudo isso implicava consultar um astrólogo.

Dizem as más-línguas que, pela calada, esse hábito ainda se mantém, mesmo a níveis que se julgaria impensável. Adiante.

Prever as atitudes e decisões dos líderes de outros países, inimigos, adversários ou até amigos, é o sonho de qualquer governante. A busca dessas informações recorre tanto a meios sofisticados como a golpes baixos sobre os pontos vulneráveis dos “alvos”. A Literatura, o Cinema e a Televisão estão cheios de histórias e estórias sobre esse assunto.

Com a decadência (aparente?) da astrologia, resta investigar no terreno das ciências humanas um modo de resolver esta carência de informação, ou melhor, de previsão do comportamento do inimigo, adversário ou amigo (amigo no sentido restrito dos interesses comuns: para além disso, torna-se, pelo menos, adversário).

O quebra-cabeças atual chama-se Donald Trump. Sobre ele acumulam-se acusações de impreparação política interna e externa, falta de cultura, ignorância sobre as regras da diplomacia, e outras mais; como, naturalmente, também não faltam admiradores e apoiantes.

Mas é o carácter de imprevisibilidade das suas declarações públicas (com especial relevo para o twitter, esse insólito meio de difundir objetivos ou orientações políticas) que tem dado dores de cabeça a muita gente, e desafiado os analistas convencionais.

Será assim tão imprevisível? Aparentemente, sim. Não estávamos habituados a ver o dirigente do país mais forte do Mundo lançar uma opinião/orientação arrasadora, que, no curto espaço de 24 horas, fosse laboriosamente desvalorizada pela equipa do seu governo, e liminarmente anulada por uma declaração contrária do próprio autor.

Convenhamos que, para os demais governos, organizações internacionais e simples cidadãos, isto constitui um desafio.

Mas vejamos essa questão mais em detalhe, por exemplo na escaldante situação no Médio Oriente. Várias guerras, ou várias frentes da mesma guerra, comportam um risco acrescido de escalada, de conflito local a regional e, quem sabe, até global.

Os vários intervenientes estão interessados no fim dos conflitos, mas com um senão. Todos querem ganhar mas, acima de tudo, não querem que o outro ganhe. Ou seja, a Turquia quer o fim do ISIL, mas sem o concurso dos curdos; a Rússia também, mas com o seu aliado no governo; os EUA também, mas em o ditador e com os curdos; os xiitas, idem, mas sem os sunitas, e estes em sentido inverso; e assim por diante.

Deste modo, a visita de Trump aos países árabes reveste especial interesse. Não pelo apregoado encontro de religiões: o de Jerusalém foi folclore, o de Riad acabou com críticas à ausência de véu da Primeira-Dama, e do de Roma é melhor nem falar. Mas pelo resultado prático das visitas.

Pois bem, a Arábia Saudita acabou por firmar negócio de armamento cifrado em zeros que ocupariam metade desta linha. Israel, com a venda de caças F-35, cujas virtudes foram apregoados em público pelo Presidente ao melhor estilo da Feira da Ladra.

Pouco depois, os países do Golfo, com a Arábia à cabeça, exigiram a submissão da Catar. Motivo: apoio ao Irão e ao terrorismo. Ver estes países, direta ou indiretamente financiadores da Al-Qaeda e similares, pregar contra o terrorismo, só lembra o Frei Tomás: faz o que ele diz, não o que ele faz.

Sendo óbvia a ligação entre esta atitude e a visita presidencial, eis que a América anuncia a venda de caças F-15 ao Catar, novamente por muitos zeros! Ou seja, a armar o adversário do seu aliado!

A nudez crua da verdade apareceu quando, no ultimatum de dezasseis pontos ao Catar, surgiu o encerramento da al-Jazeera, uma das cadeias internacionais de televisão mais vistas, sobretudo no mundo árabe… Uma das várias formas de reconduzir ao redil aquela ovelha tresmalhada. No fundo, nostalgia do Império.

Mudando de continente, a pública e pomposa declaração de Trump de substituir o muro do México por uma cortina de painéis solares pode parecer insólita. Mas ele percebeu (só agora!) que o carvão não tem futuro, e que as energias renováveis eram um bom negócio (o que não tem nada a ver como ambiente). Portanto, com prejuízo para os construtores civis, mas para gáudio das indústrias de ponta, vá de emendar a mão, sem renunciar ao espírito do Muro.

Dito isto, parece que Trump, afinal, é tão previsível como os eclipses, e com a precisão dos solstícios. Basta saber onde se pode fazer um bom negócio.

Ou seja, como muito bem observou o Professor Adriano Moreira, “… a proposta metodológica que está na cabeça dele, é aplicar ao estado líder mundial – segundo o conceito em que o tínhamos – a metodologia do empresário”.

Nuno Santa Clara, 27-06-2017